Feminismo Radical esquematizado

Em 27.05.2016   Arquivado em Feminismo

São quatro da manhã de uma sexta-feira quando eu começo a escrever esse texto, a hora em que habitualmente Gata Mabel fica subitamente carente no meio da madrugada e eu começo a revidar os puxões de cabelo dela com a expulsão da cama. Mas a semana toda eu tenho estado em um surto de energia provavelmente só explicável por psiquiatras, esse blog está às moscas — mais por falta de tempo do que de ideias –, minha cabeça começou a pensar e eu vim parar aqui, cumprindo uma promessa mais ou menos antiga que eu fiz a uma amiga quando me identifiquei como RadFem aqui um tempo atrás: falar um pouco mais sobre feminismo radical.

Como eu não começo nada sem divagar um bom tanto, eu preciso explicar primeiro as causas da minha demora. A principal é que eu simplesmente não me sinto qualificada o suficiente para fazer esse texto. Eu me considero muito nova no feminismo em geral, e principalmente no feminismo radical em particular, e não dedicada o suficiente aos estudos para chegar aqui e dizer que o feminismo radical isso ou aquilo, sabendo que a partir do momento que esse texto sair das minhas mãos para a internet ele vai ser usado por qualquer um que o encontre como uma fonte de informação digna de mais ou menos crédito — e naturalmente tanto mais crédito quanto menos conhecimento a pessoa já tiver sobre o assunto. É um tema sério e isso é muita responsabilidade, motivo pelo qual a princípio eu considerei tratar dele no ambiente mais limitado da newsletter ou por e-mail diretamente com a minha amiga.

Em segundo lugar, a questão é que eu tenho medo. Por causa de um ponto específico que consiste mais em uma não pauta do que em uma pauta do feminismo radical, essa vertente e quem se alinha a ela são muito frequentemente expostas e atacadas na internet, ao ponto de nós termos, sim, medo de nos identificarmos publicamente como feministas radicais e de todos (literalmente) os grupos e coletivos feministas radicais serem secretos e de difícil acesso. Falar abertamente sobre algumas questões é algo que pode gerar consequências e, acreditem vocês ou não, mulheres são inclusive ameaçadas por expor essas ideias, mesmo dentro do próprio feminismo.

Apesar disso tudo, e após muito refletir, eu resolvi vir aqui abraçar essa responsabilidade de tentar repassar um pouco do que eu aprendi para outras mulheres que por acaso tenham algum interesse ou curiosidade sobre os fundamentos mais básicos do feminismo radical e — com alguma sorte — ajudar a atenuar o tanto de informação enganosa e incompleta que existe por aí sobre o tema. Pode parecer que só essa introdução já tenha ficado extremamente longa, e pode ser que esse post acabe sendo dividido em mais de uma parte, mas considerando que eu estou mais preocupada em passar informação do que em receber comentários, possivelmente eu siga de uma vez até o fim e volte depois para tratar com mais especificidade e mais a fundo pautas mais complexas. Quem tiver interesse vai ler até o final, mesmo que em parcelas; quem não tiver, não vai ler de jeito nenhum.

Lembrando sempre que tudo o que eu escrever aqui tem origem, claro, nos meus estudos sobre o tema, mas que qualquer estudo necessariamente passa por reflexões pessoais e ideias individualmente minhas, que podem variar de alguma forma com relação às de outras mulheres dentro da mesma linha. Minha ideia é abordar alguns temas bem introdutórios, seguindo o roteiro abaixo (podem apreciar o didatismo):

  1. Feminismo radical: conceito e nomenclatura
  2. Conceitos relevantes dentro do feminismo radical
  3. Recortes no feminismo radical
  4. O que nós não contemplamos e por que
  5. Algumas pautas principais
  6. Por que eu escolhi o RadFem (ou por que o RadFem me escolheu)
  7. Algumas indicações de leitura

simone_de_beauvoir_feminismo_radical (2)

Feminismo radical: conceito e nomenclatura

Na linguagem popular, o termo “radical” acaba sendo sempre relacionado à ideia de extremismo, quando em sua origem as duas ideias não tem nenhuma ligação necessária. O termo “radical” significa relativo a raiz, que busca as raízes de determinada coisa. Feminismo radical, especificamente, tem a pretensão de identificar, analisar, refletir sobre e desconstruir a opressão feminina a partir de suas origens — sim, é algo tão complexo quanto parece, e por vezes doloroso também.

Não é à toa que falar de feminismo radical é falar, mais cedo ou mais tarde, de Simone de Beauvoir — frequentemente considerada a mãe e inegavelmente uma das maiores, se não a maior, pensadoras dessa vertente. A obra principal dela é O Segundo Sexo, um livro imenso (composto na verdade por dois volumes, que às vezes se encontram reunidos em um único exemplar), denso, de leitura difícil e com uma carga de pesquisa e informação estratosférica. (Que eu ainda não terminei de ler.) Para quem não conhece, nessa obra Simone mergulha a fundo em pesquisas e dados sobre o que é ser mulher sob diversos prismas — biológico, histórico, social, cultural etc. O livro é considerado uma bíblia do feminismo radical por seus próprios méritos, mas obviamente é um investimento imenso de tempo e energia mental, e nem toda feminista radical já leu, está lendo, ou vai lê-lo em algum momento — assim como nem todo católico já leu ou tem interesse em ler a bíblia deles — e isso não faz de ninguém menos feminista radical, o que não significa que quem não bebeu diretamente na fonte não vai conhecer as ideias dela, mesmo que nem sempre saiba que são dela. Se você tem interesse, disposição e tempo para investir na leitura, é bem interessante.

Mas Simone obviamente não é a única voz dentro do feminismo radical. Muitas outras mulheres pensaram e pensam a teoria radical e escrevem sobre isso, bebendo ou não (ou, talvez, bebendo em maior ou menor grau, direta ou indiretamente) na fonte de Simone. O ponto central é que o estudo — seja por meio de “obras tradicionais” de teóricas consagradas, seja por textos e/ou discussões qualificadas na internet — é importantíssimo na linha radical, porque padrões, ideais e comportamentos sociais estão sempre muito bem integrados no nosso inconsciente e na nossa personalidade para que a gente perceba espontaneamente. Ou, também, porque mesmo quando percebemos, é preciso refletir em conjunto e discutir com o objetivo de conseguir considerar qualquer tema da forma mais abrangente possível.

Por essa e por outras uma das grandes críticas à vertente é que ela seria academicista demais e se importaria mais com a teoria do que com a vivência das mulheres. Eu discordo completamente porque (1) não dá para pensar em nenhuma teoria e militância que não dialogue com a sua vivência, e qualquer teoria que contrarie a vivência (em nível coletivo, não individual) não se sustenta, e (2) fosse assim, homens poderiam apenas estudar a teoria e ter tanto conhecimento sobre feminismo quanto uma mulher — coisa que a gente não aceita mesmo (feminismo não é lugar de homem, a não  ser — talvez — para feministas liberais).

Conceitos relevantes dentro do feminismo radical

Seguindo em frente antes que eu escreva uma nova bíblia que acabe com a boa vontade de todo mundo, preciso destacar alguns conceitos que eu considero especialmente relevantes para começar a compreender a teoria feminista radical. Especificamente o que o feminismo radical entende como gêneropatriarcadoopressão estruturalsocialização.

Gênero é, desses todos, obviamente, o conceito mais importante. Socialmente falando, existem dois gêneros: o feminino e o masculino. Para nós, feministas radicais, o gênero não é algo natural. Nós encaramos o gênero como uma construção social, que se constitui e se perpetua por meio da socialização — que é tudo o que acontece com você a partir do momento em que te identificam como fêmea ou macho, muitas vezes antes mesmo do nascimento. Nós não acreditamos em nenhum “sentimento” ou “alma” ou “cérebro” femininos ou masculinos que não tenham sido socialmente introduzidos nos sujeitos em função de um conjunto arbitrário de comportamentos e regras estereotipicamente associados a determinado gênero. E, sim, a socialização acontece a partir do momento em que o ser humano é identificado como fêmea ou macho com base, principalmente, nos genitais.

A tão repetida (e mal entendida) frase de Simone “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não é nada menos do que uma incorporação à teoria radical do conceito de materialismo histórico de Marx — em resumo: não é a consciência que determina o seu gênero, é seu gênero que determina sua consciência, por meio da socialização. Eu penso o que penso porque fui ensinada a pensar assim.

