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Ficção

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Toda boa história de amor é enrolada

Releitura do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, seguindo os passos das amigas Anna Chicória e Analu.

João era um cara normal. Tinha seus amigos, sentava no meio da sala, tirava notas medianas e vivia sua vida perfeitamente tranquila e linear. Não tinha inimigos e, mesmo que não fosse especialmente bonito, despertava a atenção de uma menina ou duas na escola em que cursava o terceiro ano do ensino médio.

Logo de cara, encantou-se por Teresa, que tinha um ar de mistério. Os dois nunca trocaram nenhuma palavra, e João se contentava em observar de longe enquanto a menina circulava pelas margens da rotina colegial, sempre alheia às confusões e sem se misturar às questões mundanas da vida social adolescente. Interagia com duas ou três pessoas, cuidadosamente selecionadas, sorria pouco, tinha sempre um Dostoiévski embaixo do braço e parecia estar apenas cumprindo a carga horária mínima exigida para ser aceita oficialmente na vida adulta.

O que ninguém sabia era que, por baixo da fachada despreocupada e superior, Teresa nutria uma paixão antiga por Raimundo, que nem os seus maiores esforços conseguiam abrandar. Os dois estudavam juntos desde a alfabetização, quando ele ainda não conhecia musculação e ela ainda não achava todos os colegas ridículos e a vida escolar como um todo muito idiota.

Durante uma festa na sétima série, chegou aos ouvidos de Teresa que Raimundo estava ensaiando uma aproximação. A menina correu para retocar a maquiagem, colocou uma bala na boca e se instalou no meio da pista, onde não poderia passar despercebida, mas toda a espera foi em vão. Quando o garoto finalmente estava indo em sua direção, seu celular tocou. Era o pai, dizendo que estava na porta para buscá-la, sem desculpas.

Ficou sabendo no dia seguinte que, no meio daquela mesma festa, Raimundo trocou amassos ousados com Maria na frente de todos, e os dois estavam juntos desde então. Comemoraram quatro anos de namoro no começo de agosto. Um casal lindo e popular, completamente inspirado em um filme qualquer de sessão da tarde. Era fato notório na escola que Raimundo era completamente apaixonado pela namorada, mas as más línguas sussurravam pelos cantos que Maria suspirava toda vez que Joaquim passava.

Joaquim era o melhor amigo de Raimundo desde sempre, mas os dois não tinham muito em comum. Joaquim até tentou acompanhar o amigo na academia, mas seus braços magros não pareciam dispostos a ganhar massa muscular, e o garoto gostava mesmo era de passar as tardes abraçado com seu violão, rabiscando letras e melodias que surgiam espontaneamente em sua cabeça.

Desde que as férias do meio do ano haviam acabado, todas as músicas que compunha tinham um tom romântico. Alguns atribuíram isso ao fato de que ele havia passado duas semanas na casa de praia de uma amiga de sua mãe, madrasta de Lili, aluna do segundo ano.

O quanto disso é verdade, não é possível dizer. A maioria dos meninos da escola duvidava que qualquer um fosse louco o bastante para aguentar a moça, que se orgulhava em dizer que ainda não havia encontrado nenhum ser do sexo masculino pelo qual ela pudesse considerar abrir mão de sua liberdade. Lili era solteira por princípio, fazia o que queria, não dava satisfações. As mais variadas histórias ao seu respeito circulavam no boca a boca por entre os colegas da escola, mas ninguém nunca soube dizer exatamente o que era verdade e o que era lenda.

João tinha se resolvido a abrir seu coração para Teresa no último dia de aula e contar para ela sobre os seus sentimentos, mas precisou faltar à aula para arrumar suas malas. Sua mãe estava despachando o filho para morar com o pai nos Estados Unidos e fazer faculdade por lá.

Teresa nunca soube que tinha sido alvo da paixão de alguém. Começou a cursar gastronomia, mas então resolveu que o mundo mortal como um todo era apenas a reprodução em larga escala da vida escolar e, portanto, muito idiota. Achou melhor entrar para o convento e não ter mais que lidar com nada disso. Coincidentemente, tudo isso aconteceu logo depois de correr entre os ex-alunos do Santa Luzia a notícia do noivado de Raimundo com Maria.

Irmã Teresa, de dentro do claustro, nunca ouviu a notícia de que o carro do noivo foi atingido por um caminhão a caminho da Igreja, e o casamento nunca aconteceu. O corpo de Raimundo foi levado direto para o necrotério e vários quilos de comida fina foram consumidos pelas famílias dos garçons, que voltaram para casa mais cedo naquele dia.

Maria nunca achou ninguém que pudesse ocupar o lugar do falecido noivo na sua vida, ainda que nunca houvesse sentido por ele uma grande paixão. Achou melhor arrumar as malas e rodar pelo mundo. A última notícia que se teve dela foi um cartão postal do Nepal recebido pelos sobrinhos.

Joaquim montou uma banda e ficou famoso, mas todo mundo sabe como a vida de artista mexe com a cabeça das pessoas. A história mais aceita é que ele se envolveu com drogas depois que o melhor amigo morreu. Os colegas de banda juram que era depressão. Virou asfalto em plena hora do rush, no meio da avenida paulista.

