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Brooklyn, solidão e família
Filmes, Livros, Pessoal

Solitários S/A: a família que se encontra pelo caminho

 

Quando assisti Brooklyn pela primeira vez, o começo do filme estraçalhou meu coração; talvez porque eu tenha me visto na Eilis, ainda que em um futuro hipotético. A sensação de definitividade daquilo tudo: dar as costas a toda uma vida e partir sozinha para o próprio destino, em um lugar estranho onde não se conhece ninguém e sem previsão de voltar, me deu uma sensação de vazio e solidão tão grandes que eu não consigo traduzir bem em palavras. É algo que eu anseio e temo ao mesmo tempo.

Mesmo que eu não tenha passado por nada daquilo ainda, eu automaticamente me coloquei no lugar dela, e senti (talvez de forma mais aguda do que se fosse realmente eu ali) toda a estranheza daqueles jantares na pensão, a disciplina dissociada do ambiente familiar, os costumes estranhos, o novo emprego. Mesmo eu não sendo uma jovem irlandesa de uma cidade do interior antes dos tempos da comunicação fácil e irrestrita, eu senti saudades e chorei e quis voltar. E então a vida começou a acontecer.

Para Eilis, veio na forma de uma paixão, um casamento e a perspectiva de uma nova família nos moldes tradicionais. Para Angela Clark, personagem principal de I heart New York (livro que a mamãe comprou quando nós realmente estivemos em NY e quem acabou lendo fui eu), foram amigos.

A história da Angela é peculiar porque ela não planeja conscientemente emigrar. Um belo dia, em um casamento, ela descobre em primeira última mão a traição do noivo, pega um avião e vai parar… Também em Nova York. Também sozinha, também sem nada concreto e também construindo uma nova vida. E até o último segundo ela nem tem certeza se vai mesmo construir uma nova vida nesse novo lugar.

Mais uma história, ainda em Nova York, sem relação aparente. A Redoma de Vidro. Talvez esse seja mais difícil de associar, na prática, com as histórias anteriores, mas por algum motivo, a sensação que me passa é a mesma. Ainda que a Esther só esteja por lá de passagem e acabe voltando para a casa da mãe, a história de desconexão dela começa bem antes, quando ela entra na faculdade, e se estende mesmo com a volta para casa.

O essencial para a associação possivelmente aleatória que se formou entre as três histórias na minha cabeça é justamente o estranhamento de estar em um ambiente novo, diferente, segregado de tudo aquilo que conhecemos pelo conceito tradicional de família. É a sensação de alheamento que essas três personagens específicas, dentro todos os exemplos de personagens na mesma situação, me passam.

O ponto central entre essas três histórias, além da cidade que serve de plano de fundo (e, algumas vezes, de personagem), é justamente essa redoma de vidro em torno das personagens principais e que varia, entre elas, de um estágio normal da mudança de vida radical pela qual se está passando até um estado realmente patológico. Na maioria dos casos, essa redoma começa a desmoronar à medida que novas conexões são formadas com as pessoas em volta. Existe vida ali, existem seres humanos. E como eu me identifiquei com essa sensação, mesmo que eu não tenha deixado a minha própria cidade.

O momento de deixar o ninho é cheio de muitas emoções, boas e ruins — geralmente boas e ruins ao mesmo tempo. É assustador e solitário pensar em chegar em casa e não encontrar os rostos familiares que antes estavam ali. É assustador pensar em encontrar, nesse mesmo lugar, rostos diferentes, possivelmente menos amigáveis. É assustador pensar que os rostos que você foi ensinado a acreditar que sempre estarão lá para correr em seu auxílio em caso de colapso agora vão estar a duas horas de distância, ou três ou cinco ou doze. Ou do outro lado do oceano. É assustador pensar que mesmo que todas essas pessoas continuem existindo em algum lugar, você pode estar só.

A princípio parece mesmo que você está só. Então as pessoas começam a aparecer de todos os lados. E a sensação passa.

Passa porque estar sozinho não é o fim do mundo. E passa porque novas conexões começam a se formar, mais fortes justamente porque se está sozinho. Conexões com pessoas possivelmente tão merecedoras do título de família quanto a anterior. São novos amores, novos amigos, novos rostos que já não são mais tão desconhecidos. Novos abraços e novos gestos mostrando que incondicional é um conceito mais relativo do que se podia imaginar, e que essa história de que amor e dedicação têm alguma relação necessária com sangue e genética não faz sentido nenhum. No fim, quem vai estar ali para você é quem quer estar, e não quem tem alguma obrigação natural questionável de estar.

Não é um conceito fácil de formular, quando fomos ensinados desde sempre que as pessoas com quem podemos contar são a família e que a família é formada por laços de sangue. Chega a ser subversiva a ideia de que esse líquido vermelho que corre nas nossas veias sirva mesmo só para carregar oxigênio e exercer um punhado de funções biológicas, enquanto o essencial para a conexão entre os seres humanos é determinado por outros fatores. Pela química, pela energia, pela alma — cada um dá o nome que quer — que pode ou não vir no pacote. Mas uma vez que se pensa o suficiente sobre isso, o bastante para desconstruir a ideia de que amor e identificação são compulsórios, é algo libertador e reconfortante. Porque significa que, independente do que aconteça no caminho e da sua sorte ao nascer, o jogo nunca está perdido, e nós nunca estamos realmente sós.

Isso foi só uma das muitas coisas que a Eilis, a Angela e, sim, a Esther também, me re-lembraram, e uma das lições mais importantes que eu aprendi na vida: família não é um conceito fechado, é algo que a gente constrói à medida que a gente caminha. Deixando para trás esse determinismo genético, e incorporando novas pessoas que antes nos eram completamente estranhas.

Livros

Pelos olhos do oprimido (uma resenha nascida na madrugada)

O que falar de O Sol dos Moribundos? Você pode ter achado que eu ia usar um meme da internet aqui, mas essa é uma questão real na minha vida. Terminei esse livro anteontem à noite e senti que precisava escrever algo, para que o mundo visse e soubesse que ele existe. Só 51 pessoas além de mim marcaram que o leram no skoob, 5 estão lendo, 25 querem ler, 3 abandonaram. Podemos dizer que é um livro bem desaplaudido. Mas não deveria.

