Diarinho da semana #1

Em 06.08.2016   Arquivado em Pessoal

BEDA passado algumas amigas adotaram esse estilo de post e eu, embora tenha ficado tentada a seguir o exemplo, me recusei porque ainda guardo essa necessidade de não seguir tendências que trouxe diretamente da minha adolescência de rebeldia sem causa.

Dessa vez, como a maioria delas não está participando da brincadeira e muito menos mantiveram a tendência nos últimos onze meses, resolvi reciclar a ideia simplesmente porque deu vontade. Vou tentar tirar algumas fotos para as próximas edições, mas dessa vez vai ser um texto bem pobrinho porque isso nem me passou pela cabeça (n00b).

Tudo bem se você não tiver o mínimo interesse no que eu fiz nos últimos dias — você tem outros seis posts sobre assuntos variados ainda fresquinhos para conferir. Se já tiver lido todos, também pode voltar amanhã que vai ter mais.

Domingo foi um dia comum, de almoço de família, com o bônus de ser churrasco de aniversário de um dos meus primos. Eu e meu yakisoba vegetariano comparecemos, mas ele voltou como veio porque atraí subliminarmente minha priminha pro lado vegetal da força e garanti a inclusão de legumes grelhados no cardápio. Ainda devorei a melhor parte do churrasco — a banana.

O começo da semana foi de correria, como sempre são as semanas em que faço ponte aérea. Segunda e terça coloquei em dia e adiantei tudo o que consegui.

Na noite de segunda ainda deu tempo de embarcar em uma date night das minas com as amigas. Assistimos A Era do Gelo no cinema, comemos, jogamos conversa fora — esse tipo de coisa que faz a vida valer a pena.

Terça à noite caí no sono enquanto tentava ficar em dia com Liberdade, Liberdade.

Quarta acordei às quatro da madruga para voar.

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Quarta e quinta-feiras estive em São Paulo, trabalhando. Claro que não sou de ferro e aproveitei para comer, apreciar o cenário e conhecer novos ares.

Por “novos ares” leia-se a USP, para onde menina Milena me guiou na noite de quarta-feira, onde pude acompanhar alguns minutos de uma aula de introdução à literatura russa que me deixou até com vontade de fazer faculdade de novo, e comi um salgado vegano (uma cantina que vende salgados veganos!).

No meio tempo, baixei e me viciei em Pokémon Go, obviamente. Esse jogo com certeza não é de deus. Eu literalmente tenho pensado em pokémon o dia inteiro e isso não é normal — talvez eu esteja precisando de ajuda profissional.

Outra coisa nada relevante que aconteceu na minha vida nesse tempo foi que eu comprei um caderno lindo (e bem inflacionado) para me incluir nessa nova moda de bullet journals. Eu sei que eu disse que sinto um prazer inconsciente em desafiar tendências, mas eu AMO organizar e essa era justamente uma das poucas tendências para a qual eu não me sinto capaz de virar as costas. E amo cadernos também.

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Não estou fazendo nada artístico, meu foco é realmente a organização — com pequenas concessões para algumas firulinhas. Ainda nem comecei mesmo, mas já estou me divertindo bastante. Tudo bem se vocês acharem que meu conceito de diversão é um pouco estranho.

Sexta foi feriado na Cidade Maravilhosa por motivo de olimpíadas. Aproveitei a oportunidade para empacotar minha gata e fazer um retiro bucólico na casa dos meus pais. A escassez de pokestops nas redondezas está me enlouquecendo — estou atualmente sem pokebolas e em abstinência.

Dediquei os últimos dois dias a maratonar as centenas de capítulos de Liberdade, Liberdade que deixei acumular. Algumas horas atrás assisti o último e agora estou oficialmente órfã.


Episódios de qualquer coisa assistidos:  17
Filmes vistos: 1
Feijoadas dos sonhos comidas: 0
Pokémons capturados: 115

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Gênero, violência e eufemismo

Em 05.08.2016   Arquivado em Feminismo

Desde a última vez que falei sobre feminismo aqui, tenho estudado bastante. O grupo de estudos dos sonhos que eu mencionei sem nenhuma pretensão acabou nascendo e me apresentando mulheres incríveis que eu nunca teria conhecido sem isso. Tenho frequentado também algumas rodas de discussão e conversado com amigas, e quanto mais eu estudo e penso, mais minha cabeça se abre para tudo o que eu não enxergava antes. Recomendo.

Inclusive, atualizei o texto anterior.

No meio de todas essas revelações que eu tenho tido, tenho vontade de dividir muita coisa aqui, porque dividir informações é importante e porque (aprendi nesse meio tempo, vejam só) as “teorias” radicais são tão ancoradas na vivência e surgem tão organicamente em grupos de discussão que todas precisamos parar para registrar de tempos em tempos ou tudo acaba se perdendo.

Gênero, violência e eufemismo

Entre as muitas coisas sobre as quais estudei, refleti e ouvi discussões (não acho justo dizer que participei porque não aprendi ainda a me comunicar em grandes grupos) está a ideia de gênero. Não vou discutir o que é ser mulher, é sobre o próprio conceito de gênero que vamos falar — e a razão pela qual eu não gosto desse conceito. O que diabos é gênero?

O princípio básico é que gênero é construção social. Existe uma sociedade composta por indivíduos que são divididos em dois grupos que possuem características e comportamentos próprios e obrigatórios.

Existem milhares de forma de fazer com que os indivíduos se conformem às características e comportamentos atribuídos ao grupo em que foram compulsoriamente inseridos. As mais eficazes envolvem socialização — criação direta pela família, exemplo, mídia, pressão social. Para quem não se conforma, existem tipos variados de punição. Mas isso é assunto para outro momento.

O conceito de gênero é invenção muito recente. O termo começou a ser usado entre as décadas de 70 e 80 do século XX. Antes disso já existia feminismo e todo mundo se entendia perfeitamente bem usando a expressão “sexo”. Qual a necessidade de se falar em gênero, então?

É bem simples: criando a expressão gênero para identificar a construção social binária, se naturaliza o conceito de sexo. Sexo passaria a ser nada mais do que a divisão biológica da população entre indivíduos macho e fêmea. Só que não é bem assim — historicamente a divisão entre sexos só tem relevância porque é atribuído um valor a cada uma dessas classificações. O sexo não é neutro.

Outro efeito relevante é a expressão gênero é um eufemismo, e tira o foco das violências sofridas por mulheres. É só comparar as expressões “violência de gênero” e “violência contra a mulher”. Na primeira, qualquer um pode ser vítima, é uma coisa absolutamente abstrata e desconsidera completamente todas as centenas de tipos de violência que mulheres sofrem desde o nascimento por serem mulheres.

Nós permanecemos à margem, à sombra, durante todas as nossas vidas, sendo esmagadas, onde sempre estivemos. Nós precisamos nos colocar como o centro e lutar por nós mesmas. Nós já fomos passadas para trás muitas vezes antes.

A ideia de gênero não contempla mulheres. É só mais uma forma de nos deixar de lado, esvaziar nossa militância, desviar o foco. É dar um tapinha no nosso ombro, mandar colocar/não tirar o batom vermelho (e/ou qualquer outra coisa que envolva essa ideia erradíssima de “empoderamento” que não empodera ninguém), e vamos falar de outra coisa agora. E novamente nossa luta fica para trás.


Leituras recomendadas

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Felinismo – um guia para iniciante

Em 04.08.2016   Arquivado em Pessoal

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Eu não nasci uma cat person. Na verdade, eu não nasci nem uma animal person. Quando eu era pequena, tudo o que eu tinha era peixinhos, porque meus pais sempre foram completamente contrários à ideia de ter um bicho dentro de casa. Como criança que assistia filmes demais, eu queria porque queria um cachorrinho, mas como a resposta era sempre não, eu desenvolvi medo de cachorros (já superei essa questão). Mas gatos eu realmente não podia ligar menos.