Lili se formou em direito, fundou uma ONG de assistência a mulheres vítimas de violência doméstica. Em uma conferência internacional, conheceu um advogado espanhol especialista em direitos humanos, J. Pinto Fernandes. Os dois se casaram em três de novembro, em uma cerimônia simples na beira da praia, com a presença apenas da família e dos amigos mais próximos.

Esse post é parte integrante do meu BEDA. Para saber mais sobre essa cilada leia esse post. Tem sugestão de tema ou pergunta para a minha pessoa? Deixe nos comentários ou entre em contato.

Blogagem coletiva, Ficção

Me escreva uma carta sem remetente

A campainha tocou. Era o carteiro. Isabel não entendeu porque o homem resolveu tocar a campainha justamente naquele dia, mudara-se para lá havia três anos e estava começando a acreditar que as cartas se materializavam em sua porta por intervenção divina.

Pegou o único envelope que ele lhe estendeu e agradeceu. Esperava que o carteiro se virasse e fosse embora continuar seu trabalho, mas o homenzinho continuou parado enquanto a observada. Resolveu devolver o olhar, porque ficou sem graça de simplesmente fechar a porta em sua cara, e ele finalmente se manifestou.

-– Carta estranha essa, não é? – ele perguntou.

Pela primeira vez ela prestou atenção no envelope, era vermelho e pequeno. De um dos lados, seu nome e endereço escritos em uma letra desleixada. De outro, nada.

Ela observou aquilo atordoada por alguns segundos, e então voltou a olhar para o homem tentando aparentar uma irritação indiferente.

-– Com certeza é só uma propaganda.

Finalmente entendendo a mensagem, o homem desejou bom dia e se foi.

Isabel voltou para dentro do apartamento com a carta na mão sem saber o que fazer com ela. Talvez realmente fosse apenas propaganda, mas sentia uma sensação estranha, como se algo dentro dela soubesse que não era.

De repente flashes surgiram em sua mente. “E como vou fazer se eu precisar de você?”, a voz masculina sem rosto perguntou angustiada; “me escreva uma carta sem remetente”, sua própria voz respondeu.

A moça não sabia de onde vinham aquelas lembranças, mas tinha certeza de que eram mesmo lembranças. Não reconhecia a voz masculina que falara com ela, mas sabia que havia algo que precisava lembrar.

Abriu cuidadosamente o envelope e tirou um pequeno pedaço de cartão branco e liso que continha apenas uma única palavra.

Max

A única coisa que tenho que dizer sobre esse texto é: “mil desculpas”. O tema da vez no Desafio Blogueiro foi ‘me escreva uma carta sem remetente’, e isso foi o melhor que saiu de minha cabecinha oca.

Como a estória prometia ser bem longa, achei melhor parar por aí e deixar vocês bem curiosos. Se o ibope for bom, posso até considerar continuar! Então me amem e sejam bem bonzinhos comigo.