Esse foi mais uma daquelas aquisições aleatórias de bienal. Se você nunca foi em uma bienal, eu explico: existem os stands enormes das editoras, onde a maior parte dos livros é vendida pelo preço que você encontra em qualquer livraria (ou mais caros), e existem stands menores, cheios de mesas gigantescas com toneladas de livros (vulgo os stands que eu frequento). Nessas mesas, você encontra livro de todos os tipos, tamanhos, formas e a grande maioria é bem barata — é meu paraíso. Meu critério para escolher um livro nesses lugares é: nenhum. Se o título e/ou a capa me agrada, eu nem leio a sinopse. Foi assim que o sol dos moribundos veio parar na minha estante por uns dez reais, uns quatro anos atrás.

Provavelmente teria continuado na estante para sempre, se não fosse minha Jarra. No final de 2015, saiu o papelzinho com o nome dele, e lá fomos nós.

Comecei, intercalei com outros, demorei a terminar, mas terminei. E eu queria muito falar sobre ele, mas não sabia como. Até que ontem (hoje), meia noite e pouco, depois de ter falado com Letícia sobre ele, eu tive uma ligeira luz. E cá estamos.

O livro conta a história do Rico, um morador de rua de Paris. O melhor amigo dele (outro morador de rua) morre, Rico tem certeza que vai ter o mesmo destino e isso levanta nele todo o tipo de sentimentos e lembranças da sua vida. Então ele resolve se mudar para a Marselha, onde viveu uma de suas histórias de amor quando era mais novo, para morrer ao sol. Esse caminho é a parte um do livro. A parte dois é rico já em Marselha, onde ele conhece o narrador.

O narrador é, na verdade, uma das melhores partes do livro — se não a melhor; mas eu não vou falar sobre isso porque se o autor só quis revelar a identidade dele na segunda parte, não sou eu quem vai estragar a brincadeira.

O livro é muito bem escrito, as personagens são maravilhosas, mas também é um livro bem pesado. É um livro sobre moradores de rua, um livro sujo, sem esperança e cheio de coisas e pessoas que nós não queremos ver. É um livro com alguma misoginia, é verdade. Mas principalmente é um livro muito humano, e que mostra o lado do outro.

Duas vezes, durante o livro, Rico participa de pequenos assaltos. É bacana? Não. Ele ameaça pessoas e leva “o que é delas”. Mas mesmo enquanto faz isso, ele não parece um monstro. Ele só está sobrevivendo e às vezes a gente faz o que precisa fazer. E é por isso que eu achei o livro tão importante. Elo mostra que não existe só um lado certo e um errado. Existe um mundo muito complexo.

“Compreendi isso certa tarde, ao descobrir o último modelo Nike, na Go Sport. Só de me olhar me deu um aperto na barriga. Como quando se está com fome. Por que eu não posso comprar esse tênis? Por que os outros podem, e eu não? O que foi que eu fiz ao Profeta? Essas perguntas todas vêm à cabeça da gente. E uma resposta só: injustiça. Sabem como é, começa assim.” (pp. 221)

“– Bom, Rico, isso não é vida. Você sabe muito bem.
— E a vida é o que? Isso aí?
Rico apontou um sujeito embecado num terno, apressado, celular colado ao ouvido.
— Isso eu já vivi. Sei aonde leva. Exatamente ao ponto onde estou hoje. Portanto, não me enche, Jeannot.”
(pp. 222)

Não é exatamente o mesmo ponto, mas me lembrou o discurso da Chimamanda sobre o perigo da história única. Se vocês não assistiram ainda, acho que é um ótimo investimento para os próximos vinte minutos do seu tempo:

O final do livro é previsível, mas ninguém em momento nenhum prometeu surpresa. E ainda assim é muito emocionante. Quem sabe vocês poderiam considerar dar uma chancezinha para o pobre livro desaplaudido, e depois virem me contar o que acharam.

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É a dor que move o mundo (1/2 resenha, 1/2 reflexão)

Numa das minhas passagens pela terra da garoa esse ano para visitar amigas, acabamos, para variar, em uma livraria, onde algumas de nós deram de cara com o livro da Amanda Palmer e resolveram levar. Eu, como (a) sou do contra, (b) nunca tinha ouvido falar no bendito, (c) não achei grande coisa em uma primeira passada de olhos e (d) estava — ainda estou — tentando levar a sério essa história de não aumentar a pilha de não lidos, decidir que não.

Então elas começaram a ler e comentar e outras de nós fomos comprando e lendo e toda a internet pareceu que estava comprando e lendo e falando sobre esse livro. E no meio de tudo que eu ouvi a coisa começou a parecer interessante. E é mesmo. Comprei no kindle, parei tudo pra ler (por favor, que livro seria melhor pra uma virada de ano?).

O livro é ótimo, mudou de verdade minha vida, me fez refletir sobre tudo. Mais ainda, me fez querer lotar a caixa de e-mails da Amanda Palmer, abraçar ela, levar ela pra um bar e encher a cara junto com ela enquanto abriríamos nossos corações uma para a outra. Isso é basicamente o que eu tenho a dizer sobre o livro: vocês deviam mesmo ler. Juro. Já indiquei para todas as amigas.

Às vezes as pessoas se mostram inconfiáveis.
Quando isso acontece, a reação correta não é:
Porra! Eu sabia que não podia confiar em ninguém!
A reação correta é:
Tem uns que são uns bostas.
E segue-se em frente.

Mas meu objetivo inicial não era vir aqui falar sobre o livro como um todo. Eu queria mesmo era falar sobre uma lição específica desse livro que não sai da minha cabeça desde então. Como muitas das outras, foi passada de Anthony, o Mentor dA Amanda, para Amanda, Nossa Nova Mentora. Se resume a uma história aparentemente simples, que eu vou tentar citar de cor por preguiça de achar o trecho no livro (que eu não sublinhei porque sou idiota).

Em resumo, um homem estava sentado na porta de casa, quando um vizinho passou e ouviu o cachorro chorando do lado de dentro. O vizinho perguntou o que estava acontecendo, e o dono do cachorro respondeu que o bicho estava sentado em um prego. Por que ele não sai?

Porque ainda não está doendo o suficiente.

A gente sente a dor, chora, reclama no ouvido alheio. Mas a gente só levanta do prego quando dói pra valer. Isso não sai da minha cabeça a dias, eu queria tatuar na testa, escrever na parede, gravar em uma fita (velha) pra tocar em loop durante o sono. É uma metáfora simples e brilhante.