Fosse apenas uma divisão em categorias (se é que isso é possível), a ideia de gênero seria limitante, mas não danosa em si mesma. Acontece que toda categorização acaba descambando para a hierarquização, em que uma das classificações e tudo o que faz referência a ela é posta como superior. Logo, gênero é hierarquia, e por isso uma violência. O que o feminismo radical defende é a sua abolição.

A hierarquia do gênero masculino sobre o feminino — o patriarcado — está presente desde os primórdios da sociedade, configurando assim uma das três formas de opressão estrutural existentes: de gênero, de classe e de raça (das quais derivam outras opressões que podem ser consideradas sistemáticas, mas não estruturais, e que eu não vou listar porque, sinceramente, não me sinto capaz e não quero causar mais polêmica). Opressão estrutural é outro conceito que nasceu no marxismo, e tem o sentido de uma opressão que é, ao mesmo tempo, histórica e historicamente institucional.

Com esses conceitos, você já consegue muito bem sair por aí estudando sozinha na internet mesmo, então vamos seguir.

Recortes no feminismo radical

Uma outra crítica feita ao feminismo radical, em geral por gente que nunca teve contato com a teoria radical, é de que essa vertente não faria recorte (i.e. diferenciações e análises diferenciadas em intercessão com outras opressões). Pela própria apropriação do conceito de opressão estrutural pela teoria radical, eu acredito que essa crítica não se sustenta.

Até onde eu conheço a teoria radical, ela abraça e respeita as vivências pessoais de cada mulher, e eu até hoje não cruzei com nenhuma feminista radical que não fizesse recortes. Sim, existem mulheres negras no feminismo radical; apesar de eu entender perfeitamente bem que pessoas com pautas específicas possam preferir e se sentir mais confortáveis em espaços exclusivos que, por sua própria natureza, vão ser mais compreensivos em relação às especificidades envolvidas em determinadas lutas e na interseção entre militâncias diferentes.

Eu não posso dizer que a vertente é livre de racismo, porque onde existem brancos, existe racismo. Porque o racismo é estrutural e está na sociedade como um todo. Nesse ponto, a mesma crítica poderia ser feita ao chamado feminismo interseccional e a qualquer outra vertente, exceto aquelas exclusivas para mulheres negras.

No fim, cada um se alinha ao que escolhe se alinhar, o que não justifica fazer críticas maldosas e falsas às outras vertentes.

O que nós não contemplamos e por que

Esse é o grande ponto de discórdia no feminismo, e a origem de 90% das ofensas sofridas por mulheres alinhadas à vertente radical. Sendo generosa, 9 entre 10 perguntas feita a nós — muitas vezes com o objetivo de desmerecer a vertente e causar intriga — podem ser resumidas a “e as trans?“. Imagino que muita gente acredite piamente que feministas radicais saem por aí com tochas procurando pessoas trans na calada da noite para oprimir, quando na verdade nós só consideramos que a causa das pessoas trans* é algo a parte e que não convém misturar. É uma não pauta muito mais do que uma pauta.

Tudo isso faz referência ao conceito de socialização, explicado mais acima: o feminismo radical entende que a opressão de gênero tem origem na socialização, que — queiramos ou não — é realizada em função dos órgãos sexuais com que se nasce. E inclui o fato de que, historicamente, questões biológicas ligadas ao sexo feminino são estigmatizadas, ignoradas e/ou demonizadas e tratadas com nojo. Nada disso pode ser excluído do âmbito do feminismo sem que se esvazie e asfixie a própria essência do discurso feminista. O feminismo radical contempla todas as pessoas que sofreram socialização feminina desde o nascimento.

Nós não somos hipócritas e nenhum ponto da nossa teoria nega que pessoas trans sofrem, são marginalizadas e/ou oprimidas. Eu nunca ouvi falar de nenhuma feminista que defendesse abertamente que o transativismo não deveria existir. Mas são pautas que divergem do próprio conceito de gênero que é a base da teoria radical e, por isso mesmo, acreditamos que são coisas diferentes e que devem ser tratadas em separado, para melhor proveito geral.

Algumas pautas principais

Ultrapassado o ponto do que nossa teoria não contempla, vou apenas destacar alguns pontos que são importantes dentro da teoria radical, sem explicações no momento, e sobre os quais quem sabe eu trate especificamente no futuro, se eu não me arrepender de enveredar por esses caminhos de blogueira feminista. Enquanto isso, vocês podem pegar essa lista, o Google, e começar a aprofundar seus estudos de forma independente. Vou ajudar com uns links bacanas no final do texto.

Entre as muitas pautas importantes discutidas, temos questões como: família, maternidade compulsória, violência de gênero (que inclui, infelizmente, um leque imenso de modalidades, incluindo a violência obstétrica), aborto, prostituição, pornografia, pedofiliacultura do estupro, heterossexualidade compulsória — e, principalmente, como todos esses pontos estão ligados ao paradigma de poder e dominação masculinos sobre o corpo e o ser femininos.

Por que eu escolhi o RadFem (ou por que o RadFem me escolheu)

Esse ponto é 100% pessoal, ufa! Eu, pessoalmente, decidi me alinhar ao feminismo radical porque foi uma linha que me encantou desde o princípio pela força e completude teóricas. Eu nunca vi o feminismo radical tratar nada superficialmente, e mesmo quem não concorda com um ponto ou outro precisa concordar que a teoria é consistente e muito forte. Eu tenho, sim, muita inclinação acadêmica — como uma pessoa que, além de sempre ter tido essa inclinação para a área, teve o privilégio de ter tido todas as condições favoráveis e frequentado uma faculdade — e não tem nada de errado nisso. Eu preciso de algo que me desafie, me estimule intelectualmente, e nisso o RadFem tem de sobra. (Só para deixar claro, por excesso de zelo, eu não estou dizendo que vertente x, y ou z não é embasada ou não é coerente.)

Deixando claro que essa é minha motivação pessoal. Nem todas as mulheres no RadFem são privilegiadas, e instrução acadêmica/formal não é um pré-requisito. No fim e ao cabo, cada um se alinha onde entender que deve.

Algumas indicações de leitura

Não vou indicar livros ainda porque (a) eu precisaria fazer uma pesquisa maior, e ainda assim não me sentiria confortável em indicar nada que eu não tenha lido e (b) como artigo introdutório que eu tentei fazer, acho que aqui artigos mais curtos e por vezes mais simplificados vão ser mais úteis. Segue então um materialzinho bacana para vocês se divertirem mais.

Artigos/textos específicos

Alguns sites e blogs úteis (tenho uma lista muito maior, fiz uma seleção básica para vocês, mas fico feliz em dividir mais material com quem tenha interesse)

Por hoje é isso, espero não ter matado ninguém de exaustão. Se eu puder ajudar em qualquer coisa, podem me procurar (lembrando sempre que eu não sou especialista em nada). E se alguém por acaso tiver interesse em montar um grupo de estudos sobre O Segundo Sexo (um projeto real meu) ou um grupo de estudo mais geral sobre feminismo radical (outro grande sonho), me chama. Mas fiquem sabendo que eu sou uma pessoa intensa e viciada em organização e ex-frequentadora de grupos de pesquisa científica, o que significa que vai ser trabalho sério e relativamente intenso (guardando as suas proporções já que todo mundo, eu inclusive, tem vida).

Agora são sete e quinze, meu despertador acaba de tocar e eu não lembro se é dia de lavar o cabelo. Vai ser um dia intenso, preciso de café.


Editado/off topic: Caso alguém deixe dúvidas nos comentários, não esqueça de incluir o e-mail no formulário (no campo “e-mail” mesmo, só eu vou ver), porque não tenho certeza se o plugin que uso avisa quando enviam resposta ao seu comentário.

Açúcar, tempero e tudo de maneiro

Em 29.04.2016   Arquivado em Pessoal

Não, não é aqui nem agora que eu vou falar de As Meninas Superpoderosas. Eu amo o desenho e vou falar sobre ele, mas deixo vocês no suspense sobre o resto das informações. Por ora, o que estou buscando mesmo são os ingredientes necessários para criar o blog perfeito manter um blog. Não precisa ser perfeito, não precisa ser muito interessante, não precisa ser um sucesso (quem define o que é sucesso?), só precisa estar vivo.