Com uns dez ou onze anos, meus pais me deixaram ter um hamster. Stuart que depois de um tempo descobrimos que era fêmea. Thutty não durou muito, mas foi um chororô generalizado em casa quando a bichinha morreu — começando pela minha mãe. Em 31 de dezembro dos meus doze anos, chegou Polina, a calopsita — que segue viva e muito bem de saúde obrigada.

A Po é infinitamente melhor que um peixe ou um hamster já que, para começo de conversa, ela tinha autorização para ficar solta passeando pela casa e tem uma personalidade amorosa porém muito voluntariosa (mimada) bem igual à minha. Como calopsitas sentem muita falta de companhia e podem entrar em depressão e morrer se ficarem muito sós, acabei deixando a bichinha com os meus pais quando me mudei, assim ela e papai aposentado poderiam fazer companhia um ao outro. Voltemos aos gatos.

Uma das minhas amigas de infância (ou pré-adolescência, sei lá) sempre teve gatos, mas era a única cat person que eu conhecia antes desse bum felino que vivemos atualmente. Somos bffs até hoje, mas eu nunca fui frequentadora assídua da casa dela e até hoje, tendo pego paixão por gatineos, eu tenho pavor de Noah, o gato dela.

E então, aproximadamente dez anos depois, eu arranjei outra amiga com gato. Lola é uma gata maravilhosa, fizemos amizade (pelo menos eu fiz e ela fingiu muito bem que fez também), e foi aí que eu encontrei meu amor por esse mundo felino — gatos não eram necessariamente maus ou antipáticos, eles são amor.

Isso faz para lá de dois anos, e desde então eu decidi que eu precisava muito de um gato e minha vida não seria completa sem isso. Só tinha um probleminha.

Eu ainda morava com os meus pais e eles não me deixaram.

Algum tempo depois, me mudei. Fui morar com Letícia, e ela também vetou.

Mas eu não desisti. Segui insistindo e ela viu que eu nunca ia superar essa ideia fixa. Um belo dia, estava eu andando com mamãe perto da casa dela e passamos por uma feira de adoção. Me apaixonei por um filhotinho. Mandei mensagem para Letícia e ela disse sim. Mas eu medrei e fui embora — e depois contei a frustração na newsletter.

A partir daí, eu não tinha mais desculpa para não ter um gato, então tive que admitir que eu seguia querendo muito, mas estava igualmente apavorada com a responsabilidade. Decidi deixar a ideia para lá.

Um belo dia, estava de boas zapeando pelo facebook, quando aparece o compartilhamento de uma amiga sobre uma gatinha branca de olhos azuis maravilhosa. Ela tinha crescido na rua, a guria que fez o anúncio tinha levado ela para ser castrada, mas se ela não arranjasse um lar ia voltar para a rua. Sofri com a ideia. Então, antes que eu percebesse, eu era a feliz tutora de uma filhote de gata branca gigantesca porém ridiculamente linda.

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Como estava recém-operada, combinamos que meu bebê só iria para a minha casa uma semana depois, quando tirasse os pontos. No meio tempo, eu precisava aprender tudo sobre gatos e providenciar o enxoval para a bichinha. Mas como eu tenho muita noção de prioridades, comecei escolhendo o nome.

Fiz uma reunião virtual com meu grupo felinístico e várias sugestões foram dadas. Por pouco ela não se chama Neide, porque eu sou creiça e chamar a gata de gataneide parecia ótimo. Mas antes de bater o martelo, resolvi fingir que sou uma pessoa séria e fui procurar pelo significado. Acabamos ficando com Mabel — amável, amorosa. Sim, igual ao biscoito.

Esse mesmo grupo me ajudou a definir tudo o que eu precisava comprar/providenciar para receber bem minha nova companheirinha de vida, e agora resolvi compartilhar meus poucos conhecimentos. Vamos à parte prática desse texto.

  1. Segurança primeiro: tela nas janelas

Eu moro no oitavo andar, e não seria a coisa mais legal do mundo se a gata resolvesse tentar voar. Gatos filhotes têm muita energia, e qualquer gato (ou pelo menos a esmagadora maioria) tem instinto de caça, o que significa que eles vão se jogar da janela atrás de qualquer coisa que se mova.

Mesmo para quem mora no térreo, telar é altamente recomendável. Gatinhos que saem na rua estão muito vulneráveis a infinitos perigos — dede doenças até serem atropelados. Melhor não.

  1. Enxoval, itens básicos

Gatos precisam de coisas, obviamente. Então é preciso investir tempo e dinheiro para montar o enxovalzinho do bichinho. Eu fiz uma lista bem básica, porque não adianta comprar o mundo logo de cara — gatos têm muita personalidade e é bom conhecer bem seu gatinho antes de gastar rios de dinheiro em coisas que eles não vão dar a mínima.

Segue uma pequena lista do que é realmente essencial:

  • Pote de comida – se você for alimentar por refeições, como eu faço, não precisa ser muito grande.
  • Pote de água – pode ser maior, porque gatos têm tendência a problemas renais e precisam de muita água.
  • Comida – não dê qualquer comida pro seu gatineo. Existem tipos de ração (normal, premium, super premium). Whiskas é altamente não recomendável, segundo me informaram dá muito problema renal. Premium tem a Goden, que é boa; comecei com essa. Super premium são as melhores (e, obviamente, as mais caras), elas são feitas com ingredientes melhores e ajudam a manter a saúde do bichinho — as super premium mais conhecidas são a Premier e a Royal Canin. Também é importante escolher a comida de acordo com a idade do gatinho. Gatos até um ano devem comer ração específica de filhotes.
  • Caixa de areia – existem também vários modelos, abertas e fechadas. O ideal é que as laterais sejam mais altas, para espalhar menos areia. Algumas têm também uma abinha para dentro para ajudar a manter a areia dentro da caixa (mas sempre vai escapar alguma areia).
  • Areia – nada é fácil, mais uma vez existem modelos. Dá para usar areia propriamente dita (mas areia específica para gatos, areia comum de construção pode transmitir vermes), que deve ser limpa pelo menos uma vez ao dia e completamente trocada semanalmente. A outra opção é a sílica, que deve ser limpa também pelo menos uma vez ao dia, mas pode ser trocada só uma vez por mês. Eu uso sílica.
  • Caixa de transporte – você vai precisar para levar seu bebê ao veterinário e para tomar vacinas.

Existem infinitas coisas que você pode comprar, mas essas são essencialmente as mais importantes. Mabel até hoje não tem cama — ela dorme comigo, normalmente, e eu tinha dois almofadões que deixei no chão do quarto e da sala para ela. No fim, eles vão deitar e dormir onde bem entenderem. Ela também tem um cobertorzinho que ganhou da minha mãe, ela arrasta ele por aí e é uma fofura.

Arranhador pode ser uma boa ideia para evitar que eles arranhem muito os móveis. Mabel tem um e até arranha ele, mas continua arranhando os móveis mesmo assim. O segredo é desapegar, ou investir um tempo considerável (que eu não tenho) educando seu novo gatinho.

Mabel também não ligou a mínima para os brinquedos que eu comprei, o mais indicado é improvisar. Ela adora bolinhas de papel, de saco plástico ou de meia, fitas, sacolas e caixas de papelão. Ou basicamente qualquer coisa que ela ache interessante e queira roubar — como os meus óculos ou meu celular. Então provavelmente não é necessário gastar muito dinheiro com isso.