A gente se acomoda. Até no que está ruim. Porque todo mundo tem preguiça. Porque quando a gente tenta melhorar, pode acabar piorando. Porque o novo dá medo. Porque mudar dá muito trabalho. Porque as expectativas podem não corresponder à realidade e a gente pode terminar frustrada. Porque a gente sempre tenta se convencer de que as coisas podem melhorar sem que a gente precise levantar. da. caceta. do. prego. Quando levantar a bunda do prego de uma vez por todas seria a solução mais rápida, eficiente e menos cansativa.

A gente precisa tomar jeito. E levantar da porra do prego.

Livros

Minha vergonhosa lista de leituras de 2015

Preciso confessar que eu estava considerando minha análise estatística das leituras dos últimos cinco anos como a retrospectiva desse ano e estava prontinha para seguir em frente e esquecer essa página vergonhosa na minha vida literária. Mas aí recebei um comentário da Fernanda naquele texto, que ficou curiosa para saber quais tinham sido os livros lidos. Achei uma dúvida bem justa, e lembrei também que eu uso as retrospectivas anuais para manter um registro mais geral das minhas leituras. Voltei atrás na decisão.

Como eu já falei, 2015 foi longo. Longo de verdade, tão longo que eu me surpreendi em ver que as coisas lidas no começo do ano foram lidas já em 2015. Eu consegui esquecer completamente (quase) a história de um dos livros, e tive que correr atrás das migas para lembrarem por mim.

Passado desse contratempo, veio outro: minha lista de leitura pareceu um apanhado muito muito muito aleatório, e eu não sabia como lidar com ela de um jeito que fizesse algum sentido e não matasse ninguém de tédio. Ainda não sei, então acho que vou falar um pouquinho de todos e a gente segue daí. Ainda bem que foram poucos.

Comecei o ano com a sequência A Casa de Hades, Memoirs of na imaginary friend, Como eu era antes de você, Mentirosos, Contando os dias e E se fosse verdade. Eu já estava comentando todos de novo, quando fui olhar os arquivos do blog e me dei conta de que cheguei a comentar um pouquinho de cada aqui. Então, sigamos em frente. Mentirosos me empolgou tanto que também ganhou resenha própria, e cheguei a falar um pouco mais por aqui da minha experiência com Comer, Rezar, Amar.

Logo depois, embalada na vibe indiana, peguei da estante A Doçura do Mundo (que também já deu as caras por aqui), que conta a história da Tehmina, uma idosa indiana que perde o marido e precisa decidir se vai se mudar para os Estados Unidos, onde o filho mora com a família, ou continuar na Índia, onde sempre morou. O livro se passa nos Estados Unidos, mas a autora é indiana. Não é um livro empolgante e cheio de acontecimentos. É um livro tranquilo, com a mesma aura de uma senhora indiana idosa. É bem sutil e emocionante, mas não chegou a me fazer chorar.

Em maio, foi lançado o novo livro da série A Seleção, The Heir (A herdeira), e eu obviamente corri para ler. Gostei bastante, e chegou a ganhar resenha aqui no blog (to vendo que até que eu fiz jus ao meu passado de blogueira literária esse ano).

Depois disso, achei que seria uma boa ideia me meter em uma maratona literária que começou com 1Q84 (vol. 1), um livro tristemente prejudicado por uma doença peculiar que eu possuo: a síndrome de Murakami. Eu tenho essa trilogia em casa desde o meio de 2014, mas acho errado chamar de trilogia. 1Q84 na verdade é um grande livro, dividido em três provavelmente porque se fosse um volume só ele seria ridiculamente gigante, e também para arrancar mais dinheiro de nós. Não faço ideia de como fazer uma sinopse dessa história, e eu acho que é um dos poucos livros que é mais bem definido pelo gênero — realismo fantástico — do que qualquer coisa que eu possa falar. No começo, tudo um pouco arrastado e nada se conecta, mas mais para o final do volume, as coisas vão ganhando ritmo. É um livro muito bom e bem escrito, mas o fim fica absolutamente no ar. Se tudo der certo, termino a série ainda esse ano.

A nova adaptação de John Green estava para estrear no cinema, então segui com Paper Towns, um dos polêmicos livros do John — amados por uns, odiados por outros. Eu já resenhei esse também por aqui, e só preciso repetir que gostei de verdade dele. Dos três livros do autor que eu li nessa vida, ele compete com Alaska pelo primeiro lugar no meu ranking.

Então foi a vez de Procura-se um Marido, que, olhem só, também ganhou resenha. É um livro que não tem nada de extraordinário e possivelmente não passa em um teste simples de problematização. Mas é divertido e eu devorei como se fosse brigadeiro. Sem culpa.

Terminei a maratona dando seguimento na leitura de Reparação. Que livro. É uma história densa e cheia de sentimento. Eu não tive nenhuma surpresa, porque assisti o filme muitos anos atrás, mas isso não é motivo para desqualificar o livro como uma leitura maravilhosa (e eu não ligo pra spoiler).

No começo de agosto, foi hora de enfrentar mais de 12h de deslocamento até Kansas, e meu companheiro de viagem foi Jellicoe Road. Acabou virando uma resenha bizarramente confusa por aqui. É um livro meio trágico, meio triste, meio melancólico, mas muito bom mesmo. De verdade. E a notícia boa é que está para ser lançado em português, então façam o favor de ler.

O próximo livro literário na lista foi Minha irmã mora numa prateleira, já comentado rapidamente por essas bandas. Aquisição da mamãe na Bienal desse ano. Um livro bem triste e dolorido, mas também muito bom. Li antes do atentado de Paris, e só agora fui pensar que talvez o mundo precise dar uma lida nele também. Como o mundo não anda me escutando muito, vamos começar por vocês. Leiam.

A penúltima leitura completa do ano foi Maus Começos, o primeiro livro da Desventuras em Série. Apesar da série de desventuras, é um livro bem leve, tem um ar melancólico-divertido, e algumas passagens mais profundas para ajudar a expor as crianças a sentimentos mais complexos. É uma série que eu vou querer ler para os meus filhos algum dia.

Finalmente, terminei com Cem dias entre céu e mar, que estava na estante porque foi paradidático do meu irmãozinho na sexta série, muitos anos atrás, e foi escolhido por sorteio na minhA Jarra da Sorte Literária. Menino Marcelinho fez careta, me perguntou por que diabos eu estava lendo esse livro chato, mas eu juro que gostei. Não tem nada demais, é um livro biográfico sobre uma travessia solitária do Atlântico em um barco a remo, mas falou com a minha alma de aspirante a viajante. Se eu tivesse qualquer noção de navegação, era bem capaz de eu querer imitar a loucura; como não tenho, pelo menos posso ler. Gostei de verdade mesmo.

