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Gênero, violência e eufemismo
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Gênero, violência e eufemismo

Desde a última vez que falei sobre feminismo aqui, tenho estudado bastante. O grupo de estudos dos sonhos que eu mencionei sem nenhuma pretensão acabou nascendo e me apresentando mulheres incríveis que eu nunca teria conhecido sem isso. Tenho frequentado também algumas rodas de discussão e conversado com amigas, e quanto mais eu estudo e penso, mais minha cabeça se abre para tudo o que eu não enxergava antes. Recomendo.

Inclusive, atualizei o texto anterior.

No meio de todas essas revelações que eu tenho tido, tenho vontade de dividir muita coisa aqui, porque dividir informações é importante e porque (aprendi nesse meio tempo, vejam só) as “teorias” radicais são tão ancoradas na vivência e surgem tão organicamente em grupos de discussão que todas precisamos parar para registrar de tempos em tempos ou tudo acaba se perdendo.

Entre as muitas coisas sobre as quais estudei, refleti e ouvi discussões (não acho justo dizer que participei porque não aprendi ainda a me comunicar em grandes grupos) está a ideia de gênero. Não vou discutir o que é ser mulher, é sobre o próprio conceito de gênero que vamos falar — e a razão pela qual eu não gosto desse conceito. O que diabos é gênero?

O princípio básico é que gênero é construção social. Existe uma sociedade composta por indivíduos que são divididos em dois grupos que possuem características e comportamentos próprios e obrigatórios.

Existem milhares de forma de fazer com que os indivíduos se conformem às características e comportamentos atribuídos ao grupo em que foram compulsoriamente inseridos. As mais eficazes envolvem socialização — criação direta pela família, exemplo, mídia, pressão social. Para quem não se conforma, existem tipos variados de punição. Mas isso é assunto para outro momento.

O conceito de gênero é invenção muito recente. O termo começou a ser usado entre as décadas de 70 e 80 do século XX. Antes disso já existia feminismo e todo mundo se entendia perfeitamente bem usando a expressão “sexo”. Qual a necessidade de se falar em gênero, então?

É bem simples: criando a expressão gênero para identificar a construção social binária, se naturaliza o conceito de sexo. Sexo passaria a ser nada mais do que a divisão biológica da população entre indivíduos macho e fêmea. Só que não é bem assim — historicamente a divisão entre sexos só tem relevância porque é atribuído um valor a cada uma dessas classificações. O sexo não é neutro.

Outro efeito relevante é a expressão gênero é um eufemismo, e tira o foco das violências sofridas por mulheres. É só comparar as expressões “violência de gênero” e “violência contra a mulher”. Na primeira, qualquer um pode ser vítima, é uma coisa absolutamente abstrata e desconsidera completamente todas as centenas de tipos de violência que mulheres sofrem desde o nascimento por serem mulheres.

Nós permanecemos à margem, à sombra, durante todas as nossas vidas, sendo esmagadas, onde sempre estivemos. Nós precisamos nos colocar como o centro e lutar por nós mesmas. Nós já fomos passadas para trás muitas vezes antes.

A ideia de gênero não contempla mulheres. É só mais uma forma de nos deixar de lado, esvaziar nossa militância, desviar o foco. É dar um tapinha no nosso ombro, mandar colocar/não tirar o batom vermelho (e/ou qualquer outra coisa que envolva essa ideia erradíssima de “empoderamento” que não empodera ninguém), e vamos falar de outra coisa agora. E novamente nossa luta fica para trás.


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Feminismo

Feminismo Radical esquematizado

São quatro da manhã de uma sexta-feira quando eu começo a escrever esse texto, a hora em que habitualmente Gata Mabel fica subitamente carente no meio da madrugada e eu começo a revidar os puxões de cabelo dela com a expulsão da cama. Mas a semana toda eu tenho estado em um surto de energia provavelmente só explicável por psiquiatras, esse blog está às moscas — mais por falta de tempo do que de ideias –, minha cabeça começou a pensar e eu vim parar aqui, cumprindo uma promessa mais ou menos antiga que eu fiz a uma amiga quando me identifiquei como RadFem aqui um tempo atrás: falar um pouco mais sobre feminismo radical.