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Cortador de unha específico também é uma ótima aquisição e não muito caro. Gato de unha cortada é uma coisa muito mais agradável de se ter em casa, porque algumas brincadeiras deles envolvem dar bote nas pernas de qualquer passante desavisado.

  1. Saúde

Uma das primeiras coisas a se fazer é levar seu gatinho no veterinário, para um checkup geral e vacinas, e também porque ele vai dar instruções mais específicas de como cuidar do bichinho, receitar antipulgas e vermífugo e o que mais ele achar que deve, e te dar a carteirinha de vacinação. Mabel ainda passou também um mês tomando vitamina diariamente, e eu tive que passar alguns remédios nas orelhinhas porque ela estava com sarna. Também é fundamental castrar seu gatinho assim que possível para evitar problemas de saúde futuros.

As vacinas podem dar reações adversas, não se desesperem. Mabel teve febre depois da primeira dose da quádrupla e eu fiquei arrasada. Mas passou.

Pouco tempo atrás ela também teve um comecinho de conjuntivite e eu corri de volta para a clínica. Depois de uma semana de colírio de doze em doze horas, ela ficou nova de novo.

Com isso tudo só queria dizer que: gatos não são brinquedos, nem coisas, são seres vivos que têm (muita) personalidade, sentimentos, necessidades e ficam doentes como qualquer outro ser vivo. Isso quer dizer que é preciso ter muito comprometimento e responsabilidade, porque é um investimento emocional e financeiro bem razoável, e é muito feio se comprometer com um bichinho e voltar atrás depois.

Tudo isso foram coisas que nem me passavam pela cabeça quando resolvi que precisava ser adotada por um gato, mas que precisamos levar em consideração antes de tomar qualquer decisão. Mas mesmo com todos esses “detalhes”, eu não voltaria atrás na minha decisão mesmo que fosse possível. Esses quatro meses e meio de Mabel na minha vida foram maravilhosos, e já não consigo imaginar minha vida sem essa coisinha levada e adorável.

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(Perdão pela qualidade cagada das fotos, era o que tinha pra hoje.)

Fazendo do bar um lar: uma declaração de amor à Lapa

Em 03.08.2016   Arquivado em Pessoal
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(Foto: Rio Forest Hostel)

Como cria da Zona Oeste, Lapa não foi um lugar do qual eu ouvi muito falar até entrar na faculdade. Sem meios de locomoção independentes, dependendo de um transporte púbico pavoroso e com 0 interesses em gastar uma fortuna em taxi, eu acabei me criando pela Barra da Tijuca mesmo.

Com 17 anos, comecei a estudar no Centro da Cidade, na faculdade de direito da UFRJ, e foi então que os primeiros rumores desse mundo novo chegaram aos meus ouvidos — mas não muito, porque durante a maior parte da faculdade eu fui uma pessoa calma e caseira, e minhas amigas também eram dessas.

O tempo passou, duas das minhas amigas se mudaram para uma quitinete nesse bairro mítico cercado de mistério (para mim) e aos poucos eu fui descobrindo o universo maravilhoso das festas alternativas da Lapa, dos bares da Lapa, da vida lapeana em geral. Mas a princípio não tanto assim porque ainda era muito longe de casa, uma fortuna de taxi de lonjura nos tempos pré-uber, e muita mão de obra para um ser do meu nível de preguiça.

Então, bem por acaso, no final da faculdade, eu acabei criando laços afetivos especiais com Letícia, atual roomie, uma das duas que moravam por lá, e resolvemos juntar nossas escovas de dente — mas não em um sentido romântico. Nos formamos, enfrentamos a saga de encontrar e alugar um lar, e assim nasceu Edna, o apartamento.

Para quem mora em Marte e não está familiarizado com esse bairro maravilhoso, a Lapa é o centro da vida boêmia do Rio de Janeiro. Existem bares e boates em outros lugares — principalmente na infame Barra da Tijuca e no turistódromo conhecido como Zona Sul –, mas a Lapa é a Lapa.

Muita gente acha a Lapa um lugar muito perigoso. Até eu me mudar, eu também achava; meus pais achavam mais ainda. Mas eu fui mesmo assim porque confiei em Letícia e a lista de prós e contras pareceu dar um saldo favorável. Meu conhecimento do local era quase nulo, mal sabia me localizar, mas eu tinha certeza que tudo ia dar certo. E deu.

Se antes eu achava a ideia da Lapa bem simpática, hoje eu sou apaixonada por aquele lugar. É um bairro que tem o clima intimista dos subúrbios, uma vibe incrível — levemente decadente de um jeito pitoresco, e muito amigável –, todo o tipo de vida noturna — e diurna também — que se pode desejar (em qualquer dia da semana, menos segunda), e ainda fica NO CENTRO. É um pulo de distância da Zona Sul, mas muito mais barato e com um clima bem diferente. É o melhor lugar do mundo.

Nesse ano e cinco meses que moro lá, eu desenvolvi uma conexão emocional com aquele lugar que eu nunca tive com nenhum outro lugar que eu morei (apesar de lembrar com carinho de todos). A Lapa é meu lar. E já apaguei completamente qualquer lembrança do pensamento “é perigoso” que algum dia possa ter ocupado a minha mente. Eu ando aquelas ruas como se fossem o quintal de casa, a hora que for, com ou sem álcool. Eu me sinto segura de verdade ali.

Não garanto que vou morar lá para sempre porque só a deusa sabe por que caminhos a vida vai me levar e eu ainda quero ver muita coisa nesse mundo, mas acho que essa sensação de lar sempre vai estar associada a esse pedacinho de mundo. É muito bacana essa sensação de pertencer.

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Inferno astral e a arte de metapensar

Em 02.08.2016   Arquivado em Pessoal

Eu penso demais, desde que me entendo por gente. Normalmente não aquele tipo de overthinking que paralisa, é só uma incapacidade crônica de diminuir o fluxo de pensamentos e relaxar. Eu penso sobre tudo, sobre o que eu leio, sobre o que eu assisto, o que eu como, o que eu faço, sobre mim mesma e sobre meu lugar no mundo. É uma quantidade insana e nada saudável de pensamentos por minuto. E no inferno astral, eu penso mais ainda.

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Para quem não sabe (provavelmente 99,979% do mundo), meu inferno astral desse ano de 2016 aconteceu entre 7 de junho e 6 de julho. Durante esse breve-porém-interminável período, eu poderia ser escrito enciclopédias com tudo o que passou pela minha cabeça só na curta caminhada entre o trabalho e a minha casa.

Eu considero pensar um exercício muito saudável, mas não é porque o “músculo” exercitado é o cérebro que não seja exaustivo. Pensar cansa muito, e é uma atividade sem fim, e às vezes isso é meio desesperador.

No mês que antecedeu a data em que eu completei minha vigésima-quarta volta em torno do sol, eu passei por fases suficientes para encher uma vida — começando em “a vida é tão bela, mesmo dentro da rotina” e terminando em “eu sou um peso morto, completamente inútil para o mundo”. Entre um extremo e outro, recaí diversas vezes na tarefa árdua de metapensar — apelido carinhoso que eu dei à arte de pensar sobre pensar — o que rendeu uma quantidade considerável de pensamentos filosóficos que, na época, eu considerei profundos e belos, mas que caíram no esquecimento em aproximadamente trinta segundos.

Foi no meio do caminho em um desses dias que eu percebi como é fútil esse ato de pensar. Comecei a questionar qual o objetivo de investir tanta energia nesse esforço mental quando todas as ideias começam a ser esquecidas no momento em que nascem. Uma ou outra acaba registrada, meio que por acaso, mas a esmagadora maioria vai embora sem deixar rastro — como acontece também com as pessoas.