Depois disso, comecei mais um livro sorteado dA Jarra: O Sol dos Moribundos, que interrompi temporariamente para ler A Arte de Pedir nos últimos dias do ano. Como nenhum dos dois foi finalizado em 2015 (ou finalizado at all, até agora), vão ficar para a retrospectiva desse ano.

Resumindo:

Favoritos de 2015: (#3) Minha irmã mora numa prateleira, (#2) Jellicoe Road, (#1) Mentirosos.

Desfavoritos de 2015: (#3) A Casa de Hades, (#2) Como eu era antes de você, (#1) E se fosse verdade… (odeio com força essas reticências no título).

Agora acho que cumpri o meu dever. Sigo em frente com a consciência tranquila. Desculpem o #textão.

Livros

Minha vida literária recente em números (com gráficos)

2015 está em seus últimos suspiros e chegou a época de retrospectivas em todos os cantos dessa internet linda. Pessoas felizes e de humanas (como minhas amigas lindas) bolam premiações com categorias maravilhosas e divertidíssimas. Mas eu, que sempre estive em cima do muro entre exatas e biológicas e apenas gosto de fingir ser de humanas porque é cool, resolvi criar gráficos. Gráficos? É, gráficos. Gráficos para analisar quantitativamente minhas leituras nos últimos 5 anos e sim, eu achei muito divertido.

É mais que óbvio desde já que as retrospectivas das amigas vão ser sucesso, enquanto a minha ninguém vai querer ler. Está tudo bem, ninguém precisa ser a louca das estatísticas que nem eu. Para mim, as horas gastas fazendo tabelas que somam sozinhas, calculando porcentagens e, finalmente, montando os gráficos se bastam. Eu gosto dessas coisas, me deixem.

Apesar de a tarefa por si só ter sido recompensa suficiente para mim, eu também achei muito interessante analisar o resultado da pesquisa. Os dados finais me deixaram muito surpresa, e mostraram claramente em que pontos eu preciso aprimorar minhas leituras para me tornar uma pessoa melhor (sim, tem relação).

Eu comecei, logicamente, com o básico: comparando o volume de leitura. Cheguei à conclusão que, tirando 2011 (em que li muito) e 2015 (em que eu li pouco), minha média de livros lidos por ano é aproximadamente 30. Sinceramente, eu esperava mais, mas pelo menos isso me fez ficar menos chateada com o ano bosta que foi 2015 (nesse aspecto).

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Alguns fatores me vieram em mente para explicar a discrepância dos anos de 2011 e 2015 com os outros. O primeiro dá para resumir em: vida. Queria muito ter dados dos anos anteriores a 2011 para comparar, porque minha teoria é de que esses anos se aproximariam ao de 2011 nesse aspecto. Foram anos de vida muito fácil em que eu fazia vários nadas o dia inteiro. Só em 2011 que isso começou a mudar: nesse ano eu cursei o 3º e o 4º períodos da faculdade. No primeiro semestre eu era tão desocupada quanto eu sempre fui na vida, ou seja: minha rotina se resumia a ir à aula de manhã e ler o resto do dia.

No segundo semestre de 2011, eu comecei meu primeiro estágio, na Barra da Tijuca (para quem não está familiarizado com a minha vida ou com o Rio de Janeiro: eu estudava no centro e esses dois lugares são bem longe). Isso significou um mínimo de 1h de trânsito na hora do almoço, e pelo menos mais uma na saída (hora do rush na barra não é de deus), e muito tempo à toa para ler. Comprovamos agora a teoria de que ônibus é mesmo o melhor lugar para ler.

Em contrapartida, em 2015 eu me mudei. Agora minha rotina gira em torno de 8h de trabalho por dia e uma casa para cuidar; logo, menos tempo livre e menos energia para ler. Dá para somar ainda o fato de que comecei a fazer grande parte do trajeto casa-trabalho-casa a pé. Menos horas de ônibus, menos leitura.

Observei também que o ano que eu mais li (2011) foi o ano em que eu mais li livros espíritas, tipo de livro que eu cresci devorando (sim) e que são realmente leituras muito rápidas, o que pode explicar o resultado quantitativo final.

Do outro lado, os dados de diferentes categorias mostram que no ano que eu li menos (2015), foi o ano mais diversificado quanto ao país de origem dos livros, e também o ano que teve (proporcionalmente) maior quantidade de livros escritos por mulheres combinada com uma baixa quantidade de livros chick lit e YA. Sinal de que nem tudo está perdido.

mulheres1

Um resultado que eu já esperava é a quantidade massacrante de livros de autores norte-americanos, que foram em todos os anos maioria com grande vantagem. Mas eu me surpreendi com a quantidade de livros de autores europeus (com predominância esmagadora de britânicos), e até com a quantidade de autores brasileiros (apesar de ainda precisar melhorar bastante nesse aspecto e de ter alcançado a marca histórica de zero livros nacionais em 2012).

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Paloma criança e Paloma adolescente certamente me julgariam pelas próximas tabelas, que fazem referência ao formato dos livros lidos nos últimos anos. Em 2011 e 2012 todos os livros lidos foram físicos, porque eu ainda tinha problemas com a ideia de livros digitais e ainda não tinha me rendido ao kindle (Greg, o kindle, foi adquirido no final de novembro de 2012, e inaugurado em 2013).

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As previsões para os próximos anos nessa área são de que (inicialmente) a quantidade de livros físicos vai continuar maior do que a de eBooks, considerando que tenho aproximadamente 90 livros físicos na pilha de pendências, contra aproximadamente 30 digitais. Não vou estabelecer nenhuma meta fixa de proporção, porque fiz uma TBR Jar (uma caixinha para sortear as próximas leituras e desencalhar os livros mais antigos) que planejo seguir enquanto estiver divertido.

Depois que eu conseguir exterminar a pilha de não lidos (vamos acreditar que esse dia vai chegar? Vamos) tenho planos de concentrar ao máximo as minhas leituras no kindle, porque é infinitamente mais prático e leve, não destrói árvores e é igualmente gostosinho.