Como eu não começo nada sem divagar um bom tanto, eu preciso explicar primeiro as causas da minha demora. A principal é que eu simplesmente não me sinto qualificada o suficiente para fazer esse texto. Eu me considero muito nova no feminismo em geral, e principalmente no feminismo radical em particular, e não dedicada o suficiente aos estudos para chegar aqui e dizer que o feminismo radical isso ou aquilo, sabendo que a partir do momento que esse texto sair das minhas mãos para a internet ele vai ser usado por qualquer um que o encontre como uma fonte de informação digna de mais ou menos crédito — e naturalmente tanto mais crédito quanto menos conhecimento a pessoa já tiver sobre o assunto. É um tema sério e isso é muita responsabilidade, motivo pelo qual a princípio eu considerei tratar dele no ambiente mais limitado da newsletter ou por e-mail diretamente com a minha amiga.

Em segundo lugar, a questão é que eu tenho medo. Por causa de um ponto específico que consiste mais em uma não pauta do que em uma pauta do feminismo radical, essa vertente e quem se alinha a ela são muito frequentemente expostas e atacadas na internet, ao ponto de nós termos, sim, medo de nos identificarmos publicamente como feministas radicais e de todos (literalmente) os grupos e coletivos feministas radicais serem secretos e de difícil acesso. Falar abertamente sobre algumas questões é algo que pode gerar consequências e, acreditem vocês ou não, mulheres são inclusive ameaçadas por expor essas ideias, mesmo dentro do próprio feminismo.

Apesar disso tudo, e após muito refletir, eu resolvi vir aqui abraçar essa responsabilidade de tentar repassar um pouco do que eu aprendi para outras mulheres que por acaso tenham algum interesse ou curiosidade sobre os fundamentos mais básicos do feminismo radical e — com alguma sorte — ajudar a atenuar o tanto de informação enganosa e incompleta que existe por aí sobre o tema. Pode parecer que só essa introdução já tenha ficado extremamente longa, e pode ser que esse post acabe sendo dividido em mais de uma parte, mas considerando que eu estou mais preocupada em passar informação do que em receber comentários, possivelmente eu siga de uma vez até o fim e volte depois para tratar com mais especificidade e mais a fundo pautas mais complexas. Quem tiver interesse vai ler até o final, mesmo que em parcelas; quem não tiver, não vai ler de jeito nenhum.

Lembrando sempre que tudo o que eu escrever aqui tem origem, claro, nos meus estudos sobre o tema, mas que qualquer estudo necessariamente passa por reflexões pessoais e ideias individualmente minhas, que podem variar de alguma forma com relação às de outras mulheres dentro da mesma linha. Minha ideia é abordar alguns temas bem introdutórios, seguindo o roteiro abaixo (podem apreciar o didatismo):

  1. Feminismo radical: conceito e nomenclatura
  2. Conceitos relevantes dentro do feminismo radical
  3. Recortes no feminismo radical
  4. O que nós não contemplamos e por que
  5. Algumas pautas principais
  6. Por que eu escolhi o FemRad (ou por que o FemRad me escolheu)
  7. Algumas indicações de leitura

Texto atualizado em 06/08/2016, e eternamente aberto a atualizações porque ainda tenho muito a estudar.

 

Feminismo radical: conceito e nomenclatura

Na linguagem popular, o termo “radical” acaba sendo sempre relacionado à ideia de extremismo, quando em sua origem as duas ideias não tem nenhuma ligação necessária. O termo “radical” significa relativo a raiz, que busca as raízes de determinada coisa. Feminismo radical, especificamente, tem a pretensão de identificar, analisar, refletir sobre e desconstruir a opressão feminina a partir de suas origens — sim, é algo tão complexo quanto parece, e por vezes doloroso também.

Não é à toa que falar de feminismo radical é falar, mais cedo ou mais tarde, de Simone de Beauvoir — frequentemente considerada a mãe e inegavelmente uma das maiores, se não a maior, pensadoras dessa vertente. A obra principal dela é O Segundo Sexo, um livro imenso (composto na verdade por dois volumes, que às vezes se encontram reunidos em um único exemplar), denso, de leitura difícil e com uma carga de pesquisa e informação estratosférica. (Que eu ainda não terminei de ler.) Para quem não conhece, nessa obra Simone mergulha a fundo em pesquisas e dados sobre o que é ser mulher sob diversos prismas — biológico, histórico, social, cultural etc. O livro é considerado uma bíblia do feminismo radical por seus próprios méritos, mas obviamente é um investimento imenso de tempo e energia mental, e nem toda feminista radical já leu, está lendo, ou vai lê-lo em algum momento — assim como nem todo católico já leu ou tem interesse em ler a bíblia deles — e isso não faz de ninguém menos feminista radical, o que não significa que quem não bebeu diretamente na fonte não vai conhecer as ideias dela, mesmo que nem sempre saiba que são dela. Se você tem interesse, disposição e tempo para investir na leitura, é bem interessante.