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Tudo tem um começo

Papai e mamãe se conheceram muito novos, lá pelo meio da adolescência. Ficaram anos juntos até que, pouco antes de eu nascer, se separaram. Alguns anos mais tarde, quando eu finalmente atingi a idade para entender que nem todos os pais moram em casas separadas, eu fiz uma promessa a mim mesma de jamais cair nessa armadilha. Sem homens na minha vida.
Com o passar dos anos, essa resolução foi ficando cada vez mais e mais elaborada. A adolescência chegou, trazendo os hormônios e, com eles, a transformação dos integrantes do sexo oposto de pessoas como eu em objetos de desejo. Mas não tinha problema, eu podia me divertir, no strings attached. Casamento, nem em sonhos. E filhos, nem pensar.
É de se esperar que, nessa progressão, lá pelo começo da fase adulta eu já estivesse considerando juntar meu trapos com um portador do cromossomo Y. Mas, não, isso não aconteceu.
Me formei na faculdade de letras e me envolvi no “negócio da família”. Escrevi meu primeiro sucesso e me mudei para o meu próprio apartamento. Estava livre da minha mãe, longe da superproteção sufocante do meu pai e dona do meu nariz. E era assim que eu planejava permanecer.
Conhecer o João, como você pode ver, estava totalmente fora dos meus planos. Mas aconteceu. Ele cruzou  meu caminho em uma das minhas visitas decenais ao dentista. Obviamente, eu não estava lá por livre e espontânea vontade, já que dentistas são a coisa que eu mais odeio depois de orelhas cabeludas. Fui parar lá depois de quebrar um dente mastigando um lápis. Sim, eu sei o quão anti-higiênico isso é.
Enfim, depois de uma semana, a dor começou a ficar incômoda e resolvi procurar a casa de tortura mais próxima da minha casa, já que por princípio eu não visito o mesmo dentista mais de uma vez. E foi onde nos encontramos.
Ele passou a próxima hora com as mãos dentro da minha boca e o tempo todo o meu único pensamente era que logo tudo estaria acabado e eu nunca mais teria que encarar aquele ser de novo. Infelizmente, o tempo parecia passar muito lentamente, ou então ele estava demorando mais que o necessário. A segunda opção provou ser a mais acertada quando a recepcionista foi obrigada a bater na porta para avisar que o próximo paciente estava esperando.
Finalmente, tudo pareceu ter terminado e ele levantou o encosto da cadeira. Minha boca estava dormente e eu estava pronta para bater em disparada quando ele tirou as luvas e abaixou a máscara, revelando um sorriso lindo e extremamente branco.
— Prontinho, Manuella. Eu aproveitei para fazer uma limpeza por conta da casa. Seus dentes parecem ser muito bons, mas quanto tempo faz que você não vê um dentista?
Na hora eu soube que, se  “limpeza por conta da casa” foi a melhor cantada que ele pôde dar, esse cara só podia ser um diamante bruto, esperando para ser lapidado. Infelizmente, minha vontade de correr dali era maior do que qualquer coisa.
— Faz um tempinho. Não tenho tempo. — menti.
— Bem, tenho que atender meu próximo paciente. — ele desculpou-se, mas continuou antes que eu tivesse tempo de sair da sala — Mas se você tiver um tempo a gente pode tomar um café mais tarde.
Soltei um “arrãm” rápido, sem nem saber o que estava fazendo, e me fui antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Voltei para casa, feliz e sem dor, e já estava completamente absorta no trabalho havia algumas horas quando o telefone tocou. Um número que eu não reconheci piscou no visor.
Atendi um pouco distraída, e uma voz vagamente familiar me saudou do outro lado. Era ele, mas meu cérebro demorou um pouco a fazer a associação. Ele perguntou se eu realmente queria tomar um café com ele e se, nesse caso, eu estaria livre dali a duas horas. Não sei o que se passou em minha cabeça naquele momento, mas eu disse sim.
Aquele primeiro encontro correu muito melhor do que eu esperava. Conversamos sem parar e ele não parava de me presentear com aquele sorriso deslumbrante que eu tinha vislumbrado mais cedo. Apesar disso, não me deixei levar e fiz questão de contar sobre a aversão que eu sentia pela profissão dele. E ele riu.
Saímos mais uma vez. E outra. E algumas vezes mais. Até o dia em que eu acordei de manhã cedo e me peguei na minha cama, com ele ao meu lado. Isso foi logo antes de descobrir que, para o meu pavor, aos vinte e quatro anos de idade, eu finalmente tinha um namorado.

Mais um conto com os personagens Manuella e João, que já apareceram por aqui nesse texto. Se gostou, fique de olho, porque eles voltam!

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E depois? (17/29)

Ele me abraçou apertado e beijou o topo da minha cabeça da forma carinhosa que só ele consegue fazer. Notei que ele tremia um pouco, provavelmente por causa da adrenalina, somada à fraqueza e e à pressão da situação.
– Sem tanta pressa, meu amor. – ele pediu com carinho – Só quero ouvir sua resposta quando eu tiver te explicado todos os detalhes. Quero que você esteja totalmente consciente da situação, entes de aceitar qualquer coisa. E, acima de tudo, quero que você pense muito bem se vale a pena.
– Claro que vale! – falei, um pouco mais alto do que planejava – Não importa o que seja, se for para ficarmos juntos, vale a pena.
Eu tentava aparentar mais confiança do que realmente sentia, mas de uma coisa eu tinha certeza: não sabia mais viver sem o Alex, e não estava nem um pouco disposta a tentar. Endireitei-me no banco e lembrei que não estávamos sozinhos no carro. Alice, Clarice e Helena estavam em silêncio absoluto, tentando nos dar alguma privacidade.
– Vai, me conta. – pedi.
– Podemos conversar quando chegarmos em casa? – ele pediu, e deitou a cabeça em meus ombros, sem esperar resposta, fechando os olhos. 
A viagem pareceu se estender por quilômetros. Chegamos em minha casa e insisti que as meninas fossem embora. Alex e eu precisávamos de privacidade. Elas não pareceram satisfeitas, mas concordaram em voltar de manhã e nos dar algum tempo para conversarmos. 
Sozinha, servi de apoio para que o Alex pudesse chegar até a cama, então sentei ao seu lado. Ele parecia realmente cansado e eu senti um impulso fortíssimo de protegê-lo de todos os males do mundo, como uma criança órfã e vulnerável.
– Que tal se você dormir um pouco, e conversarmos de manhã? – sugeri passando os dedos de leve por seus cabelos. 
Ele acenou a cabeça negativamente e segurou minha mão, puxando-me para seus braços. Deitamos juntos, encarando o teto branco por alguns instantes. 
– O que a injeção vai fazer comigo, Alex?
– Você sabe que a razão de eu estar nessa situação é eu estar dando amor, certo? – ele perguntou e eu concordei com um aceno de cabeça – Bem, o coração é um músculo, e como qualquer músculo ele tem uma capacidade máxima. Você me ama com toda a capacidade do seu coração, e é só isso que me mantém vivo, só isso que me fez acordar quando eu provavelmente deveria ter morrido. O problema é que a capacidade dos nossos corações é praticamente equivalente, e se eu te dou quase tanto amor quanto você pode me dar, então eu entro em colapso. O que essa injeção faz é aumentar a capacidade do seu músculo cardíaco, o que vai permitir que você me ame mais e, consequentemente, vai criar um “saldo positivo” em meu favor.