Seguindo em frente, em algum momento da vida eu resolvi que ler livros no original era mais legal. Infelizmente, eu ainda não falo um milhão de línguas, então no momento minhas leituras se resumem ao inglês e ao português. Essa não é uma variável autônoma e não é algo que eu tenha vontade de controlar diretamente, vai depender muito mais de outros fatores, como o país de origem dos livros. Acredito que a tendência futura é que os livros em inglês permaneçam abaixo dos em português, porque eu não vejo nenhuma vantagem em ler em inglês livros que não foram escritos nesse idioma, considerando que (não importa o quão confortável eu seja com o inglês) português é e vai ser para sempre a minha língua-mãe.

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Para os poucos (fortes) que resistiram até aqui, tenho o prazer de anunciar que estamos encerrando esse estudo. Podem me chamar de louca, mas eu achei incrivelmente esclarecedor analisar os dados acima (e alguns outros que escolhi não incluir), e tenho confiança de que essas reflexões vão influenciar na minha escolha de leituras no futuro.

Não é que eu queira profissionalizar minha vida literária, nem transformar a leitura em obrigação, mas alguns desses elementos me fizeram perceber quantas coisas maravilhosas eu posso estar perdendo. Livros fora do eixo EUA-UK, por exemplo.

Claro que minha lista de não lidos ridiculamente gigante (e cuidadosamente organizada em outra tabela <3) vai me impedir de planejar imediatamente minhas leituras com base nesses dados, como eu gostaria de fazer. Mas pelo menos agora eu já tenho por onde me guiar.

Tabela completa:

  2011 2012 2013 2014 2015
Livros

Páginas

 

Mulheres

Homens

 

Drama

Romance

Chick Lit

YA

Policial

Suspense

Biografia

Histórico

Ficção cient.

Infanto-juv.

Fantasia

Outro

 

Papel

eBook

 

EUA

Brasil

Europa e Canadá

Ásia

África

Oceania

Am. Lat. e Car.

 

Português

Inglês

48

13565

 

18 (37,5%)

29 (62,5%)

 

5 (10,4%)

6 (12,5%)

0 (0%)

6 (12,5%)

0 (0%)

1 (2,1%)

8 (16,6%)

1 (2,1%)

1 (2,1%)

1 (2,1%)

0 (0%)

18 (37,5%)

 

48 (100%)

0 (0%)

 

18 (37,5%)

16 (33,3%)

11 (22,9%)

2 (4,2%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

 

40 (83,35%)

8 (16,65%)

27

8498

 

11 (40,75%)

16 (59,25%)

 

5 (18,5%)

2 (7,5%)

1 (3,7%)

3 (11,1%)

1 (3,7%)

1 (3,7%)

0 (0%)

4 (14,8%)

1 (3,7%)

6 (22,2%)

0 (0%)

3 (11,1%)

 

27 (100%)

0 (0%)

 

15 (55,5%)

0 (0%)

12 (44,5%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

 

26 (96,3%)

1 (3,7%)

31

11246

 

18 (58%)

13 (42%)

 

1 (3,25%)

8 (25,8%)

2 (6,5%)

4 (12,9%)

1 (3,25%)

1 (3,25%)

0 (0%)

2 (6,5%)

3 (9,7%)

2 (6,5%)

3 (9,7%)

4 (12,9%)

 

22 (71%)

9 (29%)

 

14 (45,2%)

6 (19,3%)

10 (32,25%)

0 (0%)

0 (0%)

1 (3,25%)

0 (0%)

 

23 (74%)

8 (26%)

28

9676

 

20 (71,5%)

8 (28,5%)

 

6 (21,4%)

3 (10,7%)

2 (7,1%)

11 (39,3%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

1 (3,6%)

1 (3,6%)

2 (7,1%)

1 (3,6%)

1 (3,6%)

 

16 (57%)

12 (43%)

 

21 (75%)

2 (7,1%)

4 (14,3%)

1 (3,6%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

 

15 (53,5%)

13 (46,5%)

18

5597

 

10 (55,5%)

8 (44,5%)

 

4 (22,2%)

2 (11,1%)

1 (5,5%)

3 (16,7%)

0 (0%)

1 (5,5%)

2 (11,1%)

0 (0%)

0 (0%)

2 (11,1%)

2 (11,1%)

1 (5,5%)

 

14 (77,75%)

4 (22,25%)

 

7 (38,9%)

3 (16,7%)

5 (27,8%)

2 (11,1%)

0 (0%)

1 (5,5%)

0 (0%)

 

14 (77,75%)

4 (22,25%)

Gráficos montados em: http://www.barchart.be/xychart.jsp

Livros

A irmã do Jamie mora em cima da lareira

Talvez vocês lembrem que eu falei outro dia como eu volta e meia eu tenho muita vontade de falar de um livro enquanto ainda estou lendo, e tento me segurar. Estou passando por isso enquanto digito, e dessa vez resolvi (seguindo as lições de Sharolinda, que prega essa filosofia sempre) que eu posso fazer o que eu quiser porque o blog é meu.

Seguindo uma tradição familiar de muitos anos, no começo do mês eu e mamãe fomos desbravar a bienal e cavucar bancas enlouquecedoras em busca dos próximos moradores de nossas estantes. Foi nessa que a mamãe achou Minha irmã mora numa prateleira por dez pilas e eu falei que ela tinha que levar.

Não sei por que meu sexto sentido apitou por esse livro, ele faz isso às vezes. Mas o título é maravilhoso e a capa é sutil e misteriosa e a contracapa não tem nenhuma sinopse. Juntando isso e o preço temos exatamente o tipo de livro que eu compro em bienais. De alguma forma, me lembrei vagamente de ter ouvido falar (o que tem grandes chances de nunca ter acontecido) e achei que era uma compra necessária.

Então saímos de lá, as duas carregadas de sacolas, e passamos uma hora (literalmente, juro) tentando sair do estacionamento. Meu irmão de choffeur. Para passar o tempo, ela pegou então esse livro para ler e eu li a primeira página por cima do ombro dela, e nós duas não conseguíamos parar de rir do absurdo do humor negro dessa autora que eu nem conhecia, mas já considero pacas.