Essa consciência súbita me deixou bem chateada. Eu sou prepotente o suficiente de acreditar que alguém em algum lugar pode ter interesse no que eu penso — ou não estaríamos aqui nesse momento. Mesmo que ninguém tenha e eu esteja falando com as paredes, de quando em quando eu gosto de investir algum tempinho em uma sessão saudável de autoadmiração, mas então eu me dei conta de que existe uma possibilidade real de que os meus melhores pensamentos e ideias se percam no espaço incorpóreo e eu acabe sem nem lembrar que eles existiram algum dia. Muito potencial desperdiçado.

Cheguei em casa verdadeiramente exasperada, arrasada e exausta (o drama é livre durante o inferno astral), me joguei na cama e mandei uma mensagem para uma amiga contando como eu estava sentindo que minha cabeça está eternamente vazando gasolina.

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Descontando todo o excesso de drama, esse pensamento ainda me assombra de tempos em tempos — o fantasma de todos os pensamentos que quase não chegaram a ser. Talvez por isso eu tenha começado a me esforçar para registrar tudo o que eu posso. E então chegamos a esse momento do tempo e espaço, com esse texto possivelmente sem sentido escrito na esperança de que mais alguém em algum lugar tenha uma pira parecida com a minha e queira compartilhar essa angústia.

Indivíduo em rosto, se você estiver aí, apareça. Vamos ser migas.

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Primeiramente, uma analogia pedante

Em 01.08.2016   Arquivado em Pessoal

Mas, antes disso, uma “confissão”: eu li quase todos os livros do Paulo Coelho. Pelo menos todos que foram lançados até os meus 13 anos. Comecei com Brida e Diário de um Mago, que morro de vontade de reler, mas ao mesmo tempo morro de medo te estragar a memória afetiva que tenho deles. Enfim. Vou chegar a algum lugar, juro.

O Diário de um Mago é basicamente o livro de memórias do autor durante a época em que ele percorreu o caminho de Santiago. Considerando que eu era criança quando li esse livro, minhas memórias dele são muito vagas, mas o que eu me lembro bem é que esse foi o pontapé inicial para eu querer fazer essa peregrinação ligeiramente insana e sem sentido — mas talvez a graça seja justamente que o sentido da peregrinação seja a peregrinação em si. Prossigamos.

Para quem não conhece, o caminho de Santiago é um caminho tradicional de peregrinação atravessado por milhares (milhões?) de pessoas todos os anos, por motivos religiosos ou não. O ponto que mais chamou minha atenção é que essa caminhada sempre me pareceu uma oportunidade inigualável de exercitar o autoconhecimento, e eu tenho essa fixação particular desde criancinha. (Talvez eu tenha sido uma criança um pouco peculiar, talvez não.) O caminho completo, pela rota francesa, tem em média 750km e leva em média um mês para ser percorrido.

Um dia (talvez mais breve do que vocês imaginam) eu vou fazer a caminhada. Mas até lá, existem outras formas de brincar de autoconhecimento. Uma delas, que eu venho usando há muitos anos e segue sendo uma das minhas grandes paixões na vida, é a escrita.

O ato de escrever pode parecer completamente desprovido de esforço físico, mas eu encaro como um exercício igual a qualquer outro. O segredo é encarar o cérebro como um músculo que também precisa ser exercitado. Desde que eu comecei a sonhar em escrever um livro — sabe-se lá quando foi isso — eu busco constantemente sugestões e dicas de quem está nessa trilha há mais tempo, e um dos ensinamentos que eu mais vi repetido é que escrever não é  sobre inspiração. É transpiração, é exercício. Quando eu internalizei essa lição, tudo começou a fluir imensamente mais fácil.

Nem sempre eu sei como começar, ou que caminho seguir. Mas começar é preciso, nem que seja com rabiscos sem nenhum sentido, só para tirar alguns parágrafos de abobrinha do sistema e então começar tudo de novo, com mais foco. Foi como chegamos aqui agora, mais uma vez no início dessa peregrinação metafórica de um mês popularmente conhecida como BEDA.

A experiência do ano passado foi muito boa, mas não foi tão intensa quanto eu gostaria, porque passei metade do mês dividida entre isso e uma viagem, e obviamente a viagem levou a melhor nessa competição. Ainda assim, cheguei ao final. Esse ano, eu já tinha descartado a ideia de participar de novo, mas não resisti a essa movimentação gostosa que eu vi rolando por aí.

Até hoje mais cedo, eu considerava a blogosfera morta e enterrada. Boa parte dos blogs que eu conheço e estava acostumada a acompanhar estão desatualizados há tanto tempo que eu já considero devidamente aposentados. Esse espacinho humilde onde agora nos encontramos podia muito bem ser incluído na lista. Mas esse fato não me desestimulou a encarar o desafio que agora começamos, porque o que importa não é o onde, e sim o quem.

Eu sou uma pessoa que escreve, eu amo escrever e poucas coisas na vida me fazem sentir tão bem e realizada. Eu poderia, como faço, escrever aqui, na newsletter, em um milhão de sites, em um caderno. A realização que qualquer texto escrito me traz é a mesma (desde que eu seja capaz de me orgulhar dele por pelo menos cinco minutos). O blog é só um meio. Se um dia eu deixar de aparecer aqui, tudo bem — desde que eu continue a escrever. A escrita está em mim, não em uma página da internet ou outra.

Acho que o segredo de se viver leve é não se apegar a coisas. Eu não consigo evitar me apegar a pessoas, mas coisas são só coisas. Eu tenho compulsão em me livrar de coisas, fazer a limpa no armário, doar o que não tem mais uso pra mim, jogar fora o que não presta mais. A energia precisa circular, para que a vida siga em frente. E não é porque a coisa é virtual que não pesa. O que pesa é o apego. Então eu tento exercitar o desapego em todos os aspectos possíveis.

É por isso que hoje eu começo mais esse exercício, sem saber ainda se vou chegar ao final. Não pelo blog, mas por mim. O blog é um cantinho querido porque carrega um pedaço da minha história — mas o dia que ele se for, se foi. O futuro ao acaso pertence e tudo bem. Sigo escrevendo e percorrendo meu caminho independente de qualquer coisa. Não importa aonde eu chegue, o que importa é a caminhada e o que eu vou tirar disso tudo. E enquanto eu estiver escrevendo, está tudo bem.

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Solitários S/A: a família que se encontra pelo caminho

Em 15.06.2016   Arquivado em Filmes, Livros, Pessoal

Brooklyn, solidão e família

Quando assisti Brooklyn pela primeira vez, o começo do filme estraçalhou meu coração; talvez porque eu tenha me visto na Eilis, ainda que em um futuro hipotético. A sensação de definitividade daquilo tudo: dar as costas a toda uma vida e partir sozinha para o próprio destino, em um lugar estranho onde não se conhece ninguém e sem previsão de voltar, me deu uma sensação de vazio e solidão tão grandes que eu não consigo traduzir bem em palavras. É algo que eu anseio e temo ao mesmo tempo.

Mesmo que eu não tenha passado por nada daquilo ainda, eu automaticamente me coloquei no lugar dela, e senti (talvez de forma mais aguda do que se fosse realmente eu ali) toda a estranheza daqueles jantares na pensão, a disciplina dissociada do ambiente familiar, os costumes estranhos, o novo emprego. Mesmo eu não sendo uma jovem irlandesa de uma cidade do interior antes dos tempos da comunicação fácil e irrestrita, eu senti saudades e chorei e quis voltar. E então a vida começou a acontecer.

