Browsing Category

Pessoal

Pessoal

Teoria da evolução

ou A Sanguessuga

Eu sou uma pessoa absurdamente introvertida e envergonhada. Houve tempo em que eu tinha pavor de sair com qualquer pessoa em dupla, porque isso significava que entrar muda e sair calada não seria uma opção e socialização definitivamente não veio no meu starter pack. Em grupos que eu não conheço, principalmente em grupos grandes, eu normalmente falo muito pouco e tento fingir que sou invisível — mas juro que depois de algum tempo (dificilmente no primeiro encontro), eu melhoro. Eu já tive muitos momentos de nervosismo absoluto por ter que falar com pessoas por whatsapp no privado e em tempos passados receber uma mensagem por essa via era certeza de sofrimento intenso. A não ser que fosse da minha mãe.

Hoje em dia, eu melhorei. A questão dos grupos continua bem capenga, mas no individual eu não só aprendi a lidar como aprendi a gostar. Chocante. Eu gosto de ter longas conversas profundas, ou longas conversas absurdas sem nenhum sentido, ou falar bobagem, ou ficar em silêncio junto também. Tudo com pessoas de quem eu gosto, obviamente — quem quer passar tempo com gente que não gosta?

Não é um estado de intimidade no qual eu chego automaticamente. Primeiros encontros em geral, por exemplo, ainda me deixam muito tensa e eu sofro de verborragia nervosa com tendência ao oversharing. Se formos nos encontrar pela primeira vez algum dia (desculpa desde já), você provavelmente vai voltar para casa com muita informação sobre minha vida, minha melhor amiga, minha vida amorosa, meu almoço de ontem, minha gata, e trilhões de outras coisas para as quais você não liga a mínima. Se você não desistir de mim aí, eu posso garantir que (com a maioria das pessoas), melhora.

Passada essa fase desconfortável de quase todas as minhas relações, nós finalmente chegamos à parte que me interessa: aquela em que eu não estou nervosa demais e consigo de fato processar o assunto da conversa e as informações trocadas. Essa parte é maravilhosa.

Acontece, queridos, que depois de adulta e mesmo com os meus toques de ansiedade social, eu descobri que amo pessoas. Todas. Não necessariamente enquanto indivíduos, mas enquanto fenômenos. Tenho muita curiosidade antropológica dentro de mim e eu invisto uma boa parte do meu tempo e energias refletindo sobre a personalidade e características gerais de todo mundo que me cerca (e ouvindo conversa alheia no meio da rua). Eu seria muito feliz se possuísse o poder de ler mentes. Talvez seja minha alma de leitora e escritora falando.

Mas muito além de boas histórias e algumas lições sobre a psiquê humana, é pelo contato com outras pessoas que eu evoluo. Eu vivo um eterno paradoxo, dividida entre meu ego regado a sentimento de superioridade e a vontade de me cercar de pessoas que sejam melhores do que eu o máximo possível. Eu sou uma aproveitadora em pele de cordeiro, sanguessuga por natureza, meu desejo é obter das pessoas tudo o que elas podem me oferecer. É assim que eu cresço, incorporando o que eu aprendo com cada um sempre, porque ficar parado no mesmo lugar é um desperdício de vida sem tamanho.

Não é ser maria-vai-com-as-outras e seguir o fluxo. É raciocinar e me apropriar de ideias e convicções e valores diferentes quando eles me parecerem melhores do que os que eu tenho agora. Não existe vergonha em mudar de ideia, vergonha é ficar parado só para não ter que dar o braço a torcer. E olha que quem está falando aqui é a maior teimosa que você respeita, capaz de berrar com convicção que laranja é verde para não admitir ~derrota~. Mas a gente cresce, e é crescendo que a gente cresce mais — no maior esquema o de cima sobe e o de baixo desce.

A vida é longa demais para ter certezas absolutas. Se até a ciência evolui, quem sou eu para ficar parada. Claro que o próprio conceito de evolução é subjetivo, mas qualquer direção que se tome pode ser para frente, desde que não seja o mesmo lugar que se estava antes.

Pessoal

Diarinho da semana #1

BEDA passado algumas amigas adotaram esse estilo de post e eu, embora tenha ficado tentada a seguir o exemplo, me recusei porque ainda guardo essa necessidade de não seguir tendências que trouxe diretamente da minha adolescência de rebeldia sem causa.