Porque eu acho que vocês precisam de conhecimento direto para compreenderem o que eu estou falando, por favor leiam o comecinho do livro e sintam o que eu senti:

“Minha irmã Rose vive na prateleira em cima da lareira. Bem, parte dela. Três de seus dedos, o cotovelo direito e o joelho estão enterrados num cemitério em Londres. Mamãe e Papai tiveram uma baita discussão quando a polícia encontrou dez pedacinhos do corpo dela. Mamãe queria uma sepultura que ela pudesse visitar. Papai queria uma cremação e espalhar as cinzas no mar. Em todo caso, foi isso que a Jasmine me contou. Ela se lembra mais do que eu. Eu tinha apenas cinco anos quando isso aconteceu. Jasmine tinha dez. Ela era gêmea da Rose. Ainda é, de acordo com Mamãe e Papai. Eles vestiram Jas da mesma maneira por anos após o enterro — vestidos florido, cardigãs e aquelas sapatilhas com fivelas que Rose adorava. Acho que foi por isso que Mamãe fugiu com o homem do grupo de apoio setenta e um dias atrás. Quando Jas cortou o cabelo todo, pintou de rosa e botou piercing no nariz no seu aniversário de quinze anos, ela não se parecia mais com Rose, e meus pais não conseguiram lidar com isso.

Cada um dos dois ficou com cinco pedacinhos. Mamãe botou os dela num distinto caixão branco, debaixo de uma lápide branca que dizia Meu Anjo. Papai queimou uma clavícula, duas costelas, um pedaço de crânio e um dedinho do pé e colocou as cinzas em uma urna dourada. (…)”

Resumindo, o livro conta a história de uma família destruída por um atentado terrorista. O pai agora é um alcóolatra xenófobo e a mãe largou os três para viver com outro homem. Na maior parte do tempo, nenhum dos dois lembra que têm dois filhos vivos e quem cuida da casa, do pai e do irmão (que sofre bullying na escola) é Jas, que tem transtornos alimentares. E Rose mora em cima da prateleira.

E tudo isso é narrado pelo Jamie, que é a única pessoa da história toda com licença etária pra ser cruelmente sincera sem intenção de ser cruel.

A narrativa/estilo da escrita não é tradicional — é exatamente como se uma criança de dez anos estivesse sentada na sua frente contando a história toda. Ele te narra os fatos de uma forma inocente e a gente entende o que ele não tem capacidade de compreender. É um livro com cara despretensiosa, mas brilhantemente escrito para destruir corações.

Estou explodindo de curiosidade para saber quais bombas (badunts?) a autora ainda vai jogar na minha cabeça até o fim. E acho que todas as migas deviam considerar ler.

Livros

É um pé depois do outro que se anda para frente

Eu não tenho um protocolo para escrever minhas “resenhas”. O livro é que me diz como é que esse troço vai funcionar. Não é incomum eu ter muita vontade de escrever sobre um livro enquanto ainda estou na metade, mas me segurar para terminar o livro primeiro, e depois perder a vontade completamente. Às vezes eu termino uma leitura tão cheia de ~feels que eu preciso escrever sobre imediatamente ou não consigo viver. Outras vezes são tantos sentimentos que eu preciso esperar a coisa assentar para conseguir pensar racionalmente. E outras vezes bate aquela preguiça braba e eu só vou enrolando e enrolando até achar que não vale a pena escrever porque já passou tempo demais e eu já esqueci tudo o que era relevante dizer.

Jellicoe Road foi um pouco de todas as categorias descritas acima.

Tudo começou quando eu e certos Pudinzes estávamos conversando sobre livros, e ela mencionou esse, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Fui procurar e achei a sinopse muito promissora e (como acontece 99% das vezes que alguém vem me falar de um livro) queria ler agora. Mas segurei minha periquita e não comprei. Ela também começou a ler e parou logo depois. Vida que segue.

Então um dia ela voltou a ler, e terminou, e veio me dizer que era ótimo-ai-meu-deus-você-precisa-ler. Mas eu não li. Aí ela mencionou o bendito livro no blog, e eu finalmente dei o braço a torcer. Comprei o tal livro para ler no avião.

Comecei achando tudo meio muito confuso. E era óbvio que era intencionalmente confuso. São duas histórias que se entrelaçam e intercalam; uma principal e uma secundária. Só que o livro abre com a secundária, que começa vinte e dois anos antes da principal e é contada da forma mais não-linear e esquizofrênica possível. Francamente, o livro tinha tudo pra ser um fracasso, foi uma jogada muito arriscada.

Vamos resumir: um livro com duas historias, que a princípio não parecem ter nenhuma relação — sendo que uma é relativamente linear e a outra não –, com personagens diferentes, e uma protagonista nada carismática. Entendem o que eu quero dizer?

Logo de cara eu vi que ia ter que colocar a cabecinha para funcionar, se eu quisesse chegar a algum lugar com aquilo. E tive certeza que eu ia demorar a terminar. Provavelmente só não desisti de cara porque tinha o selo Couth de garantia. Passei os 12 dias da viagem sem ler uma linha. Até que chegou o dia de encarar 16h de viagem para voltar para casa.

Ouçam o que eu estou dizendo: se vocês conseguirem superar todas essas questões aí de cima, a recompensa é gigantesca.

O livro se desenvolve em uma ascendente linear em todos os sentidos possíveis. Não é um livro ruim e mediano que de repente tem um momento de clareza e fica ótimo, compensando todo o esforço. É um livro confuso que vai evoluindo eternamente até explodir sua cabeça (bem antes até de chegar no final) e você perceber que ele é sensacional desde o começo. A história vai ficando mais e mais clara, a conexão emocional com a trama vai aumentando, as personagens vão evoluindo, e tudo vai ficando mais envolvente.

O livro tem mistério — que não aparece logo de cara, só quando a história começa a tomar forma mesmo — tem romance, tem “guerra”, tem questões adolescentes, tem (muito) drama e tem trama também. É um livro sobre crescimento e autodescoberta, acima de tudo, e eu discordo muito da classificação dele como Young Adult.

Aqui um parêntese apenas porque essa minha discordância não tem nada a ver com desdém por YAs. É um dos meus gêneros favoritos, na verdade. Mas eu não acho que todo livro com protagonistas e/ou personagens majoritariamente adolescentes/jovens tenha que ser classificado assim. E esse livro não me parece ter sido escrito especificamente para leitores jovens ou em formação (tanto que ele ganhou em 2008 o West Australia Young Readers Book Award na categoria Older Readers — “leitores mais velhos” –, o que faz zero sentido na minha cabeça).

No final, eu não conseguia parar de ler, e sofri muito por estar presa numa caixa de metal suspensa infinitos quilômetros acima do chão e não poder mandar uma mensagem para amiga Gabriela. Porque eu precisava gritar, berrar, discutir. Tortura real. (Inclusive, se você resolver ler e sentir essa mesma aflição profunda, pode vir falar comigo. Ofereço apoio moral gratuito para leitores angustiados.)