Para Eilis, veio na forma de uma paixão, um casamento e a perspectiva de uma nova família nos moldes tradicionais. Para Angela Clark, personagem principal de I heart New York (livro que a mamãe comprou quando nós realmente estivemos em NY e quem acabou lendo fui eu), foram amigos.

A história da Angela é peculiar porque ela não planeja conscientemente emigrar. Um belo dia, em um casamento, ela descobre em primeira última mão a traição do noivo, pega um avião e vai parar… Também em Nova York. Também sozinha, também sem nada concreto e também construindo uma nova vida. E até o último segundo ela nem tem certeza se vai mesmo construir uma nova vida nesse novo lugar.

Mais uma história, ainda em Nova York, sem relação aparente. A Redoma de Vidro. Talvez esse seja mais difícil de associar, na prática, com as histórias anteriores, mas por algum motivo, a sensação que me passa é a mesma. Ainda que a Esther só esteja por lá de passagem e acabe voltando para a casa da mãe, a história de desconexão dela começa bem antes, quando ela entra na faculdade, e se estende mesmo com a volta para casa.

O essencial para a associação possivelmente aleatória que se formou entre as três histórias na minha cabeça é justamente o estranhamento de estar em um ambiente novo, diferente, segregado de tudo aquilo que conhecemos pelo conceito tradicional de família. É a sensação de alheamento que essas três personagens específicas, dentro todos os exemplos de personagens na mesma situação, me passam.

O ponto central entre essas três histórias, além da cidade que serve de plano de fundo (e, algumas vezes, de personagem), é justamente essa redoma de vidro em torno das personagens principais e que varia, entre elas, de um estágio normal da mudança de vida radical pela qual se está passando até um estado realmente patológico. Na maioria dos casos, essa redoma começa a desmoronar à medida que novas conexões são formadas com as pessoas em volta. Existe vida ali, existem seres humanos. E como eu me identifiquei com essa sensação, mesmo que eu não tenha deixado a minha própria cidade.

O momento de deixar o ninho é cheio de muitas emoções, boas e ruins — geralmente boas e ruins ao mesmo tempo. É assustador e solitário pensar em chegar em casa e não encontrar os rostos familiares que antes estavam ali. É assustador pensar em encontrar, nesse mesmo lugar, rostos diferentes, possivelmente menos amigáveis. É assustador pensar que os rostos que você foi ensinado a acreditar que sempre estarão lá para correr em seu auxílio em caso de colapso agora vão estar a duas horas de distância, ou três ou cinco ou doze. Ou do outro lado do oceano. É assustador pensar que mesmo que todas essas pessoas continuem existindo em algum lugar, você pode estar só.

A princípio parece mesmo que você está só. Então as pessoas começam a aparecer de todos os lados. E a sensação passa.

Passa porque estar sozinho não é o fim do mundo. E passa porque novas conexões começam a se formar, mais fortes justamente porque se está sozinho. Conexões com pessoas possivelmente tão merecedoras do título de família quanto a anterior. São novos amores, novos amigos, novos rostos que já não são mais tão desconhecidos. Novos abraços e novos gestos mostrando que incondicional é um conceito mais relativo do que se podia imaginar, e que essa história de que amor e dedicação têm alguma relação necessária com sangue e genética não faz sentido nenhum. No fim, quem vai estar ali para você é quem quer estar, e não quem tem alguma obrigação natural questionável de estar.

Não é um conceito fácil de formular, quando fomos ensinados desde sempre que as pessoas com quem podemos contar são a família e que a família é formada por laços de sangue. Chega a ser subversiva a ideia de que esse líquido vermelho que corre nas nossas veias sirva mesmo só para carregar oxigênio e exercer um punhado de funções biológicas, enquanto o essencial para a conexão entre os seres humanos é determinado por outros fatores. Pela química, pela energia, pela alma — cada um dá o nome que quer — que pode ou não vir no pacote. Mas uma vez que se pensa o suficiente sobre isso, o bastante para desconstruir a ideia de que amor e identificação são compulsórios, é algo libertador e reconfortante. Porque significa que, independente do que aconteça no caminho e da sua sorte ao nascer, o jogo nunca está perdido, e nós nunca estamos realmente sós.

Isso foi só uma das muitas coisas que a Eilis, a Angela e, sim, a Esther também, me re-lembraram, e uma das lições mais importantes que eu aprendi na vida: família não é um conceito fechado, é algo que a gente constrói à medida que a gente caminha. Deixando para trás esse determinismo genético, e incorporando novas pessoas que antes nos eram completamente estranhas.

Feminismo Radical esquematizado

Em 27.05.2016   Arquivado em Feminismo

São quatro da manhã de uma sexta-feira quando eu começo a escrever esse texto, a hora em que habitualmente Gata Mabel fica subitamente carente no meio da madrugada e eu começo a revidar os puxões de cabelo dela com a expulsão da cama. Mas a semana toda eu tenho estado em um surto de energia provavelmente só explicável por psiquiatras, esse blog está às moscas — mais por falta de tempo do que de ideias –, minha cabeça começou a pensar e eu vim parar aqui, cumprindo uma promessa mais ou menos antiga que eu fiz a uma amiga quando me identifiquei como RadFem aqui um tempo atrás: falar um pouco mais sobre feminismo radical.

Como eu não começo nada sem divagar um bom tanto, eu preciso explicar primeiro as causas da minha demora. A principal é que eu simplesmente não me sinto qualificada o suficiente para fazer esse texto. Eu me considero muito nova no feminismo em geral, e principalmente no feminismo radical em particular, e não dedicada o suficiente aos estudos para chegar aqui e dizer que o feminismo radical isso ou aquilo, sabendo que a partir do momento que esse texto sair das minhas mãos para a internet ele vai ser usado por qualquer um que o encontre como uma fonte de informação digna de mais ou menos crédito — e naturalmente tanto mais crédito quanto menos conhecimento a pessoa já tiver sobre o assunto. É um tema sério e isso é muita responsabilidade, motivo pelo qual a princípio eu considerei tratar dele no ambiente mais limitado da newsletter ou por e-mail diretamente com a minha amiga.

Em segundo lugar, a questão é que eu tenho medo. Por causa de um ponto específico que consiste mais em uma não pauta do que em uma pauta do feminismo radical, essa vertente e quem se alinha a ela são muito frequentemente expostas e atacadas na internet, ao ponto de nós termos, sim, medo de nos identificarmos publicamente como feministas radicais e de todos (literalmente) os grupos e coletivos feministas radicais serem secretos e de difícil acesso. Falar abertamente sobre algumas questões é algo que pode gerar consequências e, acreditem vocês ou não, mulheres são inclusive ameaçadas por expor essas ideias, mesmo dentro do próprio feminismo.

Apesar disso tudo, e após muito refletir, eu resolvi vir aqui abraçar essa responsabilidade de tentar repassar um pouco do que eu aprendi para outras mulheres que por acaso tenham algum interesse ou curiosidade sobre os fundamentos mais básicos do feminismo radical e — com alguma sorte — ajudar a atenuar o tanto de informação enganosa e incompleta que existe por aí sobre o tema. Pode parecer que só essa introdução já tenha ficado extremamente longa, e pode ser que esse post acabe sendo dividido em mais de uma parte, mas considerando que eu estou mais preocupada em passar informação do que em receber comentários, possivelmente eu siga de uma vez até o fim e volte depois para tratar com mais especificidade e mais a fundo pautas mais complexas. Quem tiver interesse vai ler até o final, mesmo que em parcelas; quem não tiver, não vai ler de jeito nenhum.