Eu não sei o que acontece, parece que em algum momento no tempo — muito tempo atrás — eu sabia blogar, e então eu desaprendi. Às vezes eu volto, ensaio, então caio em mim e entro em crise, esqueço tudo o que queria dizer e vou embora — para aí sentir saudade, refletir, fazer planos e voltar. É sempre assim. E antes de cada volta tem uma pesquisa de campo imensa pra tentar descobrir o que são blogs, onde habitam, de que se alimentam, o que as pessoas escrevem neles e qual o sentido da vida. É o marte em touro.

Racionalmente eu sei que o espaço é meu e eu posso escrever qualquer coisa, mas todo esse mundo de possibilidades me dá um branco imenso. Liberdade absoluta também é um pouco opressivo.

A verdade verdadeira é que, mais uma vez, eu compartimentei tudo. Coisas no estilo querido diário e anedotas diárias eu acabo contando na newsletter, boa parte das minhas reflexões sobre a cultura pop estão sendo canalizadas para uma fonte que será revelada muito em breve e, para completar, entrei agora como colaboradora lá na Alpaca Press. De repositório total dos meus pensamentos, esse espaço aqui virou o espaço de tudo aquilo que sobrou. E o que sobrou? O que sou eu se não o que eu ouço/vejo/leio e os acontecimentos simples do meu cotidiano? Fica a reflexão.

Também tenho um pouco de medo de virar uma pessoa chata. Mentira, eu já virei uma pessoa chata. Desde que eu conheci o feminismo eu sou cada vez mais chata e, por mais que às vezes eu me aborreça de ser sempre a estraga-prazeres do rolê, eu não consigo lamentar nada disso. Então meu medo real não é exatamente virar chata, e sim levar esse espaço tão bonitinho pelo ralo junto comigo. Porque se a gente tira o que vem de fora, sobra o que vem de dentro. E por dentro eu sou uma enciclopédia interminável de textões problematizantes e politizados. Quem realmente tem interesse nisso?

A verdade verdadeira é que esse espaço ficou largado de mão mesmo antes de eu começar a escrever pelos quatro cantos (quem dera, um dia eu chego lá — quem sabe) porque eu ando cheia de coisas pesadas que têm muito mais de político do que de pessoal. E não bastasse isso, eu ainda me sinto muito pouco qualificada pra falar de tudo e qualquer coisa. Como muito bem definiu minha amiga maravilhosa Milena, eu tenho graduação em insegurança, além de muita preguiça de estudar o tanto que eu acho necessário para falar sobre assuntos mais complexos (spoiler: muito). Vide que no meu único texto explicitamente sobre feminismo, uma amiga pediu que eu falasse mais sobre a vertente com a qual eu me alinhei e até hoje ainda não saiu nada (vai sair um dia, prometo).

Eu sou insegura. Talvez eu não tenha nascido insegura, mas a verdade é que eu cresci insegura, e é muito difícil se livrar disso depois de velha. Insegura nível não me inscrever para a seleção de colaboradoras da revista da minha amiga por medo de deixar ela sem graça de me recusar. Insegura em níveis que desafiam a lógica. E agora insegura nível deixar de escrever e assistir esse espaço definhar e morrer lentamente, mesmo com o coração partido e a mesma velha paixão por escrever ainda intacta em algum lugar aqui dentro.

Então é isso. O primeiro passo é admitir que você tem um problema, não é mesmo? Eu admiti. O próximo eu ainda não sei qual é, mas enquanto isso vou continuar tentando falar — sobre Mabel a gata, sobre heterossexualidade compulsória, sobre minhas aventuras culinárias veganas, sobre escrever. Afinal, é escrevendo que se aprende a escrever, né?

Já posso casar (meu cu)

Em 03.04.2016   Arquivado em Pessoal

bobfaxina

Lá em casa quem cuidava sozinha das ~tarefas domésticas~ desde que eu me entendo por gente era minha mãe. Mesmo quando ela deixou de ser profissão: dona de casa e começou a trabalhar na rua (em um banco, não com isso que vocês estão pensando). Como vocês podem ou não imaginar, isso foi muito traumatizante pra mim.

De pequenininha eu só lembro mesmo dela fazer tudo. Depois de mais velha, muito ocasionalmente eu dava uma ajuda, mas não sem engolir muita revolta pela injustiça de ter que fazer aquilo porque eu era menina enquanto meu pai, que sempre teve dois braços e duas pernas muito saudáveis, ficava com a bunda sentada no sofá aproveitando a posição de ser superior que a sociedade patriarcal lhe deu. Pior do que essa frustração, só mesmo quando eu fazia algo voluntariamente, gastando o bom humor que sempre foi meio escaço na minha pessoa, e era obrigada a ouvir o tão famigerado…………………………………….

JÁ PODE CASAR.

tnc

Nossa, meu sonho, muito obrigada pela sua permissão.

A vida seguiu, o mau humor e a frustração continuaram comigo, mas aos poucos fui adquirindo um tiquinho de bom senso. Esse bom senso me fez ver que, mesmo SENDO inegavelmente injusto que eu tivesse que ajudar POR SER MULHER enquanto os seres humanos com pintos podiam fazer o que bem quisessem, também não era muito justo o outro ser humano com vagina da casa fazer tudo sozinha enquanto esse ser humano aqui que também vivia e bagunçava o referido lar sentava a bunda no sofá como forma de protesto político (que prejudicava absolutamente ninguém além da outra que continuava fazendo tudo sozinha). A partir daí eu juro que me esforcei pra ser um pouco menos babaca, mesmo reservando uma cota de “vai você”/”manda seu filho” para os “vai ajudar sua mãe” nossos de cada dia (principalmente nos momentos de TPM). Sim, eu trabalho com desaforos.

Mas aí, né, eu me mudei. E além de ter prioridades pro meu dinheiro do que economizar as três horas ou menos por semana que eu gasto mantendo tudo mais ou menos limpo e organizado (trabalho que Letícia — miga, se tiver lendo isso, eu ainda te amo bjas — nem sempre facilita), coincidiu de eu ler e refletir sobre o quão escravocrata (e ridículo) é você contratar outra pessoa especialmente pra limpar a SUA sujeira. A solução que sobrou foi nada além do óbvio: limpar minha própria sujeira. Foi assim que eu descobri os milagres terapêuticos de uma boa faxina — e também que ser dona de casa não é ruim por si só.

(Só pro registro: permaneço abominando a frase JÁ PODE CASAR. Evitem pronunciá-la na minha presença. Grata.)

Não vou me dar uma glória que não possuo: não chego do trabalho depois de nove horas de cansaço mental cheia de energia e empolgação pra limpar nada. Dificilmente eu começo os trabalhos sendo a mais feliz das criaturas, a história costuma ser mais ou menos a mesma toda vez. No começo, havia sujeira. Mal acostumada pela mamãe, eu não SUPORTO (toda vez que eu uso Caps Lock podem me imaginar levantando a voz, sim) viver no meio da sujeira. Eu tento mentalizar, mas a sujeira não vai embora sozinha. Escolho uma música, cato a vassoura e lá vamos nós.

Assim que eu começo, uma mágica se opera. O suor começa a escorrer (Rio 40º, sabem como é), mas a visão da sujeita indo embora e a ansiedade pelo cheirinho de limpeza são hipnotizantes e quando eu me envolvo, eu não consigo parar e o tempo apenas voa. Não é divertido, mas é catártico. Então antes do que você espera tá tudo limpo e cheiroso e nenhuma definição é mais adequada ao sentimento que toma conta de mim nesses momentos do que: paz de espírito. Eu estou invariavelmente leve e feliz, com a autoestima elevada.

Juro que não é exagero. Eu faxino meu subconsciente enquanto eu faxino Edna, o apartamento. Quando eu termino, todas as ideias erradas, toda a bad, toda a TPM simplesmente se foram. O cheirinho de limpeza vem de dentro e de fora (mesmo porque o último ato da faxina é sempre me atirar debaixo do chuveiro gelado). Eu me jogo na minha cama (apesar de ela sempre ser arrumada no meio da ação), com o solzinho entrando pela janela (as melhores faxinas são feitas de manhã, anotem), sentindo o cheirinho do incenso (nenhuma faxina está completa sem um incenso), com uma nova trilha sonora (mais relaxante que a anterior). E por um curto período de tempo absolutamente nada está errado no mundo. É uma das melhores sensações que existem.