Jellicoe Road tem todo tipo de personagens. Desde uma protagonista nada carismática, mas que cresce nos nossos corações, até secundários adoráveis e divertidos, ou levemente detestáveis, passando por personagens tão confusos e misteriosos que dá vontade de sacudir a autora. Todos são complexos; não existe um vilão e um mocinho, existem pessoas. E eu acho isso lindo.

“I go down last, taking a closer look at Hannah’s unfinished house by the river. Except I realize that it’s almost finished. It’s only the stuff inside that needs to be done, and the idea of its near-completion frightens me beyond comprehension.”

(Tantas metáforas maravilhosas sobre virar adulto.)

Aqui estamos, mil parágrafos à frente do nosso ponto de partida, e eu só sinto que falhei miseravelmente em todos os meus esforços de fazer sentido. E, acima de tudo, falhei completamente no meu objetivo inicial que era apenas vir aqui e dizer para vocês o quando esse livro é incrível. Sério mesmo. Leiam.

(Infelizmente, Jellicoe Road nunca foi traduzido para o português.)

Esse post é parte integrante do meu BEDA. Para saber mais sobre essa cilada leia esse post. Tem sugestão de tema ou pergunta para a minha pessoa? Deixe nos comentários ou entre em contato.

Livros

Meus hábitos literários

Mania, cada louco com a sua. Não é apenas um ditado popular, é uma verdade universalmente reconhecida. Na minha pequena experiência de vida, descobri que leitores são uma categoria todas especial de loucos, e uma categoria especialmente dada a manias — para ficar mais bonito, a gente chama de hábitos.

Estava eu especialmente ridícula quando esse meme estourou por aí. Até onde eu sei, todo mundo já respondeu, seguiu com a vida e esqueceu que ele existia (menos eu e amiga Sharon). Só que eu curto fazer o que bem entendo e resolvi responder mesmo assim, porque é um meme literário e eu não me canso de compartilhar minhas loucuras com o mundo. Chega de papo furado, então?

1. Quando você lê? (manhã, tarde, noite, o dia inteiro ou quando tem tempo) Sinceramente, eu leio quando eu tenho tempo e saco. Principalmente quando eu tenho saco. Às vezes estou super a toa, mas não estou a fim de ler (coisa recente na minha vida, acreditem), então eu apenas fico jogada em algum canto olhando pro ar. Às vezes eu estou super a fim de ler, mas tenho outras coisas pra fazer — aí é bem possível que eu negligencie coisas importantes e apenas leia. Me julguem.

2. Você lê apenas um livro de cada vez? Como eu gostaria disso. A verdade é que eu sempre prometo tomar vergonha na cara e colocar ordem na bagunça. A cada alguns meses eu bato o pé, falo que vou terminar de ler tudo o que está pela metade e começar a ler um por vez, pra ver se a vida começa a andar pra frente. Aí eu mantenho essa disposição por uns dois livros (ou menos) e volto a ler trezentos-e-sessenta-e-sete coisas ao mesmo tempo de novo. Sou um caso perdido.

3. Qual seu lugar favorito para ler? Sei lá, cara, não tenho critérios. Leio em qualquer lugar e independente do nível de barulho. Mas minhas fantasias mais bucólicas são ler na minha cama em um sábado de manhã preguiçoso sentindo o solzinho que entra pela janela (não, não sou nada específica, imagina).

4. O que você faz primeiro: lê o livro ou assiste ao filme? Não é bem o que eu faço primeiro, porque já disse que não tenho critérios, né. O que eu prefiro fazer primeiro é assistir o filme, por alguns motivos básicos: (a) não ligo muito pra spoiler, (b) ler o livro primeiro sempre me faz “odiar” o filme. Assistindo o filme primeiro eu consigo gostar dos dois e todos saímos mais felizes. Eu gosto de gostar das coisas, gente.

5. Qual formato de livro você prefere? (áudio-livro, e-book ou livro físico) Nunca experimentei áudio-livro, será que isso é uma falha de caráter? Deve ser muito útil pra motoristas, mas eu só ando de transporte público mesmo. Antigamente eu jurava que jamais abandonaria os livros de papel, e ainda os amo. Mas também amo e-books porque, no fim das contas, o que eu amo mesmo é a história. Greg, meu kindle, é igual uma biblioteca imensa inteirinha na minha bolsa pesando quase nada. Isso é muito importante pra nós, seres humanos que não conseguem viver consigo mesmos se não têm um livro à mão.

6. Você tem algum hábito exclusivo ao ler? Juro que não entendi a pergunta. Hábito exclusivo meu ou hábito que eu só tenho durante a leitura? Well, de um jeito ou de outro, acho que não. Não é tão incomum assim parar a leitura para cheirar o livro, ou abraçar o livro, ou refletir sobre o livro, né? Fora isso, não consigo pensar em nada que eu faça enquanto leio. Vou pagar alguém para me observar e me dizer se eu faço algo incomum.

7. As capas de uma série tem que combinar ou não importa? Acho bom que combinem, né? Qual o sentido de lançar uma série toda desencontrada? É muito sadismo com o toc alheio, me desculpem. Mas, pessoalmente, não me importo mais tanto, mesmo porque estou tentando migrar o máximo possível para o kindle e lá nem vejo a capa mesmo. Meu The Hunger Games é capa dura, enquanto os dois outros livros da série são paperback e eu vivo muito bem com isso.

É isso. Agora me juntei ao universo de pessoas que já responderam esse meme e me sinto uma blogueira um pouco melhor — e uma leitora um tantinho mais louca. Caso alguém nesse mundo ainda não tenha respondido e queira, não deixa de mandar o link para eu conferir!

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Livros

A Nova Literatura Brasileira

Desde que eu comecei um (hoje finado) blog literário, eu comecei a me interessar cada vez mais por literatura brasileira. É pelo menos curioso que essa vontade tenha chegado tão tarde, considerando que desde que eu me entendo por gente, tenho um sonho nada secreto de ser escritora.

Não que eu sempre tenha rechaçado literatura brasileira. Como já falei antes, sempre devorei todos os livros paradidáticos da escola com muito gosto, li a obra do machadinho com doze e seu Coelho com treze. Mas o peculiar é que eu nunca tinha parado para pensar na literatura nacional que está sendo feita agora, por gente como eu. Qual o meu problema?