Dessa vez, como a maioria delas não está participando da brincadeira e muito menos mantiveram a tendência nos últimos onze meses, resolvi reciclar a ideia simplesmente porque deu vontade. Vou tentar tirar algumas fotos para as próximas edições, mas dessa vez vai ser um texto bem pobrinho porque isso nem me passou pela cabeça (n00b).

Tudo bem se você não tiver o mínimo interesse no que eu fiz nos últimos dias — você tem outros seis posts sobre assuntos variados ainda fresquinhos para conferir. Se já tiver lido todos, também pode voltar amanhã que vai ter mais.

Domingo foi um dia comum, de almoço de família, com o bônus de ser churrasco de aniversário de um dos meus primos. Eu e meu yakisoba vegetariano comparecemos, mas ele voltou como veio porque atraí subliminarmente minha priminha pro lado vegetal da força e garanti a inclusão de legumes grelhados no cardápio. Ainda devorei a melhor parte do churrasco — a banana.

O começo da semana foi de correria, como sempre são as semanas em que faço ponte aérea. Segunda e terça coloquei em dia e adiantei tudo o que consegui.

Na noite de segunda ainda deu tempo de embarcar em uma date night das minas com as amigas. Assistimos A Era do Gelo no cinema, comemos, jogamos conversa fora — esse tipo de coisa que faz a vida valer a pena.

Terça à noite caí no sono enquanto tentava ficar em dia com Liberdade, Liberdade.

Quarta acordei às quatro da madruga para voar.

20160803_072040

Quarta e quinta-feiras estive em São Paulo, trabalhando. Claro que não sou de ferro e aproveitei para comer, apreciar o cenário e conhecer novos ares.

Por “novos ares” leia-se a USP, para onde menina Milena me guiou na noite de quarta-feira, onde pude acompanhar alguns minutos de uma aula de introdução à literatura russa que me deixou até com vontade de fazer faculdade de novo, e comi um salgado vegano (uma cantina que vende salgados veganos!).

No meio tempo, baixei e me viciei em Pokémon Go, obviamente. Esse jogo com certeza não é de deus. Eu literalmente tenho pensado em pokémon o dia inteiro e isso não é normal — talvez eu esteja precisando de ajuda profissional.

Outra coisa nada relevante que aconteceu na minha vida nesse tempo foi que eu comprei um caderno lindo (e bem inflacionado) para me incluir nessa nova moda de bullet journals. Eu sei que eu disse que sinto um prazer inconsciente em desafiar tendências, mas eu AMO organizar e essa era justamente uma das poucas tendências para a qual eu não me sinto capaz de virar as costas. E amo cadernos também.

20160803_161018

Não estou fazendo nada artístico, meu foco é realmente a organização — com pequenas concessões para algumas firulinhas. Ainda nem comecei mesmo, mas já estou me divertindo bastante. Tudo bem se vocês acharem que meu conceito de diversão é um pouco estranho.

Sexta foi feriado na Cidade Maravilhosa por motivo de olimpíadas. Aproveitei a oportunidade para empacotar minha gata e fazer um retiro bucólico na casa dos meus pais. A escassez de pokestops nas redondezas está me enlouquecendo — estou atualmente sem pokebolas e em abstinência.

Dediquei os últimos dois dias a maratonar as centenas de capítulos de Liberdade, Liberdade que deixei acumular. Algumas horas atrás assisti o último e agora estou oficialmente órfã.


Episódios de qualquer coisa assistidos:  17
Filmes vistos: 1
Feijoadas dos sonhos comidas: 0
Pokémons capturados: 115

beda-2016-100

Pessoal

Felinismo – um guia para iniciante

IMG-20160709-WA0004

Eu não nasci uma cat person. Na verdade, eu não nasci nem uma animal person. Quando eu era pequena, tudo o que eu tinha era peixinhos, porque meus pais sempre foram completamente contrários à ideia de ter um bicho dentro de casa. Como criança que assistia filmes demais, eu queria porque queria um cachorrinho, mas como a resposta era sempre não, eu desenvolvi medo de cachorros (já superei essa questão). Mas gatos eu realmente não podia ligar menos.