Ele concluiu a explicação e parecia um pouco envergonhado. Eu não conseguia entender o motivo.

– Parece uma solução brilhante, Alex. – exclamei verdadeiramente impressionada – E qual o problema disso tudo?

– O problema é que eu não suporto a ideia de que você vai me amar mais do que eu jamais vou poder te amar, e que eu morro de medo de um dia você perceber o quão injusto isso é, e então resolver procurar alguém que possa retribuir todo o seu amor sem entrar em colapso por isso. – confessou.

– Não seja bobo, meu amor. – segurei seu rosto entre as mãos para forçá-lo a olhar para mim – Eu vou fazer isso, vou fazer por nós. E porque não consigo imaginar uma coisa que eu queira fazer mais do que te amar.

– Mas não é só isso. – ele apertou meu corpo contra o seu e continuou – Eu fiz todos os testes que eu pude para garantir que a injeção é segura, mas meus recursos são muito limitados. Tenho medo de que possa acontecer algum efeito colateral. Não quero te causar nenhum mal.

– Alex, eu já resolvi. – afastei-me um pouco e olhei dentro de seus olhos decidida – Eu quero fazer isso.

(1/29) (2/29) (3/29) (4/29) (5/29) (6/29) (7/29) (8/29) (9/29) (10/29) (11/29) (12/29) (13/29) (14/29) (15/29) (16/29)

Esse é o meme de comemoração do aniversário de 1 ano da Máfia! É um conto escrito a 29 mãos, começando pela Rafa e passando por todos esses links aí em cima. A primeira frase do texto é um link para a última parte, escrita pela Ana Char e não percam amanhã a continuação no blog da Tary!

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Enquanto isso, no espelho.

É duro ter que escolher a profissão tão jovem. Uma hora somos crianças, na próxima temos que ser responsáveis e conscientes o suficiente para tomar a decisão que pode ser a mais importante da sua vida. Sim, as pessoas podem mudar a profissão, mas é muito difícil arrumar a coragem quando já se está com os dois pés no caminho.
Quando a decisão foi tomada com base em influências externas, tanto pior. Genética não tem nada a ver com isso. Não importa que toda minha família tenha talento e paixão por escrever. Não importa que todos eles tenham escolhido a profissão e se saído bem nisso. Só que, infelizmente, importa, sim.
E agora, aqui estou eu, 27 anos, casada e escritora. Lutando dia após dia para viver essa vida que, se não é ruim, não é a que eu nasci para viver.
O modo como eu imagino meus dias não podia ser mais diferente. Na minha cabeça, um universo paralelo onde eu me refugio para fugir da vida real, eu sou uma advogada bem sucedida. Totalmente bem resolvida, independente, com um apartamento fabuloso só para mim e ninguém a quem eu deva explicações. Infelizmente não me sobra muito tempo para essas divagações, e eu tenho que me contentar em estudar direito de forma independente no meu tempo livre.
Acordo com o som áspero do despertador e noto que João, o marido, não está mais na cama. A metade da cama que ele deveria ocupar já está arrumada, um hábito estranho e meio comunista de divisão igualitária de tarefas que ele trouxe dos tempos de solteiro. O chuveiro denuncia sua localização e eu considero permanecer sob o cobertor, onde o mundo é quentinho e macio.
Essa ideia, porém, não dura muito. Levanto, arrumo a minha metade da cama e sigo para a cozinha. Coloco os ingredientes para o café na cafeteira nova, presente de natal da minha sogra, e arrumo as fatias de pão de forma amanteigadas na torradeira, enquanto ouço o chuveiro ser desligado.
As torradas são lançadas ao ar ao mesmo tempo em que eu sinto as mãos grandes se acomodarem na minha cintura e lábios macios tocarem a minha bochecha levemente.
– Bom dia. – ele sussurra.
– Bom dia. – respondo.
Tomamos café rapidamente, enquanto ele alterna a atenção entre o jornal e a advertência repetida pela milésima vez de que eu deveria adquirir o hábito de escovar os dentes antes do café. A explicação científica que se segue já foi repetida tantas vezes que criou um bloqueio no meu cérebro, e eu tenho absoluta certeza de que nunca escovarei os dentes antes do café. Por princípio.
Ele me dá um beijo rápido, desejando bom dia, e sai para trabalhar. João é dentista. Mais uma ironia: sempre odiei dentistas.
Lavo a pouca louça que usamos no café e então me dedico, com calma, ao meu ritual matinal. Coloco uma música, escovo os dentes e tomo meu banho. Depois, com as roupas mais velhas e confortáveis do meu armário, varro a casa de ponta a ponta e, finalmente, ligo meu computador e preparo um chocolate quente, enquanto a máquina se prepara para o trabalho do dia.
Sentamos, minha caneca fumegante e eu, em frente à tela luminosa e nos colocamos em ação. Escritores iniciantes tendem a colocar toda a responsabilidade na tal da “inspiração”, a qual eu tenho que reconhecer que até hoje não fui apresentada. Mas quem conviveu com essa atividade a vida toda e tira o sustento disso sabe bem que é tudo uma questão de foco e técnica. Duas coisas que se desenvolvem com o tempo.
Paro algumas horas mais tarde para almoçar uma omelete improvisada e me concedo um par de “horas de descanso” para me entreter com um pouco de direito constitucional.
Provavelmente meu gosto pelo estudo das leis intriga muita gente. Eu sempre tive admiração por essa área de conhecimento, para desgosto da minha família, mas foi só durante as pesquisas para um dos meus livros que eu descobri minha paixão. Nunca mais consegui parar.
Meu par de horas acaba se estendendo sem que eu perceba e eu sou trazida de volta ao mundo real pelo som da porta se fechando. Felizmente, João não se importa com esse meu pequeno hobby. Às vezes até se junta a mim. Ele tem algumas sacolas de supermercado nas mãos que provavelmente contêm os ingredientes do nosso jantar e sorri para mim de longe, me olhando daquele jeito que só ele me olhou em toda a minha vida.
Não, minha vida não é nem de longe tão ruim quanto poderia ser.
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Lembrando, só que ao contrário