Mas Simone obviamente não é a única voz dentro do feminismo radical. Muitas outras mulheres pensaram e pensam a teoria radical e escrevem sobre isso, bebendo ou não (ou, talvez, bebendo em maior ou menor grau, direta ou indiretamente) na fonte de Simone. O ponto central é que o estudo — seja por meio de “obras tradicionais” de teóricas consagradas, seja por textos e/ou discussões qualificadas na internet — é importantíssimo na linha radical, porque padrões, ideais e comportamentos sociais estão sempre muito bem integrados no nosso inconsciente e na nossa personalidade para que a gente perceba espontaneamente. Ou, também, porque mesmo quando percebemos, é preciso refletir em conjunto e discutir com o objetivo de conseguir considerar qualquer tema da forma mais abrangente possível.

Por essa e por outras uma das grandes críticas à vertente é que ela seria academicista demais e se importaria mais com a teoria do que com a vivência das mulheres. Eu discordo completamente porque (1) não dá para pensar em nenhuma teoria e militância que não dialogue com a sua vivência, e qualquer teoria que contrarie a vivência (em nível coletivo, não individual) não se sustenta, e (2) fosse assim, homens poderiam apenas estudar a teoria e ter tanto conhecimento sobre feminismo quanto uma mulher — coisa que a gente não aceita mesmo (feminismo não é lugar de homem, a não  ser — talvez — para feministas liberais).

Conceitos relevantes dentro do feminismo radical

Seguindo em frente antes que eu escreva uma nova bíblia que acabe com a boa vontade de todo mundo, preciso destacar alguns conceitos que eu considero especialmente relevantes para começar a compreender a teoria feminista radical. Especificamente o que o feminismo radical entende como gêneropatriarcadoopressão estruturalsocialização.

Gênero é, desses todos, obviamente, o conceito mais importante. Socialmente falando, existem dois gêneros: o feminino e o masculino. Para nós, feministas radicais, o gênero não é algo natural. Nós encaramos o gênero como uma construção social, que se constitui e se perpetua por meio da socialização — que é tudo o que acontece com você a partir do momento em que te identificam como fêmea ou macho, muitas vezes antes mesmo do nascimento. Nós não acreditamos em nenhum “sentimento” ou “alma” ou “cérebro” femininos ou masculinos que não tenham sido socialmente introduzidos nos sujeitos em função de um conjunto arbitrário de comportamentos e regras estereotipicamente associados a determinado gênero. E, sim, a socialização acontece a partir do momento em que o ser humano é identificado como fêmea ou macho com base, principalmente, nos genitais.

A tão repetida (e mal entendida) frase de Simone “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não é nada menos do que uma adaptação à teoria radical do conceito de materialismo histórico de Marx — em resumo: não é a consciência que determina o seu gênero, é seu gênero que determina sua consciência, por meio da socialização. Eu penso o que penso porque fui ensinada a pensar assim.

Fosse apenas uma divisão em categorias (se é que isso é possível), a ideia de gênero seria limitante, mas não danosa em si mesma. Acontece que toda categorização acaba descambando para a hierarquização, em que uma das classificações e tudo o que faz referência a ela é posta como superior. Logo, gênero é hierarquia, e por isso uma violência. O que o feminismo radical defende é a sua abolição.

A hierarquia do gênero masculino sobre o feminino — o patriarcado — está presente desde os primórdios da sociedade, configurando assim uma das três formas de opressão estrutural existentes: de gênero, de classe e de raça (das quais derivam outras opressões que podem ser consideradas sistemáticas, mas não estruturais, e que eu não vou listar porque, sinceramente, não me sinto capaz e não quero causar mais polêmica). Opressão estrutural é outro conceito que nasceu no marxismo, e tem o sentido de uma opressão que é, ao mesmo tempo, histórica e historicamente institucional.

Com esses conceitos, você já consegue muito bem sair por aí estudando sozinha na internet mesmo, então vamos seguir.