Isso quer dizer que JÁ POSSO CASAR? Que vou ficar feliz e realizada mantenho a casa arrumada enquanto meu querido marido (nas fantasias machistas, obviamente que a outra parte é sempre um macho) senta a bunda no sofá com a serenidade de quem já nasceu com a vida ganha? RISOS. Só se vocês não me conhecessem, né, amadas. Fiquem bem tranquilas que, se um dia eu resolver dividir minha vida com alguém, ficarei bem feliz em dividir também com essa pessoa os efeitos terapêuticos da faxina. Como faço agora com Letícia. Não vou querer ser egoísta e ficar com a diversão toda pra mim.

Mas, olha, que é muito boa a sensação de casa limpa, a paz de espírito e, talvez principalmente, a sensação de autossuficiência que eu sinto depois de uma boa faxina, é sim. Recomendo.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

Você é obrigada, sim

Em 10.03.2016   Arquivado em Feminismo

 (O título é uma resposta ao título do post da Anna Vitória, mas o post não contraria o dela não, viu?)

Vamos começar do básico: o que é gênero? O que é ser mulher? Quando se trata de feminismo, esse é sempre o nosso ponto de partida e a sua resposta a essa pergunta é o que vai determinar o que vem depois. Existe quem acredite que ser mulher é algo subjetivo, que existiria uma suposta essência feminina que determina quem é mulher e quem não é. Eu não acredito disso. Eu me alinho com a teoria radical*.

Qual é a consequência disso, então? O que eu entendo por ser mulher? Para mim, e para quem pensa como eu, gênero é imposição, é hierarquia. É exatamente aquela frase de Simone de Beauvoir que todo mundo conhece, caiu até no ENEM, mas nem todo mundo entende:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.

Simplificando o que o está escrito acima, ninguém nasce mulher porque gênero não é natural. Gênero não é biológico, gênero não é psicológico. Gênero é uma construção social. Ninguém nasce mulher, as pessoas simplesmente nascem – e aleatoriamente possuem características biológicas diferentes, que se apresentam externamente no pênis e na vagina. Ser fêmea ou macho é algo natural, acontece na espécie humana como em quase(?) todas as outras espécies na natureza. O ser mulher não é natural, é tudo o que acontece com a gente a partir do momento em que se constata que aquela criança que vai nascer (ou que já nasceu) tem vagina.

Ser mulher não é uma constatação, é uma imposição. A partir do momento e que você chega ao mundo e é lida como mulher por causa da sua vagina, a condição de mulher é imposta a você. Antes de você ter condições de saber qualquer coisa sobre você, o martelo do gênero vai descer na sua testa e te ditar o que você gosta, o que você não gosta, o que você pode fazer e o que não pode.

Gênero não é natural, é hierarquia. É a divisão do mundo entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”, no qual um desses grupos (a gente sabe bem qual) é considerado superior ao outro.

Se o que você gosta/pode ou deixa de gostar/poder é imposto a você de forma brutal antes mesmo que você desenvolva consciência do que você realmente gosta ou não, isso significa que todos os seus gostos e escolhas futuras vão ser de alguma forma determinados por fatores externos a você. O nome disso é socialização.

A socialização tem MILHARES de consequências práticas. Mas uma delas, que é o ponto central do que eu vim aqui dizer é: você pode até acreditar que é livre, mas você não é. Você pode achar que depilar a virilha, usar maquiagem e ter filhos são escolhas suas, mas na realidade não são. Tudo o que a gente faz nessa vida é fruto da socialização.

O que isso significa na prática? O que isso significa para o feminismo? Quer dizer então que o feminismo quer te impedir de usar batom? O feminismo está se igualando ao machismo tentando te dizer o que você pode ou não fazer? O feminismo está te oprimindo?

Não, meu bem, não tem nada disso.

Em primeiro lugar, o feminismo não oprime ninguém em relação a gênero. Mulheres não têm poder estrutural para oprimir em relação a gênero. Vamos repetir isso algumas vezes até a gente gravar. Na questão racial, uma mulher branca é opressora de uma pessoa (homem ou mulher) negra. No plano social, uma mulher classe média ou rica oprime uma pessoa (homem ou mulher) de classe mais baixa. Mas uma mulher, seja ela qual for, nunca vai oprimir um homem ou outra mulher em razão de gênero, enquanto vivermos em uma sociedade machista e patriarcal. A gente pode até pisar no seu calo, mas isso não significa oprimir. O feminismo não te mata, não te faz andar na rua com medo de apanhar (ou pior) de uma feminista, não diminui seu salário, não te impede de arrumar emprego.

Em segundo lugar, nenhuma feminista vai confiscar sua caixa de maquiagem. Ainda não vi nenhum piquete feminista na porta de um estúdio de depilação. Ninguém está te obrigando a deixar de se depilar (e você nunca vai deixar de conseguir um emprego ou ser olhada torto na rua porque raspa o sovaco). Mas estamos dizendo que a sua opção por se depilar nunca vai ser completamente livre? Estamos. Não, não estamos, eu estou. Mesmo que você já seja a rainha do feminismo, a fodona da desconstrução. Okay, você se depila porque odeia pelos; mas por que você odeia pelos (os seus, principalmente)? O ponto é justamente esse: saber que nenhuma de nós é (ou será) livre e seguir vivendo e lutando pra que um dia, quem sabe, nossas tataranetas ou as netas delas sejam.

Foi isso que eu vim dizer hoje. Mas só tinha mais uma coisa que eu queria falar antes de passar o bastão da palavra para vocês: feminismo não é o oposto de machismo. Machismo é um sistema que impõe a ideia de gênero (fixando: gênero = hierarquia) e oprime estruturalmente o grupo designado como mulher e todos aqueles que fogem aos papéis de gênero socialmente reconhecidos. Feminismo, do outro lado, é um movimento social que tem por objetivo construir uma sociedade equitativa a partir da desconstrução da ideia de gênero (última vez: gênero = hierarquia). Mas o fato de não serem opostos não significa que você pode escolher a opção C (nenhuma das alternativas anteriores).

A sociedade é machista, a socialização é machista, o inconsciente coletivo é machista. Logo, o neutro é machista, e machistas (ou reproduzindo machismo) permaneceremos enquanto não fizermos nada pra mudar esse estado das coisas. Sair do machismo existe uma postura ativa de desconstrução, e desconstruir questões de gênero é uma atividade essencialmente feminista. Ou seja, você realmente não é obrigada a se reconhecer feminista, abraçar o título, estudar o assunto. Mas isso não significa que na prática você não seja feminista.

Agora eu vou ali e beijos pra quem fica.


*Radical NÃO significa extremista, pelamor. Radical vem da palavra RAIZ (sabe uma árvore?), e o feminismo radical encara a questão de gênero a partir da origem (RAIZ) da opressão que sofremos.

Somos as netas das sobreviventes (ou precisamos falar sobre A Bruxa)

Em 05.03.2016   Arquivado em Filmes

abruxa3

Após uma campanha intensa dos meus amigos, ontem eu interrompi meu regime militar de estudos pra ir ao cinema ver A Bruxa. Antes disso, é claro, fiz meu dever de casa e vasculhei a internet atrás de tudo o que eu pudesse encontrar sobre o filme. Em resumo: independente, premiado, produzido por um brasileiro, perfeccionista e muito assustador (segundo Stephen King). Um filme feito com amor que por acaso saiu do circuito alternativo e foi parar no cinemark. Fiquei muito animada e numa expectativa intensa.

Não vou fazer nenhum suspense, até porque quem me segue no twitter e/ou é minha miga já sabe muito bem a minha opinião, a saber: GENTE QUE FILME INCRÍVEL ASSISTAM.

Sendo sinceramente sincera, não me deu medo no sentido tradicional da palavra. Exceto em uma parte extremamente específica (possível spoiler: a morte do filho), que calha de ser a MELHOR CENA DO FILME. Nem o final me deixou apavorada, apesar de ter ficado um pouco mais tensa. Mas não deixa de ser um filme assustador de uma forma diferente. Antes da sessão, eu estava pronta pra esquecer toda a minha maturidade e dormir com a minha mãe se preciso fosse, mas não foi. O que não quer dizer que o filme seja fraco, é só um tipo diferente de medo.