Lembram do texto de ontem? Aquele sobre o Louis? Bem, ele não era meu. De quem foi, não sei ainda. assim que souber edito aqui. Tudo foi uma brincadeira pra lá de mafiosa que consistia em tentar copiar o estilo da amiga, e nós teríamos que descobrir quem escreveu qual texto.
Eu achei que a amada que me tirou foi gênia, foi no ponto. Escolheu um tema sobre o qual eu escreveria, misturou fatos e sentimentos, o que eu sempre acabo fazendo, mesmo quando não quero, e ainda mostrou que fez o dever de casa citando o Mike (que morreu de forma trágica) e a sugestão do meu avô quanto ao piano (o que, de fato, procede, e que me fez rir). Nadinha do texto faria alguém suspeitar que não fui eu quem escreveu, muito menos me deu uma pista de quem foi. Ainda estou na expectativa!

Para as muitas que ficaram especulando sobre a espécie do Mike, vou acabar com o mistério: Mike era um violão, que acabou virando cacos de violão. Na verdade o nome do sucessor dele era Glauco, mas a partir de agora é Glauco Louis. Um dia desses posto a história real aqui, com direito a foto (me cobrem).

A pessoa que eu tirei, por sua vez, já sabe que fui eu a autora da desgraça. Escolhi me entregar logo no título desse post. A dita cuja também tinha me descoberto já, ou pelo menos é muito boa de chute. Analu, isso está me consumindo: onde eu me entreguei?? Meu texto de 1º de abril estava aqui, no blog da Analu, essa linda ♥.
Nem preciso dizer que pirei quando caí justamente com ela no sorteio. Por dois motivos: é o blog mafioso que acompanho há mais tempo; e é alguém que tem um estilo de escrita totalmente diferente do meu. Essa última parte descobri quando fui fazer minha pesquisa de campo, virando o blog dela do avesso. Eu explico: Analu é toda fatos, está pra nascer alguém com tantos acontecimentos pra dividir com o mundo! Enquanto isso, eu, ainda quando tento começar com um fato, acabo perdendo o fio da meada e me desvirtuando no meio do caminho, geralmente antes disso. O ponto número dois é que Analu conversa com o interlocutor, em cada texto parece que a linda está do seu lado, contado uma história. E eu me acho mais intimista, escrevo mais como se estivesse falando sozinha.
O último e maior dos meus desafios, porém, porque significava não só ter que quebrar a cabeça, como aumentava o risco de me entregar, é o tamanho dos textos da criatura. Eu, mesmo quando tento ser prolixa, não consigo. Os textos dela, em geral, são significativamente maiores que o meu padrão. Imagina tentar me estender, e ainda não me entregar!
Com todas essas coisas, e mais algumas outras, na cabeça, o primeiro desafio foi escolher o tema. Comecei com algo básico, decidi por uma homenagem ao blog (dela, claro; antes que alguém pergunte), mas dois parágrafos mais tarde percebi que aquilo não ia dar certo. Escolhi, então, outro assunto: o nascimento de uma certa irmãdade, que achei que poderia ser interessante, até perceber que ia requerer conhecimentos que eu não possuo. Por fim, achei que a minha saída seria misturar fatos e imaginação, ou seja, não inventar algo que já aconteceu, mas algo que ainda vai acontecer. E assim se deu o parto do “Lembrando, só que ao contrário”.
Por fim, entes de encerrar, só queria dizer que essa foi uma das brincadeiras mais educativas, difíceis e fantásticas da qual eu já participei, apesar da pequena confusão que causou. Ter tirado a Aninha, com todas essas dificuldades que eu já expliquei, me ensinou muitas coisas que eu planejo tentar incorporar nos meus textos a partir de agora. Eu sei que fiquei longe do padrão das meninas − que foi surpreendentemente alto pra um jogo tão difícil −, mas espero não ter decepcionado demais ela. Enfim, isso tudo foi como ter acesso a toda uma nova dimensão do ato de escrever, e me fez ver o quanto eu ainda tenho para estudar e crescer nessa vida.