Recortes no feminismo radical

Uma outra crítica feita ao feminismo radical, em geral por gente que nunca teve contato com a teoria radical, é de que essa vertente não faria recorte (i.e. diferenciações e análises diferenciadas em intercessão com outras opressões). Pela própria apropriação do conceito de opressão estrutural pela teoria radical, eu acredito que essa crítica não se sustenta.

Até onde eu conheço a teoria radical, ela abraça e respeita as vivências pessoais de cada mulher, e eu até hoje não cruzei com nenhuma feminista radical que não fizesse recortes. Sim, existem mulheres negras no feminismo radical; apesar de eu entender perfeitamente bem que pessoas com pautas específicas possam preferir e se sentir mais confortáveis em espaços exclusivos que, por sua própria natureza, vão ser mais compreensivos em relação às especificidades envolvidas em determinadas lutas e na interseção entre militâncias diferentes.

Eu não posso dizer que a vertente é livre de racismo, porque onde existem brancos, existe racismo. Porque o racismo é estrutural e está na sociedade como um todo. Nesse ponto, a mesma crítica poderia ser feita ao chamado feminismo interseccional e a qualquer outra vertente, exceto aquelas exclusivas para mulheres negras.

No fim, cada um se alinha ao que escolhe se alinhar, o que não justifica fazer críticas maldosas e falsas às outras vertentes.

O que nós não contemplamos e por que

Esse é o grande ponto de discórdia no feminismo, e a origem de 90% das ofensas sofridas por mulheres alinhadas à vertente radical. Sendo generosa, 9 entre 10 perguntas feita a nós — muitas vezes com o objetivo de desmerecer a vertente e causar intriga — podem ser resumidas a “e as trans?“. Imagino que muita gente acredite piamente que feministas radicais saem por aí com tochas procurando pessoas trans na calada da noite para oprimir, quando na verdade nós só consideramos que a causa das pessoas trans* é algo a parte e que não convém misturar. É uma não pauta muito mais do que uma pauta.

Tudo isso faz referência ao conceito de socialização, explicado mais acima: o feminismo radical entende que a opressão de gênero tem origem na socialização, que — queiramos ou não — é realizada em função dos órgãos sexuais com que se nasce. E inclui o fato de que, historicamente, questões biológicas ligadas ao sexo feminino são estigmatizadas, ignoradas e/ou demonizadas e tratadas com nojo. Nada disso pode ser excluído do âmbito do feminismo sem que se esvazie e asfixie a própria essência do discurso feminista. O feminismo radical contempla todas as pessoas que sofreram socialização feminina desde o nascimento.

Nós não somos hipócritas e nenhum ponto da nossa teoria nega que pessoas trans sofrem, são marginalizadas e/ou oprimidas. Eu nunca ouvi falar de nenhuma feminista que defendesse abertamente que o transativismo não deveria existir. Mas são pautas que divergem do próprio conceito de gênero que é a base da teoria radical e, por isso mesmo, acreditamos que são coisas diferentes e que devem ser tratadas em separado, para melhor proveito geral.

Algumas pautas principais

Ultrapassado o ponto do que nossa teoria não contempla, vou apenas destacar alguns pontos que são importantes dentro da teoria radical, sem explicações no momento, e sobre os quais quem sabe eu trate especificamente no futuro, se eu não me arrepender de enveredar por esses caminhos de blogueira feminista. Enquanto isso, vocês podem pegar essa lista, o Google, e começar a aprofundar seus estudos de forma independente. Vou ajudar com uns links bacanas no final do texto.

Entre as muitas pautas importantes discutidas, temos questões como: família, maternidade compulsória, violência de gênero (que inclui, infelizmente, um leque imenso de modalidades, incluindo a violência obstétrica), aborto, prostituição, pornografia, pedofiliacultura do estupro, heterossexualidade compulsória — e, principalmente, como todos esses pontos estão ligados ao paradigma de poder e dominação masculinos sobre o corpo e o ser femininos. Basicamente, contempla todas as vivências que mulheres passam por serem mulheres.