Acontece que tudo ali é muito real — mas não muito real no contexto atual, muito real no contexto que se passa. É tudo muito cuidadoso; o cenário, o script, o figurino, a forma de falar (os atores tiveram aulas e praticaram inglês do século XVII), a fotografia, os efeitos, as atuações. AS ATUAÇÕES. Dá pra acreditar que de algum jeito foram até a Nova Inglaterra de 1630 e filmaram acontecimentos reais (os diálogos foram inclusive produzidos a partir de documentos reais). E ele te convence de tudo o que está ali, dentro do contexto dele. Gente, estamos em 1630, morando SOZINHOS na beira da floresta, excomungados da comunidade, e coisas estranhas e horríveis começam a acontecer. No meio disso tudo, temos uma filha adolescente. É claro que bruxas.

Não é um filme pra qualquer um. Mas é um filme grandioso, PERFEITO, e muito muito muito bom. Duas coisas que li por aí se provaram verdades supremas: (1) é um filme artístico de terror, e (2) é um drama familiar. Até chorei, juro. Se você gosta do estilo, ou se interessou pelo que eu acabei de dizer e tem a mente aberta: por favor, assista.

abruxa

Se você queria uma resenha do filme, pode parar por aqui. Se escolher ficar, senta que lá vem história, porque a partir de agora vamos falar sobre minha análise do filme a partir do feminismo. Quero debater e talvez eu me estenda bem.

Desde o começo, a culpa de todos os males do mundo é colocada em cima da Thomasin, a filha adolescente que está sempre no lugar errado na hora errada. Sua família está completamente isolada na beira de uma floresta, quatro cinco filhos — dois adolescentes. O menino, que está entrando na adolescência, começa a lidar com a própria sexualidade. A menina não tem esa chance porque ela é menina. Mas quem ele tem por perto? A irmã mais velha, só. Quem é que tem pacto com o demônio pra desvirtuar os homens? Ela, claro. Porque não é mais criança, o que significa que é… Um ser sexual. Como ousa?

Thomasin passa o filme todo sofrendo uma pressão absurda para ser perfeita. Thomasin lava a roupa do seu pai, Thomasin vigia os demônios as crianças. Thomasin vai cuidar dos bodes. E levando a culpa de tudo o que dá errado. Thomasin sumiu com o bebê, Thomasin levou o Caleb pra floresta, Thomasin sumiu com o cálice de prata, Thomasin não deu jantar pros bodes, Thomasin seduziu o irmão e o pai, Thomasin enfeitiçou os gêmeos, Thomasin é bruxa. Não existe NADA que Thomasin possa fazer porque, INDEPENDENTE DO QUE THOMASIN FAÇA, THOMASIN SEMPRE ESTARÁ NO ERRO. Porque Thomasin é mulher, e todo mundo passa o filme inteiro convencendo Thomasin de que ela é pecadora, é impura, vai pro inferno. E Thomasin tenta de verdade fazer as coisas direito, mas não dá, porque Thomasin é só um ser humano. Pior, Thomasin é só um ser humano adolescente. Sim, eu me apeguei à Thomasin. Somos todas Thomasin.

Por isso tudo que o final do filme pra mim não foi assustador. Foi REDENTOR. Foi o final mais feliz que o filme poderia ter tido. Não vou dizer exatamente o que acontece, apesar de não ser muito surpreendente. Mas se você quiser parar por aqui, tudo bem e inclusive recomendo. Volta depois que vir o filme (você vai, né?). No final, eu senti uma alegria imensa, eu — já em completa simbiose com Thomasin — me senti finalmente livre. Eu queria chorar, bater palmas, gritar YOU GO GIRL. E eu sei que foi exatamente isso que ela sentiu também porque a expressão dela foi transparente (de novo AS ATUAÇÕES SOCORRO). Em 1630 Thomasin descobriu que existia mais na vida do que isso.

Hoje mais do que nunca eu estou me sentindo a neta das bruxas que eles não conseguiram queimar.

Os babacas no final que se acharam muito espertos fazendo piada de que “elas são feministas” não fazem ideia do QUANTO ESTAVAM CERTOS.

abruxa2

PELO AMOR DE DEUS ASSISTAM A BRUXA.

Temporada Oscar 2016 #3: A garota dinamarquesa, A grande aposta, Ponte dos Espiões e Ex Machina

Em 23.02.2016   Arquivado em Filmes

Me sinto muito vitoriosa na vida, por ter conseguido (talvez pela primeira vez na história), completar a meta principal de uma maratona Oscar com tanta antecedência. A vez que eu cheguei mais perto disso foi em 2015, quando eu assisti 7 dos 8 (faltou só American Sniper, mas foi de propósito), sendo que os dois últimos assisti só no dia das festividades. Nesse maravilhoso ano de 2016 estava eu, exatamente uma semana antes da premiação, assistindo o último indicado a melhor filme.

Melhor que isso, só mesmo eu ter assistido nada menos do que cinco dos indicados de outras categorias, totalizando 13 dos 23 títulos da minha lista. Estou deveras impressionada comigo mesma, desculpa se estiver me gabando demais. Se eu puder me gabar só mais um pouquinho: lembremos que ainda temos cinco dias até o prazo final, e eu ainda tenho planos de assistir pelo menos as animações (O menino e o mundo, Anomalisa, e When Marnie was there) e os documentários (Amy e What happened, Miss Simone?) que selecionei. A esperança, amigas; ela não morre nunca.

A garota dinamarquesa

danishgirl

Indicações: 4 – Melhor ator (Eddie Redmayne), Melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor figurino, Design de produção.

Esse era possivelmente o único filme desses óscares cuja existência eu já reconhecia antes de sair a lista de indicados desse ano. Desde então, um bom tempo atrás, estava com bastante vontade de assistir. Mas minha memória é curta e depois da vontade inicial, ele ficou lá no fundo da mente.

O filme é bem bonito, tanto a fotografia quanto a história. Obviamente que eu dei uma choradinha discreta no final, mas não me deu todos os sentimentos que eu estava esperando. O Eddie estava muito bem, mas foi um erro muito grande pegar dois papéis tão marcantes em tão pouco tempo e eu não consegui não ter Stephen Hawking na minha cabeça o tempo todo — obviamente que isso atrapalhou. Por outro lado achei a Alicia sensacional, e a Gerda idem.

A Grande Aposta

bigshort

Indicações: 5 – Melhor filme, Melhor ator coadjuvante (Christian Bale), Direção, Edição, Roteiro adaptado.

Comecei a assistir esse no sábado anterior ao que eu terminei, porque naquele fatídico dia eu tinha faxinado a casa toda sozinha e não consegui manter os olhos abertos e entender economia ao mesmo tempo. Achei melhor parar no meio e pegar em um momento melhor, porque, apesar de eu ter achado o filme mais branco e com mais homens de todos (um homem negro e uma mulher negra aparecem, mas tem TANTA GENTE nesse filme que eu achei ridiculamente pouco), as recomendações estavam boas e o assunto era interessante.

É exatamente o tipo de filme que meu professor de geografia do ensino médio teria passado em sala de aula (inclusive ele passou alguns sobre o mesmo tema que me ajudaram horrores a entender esse). Não tivesse ele falecido, certamente passaria aos novos alunos. Os atores todos estão muito bem, os recursos usados foram geniais, o roteiro era ótimo e eu demorei uma eternidade pra reconhecer o Brad Pitt. Gostei muito e não foi uma perda de tempo, recomendo (só não assistam com sono).

Ponte dos Espiões

Brooklyn lawyer James Donovan (Tom Hanks) meets with his client Rudolf Abel (Mark Rylance), a Soviet agent arrested in the U.S. in DreamWorks Pictures/Fox 2000 PIctures' dramatic thriller BRIDGE OF SPIES, directed by Steven Spielberg.

Brooklyn lawyer James Donovan (Tom Hanks) meets with his client Rudolf Abel (Mark Rylance), a Soviet agent arrested in the U.S. in DreamWorks Pictures/Fox 2000 PIctures’ dramatic thriller BRIDGE OF SPIES, directed by Steven Spielberg.

Indicações: 6 – Melhor filme, Melhor ator coadjuvante (Mark Rylance), Trilha sonora original, Design de produção, Mixagem de som, Roteiro original.

Um filme americano sobre a guerra fria é um filme americano sobre a guerra fria. Não vou dizer que não é legal. É legal. O roteiro é muito bom, Tom Hanks é mara e faz muita falta no mundo das comédias românticas. Nem reparei na trilha sonora, porque eu sou eu. Agora, sendo um filme americano sobre a guerra fria, obviamente que passei bastante raiva em vários momentos.