Lembrando sempre que tudo o que eu escrever aqui tem origem, claro, nos meus estudos sobre o tema, mas que qualquer estudo necessariamente passa por reflexões pessoais e ideias individualmente minhas, que podem variar de alguma forma com relação às de outras mulheres dentro da mesma linha. Minha ideia é abordar alguns temas bem introdutórios, seguindo o roteiro abaixo (podem apreciar o didatismo):

  1. Feminismo radical: conceito e nomenclatura
  2. Conceitos relevantes dentro do feminismo radical
  3. Recortes no feminismo radical
  4. O que nós não contemplamos e por que
  5. Algumas pautas principais
  6. Por que eu escolhi o FemRad (ou por que o FemRad me escolheu)
  7. Algumas indicações de leitura

Texto atualizado em 06/08/2016, e eternamente aberto a atualizações porque ainda tenho muito a estudar.

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Feminismo radical: conceito e nomenclatura

Na linguagem popular, o termo “radical” acaba sendo sempre relacionado à ideia de extremismo, quando em sua origem as duas ideias não tem nenhuma ligação necessária. O termo “radical” significa relativo a raiz, que busca as raízes de determinada coisa. Feminismo radical, especificamente, tem a pretensão de identificar, analisar, refletir sobre e desconstruir a opressão feminina a partir de suas origens — sim, é algo tão complexo quanto parece, e por vezes doloroso também.

Não é à toa que falar de feminismo radical é falar, mais cedo ou mais tarde, de Simone de Beauvoir — frequentemente considerada a mãe e inegavelmente uma das maiores, se não a maior, pensadoras dessa vertente. A obra principal dela é O Segundo Sexo, um livro imenso (composto na verdade por dois volumes, que às vezes se encontram reunidos em um único exemplar), denso, de leitura difícil e com uma carga de pesquisa e informação estratosférica. (Que eu ainda não terminei de ler.) Para quem não conhece, nessa obra Simone mergulha a fundo em pesquisas e dados sobre o que é ser mulher sob diversos prismas — biológico, histórico, social, cultural etc. O livro é considerado uma bíblia do feminismo radical por seus próprios méritos, mas obviamente é um investimento imenso de tempo e energia mental, e nem toda feminista radical já leu, está lendo, ou vai lê-lo em algum momento — assim como nem todo católico já leu ou tem interesse em ler a bíblia deles — e isso não faz de ninguém menos feminista radical, o que não significa que quem não bebeu diretamente na fonte não vai conhecer as ideias dela, mesmo que nem sempre saiba que são dela. Se você tem interesse, disposição e tempo para investir na leitura, é bem interessante.

Mas Simone obviamente não é a única voz dentro do feminismo radical. Muitas outras mulheres pensaram e pensam a teoria radical e escrevem sobre isso, bebendo ou não (ou, talvez, bebendo em maior ou menor grau, direta ou indiretamente) na fonte de Simone. O ponto central é que o estudo — seja por meio de “obras tradicionais” de teóricas consagradas, seja por textos e/ou discussões qualificadas na internet — é importantíssimo na linha radical, porque padrões, ideais e comportamentos sociais estão sempre muito bem integrados no nosso inconsciente e na nossa personalidade para que a gente perceba espontaneamente. Ou, também, porque mesmo quando percebemos, é preciso refletir em conjunto e discutir com o objetivo de conseguir considerar qualquer tema da forma mais abrangente possível.

Por essa e por outras uma das grandes críticas à vertente é que ela seria academicista demais e se importaria mais com a teoria do que com a vivência das mulheres. Eu discordo completamente porque (1) não dá para pensar em nenhuma teoria e militância que não dialogue com a sua vivência, e qualquer teoria que contrarie a vivência (em nível coletivo, não individual) não se sustenta, e (2) fosse assim, homens poderiam apenas estudar a teoria e ter tanto conhecimento sobre feminismo quanto uma mulher — coisa que a gente não aceita mesmo (feminismo não é lugar de homem, a não  ser — talvez — para feministas liberais).

Conceitos relevantes dentro do feminismo radical

Seguindo em frente antes que eu escreva uma nova bíblia que acabe com a boa vontade de todo mundo, preciso destacar alguns conceitos que eu considero especialmente relevantes para começar a compreender a teoria feminista radical. Especificamente o que o feminismo radical entende como gêneropatriarcadoopressão estruturalsocialização.

Gênero é, desses todos, obviamente, o conceito mais importante. Socialmente falando, existem dois gêneros: o feminino e o masculino. Para nós, feministas radicais, o gênero não é algo natural. Nós encaramos o gênero como uma construção social, que se constitui e se perpetua por meio da socialização — que é tudo o que acontece com você a partir do momento em que te identificam como fêmea ou macho, muitas vezes antes mesmo do nascimento. Nós não acreditamos em nenhum “sentimento” ou “alma” ou “cérebro” femininos ou masculinos que não tenham sido socialmente introduzidos nos sujeitos em função de um conjunto arbitrário de comportamentos e regras estereotipicamente associados a determinado gênero. E, sim, a socialização acontece a partir do momento em que o ser humano é identificado como fêmea ou macho com base, principalmente, nos genitais.

A tão repetida (e mal entendida) frase de Simone “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não é nada menos do que uma adaptação à teoria radical do conceito de materialismo histórico de Marx — em resumo: não é a consciência que determina o seu gênero, é seu gênero que determina sua consciência, por meio da socialização. Eu penso o que penso porque fui ensinada a pensar assim.

Fosse apenas uma divisão em categorias (se é que isso é possível), a ideia de gênero seria limitante, mas não danosa em si mesma. Acontece que toda categorização acaba descambando para a hierarquização, em que uma das classificações e tudo o que faz referência a ela é posta como superior. Logo, gênero é hierarquia, e por isso uma violência. O que o feminismo radical defende é a sua abolição.

A hierarquia do gênero masculino sobre o feminino — o patriarcado — está presente desde os primórdios da sociedade, configurando assim uma das três formas de opressão estrutural existentes: de gênero, de classe e de raça (das quais derivam outras opressões que podem ser consideradas sistemáticas, mas não estruturais, e que eu não vou listar porque, sinceramente, não me sinto capaz e não quero causar mais polêmica). Opressão estrutural é outro conceito que nasceu no marxismo, e tem o sentido de uma opressão que é, ao mesmo tempo, histórica e historicamente institucional.

Com esses conceitos, você já consegue muito bem sair por aí estudando sozinha na internet mesmo, então vamos seguir.

Recortes no feminismo radical

Uma outra crítica feita ao feminismo radical, em geral por gente que nunca teve contato com a teoria radical, é de que essa vertente não faria recorte (i.e. diferenciações e análises diferenciadas em intercessão com outras opressões). Pela própria apropriação do conceito de opressão estrutural pela teoria radical, eu acredito que essa crítica não se sustenta.

Até onde eu conheço a teoria radical, ela abraça e respeita as vivências pessoais de cada mulher, e eu até hoje não cruzei com nenhuma feminista radical que não fizesse recortes. Sim, existem mulheres negras no feminismo radical; apesar de eu entender perfeitamente bem que pessoas com pautas específicas possam preferir e se sentir mais confortáveis em espaços exclusivos que, por sua própria natureza, vão ser mais compreensivos em relação às especificidades envolvidas em determinadas lutas e na interseção entre militâncias diferentes.

Eu não posso dizer que a vertente é livre de racismo, porque onde existem brancos, existe racismo. Porque o racismo é estrutural e está na sociedade como um todo. Nesse ponto, a mesma crítica poderia ser feita ao chamado feminismo interseccional e a qualquer outra vertente, exceto aquelas exclusivas para mulheres negras.

No fim, cada um se alinha ao que escolhe se alinhar, o que não justifica fazer críticas maldosas e falsas às outras vertentes.