Por que eu escolhi o FemRad (ou por que o FemRad me escolheu)

Esse ponto é 100% pessoal, ufa! Eu, pessoalmente, decidi me alinhar ao feminismo radical porque foi uma linha que me encantou desde o princípio pela coerência. Eu nunca vi o feminismo radical tratar nada superficialmente, e mesmo quem não concorda com um ponto ou outro precisa concordar que a teoria é consistente e muito forte. Eu tenho, sim, muita inclinação acadêmica — como uma pessoa que, além de sempre ter tido essa inclinação para a área, teve o privilégio de ter tido todas as condições favoráveis e frequentado uma faculdade –, gosto de estudar teoria, e não tem nada de errado nisso, mas essa coerência vem justamente porque toda essa teoria está baseada na vivência. Eu preciso de algo que me desafie, me estimule intelectualmente, e nisso o FemRad tem de sobra, porque não é fácil enxergar e desconstruir coisas que foram ensinadas direta ou subliminarmente durante uma vida inteira.

Deixando claro que essa é minha motivação pessoal. Nem todas as mulheres radicais são privilegiadas, e instrução acadêmica/formal não é um pré-requisito. Desafio vocês a encontrarem feminismo radical sendo ensinado/estudado formalmente dentro da academia — eu pessoalmente nunca vi.

Algumas indicações de leitura

Não vou indicar livros ainda porque (a) eu precisaria fazer uma pesquisa maior, e ainda assim não me sentiria confortável em indicar nada que eu não tenha lido e (b) como artigo introdutório que eu tentei fazer, acho que aqui artigos mais curtos e por vezes mais simplificados vão ser mais úteis. Segue então um materialzinho bacana para vocês se divertirem mais.

Artigos/textos específicos

Alguns sites e blogs úteis (tenho uma lista muito maior, fiz uma seleção básica para vocês, mas fico feliz em dividir mais material com quem tenha interesse)

Por hoje é isso, espero não ter matado ninguém de exaustão. Se eu puder ajudar em qualquer coisa, podem me procurar (lembrando sempre que eu não sou especialista em nada). E se alguém por acaso tiver interesse em montar um grupo de estudos sobre O Segundo Sexo (um projeto real meu) ou um grupo de estudo mais geral sobre feminismo radical (outro grande sonho), me chama. Mas fiquem sabendo que eu sou uma pessoa intensa e viciada em organização e ex-frequentadora de grupos de pesquisa científica, o que significa que vai ser trabalho sério e relativamente intenso (guardando as suas proporções já que todo mundo, eu inclusive, tem vida).

Agora são sete e quinze, meu despertador acaba de tocar e eu não lembro se é dia de lavar o cabelo. Vai ser um dia intenso, preciso de café.


Editado/off topic: Caso alguém deixe dúvidas nos comentários, não esqueça de incluir o e-mail no formulário (no campo “e-mail” mesmo, só eu vou ver), porque não tenho certeza se o plugin que uso avisa quando enviam resposta ao seu comentário.

Feminismo

Você é obrigada, sim

 (O título é uma resposta ao título do post da Anna Vitória, mas o post não contraria o dela não, viu?)

Vamos começar do básico: o que é gênero? O que é ser mulher? Quando se trata de feminismo, esse é sempre o nosso ponto de partida e a sua resposta a essa pergunta é o que vai determinar o que vem depois. Existe quem acredite que ser mulher é algo subjetivo, que existiria uma suposta essência feminina que determina quem é mulher e quem não é. Eu não acredito disso. Eu me alinho com a teoria radical*.

Qual é a consequência disso, então? O que eu entendo por ser mulher? Para mim, e para quem pensa como eu, gênero é imposição, é hierarquia. É exatamente aquela frase de Simone de Beauvoir que todo mundo conhece, caiu até no ENEM, mas nem todo mundo entende:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.

Simplificando o que o está escrito acima, ninguém nasce mulher porque gênero não é natural. Gênero não é biológico, gênero não é psicológico. Gênero é uma construção social. Ninguém nasce mulher, as pessoas simplesmente nascem – e aleatoriamente possuem características biológicas diferentes, que se apresentam externamente no pênis e na vagina. Ser fêmea ou macho é algo natural, acontece na espécie humana como em quase(?) todas as outras espécies na natureza. O ser mulher não é natural, é tudo o que acontece com a gente a partir do momento em que se constata que aquela criança que vai nascer (ou que já nasceu) tem vagina.

Ser mulher não é uma constatação, é uma imposição. A partir do momento e que você chega ao mundo e é lida como mulher por causa da sua vagina, a condição de mulher é imposta a você. Antes de você ter condições de saber qualquer coisa sobre você, o martelo do gênero vai descer na sua testa e te ditar o que você gosta, o que você não gosta, o que você pode fazer e o que não pode.