Ex machina

exmachina

Indicações: – Efeitos visuais, Roteiro original.

Esse estava na minha lista do talvez, porque pouquíssimas indicações e em classes escrotas, mas eu adoro ficção científica, distopias e similares. Então Craudia comentou que deveria ser promovido da turma do talvez e jogado de paraquedas no sim e eu ouvi. Provavelmente não teria assistido ainda se convenientemente não tivesse estreado no Tele Cine no sábado passado.

Gente, o filme é bom mesmo, podem assistir. Tem a casa que eu queria ter na vida (exceto pelo esquema bizarro de segurança), tem Domhnall Gleeson com aquela carinha de Domhnall Gleeson e Alicia Vikander (de novo) com aquela carinha de fofa. Os efeitos visuais são realmente bons, e a história também. Fiquei adivinhando mil finais e não acertei (o que é bem raro). O final não só me surpreendeu, como me deu uma satisfação íntima um pouco doentia por não ser óbvio. Gente, sério, é ótimo.

>> Criei uma conta no letterboxd pra tentar manter minha vida cinematográfica organizada daqui pra frente. Quem quiser ser migas lá, só chamar.

>> Você já soube da minha newsletter? Assina lá e vire meu correspondente virtual.

>> Amigas Craudia e Sharon também estão nessa onda oscarina, vocês deviam conferir.

Intervalo comercial com direito a musiquinha

Em 17.02.2016   Arquivado em Música

Desde agosto, quando saturamos a paciência de qualquer um com várias tags e memes durante o BEDA, eu tinha dado um tempo nessa vida. Até hoje. Minha amiga linda Tatá me indicou para esse meme autoexplicativo das 20 músicas, traduzido pela Karol Pinheiro. Presumindo que vocês não cliquem no xizinho ali em cima agora e desistam de mim (tudo bem, não vou me ofender), vocês vão ver direitinho o que é logo aqui embaixo.

Caso você queira ir ouvindo de forma mais prática enquanto lê o punhado de abobrinha que eu escrevi, também podem ir por essa playlist maravilhosa que eu fiz no spotify, juntando todos os indicados abaixo (menos baile de favela, porque não sou obrigada, e vermelho, porque não tinha).

1. Sua música favorita: Desalento, Anna Rato

É uma história bem legal. Conheci Anna Rato no fim de semana mais alcoólico da minha vida, na minha fase vida lok com Letícia. Naquele fim de semana, nós começamos a beber na quinta, continuamos na sexta, fingimos que encerramos no sábado e então, no domingo, fomos assistir o por-do-sol no Arpoador. Voltando pra casa, passamos em um evento que estava acontecendo na rua e Anna estava no palco. Amei a voz dela na hora e comecei a ouvir sem parar o CD ao vivo. Talvez vocês conheçam essa música porque agora ela está nas rádios, façam o favor de dar atenção a ela, porque é maravilhosa.

2. A música que você mais odeia: Baile de favela, MC João

Gente………… Essa é a música mais chiclete da vida. Meu ódio por ela não se deve a isso, nem a ser funk (amo funk). Mas a letra é a coisa mais abominável que eu já ouvi na vida e não consigo mais ouvir sem sentir raivinha.

3. Uma música que te deixa triste: All of me, John Legend

Eu sou muito sensível com coisas românticas. 90% do que me faz chorar são coisas românticas. Romance é uma coisa que me deixa muito melancólica. Romance me afeta mais que a morte. Passei muitos meses chorando absolutamente toda vez que ela tocava. Agora passou, com a graça do sem or.

4. Uma música que te lembra alguém: Grace Kelly, Mika

Diretamente do fundo do baú, essa música (maravilhosa) me lembra das minhas melhores amigas mais antigas. Me lembra da gente cantando no quarto, no shopping, na rua. Quase entrou em outra categoria, porque sei a letra toda (incluindo as falas do clipe) e acho que isso é motivo de orgulho.

5. Uma música que te deixa feliz: Elephant gun, Beirut

Fiquei em dúvida entre essa e Butterfly do Jason Mraz (melhor música erótica da vida), mas acabei escolhendo essa por causa da vibe feliz muito específica que ela me traz. É uma que também está ligada a momentos muito importantes e felizes da minha vida, mas o motivo da escolha realmente é porque ela faz com que eu me sinta dançando descalça na grama em um dia fresco de sol.

6. Uma música que te lembra um momento específico: I wanna be yours, Arctic Monkeys

Foi aquele momento do show em que eu saí correndo feito uma louca porque eu precisava cantar ~wanna be you vacuum cleaner~ junto com certas pessoas, pelo bem das piadas internas.

7. Uma música que você sabe a letra inteira: Elephant love medley

Essa resposta é perfeitamente intercambiável com a do item 4. Moulin Rouge, amor eterno amor verdadeiro. Passei muito tempo da adolescência fazendo dueto dessa música na hora do recreio com Naty e jamais esquecerei. Menina Couth pode testemunhar em meu favor.

8. Uma música que te dá vontade de dançar: Bang, Anitta

Em primeiro lugar: se você não gosta de Anitta, cê não tinha nem que tá aqui, gata. Anitta é meu vício do momento e eu tive verdadeiramente que lutar contra a vontade de incluir ela em um milhão de categorias. Mas nessa não dá, porque Bang me dá um desejo infinito e incontrolável de rebolar a minha bunda. Nenhuma outra música no unverso tem tanto poder sobre mim.

9. Uma música que te faz dormir: Vilarejo, Marisa Monte

Não costumo ouvir música pra dormir, mas se ouvisse acho que escolheria vilarejo. Tão calminha, tão gostosa, tão bela a letra. Tenho certeza que geraria sonhos maravilhosos.

10. Uma música que você gosta em segredo: VCR, The XX

Responder essa categoria foi um verdadeiro parto, porque eu não sei gostar de nada em segredo, eu gosto de dividir as coisas boas da vida, sejam elas Taytay, Beatles, Bach ou Ludmilla. O que eu fiz aqui foi dar nó em pingo d’água e escolher algo que eu fui apresentada há pouco tempo e ainda não consegui parar pra explorar direito. Mas é uma ótima música.

11. Uma música que você se identifica: Unwell, Matchbox Twenty

Em algumas coisas eu sou inconstante, em outras eu pareço uma mula empacada. A resposta dessa categoria se mantém a mesma há mais de dez anos — chupa essa manga, mundo! Não sei o que tem nessa música, só sei que ela me define muito, provavelmente desde 1992. É só que “I’m not crazy, I’m just a little unwell, I know right now you can’t tell, but stay a while and maybe then you’ll see a different side of me.” ¯\_(ツ)_/¯

12. Uma música que você amava e agora odeia: ¯\_(ツ)_/¯

Não sei, não consigo, desculpa. Então fiquemos com esse gif da Anitta:

bang

13. Uma música do seu disco favorito: Cabra cega, Anna Rato

Meu último disco favorido é o CD ao vivo da Anna Rato. Desalento pode ser minha música favorita do momento, mas Cabra Cega é maravilhosa e não vem muito atrás. Que letra. Tipo mantra de vida.

14. Uma música que você consegue tocar em algum instrumento: Times like these, Foo Fighters

Essa é meio difícil. Eu fiz anos de aula de violão, e depois dois anos de aula de piano. Não sou boa em nenhum dos dois e faz tanto tempo que to desleixada que provavelmente não sei tocar mais nada, mas resolvi escolher uma das que eu mais gosto de tocar, que também calha de ser uma das minhas músicas favoritas desde muitos anos.

15. Uma música que você cantaria em público: I will always love you, Dolly Parton

Primeiro eu ri dessa categoria e pensei em usar de trocadilho e responder The sound of silence. Depois eu resolvi tentar levar um pouco mais a sério, e pensei que, se forçarmos ligeiramente a barra, eu cantaria I will always love you pra animar mamãe ou uma miga, e Lorelai Gilmore aprovaria essa escolha.

16. Uma música que você gosta de ouvir quando está dirigindo: Don’t look back in anger, Oasis

Mais uma flopada por motivos de: não dirijo há anos. Mas resolvi entrar no clima e imaginar um cenário legal (uma road trip com belas paisagens e sem trânsito). Acho que Don’t look back in anger (amor eterno, amor verdadeiro) se encaixaria muito bem na descrição.