Na época do falecido bloguinho, eu até participei de um projeto bem bacana chamado “Ler+ Brasil” e conheci os trabalhos de alguns escritores nacionais, mas me parecia tudo muito amador, muito iniciante. Será que era só isso que a gente tinha?

Tempo passou, continuei lendo, na esmagadora maioria do tempo obras estrangeiras. Em minha defesa, eu comecei a tentar sair um pouco da literatura norte-americana e avançar para outros países. Mas, gente, e o Brasil?

A vida seguiu, e essa história continuou mês passado, com a aproximação da viagem para visitar os parentes em Kansas (onde estou agora, Dorothy manda bjos). Minha tia pediu para levarmos livros de presente. Ela só queria livros em português mesmo, não necessariamente brasileiros, mas minha cabeça sempre obsessiva foi parar de volta naquele fato que volta e meia retorna para me assombrar: eu sou um zero à esquerda em literatura brasileira contemporânea. Vocês podem achar idiota, mas isso realmente faz com que eu me sinta muito mal.

Lá fui eu tentar resolver a situação e dar um google na parada. E foi assim que eu dei de cara com A Nova Literatura Brasileira. Assim mesmo, em maiúsculas, todo um movimento aparentemente acontecendo embaixo do meu nariz e que me era completamente estranho. Será que só eu sou tão por fora assim, ou (como eu desconfio) a gente precisa se esforçar um pouquinho mais para divulgar conhecer o tanto de coisa bacana que a gente produz por aqui mesmo?

Quando eu falo a gente, não estou falando tanto de nós indivíduos, falo de meios de comunicação, editoras, do mundo editorial como um todo.

Gostaria muito de poder fazer um tratado decente sobre esse assunto, cheio de informações e dados e respostas, mas infelizmente esse post aqui vai ser um post de questionamentos mesmo. Cara, qual é o nosso problema?

Esse viralatismo que eu vejo em todos os lados me irrita em um nível que vocês não fazem ideia. Tem coisas cagadas no Brasil? Sim. Só que não é só aqui. Assim como não é só no exterior que tem coisa bacana. O Brasil é legal também, a gente faz uma penca de coisa boa em trilhões de áreas, tem gente talentosa por aqui, tem pessoas bacanas. E tem literatura contemporânea também, muito conceituada por quem conhece, inclusive. Uma literatura que tem muito mais potencial para nos representar, e que daqui para frente eu vou me esforçar muito mais para conhecer. E que desde já eu recomendo.

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Livros

Procura-se um marido

Não, não quero casar. Procura-se um marido é o nome de um dos últimos livros que eu li (o que você provavelmente já sabe, se tirou um tempinho para ler o post de ontem), escrito pela Carina Rissi. De qualquer jeito, essa cara aí que você provavelmente fez quando leu o título foi a mesma cara que eu fiz quando abri o embrulho de presente. A capa meio creiça, apesar de muito bem feita, não ajudou (já falei que tenho um problema pessoal com capas de livros com imagens de pessoas? Vai entender). “Nossa, que legal! Muito obrigada!,” disse eu.

Então um belo dia eu tomei vergonha na cara e comecei a ler. Afinal de contas, eu posso não ser a maior leitora de chick lit, quantitativamente falando, mas eu gosto bastante desse gênero, e eu reconheço que grande parte do meu preconceito com esse livro específico é pedância literária pelo fato de o pobre do livro ser nacional e, ainda por cima, ser chick lit.

Sobre a problemática do complexo de vira-lata e dos preconceitos com a literatura nacional eu volto para falar outro dia (domingo, mais especificamente, se tudo der certo), hoje eu só queria mesmo falar do livro.

Resumindo para caramba a sinopse da história, o livro fala da Alícia, aquela típica personagem garota-problema, riquinha-e-mimada-porém-com-bom-coração que todos conhecemos tão bem e amamos. Ela é órfã e foi criada desde pequena pelo avô, que é montado na grana e dono de várias empresas, até que ele morre e deixa um testamento dizendo que ela só vai poder tomar posse da herança depois que se casar e permanecer casada por um ano. Então ela resolve alugar um marido (ainda no começo do livro) e daí se segue aquele rolo todo que vocês devem imaginar mais ou menos. Não, não é a trama mais original do mundo, mas ela é tão usada por algum motivo, né?

Talvez seja pelo fato de minha experiência com a literatura brasileira contemporânea ser quase nula (desculpa, mundo), mas esse livro me surpreendeu positivamente. É um chick lit em toda a sua glória. Como assim? Divertido, engraçadinho, emocionante aqui e ali, e com aquele romance ligeiramente problemático que ainda assim me deixa carente até o último fio de cabelo.

A verdade é que, apesar dos pesares (incluindo alguns erros jurídicos técnicos que mexeram profundamente o meu TOC profissional), o que mais me saltou aos olhos foi como a escrita da autora é bacana e fluída. É feio admitir que isso me surpreendeu, mas se eu for me aprofundar no tema eu vou entrar no assunto do preconceito com a literatura nacional, e já disse que não quero tratar disso hoje.

A trama, na maior parte, segue mais ou menos um dos grandes clichês da ficção: a megera domada (minha teoria é que a grande maioria das histórias segue um dos três grandes modelos que todos conhecemos de cor e aprendemos a amar: a megera domada, pigmaleão e cinderela), mas traz também outros elementos e reviravoltas que ajudam a tirar um pouco a história do óbvio. O livro como um todo é super devorável e passa num piscar de olhos, mas alguns dos conflitos me pareceram um pouco repetitivos (por exemplo, tivemos nada menos que três brigas de casal por falhas de comunicação, aprendam a se ouvir pfvr). Em linhas gerais, acho que o livro poderia ter se resolvido em menos de 400 páginas.

As personagens não são incrivelmente profundas, mas também não são superficiais. Senti um pouco que a autora tinha a necessidade de fundamentar todas as ações das personagens principais, quando para mim é mais importante ser crível do que ser justificado, entendem? Mais vale ser realista do que ter todas as ações cuidadosamente justificadas pela história de vida do personagem e precisar ficar trazendo backstory* o tempo todo para explicar o rumo da prosa, porque isso emperra um pouco a leitura.

Ao fim e ao cabo, gostei bastante do livro. Foi definitivamente um tapa muito bem dado na minha carinha preconceituosa, e prometo ir com mais sede ao pote quando pegar No Mundo da Luna — outro livro da Carina Rissi que eu ganhei da mesma amiga fofa.

*backstory = a história de vida das personagens, que não faz parte da trama central do livro.

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