Gênero não é natural, é hierarquia. É a divisão do mundo entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”, no qual um desses grupos (a gente sabe bem qual) é considerado superior ao outro.

Se o que você gosta/pode ou deixa de gostar/poder é imposto a você de forma brutal antes mesmo que você desenvolva consciência do que você realmente gosta ou não, isso significa que todos os seus gostos e escolhas futuras vão ser de alguma forma determinados por fatores externos a você. O nome disso é socialização.

A socialização tem MILHARES de consequências práticas. Mas uma delas, que é o ponto central do que eu vim aqui dizer é: você pode até acreditar que é livre, mas você não é. Você pode achar que depilar a virilha, usar maquiagem e ter filhos são escolhas suas, mas na realidade não são. Tudo o que a gente faz nessa vida é fruto da socialização.

O que isso significa na prática? O que isso significa para o feminismo? Quer dizer então que o feminismo quer te impedir de usar batom? O feminismo está se igualando ao machismo tentando te dizer o que você pode ou não fazer? O feminismo está te oprimindo?

Não, meu bem, não tem nada disso.

Em primeiro lugar, o feminismo não oprime ninguém em relação a gênero. Mulheres não têm poder estrutural para oprimir em relação a gênero. Vamos repetir isso algumas vezes até a gente gravar. Na questão racial, uma mulher branca é opressora de uma pessoa (homem ou mulher) negra. No plano social, uma mulher classe média ou rica oprime uma pessoa (homem ou mulher) de classe mais baixa. Mas uma mulher, seja ela qual for, nunca vai oprimir um homem ou outra mulher em razão de gênero, enquanto vivermos em uma sociedade machista e patriarcal. A gente pode até pisar no seu calo, mas isso não significa oprimir. O feminismo não te mata, não te faz andar na rua com medo de apanhar (ou pior) de uma feminista, não diminui seu salário, não te impede de arrumar emprego.

Em segundo lugar, nenhuma feminista vai confiscar sua caixa de maquiagem. Ainda não vi nenhum piquete feminista na porta de um estúdio de depilação. Ninguém está te obrigando a deixar de se depilar (e você nunca vai deixar de conseguir um emprego ou ser olhada torto na rua porque raspa o sovaco). Mas estamos dizendo que a sua opção por se depilar nunca vai ser completamente livre? Estamos. Não, não estamos, eu estou. Mesmo que você já seja a rainha do feminismo, a fodona da desconstrução. Okay, você se depila porque odeia pelos; mas por que você odeia pelos (os seus, principalmente)? O ponto é justamente esse: saber que nenhuma de nós é (ou será) livre e seguir vivendo e lutando pra que um dia, quem sabe, nossas tataranetas ou as netas delas sejam.

Foi isso que eu vim dizer hoje. Mas só tinha mais uma coisa que eu queria falar antes de passar o bastão da palavra para vocês: feminismo não é o oposto de machismo. Machismo é um sistema que impõe a ideia de gênero (fixando: gênero = hierarquia) e oprime estruturalmente o grupo designado como mulher e todos aqueles que fogem aos papéis de gênero socialmente reconhecidos. Feminismo, do outro lado, é um movimento social que tem por objetivo construir uma sociedade equitativa a partir da desconstrução da ideia de gênero (última vez: gênero = hierarquia). Mas o fato de não serem opostos não significa que você pode escolher a opção C (nenhuma das alternativas anteriores).

A sociedade é machista, a socialização é machista, o inconsciente coletivo é machista. Logo, o neutro é machista, e machistas (ou reproduzindo machismo) permaneceremos enquanto não fizermos nada pra mudar esse estado das coisas. Sair do machismo existe uma postura ativa de desconstrução, e desconstruir questões de gênero é uma atividade essencialmente feminista. Ou seja, você realmente não é obrigada a se reconhecer feminista, abraçar o título, estudar o assunto. Mas isso não significa que na prática você não seja feminista.

Agora eu vou ali e beijos pra quem fica.


*Radical NÃO significa extremista, pelamor. Radical vem da palavra RAIZ (sabe uma árvore?), e o feminismo radical encara a questão de gênero a partir da origem (RAIZ) da opressão que sofremos.