O que nós não contemplamos e por que

Esse é o grande ponto de discórdia no feminismo, e a origem de 90% das ofensas sofridas por mulheres alinhadas à vertente radical. Sendo generosa, 9 entre 10 perguntas feita a nós — muitas vezes com o objetivo de desmerecer a vertente e causar intriga — podem ser resumidas a “e as trans?“. Imagino que muita gente acredite piamente que feministas radicais saem por aí com tochas procurando pessoas trans na calada da noite para oprimir, quando na verdade nós só consideramos que a causa das pessoas trans* é algo a parte e que não convém misturar. É uma não pauta muito mais do que uma pauta.

Tudo isso faz referência ao conceito de socialização, explicado mais acima: o feminismo radical entende que a opressão de gênero tem origem na socialização, que — queiramos ou não — é realizada em função dos órgãos sexuais com que se nasce. E inclui o fato de que, historicamente, questões biológicas ligadas ao sexo feminino são estigmatizadas, ignoradas e/ou demonizadas e tratadas com nojo. Nada disso pode ser excluído do âmbito do feminismo sem que se esvazie e asfixie a própria essência do discurso feminista. O feminismo radical contempla todas as pessoas que sofreram socialização feminina desde o nascimento.

Nós não somos hipócritas e nenhum ponto da nossa teoria nega que pessoas trans sofrem, são marginalizadas e/ou oprimidas. Eu nunca ouvi falar de nenhuma feminista que defendesse abertamente que o transativismo não deveria existir. Mas são pautas que divergem do próprio conceito de gênero que é a base da teoria radical e, por isso mesmo, acreditamos que são coisas diferentes e que devem ser tratadas em separado, para melhor proveito geral.

Algumas pautas principais

Ultrapassado o ponto do que nossa teoria não contempla, vou apenas destacar alguns pontos que são importantes dentro da teoria radical, sem explicações no momento, e sobre os quais quem sabe eu trate especificamente no futuro, se eu não me arrepender de enveredar por esses caminhos de blogueira feminista. Enquanto isso, vocês podem pegar essa lista, o Google, e começar a aprofundar seus estudos de forma independente. Vou ajudar com uns links bacanas no final do texto.

Entre as muitas pautas importantes discutidas, temos questões como: família, maternidade compulsória, violência de gênero (que inclui, infelizmente, um leque imenso de modalidades, incluindo a violência obstétrica), aborto, prostituição, pornografia, pedofiliacultura do estupro, heterossexualidade compulsória — e, principalmente, como todos esses pontos estão ligados ao paradigma de poder e dominação masculinos sobre o corpo e o ser femininos. Basicamente, contempla todas as vivências que mulheres passam por serem mulheres.

Por que eu escolhi o FemRad (ou por que o FemRad me escolheu)

Esse ponto é 100% pessoal, ufa! Eu, pessoalmente, decidi me alinhar ao feminismo radical porque foi uma linha que me encantou desde o princípio pela coerência. Eu nunca vi o feminismo radical tratar nada superficialmente, e mesmo quem não concorda com um ponto ou outro precisa concordar que a teoria é consistente e muito forte. Eu tenho, sim, muita inclinação acadêmica — como uma pessoa que, além de sempre ter tido essa inclinação para a área, teve o privilégio de ter tido todas as condições favoráveis e frequentado uma faculdade –, gosto de estudar teoria, e não tem nada de errado nisso, mas essa coerência vem justamente porque toda essa teoria está baseada na vivência. Eu preciso de algo que me desafie, me estimule intelectualmente, e nisso o FemRad tem de sobra, porque não é fácil enxergar e desconstruir coisas que foram ensinadas direta ou subliminarmente durante uma vida inteira.

Deixando claro que essa é minha motivação pessoal. Nem todas as mulheres radicais são privilegiadas, e instrução acadêmica/formal não é um pré-requisito. Desafio vocês a encontrarem feminismo radical sendo ensinado/estudado formalmente dentro da academia — eu pessoalmente nunca vi.

Algumas indicações de leitura

Não vou indicar livros ainda porque (a) eu precisaria fazer uma pesquisa maior, e ainda assim não me sentiria confortável em indicar nada que eu não tenha lido e (b) como artigo introdutório que eu tentei fazer, acho que aqui artigos mais curtos e por vezes mais simplificados vão ser mais úteis. Segue então um materialzinho bacana para vocês se divertirem mais.

Artigos/textos específicos

Alguns sites e blogs úteis (tenho uma lista muito maior, fiz uma seleção básica para vocês, mas fico feliz em dividir mais material com quem tenha interesse)

Por hoje é isso, espero não ter matado ninguém de exaustão. Se eu puder ajudar em qualquer coisa, podem me procurar (lembrando sempre que eu não sou especialista em nada). E se alguém por acaso tiver interesse em montar um grupo de estudos sobre O Segundo Sexo (um projeto real meu) ou um grupo de estudo mais geral sobre feminismo radical (outro grande sonho), me chama. Mas fiquem sabendo que eu sou uma pessoa intensa e viciada em organização e ex-frequentadora de grupos de pesquisa científica, o que significa que vai ser trabalho sério e relativamente intenso (guardando as suas proporções já que todo mundo, eu inclusive, tem vida).

Agora são sete e quinze, meu despertador acaba de tocar e eu não lembro se é dia de lavar o cabelo. Vai ser um dia intenso, preciso de café.


Editado/off topic: Caso alguém deixe dúvidas nos comentários, não esqueça de incluir o e-mail no formulário (no campo “e-mail” mesmo, só eu vou ver), porque não tenho certeza se o plugin que uso avisa quando enviam resposta ao seu comentário.

Açúcar, tempero e tudo de maneiro

Em 29.04.2016   Arquivado em Pessoal

Não, não é aqui nem agora que eu vou falar de As Meninas Superpoderosas. Eu amo o desenho e vou falar sobre ele, mas deixo vocês no suspense sobre o resto das informações. Por ora, o que estou buscando mesmo são os ingredientes necessários para criar o blog perfeito manter um blog. Não precisa ser perfeito, não precisa ser muito interessante, não precisa ser um sucesso (quem define o que é sucesso?), só precisa estar vivo.

Eu não sei o que acontece, parece que em algum momento no tempo — muito tempo atrás — eu sabia blogar, e então eu desaprendi. Às vezes eu volto, ensaio, então caio em mim e entro em crise, esqueço tudo o que queria dizer e vou embora — para aí sentir saudade, refletir, fazer planos e voltar. É sempre assim. E antes de cada volta tem uma pesquisa de campo imensa pra tentar descobrir o que são blogs, onde habitam, de que se alimentam, o que as pessoas escrevem neles e qual o sentido da vida. É o marte em touro.

Racionalmente eu sei que o espaço é meu e eu posso escrever qualquer coisa, mas todo esse mundo de possibilidades me dá um branco imenso. Liberdade absoluta também é um pouco opressivo.

A verdade verdadeira é que, mais uma vez, eu compartimentei tudo. Coisas no estilo querido diário e anedotas diárias eu acabo contando na newsletter, boa parte das minhas reflexões sobre a cultura pop estão sendo canalizadas para uma fonte que será revelada muito em breve e, para completar, entrei agora como colaboradora lá na Alpaca Press. De repositório total dos meus pensamentos, esse espaço aqui virou o espaço de tudo aquilo que sobrou. E o que sobrou? O que sou eu se não o que eu ouço/vejo/leio e os acontecimentos simples do meu cotidiano? Fica a reflexão.