17. Uma música da sua infância: Vermelho, Daniela Mercury

Eu era uma grande fã da Daniela Mercury na primeira infância. Os reflexos disso na minha vida adulta são que até hoje eu eventualmente fico com vermelho na cabeça sem nenhum motivo e sem aviso prévio.

18. Uma música que ninguém esperava que você gostasse: Garota recalcada, Ludmilla

Vocês aqui já estão cansados de saber do meu amor pelas divas brasileiras, mas quando eu fui pra Kansas em agosto de 2015 minha família ficou verdadeiramente chocada com a revelação. Acho que garota recalcada foi a cereja no topo da descoberta.

19. Uma música que quer (ou tocou) no seu casamento: You and Me, Lifehouse

Não casei, não sei se vou casar, e certamente se/quando isso acontecer eu vou sentar e tentar fazer uma escolha mais cool e com mais classe e esse tipo de coisa. Por hora, no casamento imaginário e completamente hipotético que se desenrola na minha cabeça enquanto escrevo isso, ocorre uma cena digna de A Nova Ciderella envolvendo eu, cônjuge e essa música.

20. Uma música que tocaria no seu funeral: Home, Daughtry

Casamento, e então a morte. Adorei a sequência simbólica dos quesitos. Acho que a única escolha realmente fácil de toda essa brincadeira foi essa. Apenas porque eu escolhi muitos anos atrás e acho que ainda se aplica. Acho que essa música tem um quê meio gospel, e a letra é completamente apropriada. Não sei se esse foi o objetivo do autor, mas funcionou.

Essa playlist foi um oferecimento Vizinha da Capitu. Espero que tenham gostado. Sinceramente, nunca sei quem indicar, então sou sempre a estraga-prazeres que não indica ninguém. Paciência. Quem quiser fazer, deixa o link pra eu conferir!

🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂

Ah! E todo mundo já assinou minha newsletter? Juro que sou legal por lá. (E-mails hotmail estão tendo problemas inexplicados, sugiro usarem outro provedor.)

Temporada OScar 2016 #2 – Muitos, muitos filmes

Em 09.02.2016   Arquivado em Filmes

Desde o último comunicado, estava eu parada nessa missão ingrata que é tentar correr atrás dessa premiação branca que nós amamos odiar e odiamos amar. Então o carnaval aconteceu.

Grande foliã que não sou, resolvi que esse ano ia tentar ser melhor e honrar meus 23 anos antes que eles não estejam mais aqui, e acho que não fui mal nesse quesito. Ainda assim, consegui tirar um tempinho para assistir nada mais que cinco dos indicados a melhor filme. Agora só faltam dois (e milhares de outros que eu resolvi que quero assistir porque sim).

Mad Max

Film Review-Mad Max: Fury Road

Indicações: 10 – Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção, Melhor Edição, Cabelo & Maquiagem, Design de Produção, Edição de som, Mixagem de som, Efeitos visuais.

Eu sou o último ser humano da terra a ver esse filme. Talvez porque eu estivesse com medo. Mad Max deu muito o que falar, 90% do mundo amou e tem tantos pontos conceituais positivos que eu não queria não amar. Mas não era meu tipo de filme e as chances de eu não amar eram incrivelmente altas. Enrolei, enrolei, até que acordei no sábado e resolvi que era hora de assistir Mad Max. Não vou fazer suspense porque ainda tenho quatro filmes sobre os quais falar: amei. Usando palavras emprestadas de amiga Ana Luiza (sobre outro filme): EU AMEI ESSE FILME. TIPO MUITO. TIPO DEMAIS. TIPO MEU DEUS DO CÉU UM AMEI ESSE FILME. MEU. DEUS. DO CÉU!!111!11!1!1

Não sei o que aconteceu, mas gente, eu amei de verdade. To chocada até agora. Não sei que que tem nele, mas com certeza é alguma droga pesada. E que fotografia linda. Efeitos visuais irados. BROTHER ESSE FILME.

Perdido em Marte

the-martian

Indicações: 7 – Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Design de Produção, Edição de som, Mixagem de som, Efeitos visuais, Melhor roteiro adaptado.

Mad Max acabou e estava eu sem fazer nada, esperando amiga chegar em casa pro carnaval. Então resolvi fazer jus ao título de ~~maratona~~ e dar logo play em The Martian. E posso dizer que meus pré-julgamentos pros indicados desse ano estavam tão negativos que eu fiquei surpresa de verdade de gostar desse também. E EU GOSTEI MUITO JURO. Não me levem a mal, eu gostei bastante de Gravidade etc e tal, mas nunca dá pra começar a assistir um filme no espaço e não esperar um pouquinho de tédio. Ainda mais um filme onde um ser humano está sozinho no espaço.

Mas esse filme foi tipo zero tédio? Eu ri tanto! Matt mandou muito bem, o roteiro é mara, engraçado sem parecer que está tentando demais. E. a. trilha. sonora. Não foi indicada, mas eu amei com força infinita. Porque eu sou distraída demais pra notar trilhas sonoras normalmente, mas essa trilha sonora me fez rir sozinha. Porque gente: o cara está sozinho esquecido em marte, com tudo contra ele, e começa a tocar ABBA.

Spotlight

spotlight

Indicações: 6 – Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor roteiro original.

Então amiga Milena chega, obviamente exausta, e eu acho gentil deixar ela dormir enquanto eu assisto o terceiro filme do dia (sim), revivendo a época de ouro em que a minha vida estava ganha e eu passava o dia plantada na frente da HBO. Na fila estava Spotlight, que até o dia anterior eu esperava gostar mais do que os dois anteriores. Claro que não gostei mais que os dois anteriores, porque eu amei os dois anteriores, e Spotlight é um filme que claramente se leva muito a sério e por isso mesmo nunca vai conseguir competir com The Martian.

A história é de explodir os miolos, e só conseguia pensar que a minha mãe ia adorar esse filme. É bem bacana (entendam que é muito difícil eu não gostar de algo). As atuações foram legais, e eu nunca vou superar meu amor pelo Mark. No mundo tradicional da Academia, me parece que tem muito mais chance do que os outros dois, mas pra mim não foi nenhuma experiência de outro mundo (perdão pelo trocadilho ridículo). E amo Rachel desde Regina George, mas não achei ela isso tudo nesse filme.

O Quarto de Jack

room

Indicações: 5 – Melhor Filme, Melhor Atriz (Brie Larson), Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor roteiro adaptado.

O livro que deu origem a esse filme já fez seu primeiro aniversário na minha estante. Esse fato não tem nada a ver com essa mini-resenha, mas senti vontade de acrescentar. Um dos motivos de ele ainda estar lá é que é uma história obviamente pesada. Não é abertamente pesada, porque o narrador é uma criança de cinco anos, mas é o tipo de história pesada que fica ainda mais pesada porque você enxerga “o peso” por trás, apesar da narração. É de descaralhar a cabeça, com o perdão da palavra.

Os atores são ótimos e não me deu sono mesmo assistindo às 8 da manhã de um dia pós folia. E isso é dizer muito.  Para quem não entendeu: eu gostei. Não me empolgou, mas é um ótimo filme. Não seria minha escolha para melhor filme, mas (como minha opinião conta tanto quanto um zero à esquerda) pode ser que ganhe.

O Regresso

the-revenant

Indicações: 12 – Melhor Filme, Melhor Ator (Leonardo diCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção, Melhor Edição, Cabelo & Maquiagem, Design de Produção, Edição de som, Mixagem de som, Efeitos visuais.

Esse era a minha maior preguiça desse oscar. Migos, que filme chato. Duas horas e meia da minha vida que eu nunca terei de volta. Mas nem tudo foi tempo perdido, porque pelo menos é um filme esteticamente impecável. Lindo de verdade, ridiculamente bonito. E eu também adoro os jogos de câmera do Iñarritu, fica um trem bem fluído e às vezes parece que você está observando a cena de dentro (?). Então eu acompanhei a história bem por cima e foquei nas imagens porque tão bonitas.

Considerando tudo o que eu já vi e o que falta, acho que merece muito levar melhor fotografia e direção, talvez quem sabe melhor ator (nossa esperança em Leozinho é a última que morre, mesmo concorrendo com Matt e Eddie de trans). E Tom Hardy, tão fofo, quero pra mim.

Por hoje foi isso, em breve voltamos com o que falta. Se tudo der certo, podemos ter também uma edição especial de animação. (Estamos muito otimistas esse ano, estou adorando.)