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Louis

Hoje precisei acordar cedo, tinha uma missão. Acordar cedo em pleno sábado não é legal, mas dessa vez era por uma boa causa. Com um nó no estômago, me arrumei e esperei minha mãe na sala. Saímos sem trocar muitas palavras.
Eu sabia que não estava fazendo nada de errado e repetia mentalmente que você era insubstituível, que não estava te trocando e que você seria eterno.
Entrei na loja e tive aquela sensação engraçada de déjà vu. Fiquei me lembrando do meu sorriso infantil, enquanto saía com você nos braços. Lembrei de vovô me perguntando se um piano não seria melhor e do vendedor se oferecendo para trocar a posição das tuas cordas.
Hoje eu não fui conquistada à primeira vista, procurei, procurei e procurei. Mas nenhum deles tinha aquilo que você tinha. E, apesar disso, saí de lá com um novo amigo. 
Louis, já te disse que você nunca substituirá Mike e espero que você me entenda. Por favor, não fique chateado comigo. Espero, sinceramente, que possamos ser bons amigos e tenho certeza que Mike ficaria muito feliz com isso!
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Maria

Maria nasceu roxa e imóvel, cordão umbilical enrolado no pescoço. A mãe estava inconsciente na cama e pai, ela nunca teve. Os médicos e enfermeiros se olharam, tensos. Ninguém se mexeu até que uma das enfermeiras pegou o bebê e o levou para a sala ao lado. Massageou seu peitinho com força e Maria soltou um grito. Todos correram para ver o milagre que tinha acontecido. A bebêzinha vivia. Maria queria viver.
A menina era tudo para a mãe, e a recíproca era verdadeira. Quando pequena, Maria passava o dia na casa da vizinha, enquanto a mãe trabalhava. Ocupava todo seu tempo inventando histórias para contar para a mãe, sentada em seu colo, quando ela chegasse em casa.
Maria nunca foi uma aluna brilhante, não passava do medíocre, mas se esforçava para orgulhar a mãe e nenhuma vez ficou de recuperação. Aos quinze anos começou a trabalhar, quando a mãe adoeceu. Maria lavava, passava, arrumava e cozinhava, além de estudar e trabalhar.
Com todas essas ocupações, Maria não tinha tempo para amigos. Amigos são luxo, não enchem barriga. Foi uma criança solitária, uma adolescente solitária e, após a morte da mãe, uma adulta completamente sozinha. Trabalhava como recepcionista em um laboratório médico.
Contava vinte e três anos quando conheceu Marcelo no trabalho. Ele tinha boa aparência, era gentil e ia ao laboratório todos os dias para vê-la. Um belo dia, Maria concordou em ir ao cinema com ele, e em seis meses estavam casados.
Não tinham completado ainda um mês de casados quando aconteceu pela primeira vez. Marcelo chegou em casa no meio da madrugada, completamente bêbado e desconjuntado. Mal ficava de pé.
− Olha o seu estado! − Maria reclamou, e foi a única coisa que fez antes do punho atingir seu estômago.
No dia seguinte, sóbrio e parecendo arrependido, Marcelo ajoelhou a seus pés e implorou perdão. Ele parecia sincero e apaixonado, quem não cairia? Maria perdoou e ele beijou-lhe as mãos parecendo aliviado. Infelizmente não demorou mais de uma semana até tudo começar de novo.
Dois meses após o casamento, Maria começou a notar mudanças em seu corpo. Eram os primeiros sinais de Francisco. O marido ficou radiante e tudo voltou a ser perfeito por um tempo. Infelizmente, a trégua acabou duas semanas após o menino vir ao mundo. E nunca mais voltou.
A criança cresceu assistindo às mais horríveis cenas. Estava sempre em um canto da sala, impotente e infeliz. Quanto completou dez anos, decidiu que precisava intervir. Quando viu mais uma tempestade se aproximar, colocou-se entre os pais e pediu a Marcelo que não fizesse mais aquilo.
Pela primeira vez Marcelo levantou a mão para o menino. Cego de raiva, desceu sobre ele toda a raiva que planejava despejar sobre a esposa. Maria gritava, chorava e tentava segurar o marido, em vão. A tempestade levou cerca de meia hora para passar, deixando como resultado o corpo pequeno e magro de Francisco inerte no chão.
Com a força de uma leoa ferida, Maria empurrou Marcelo que, surpreso, caiu sentado no chão. Pegou a primeira coisa que alcançou, uma vassoura, e desfechou o golpe com toda a sua força no meio da testa do marido. Imediatamente o sangue jorrou e o corpo pesado despencou no chão. A mulher pegou o filho inconsciente nos braços e correu pela rua gritando por socorro.
Por pouco não foi tarde demais para o pequeno Francisco. Ele passou quase um mês no hospital para se recuperar dos ferimentos e nem por um segundo Maria deixou o seu lado. Seu filho era sagrado; não importava o que acontecesse com ela, ninguém tocaria em um fio do cabelo dele novamente.
−  Vai ficar tudo bem, querido. Ele não vai voltar. − prometeu.
O corpo de Marcelo foi encontrado alguns dias depois, no mesmo lugar onde caíra. Maria ainda queria viver.
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É real?