Também tenho um pouco de medo de virar uma pessoa chata. Mentira, eu já virei uma pessoa chata. Desde que eu conheci o feminismo eu sou cada vez mais chata e, por mais que às vezes eu me aborreça de ser sempre a estraga-prazeres do rolê, eu não consigo lamentar nada disso. Então meu medo real não é exatamente virar chata, e sim levar esse espaço tão bonitinho pelo ralo junto comigo. Porque se a gente tira o que vem de fora, sobra o que vem de dentro. E por dentro eu sou uma enciclopédia interminável de textões problematizantes e politizados. Quem realmente tem interesse nisso?

A verdade verdadeira é que esse espaço ficou largado de mão mesmo antes de eu começar a escrever pelos quatro cantos (quem dera, um dia eu chego lá — quem sabe) porque eu ando cheia de coisas pesadas que têm muito mais de político do que de pessoal. E não bastasse isso, eu ainda me sinto muito pouco qualificada pra falar de tudo e qualquer coisa. Como muito bem definiu minha amiga maravilhosa Milena, eu tenho graduação em insegurança, além de muita preguiça de estudar o tanto que eu acho necessário para falar sobre assuntos mais complexos (spoiler: muito). Vide que no meu único texto explicitamente sobre feminismo, uma amiga pediu que eu falasse mais sobre a vertente com a qual eu me alinhei e até hoje ainda não saiu nada (vai sair um dia, prometo).

Eu sou insegura. Talvez eu não tenha nascido insegura, mas a verdade é que eu cresci insegura, e é muito difícil se livrar disso depois de velha. Insegura nível não me inscrever para a seleção de colaboradoras da revista da minha amiga por medo de deixar ela sem graça de me recusar. Insegura em níveis que desafiam a lógica. E agora insegura nível deixar de escrever e assistir esse espaço definhar e morrer lentamente, mesmo com o coração partido e a mesma velha paixão por escrever ainda intacta em algum lugar aqui dentro.

Então é isso. O primeiro passo é admitir que você tem um problema, não é mesmo? Eu admiti. O próximo eu ainda não sei qual é, mas enquanto isso vou continuar tentando falar — sobre Mabel a gata, sobre heterossexualidade compulsória, sobre minhas aventuras culinárias veganas, sobre escrever. Afinal, é escrevendo que se aprende a escrever, né?

Já posso casar (meu cu)

Em 03.04.2016   Arquivado em Pessoal

bobfaxina

Lá em casa quem cuidava sozinha das ~tarefas domésticas~ desde que eu me entendo por gente era minha mãe. Mesmo quando ela deixou de ser profissão: dona de casa e começou a trabalhar na rua (em um banco, não com isso que vocês estão pensando). Como vocês podem ou não imaginar, isso foi muito traumatizante pra mim.

De pequenininha eu só lembro mesmo dela fazer tudo. Depois de mais velha, muito ocasionalmente eu dava uma ajuda, mas não sem engolir muita revolta pela injustiça de ter que fazer aquilo porque eu era menina enquanto meu pai, que sempre teve dois braços e duas pernas muito saudáveis, ficava com a bunda sentada no sofá aproveitando a posição de ser superior que a sociedade patriarcal lhe deu. Pior do que essa frustração, só mesmo quando eu fazia algo voluntariamente, gastando o bom humor que sempre foi meio escaço na minha pessoa, e era obrigada a ouvir o tão famigerado…………………………………….

JÁ PODE CASAR.

tnc

Nossa, meu sonho, muito obrigada pela sua permissão.

A vida seguiu, o mau humor e a frustração continuaram comigo, mas aos poucos fui adquirindo um tiquinho de bom senso. Esse bom senso me fez ver que, mesmo SENDO inegavelmente injusto que eu tivesse que ajudar POR SER MULHER enquanto os seres humanos com pintos podiam fazer o que bem quisessem, também não era muito justo o outro ser humano com vagina da casa fazer tudo sozinha enquanto esse ser humano aqui que também vivia e bagunçava o referido lar sentava a bunda no sofá como forma de protesto político (que prejudicava absolutamente ninguém além da outra que continuava fazendo tudo sozinha). A partir daí eu juro que me esforcei pra ser um pouco menos babaca, mesmo reservando uma cota de “vai você”/”manda seu filho” para os “vai ajudar sua mãe” nossos de cada dia (principalmente nos momentos de TPM). Sim, eu trabalho com desaforos.

Mas aí, né, eu me mudei. E além de ter prioridades pro meu dinheiro do que economizar as três horas ou menos por semana que eu gasto mantendo tudo mais ou menos limpo e organizado (trabalho que Letícia — miga, se tiver lendo isso, eu ainda te amo bjas — nem sempre facilita), coincidiu de eu ler e refletir sobre o quão escravocrata (e ridículo) é você contratar outra pessoa especialmente pra limpar a SUA sujeira. A solução que sobrou foi nada além do óbvio: limpar minha própria sujeira. Foi assim que eu descobri os milagres terapêuticos de uma boa faxina — e também que ser dona de casa não é ruim por si só.

(Só pro registro: permaneço abominando a frase JÁ PODE CASAR. Evitem pronunciá-la na minha presença. Grata.)

Não vou me dar uma glória que não possuo: não chego do trabalho depois de nove horas de cansaço mental cheia de energia e empolgação pra limpar nada. Dificilmente eu começo os trabalhos sendo a mais feliz das criaturas, a história costuma ser mais ou menos a mesma toda vez. No começo, havia sujeira. Mal acostumada pela mamãe, eu não SUPORTO (toda vez que eu uso Caps Lock podem me imaginar levantando a voz, sim) viver no meio da sujeira. Eu tento mentalizar, mas a sujeira não vai embora sozinha. Escolho uma música, cato a vassoura e lá vamos nós.

Assim que eu começo, uma mágica se opera. O suor começa a escorrer (Rio 40º, sabem como é), mas a visão da sujeita indo embora e a ansiedade pelo cheirinho de limpeza são hipnotizantes e quando eu me envolvo, eu não consigo parar e o tempo apenas voa. Não é divertido, mas é catártico. Então antes do que você espera tá tudo limpo e cheiroso e nenhuma definição é mais adequada ao sentimento que toma conta de mim nesses momentos do que: paz de espírito. Eu estou invariavelmente leve e feliz, com a autoestima elevada.

Juro que não é exagero. Eu faxino meu subconsciente enquanto eu faxino Edna, o apartamento. Quando eu termino, todas as ideias erradas, toda a bad, toda a TPM simplesmente se foram. O cheirinho de limpeza vem de dentro e de fora (mesmo porque o último ato da faxina é sempre me atirar debaixo do chuveiro gelado). Eu me jogo na minha cama (apesar de ela sempre ser arrumada no meio da ação), com o solzinho entrando pela janela (as melhores faxinas são feitas de manhã, anotem), sentindo o cheirinho do incenso (nenhuma faxina está completa sem um incenso), com uma nova trilha sonora (mais relaxante que a anterior). E por um curto período de tempo absolutamente nada está errado no mundo. É uma das melhores sensações que existem.

Isso quer dizer que JÁ POSSO CASAR? Que vou ficar feliz e realizada mantenho a casa arrumada enquanto meu querido marido (nas fantasias machistas, obviamente que a outra parte é sempre um macho) senta a bunda no sofá com a serenidade de quem já nasceu com a vida ganha? RISOS. Só se vocês não me conhecessem, né, amadas. Fiquem bem tranquilas que, se um dia eu resolver dividir minha vida com alguém, ficarei bem feliz em dividir também com essa pessoa os efeitos terapêuticos da faxina. Como faço agora com Letícia. Não vou querer ser egoísta e ficar com a diversão toda pra mim.

Mas, olha, que é muito boa a sensação de casa limpa, a paz de espírito e, talvez principalmente, a sensação de autossuficiência que eu sinto depois de uma boa faxina, é sim. Recomendo.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

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