Pelos olhos do oprimido (uma resenha nascida na madrugada)

Em 28.01.2016   Arquivado em Livros

O que falar de O Sol dos Moribundos? Você pode ter achado que eu ia usar um meme da internet aqui, mas essa é uma questão real na minha vida. Terminei esse livro anteontem à noite e senti que precisava escrever algo, para que o mundo visse e soubesse que ele existe. Só 51 pessoas além de mim marcaram que o leram no skoob, 5 estão lendo, 25 querem ler, 3 abandonaram. Podemos dizer que é um livro bem desaplaudido. Mas não deveria.

Esse foi mais uma daquelas aquisições aleatórias de bienal. Se você nunca foi em uma bienal, eu explico: existem os stands enormes das editoras, onde a maior parte dos livros é vendida pelo preço que você encontra em qualquer livraria (ou mais caros), e existem stands menores, cheios de mesas gigantescas com toneladas de livros (vulgo os stands que eu frequento). Nessas mesas, você encontra livro de todos os tipos, tamanhos, formas e a grande maioria é bem barata — é meu paraíso. Meu critério para escolher um livro nesses lugares é: nenhum. Se o título e/ou a capa me agrada, eu nem leio a sinopse. Foi assim que o sol dos moribundos veio parar na minha estante por uns dez reais, uns quatro anos atrás.

Provavelmente teria continuado na estante para sempre, se não fosse minha Jarra. No final de 2015, saiu o papelzinho com o nome dele, e lá fomos nós.

Comecei, intercalei com outros, demorei a terminar, mas terminei. E eu queria muito falar sobre ele, mas não sabia como. Até que ontem (hoje), meia noite e pouco, depois de ter falado com Letícia sobre ele, eu tive uma ligeira luz. E cá estamos.

O livro conta a história do Rico, um morador de rua de Paris. O melhor amigo dele (outro morador de rua) morre, Rico tem certeza que vai ter o mesmo destino e isso levanta nele todo o tipo de sentimentos e lembranças da sua vida. Então ele resolve se mudar para a Marselha, onde viveu uma de suas histórias de amor quando era mais novo, para morrer ao sol. Esse caminho é a parte um do livro. A parte dois é rico já em Marselha, onde ele conhece o narrador.

O narrador é, na verdade, uma das melhores partes do livro — se não a melhor; mas eu não vou falar sobre isso porque se o autor só quis revelar a identidade dele na segunda parte, não sou eu quem vai estragar a brincadeira.

O livro é muito bem escrito, as personagens são maravilhosas, mas também é um livro bem pesado. É um livro sobre moradores de rua, um livro sujo, sem esperança e cheio de coisas e pessoas que nós não queremos ver. É um livro com alguma misoginia, é verdade. Mas principalmente é um livro muito humano, e que mostra o lado do outro.

Duas vezes, durante o livro, Rico participa de pequenos assaltos. É bacana? Não. Ele ameaça pessoas e leva “o que é delas”. Mas mesmo enquanto faz isso, ele não parece um monstro. Ele só está sobrevivendo e às vezes a gente faz o que precisa fazer. E é por isso que eu achei o livro tão importante. Elo mostra que não existe só um lado certo e um errado. Existe um mundo muito complexo.

“Compreendi isso certa tarde, ao descobrir o último modelo Nike, na Go Sport. Só de me olhar me deu um aperto na barriga. Como quando se está com fome. Por que eu não posso comprar esse tênis? Por que os outros podem, e eu não? O que foi que eu fiz ao Profeta? Essas perguntas todas vêm à cabeça da gente. E uma resposta só: injustiça. Sabem como é, começa assim.” (pp. 221)

“– Bom, Rico, isso não é vida. Você sabe muito bem.
— E a vida é o que? Isso aí?
Rico apontou um sujeito embecado num terno, apressado, celular colado ao ouvido.
— Isso eu já vivi. Sei aonde leva. Exatamente ao ponto onde estou hoje. Portanto, não me enche, Jeannot.”
(pp. 222)

Não é exatamente o mesmo ponto, mas me lembrou o discurso da Chimamanda sobre o perigo da história única. Se vocês não assistiram ainda, acho que é um ótimo investimento para os próximos vinte minutos do seu tempo:

O final do livro é previsível, mas ninguém em momento nenhum prometeu surpresa. E ainda assim é muito emocionante. Quem sabe vocês poderiam considerar dar uma chancezinha para o pobre livro desaplaudido, e depois virem me contar o que acharam.

Mais um trem potencialmente bem errado

Em 25.01.2016   Arquivado em Pessoal

Não tem muito tempo que eu fui iniciada por amiga Anna Chicória no maravilhoso mundo das newsletters, esse universo paralelo onde você recebe coisas bacanas direto no aconchego do seu e-mail, compensando as toneladas de spams que são despejados lá todos os dias. Perdida que sou, comecei aos poucos, assinando uma aqui, outra acolá; lendo todas por questão de princípio. Quase um preparativo para o Ultimate Tutorial de Newsletter que ela tinha prometido.

O ano virou e ela anunciou no twitter que o mapa para esse mundo maravilhoso tinha sido liberado, e tinha uma surpresa. Conhecendo as amigas que tenho, eu não precisei nem abrir o link para saber qual era a surpresa, mas abri o link mesmo assim — correndo — porque eu estava muito ansiosa pelo post e para confirmar minhas expectativas.

Certíssima estava eu. Além de explicar de forma muito didática o que exatamente é esse troço de newsletter (conceito que ainda me deixava um tanto confusa), ela indicou várias newsletters (que assinei todas), e — por fim, mas não menos importante — anunciou o lançamento mais esperado do ano: No Recreio, a newsletter dela, novinha em folha.

E então chegamos aqui. Mentira, ainda não chegamos aqui, chegamos s apenas ao parêntese no qual eu tento explicar para vocês resumidamente todo o meu amor por e-mails.

E-mails são como cartas, mas sem o gasto de energia (e dinheiro) de endereçar um envelope, levantar da cadeira e ir até a agência de correios mais próxima. Eu uso e-mails como forma de abrir meu coração e despejar meus sentimentos mais profundos (sim) nos ombros de algum sofredor desavisado. Quer me ver feliz? Responde meu e-mail e/ou comece uma correspondência comigo. Te amarei para sempre, e muito rápido, por motivos de: vou dividir meus temores e desejos mais profundos com você. Sou esse tipo de pessoa formada à base de Jane Austen.

Dessa forma, quando li aquele conceito cuidadosamente detalhado do vocábulo (s.f.) newsletter, a única coisa que eu pensei foi: QUERO. Quero muito.

Mas logo depois pensei que preciso deixar de ser uma ridícula que tem vontade de fazer tudo o que as amigas fazem e chora por dentro por não ter descoberto algo antes para não ter que se sentir culpada de copiar as amiguinhas. Respira. Perdão pela falta de vírgulas. Então segurei minha periquita e fiquei quietinha na minha.

Quietinha na minha, vírgula, até Bananalu confessar seu desejo intenso de ser maria-vai-com-as-outras. Coloquei fogo na lenha: nossa, amiga, sim, vai! Seguindo com um: se você for, eu vou! E fechando em: E acho que devíamos ir todas! Tenho uma mente maquiavélica.

Mas, entretanto, porém, contudo, todavia etc. Deu certo. E todos esses milhões de parágrafos acima foram apenas para anunciar que: eu também tenho uma newletter. Risos. Então vocês, eventuais leitores fantasmas (tem alguém aí?) podem assinar aqui e começar a receber de graça — eu disse DE GRAÇA, não é ótimo? — correspondências dessa que vos fala.

Uma edição experimental foi ao ar no sábado, apenas porque eu realmente não sei segurar minha periquita. Quem recebeu, recebeu; quem não recebeu, não recebe mais (a não ser que vocês queiram muito, mas não foi essa coca-cola toda). Agora estou providenciando todas as frescuras sem as quais não sei viver, e a edição inaugurativa(?) oficial talvez vá ao ar essa semana, mas ainda não defini um dia.

Apesar disso, não precisam se preocupar; prometo não lotar a caixa de e-mails de vocês. Provavelmente vocês vão receber notícias a cada duas semanas (mas posso reduzir para uma, se eu não conseguir me segurar). A linha editorial, a gente descobre juntas.

Por último, mas não menos importante, vocês são mais que bem vindos para dar um reply rapidão e bater um papinho comigo. Seriously.

lor_dream

Página 1 de 3612345... 36Próximo