O calor era intenso, as férias ainda estava a um mês do fim e a menina estava derretida no sofá da sala, tentando ocupar a maior área possível para captar o vento do ventilador de teto. Já tinha lido e relido os livros da escola, os livros que tinha em casa e os livros da vizinha. Conseguiu fazer a mãe comprar mais uns dois ou três, mas começo de ano é época apertada e as moedas estavam contadas na casa. Reunindo todas as suas forças, foi até a cozinha, atrás de sua mãe.
− Já falei que não vou comprar mais nenhum livro pra você esse mês, Capitolina. − a mãe cortou antes mesmo que a menina pudesse abrir a boca. Pode parecer irônico para uma pessoa que batizou a própria filha em homenagem a Machado, mas tudo tem seus limites − Vai brincar lá fora.

Capitu se largou na cadeira perto da parede com estrondo e soltou um gemido de desgosto.

− Tá muito quente, mãe. E tá todo mundo viajando − respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo − É janeiro!

− Vai assistir televisão.

− Não tem nada bom passando.

− Vai ver porcaria na internet.

− Não tô a fim.

− Por que você não pode ser uma menina de treze anos normal? − a mãe suspirou, mas a menina conhecia o suficiente sobre perguntas retóricas para não responder − Vem que eu vou te ensinar a cozinhar, assim você faz alguma coisa útil e para de reclamar.

A menina só suspirou e se arrastou de volta para seu lugar no sofá, calculando a posição exata para se posicionar sob o ventilador. Deitou o mais esparramada que pôde e fechou os olhos. Não era fácil ser adolescente naquela casa, ninguém entendia aquela vontade irrefreável de reclamar de tudo nas horas de tédio.

Capitu ouviu distintamente três batidas na porta e levantou para atender, coisa que ela não faria normalmente. Do lado de fora, com o rosto levemente úmido de suor e um sorriso irresistível no rosto estava parado, nada mais, nada menos, que o garoto mais bonito da escola.

− Oi − ela falou, assim que recuperou a voz, tentando parecer calma.

− Oi − ele respondeu, e ela sentiu seu hálito com cheiro de menta − Estava aqui por perto e imaginei se de repente você não queria ir ao cinema comigo.

− C-c-cinema? Cinema, claro. Vou pegar a minha bolsa. − concordou, balançando freneticamente a cabeça.

Em uma fração de segundo estavam dentro da sala de exibição. O ar condicionado estava gelado e ele passou o braço em volta dela para esquentar. Eles conversavam animadamente e riam, até que ele se ajeitou na poltrona e virou o corpo na direção dela. Ele começou a se aproximar lentamente e os dois fecharam os olhos. Os lábios se tocaram.

Outra fração de segundo. Eles andavam de mãos dadas pelos corredores da escola. Todos os alunos abriam caminho para passarem. Todas as meninas a invejavam.

Fração de segundo. Eram adultos e ele estava ajoelhado em sua frente. Sim e então ele colocava um anel lindo em seu dedo. E eles se beijavam. Os sinos tocavam, e ela caminhava, vestida de branco, pelo longo corredor até onde ele estava, ao lado do padre. Todos a admiravam.

Capitu, vem almoçar! − a voz da mãe vinha da cozinha e a despertou de seus pensamentos − Parece até que ficou surda! Deve tá pensando na morte da bezerra.

A menina levantou lentamente e atravessou a sala arrastando os pés. De vez em quando a mãe conseguia ser realmente insuportável.

Ficção

Era uma vez, muito tempo atrás – Parte II

Confira a parte I aqui.
Cecília queria procurar padre Joaquim para pedir, pelo menos, orientação para a tarefa arriscada que estava determinada a realizar, mas ela conhecia o padre o suficiente para saber que ele jamais aprovaria que ela realizasse um ritual daqueles. Ela sabia também que ele procuraria seu pai para tentar obter permissão para ir ele mesmo atender ao caso de Sara, e isso só causaria mais problemas para ambos.

Pegou a Bíblia que ficava em sua mesa de cabeceira, concentrando-se para lembrar-se dos procedimentos. Treinou tudo algumas vezes, pegou o crucifixo que costumava pertencer à mãe e marchou de volta para o quarto de hóspede que a irmã estava ocupando desde que o pai decidiu que seria um risco para Cecília ficar próxima demais da gêmea. Tirou os sapatos para tentar não fazer barulho, apesar de ter se certificado previamente que o pai não estava em casa, e trilhou metade do caminho com sucesso até ouvir seu nome chamado em uma voz infantil que vinha de algum ponto atrás de sua cabeça. Sentiu os cabelos da nuca arrepiarem e por um triz não saiu correndo.

Virou-se lentamente e deu de cara com o irmão, de pé no corredor.

− O que você tá fazendo? − o menino de oito anos perguntou, desconfiado.

− Vou ler um pouco pra Sara. − ela mentiu, torcendo para ele não reconhecer o volume que estava em suas mãos.

− Posso ir também? − ele pareceu animado.

− Não. − Cecília respondeu bruscamente − Você sabe que o papai não quer você no quarto dela, você pode ficar doente.

− Ele também não quer você lá. − retrucou.

− Mas eu falei que ia ler para ela, e ele deixou. − mentiu − Mais tarde leio alguma coisa pra você também, está bem?

Ele não pareceu convencido, mas não respondeu mais. A menina seguiu seu caminho e chegou ao quarto da irmã sem mais nenhuma interrupção. Trancou a porta com cuidado, verificou se as janelas estavam seguramente trancadas e fechou as cortinas, mergulhando o quarto na escuridão. Acendeu algumas velas, que inundaram o quarto em uma luz tênue. Sara olhava tudo da cama parecendo confusa e assustada, sua pele estava mais pálida que o normal e as olheiras sob os olhos eram profundas e negras. A pele delicada da menina também apresentavam diversas cicatrizes fruto de suas crises.

Cecília se aproximou lentamente e apertou as tiras de pano que amarravam as mãos e os pés da gêmea na cama, amarrando em seguida com algumas cordas que tinha trazido por cima dos retalhos. Passou a mão no rosto da irmã e beijou sua testa.

− Sara, eu vou te ajudar. Fica calma que eu sei o que estou fazendo. − a irmã a olhou em silêncio, e ela pôde ver algo diferente crescendo em seus olhos, se aproximando.

Levantou-se da beira da cama, abriu o livro na página certa, colocou o crucifixo no pescoço e se benzeu. Estava pronta. No mesmo segundo uma luz verde piscou nos olhos da menina amarrada e ela soube que tinha começado. Não tinha mais volta.

Com o mais completo domínio de si mesma, seguiu à risca o procedimento que já tinha assistido tantas vezes. A gêmea gritava e se contorcia loucamente, mas ela sabia que não podia parar. Continuou de forma incansável por aproximadamente duas horas, quando ouviu batidas na porta e a voz de seu pai atravessou a espessa camada de madeira maciça.

Ainda assim, ela continuou. Seria ainda pior se ela parasse agora. A voz furiosa do pai chegava a seus ouvidos como se estivessem vindo de uma longa distância. O ritual durou ainda quase duas horas, até que as velas se apagaram todas de uma vez e Sara parou bruscamente, jazendo estatelada e imóvel na cama. Já houvera outras pausas no curso do ritual, mas ela não tinha se deixado enganar, porém agora era diferente.  A nota de tensão no ar havia sumido, era como se o ar como um todo estivesse mais leve. Ela sabia que estava tudo acabado, ela tinha vencido.

Abriu as cortinas e as janelas, arejando o quarto e deixando a luz entrar. O homem ainda gritava do corredor, mas ela o ignorou e se dirigiu primeiro até a cama, receosa de como poderia encontrar a irmã. A aparência da menina, apesar da magreza e da palidez, estava consideravelmente melhor, e ela parecia estar em sono profundo. Avaliou sua respiração, que parecia normal e regular, ouviu os batimentos cardíacos, checou o pulso e as pupilas, apesar de não saber muito bem o que fazia. Tudo parecia bem.

Desamarrou as mãos e pernas amarradas, feridas pelas cordas, e limpou os machucados com um pano úmido, fazendo curativos. Secou a testa coberta de suor de Sara e trocou sua camisola ensopada. Arrumou-a sob as cobertas e finalmente foi até a porta.

Encontrou o pai sentado no chão, com a cabeça entre as mãos. Ele saltou imediatamente de pé e passou por ela como um jato, se aproximando da cama da doente. Certificou-se de que ela estava bem e mandou chamar um médico, antes de se virar novamente para Cecília.

− Você não sabe o que fez. − falou furioso, após arrastá-la do quarto para não acordar Sara. − Você podia ter matado ela.

− Você também. − ela retrucou − Se eu não fizesse nada, ela ia morrer de qualquer jeito!

A grande mão do homem desceu, acertando em cheio o rosto da menina, antes que ele pudesse perceber o que fazia. Saiu bruscamente do quarto, sem dizer mais nada. Uma hora depois, foi chamado por causa da chegada do médico, que examinou minuciosamente a paciente, ainda adormecida. O doutor anunciou que, além de uma leve anemia e um cansaço extremo, não havia nada de errado com ela. O pai não podia se conformar com isso, e o médico aconselhou-o a esperar alguns dias e avaliar ele mesmo o estado da filha.

Como previsto, assim que acordou, a menina começou a melhorar. O que espantou não só o pai, como todos os empregados que haviam acompanhado a doença.

Padre Joaquim, quando soube da história pela boca da própria Cecília, repreendeu-a severamente e, com o consentimento do pai das meninas, foi até a casa em que viviam para avaliar o estado de Sara. Constatou com o alívio que tudo estava bem, e o problema realmente tinha sido solucionado.

Cecília passou um mês de castigo por desobedecer no mínimo cinco ordens dadas pelo pai de uma só vez. Estava proibida, por esse tempo, de deixar o quarto, inclusive − e principalmente − para ir à Igreja. Ela achou melhor aceitar a punição, e assim o fez. Mas correu de volta para o encalço do padre no segundo em que estava livre. Tudo estava de volta ao normal, afinal de contas.