Com uns dez ou onze anos, meus pais me deixaram ter um hamster. Stuart que depois de um tempo descobrimos que era fêmea. Thutty não durou muito, mas foi um chororô generalizado em casa quando a bichinha morreu — começando pela minha mãe. Em 31 de dezembro dos meus doze anos, chegou Polina, a calopsita — que segue viva e muito bem de saúde obrigada.

A Po é infinitamente melhor que um peixe ou um hamster já que, para começo de conversa, ela tinha autorização para ficar solta passeando pela casa e tem uma personalidade amorosa porém muito voluntariosa (mimada) bem igual à minha. Como calopsitas sentem muita falta de companhia e podem entrar em depressão e morrer se ficarem muito sós, acabei deixando a bichinha com os meus pais quando me mudei, assim ela e papai aposentado poderiam fazer companhia um ao outro. Voltemos aos gatos.

Uma das minhas amigas de infância (ou pré-adolescência, sei lá) sempre teve gatos, mas era a única cat person que eu conhecia antes desse bum felino que vivemos atualmente. Somos bffs até hoje, mas eu nunca fui frequentadora assídua da casa dela e até hoje, tendo pego paixão por gatineos, eu tenho pavor de Noah, o gato dela.

E então, aproximadamente dez anos depois, eu arranjei outra amiga com gato. Lola é uma gata maravilhosa, fizemos amizade (pelo menos eu fiz e ela fingiu muito bem que fez também), e foi aí que eu encontrei meu amor por esse mundo felino — gatos não eram necessariamente maus ou antipáticos, eles são amor.

Isso faz para lá de dois anos, e desde então eu decidi que eu precisava muito de um gato e minha vida não seria completa sem isso. Só tinha um probleminha.

Eu ainda morava com os meus pais e eles não me deixaram.

Algum tempo depois, me mudei. Fui morar com Letícia, e ela também vetou.

Mas eu não desisti. Segui insistindo e ela viu que eu nunca ia superar essa ideia fixa. Um belo dia, estava eu andando com mamãe perto da casa dela e passamos por uma feira de adoção. Me apaixonei por um filhotinho. Mandei mensagem para Letícia e ela disse sim. Mas eu medrei e fui embora — e depois contei a frustração na newsletter.

A partir daí, eu não tinha mais desculpa para não ter um gato, então tive que admitir que eu seguia querendo muito, mas estava igualmente apavorada com a responsabilidade. Decidi deixar a ideia para lá.

Um belo dia, estava de boas zapeando pelo facebook, quando aparece o compartilhamento de uma amiga sobre uma gatinha branca de olhos azuis maravilhosa. Ela tinha crescido na rua, a guria que fez o anúncio tinha levado ela para ser castrada, mas se ela não arranjasse um lar ia voltar para a rua. Sofri com a ideia. Então, antes que eu percebesse, eu era a feliz tutora de uma filhote de gata branca gigantesca porém ridiculamente linda.

20160723_092005

Como estava recém-operada, combinamos que meu bebê só iria para a minha casa uma semana depois, quando tirasse os pontos. No meio tempo, eu precisava aprender tudo sobre gatos e providenciar o enxoval para a bichinha. Mas como eu tenho muita noção de prioridades, comecei escolhendo o nome.

Fiz uma reunião virtual com meu grupo felinístico e várias sugestões foram dadas. Por pouco ela não se chama Neide, porque eu sou creiça e chamar a gata de gataneide parecia ótimo. Mas antes de bater o martelo, resolvi fingir que sou uma pessoa séria e fui procurar pelo significado. Acabamos ficando com Mabel — amável, amorosa. Sim, igual ao biscoito.

Esse mesmo grupo me ajudou a definir tudo o que eu precisava comprar/providenciar para receber bem minha nova companheirinha de vida, e agora resolvi compartilhar meus poucos conhecimentos. Vamos à parte prática desse texto.

  1. Segurança primeiro: tela nas janelas

Eu moro no oitavo andar, e não seria a coisa mais legal do mundo se a gata resolvesse tentar voar. Gatos filhotes têm muita energia, e qualquer gato (ou pelo menos a esmagadora maioria) tem instinto de caça, o que significa que eles vão se jogar da janela atrás de qualquer coisa que se mova.

Mesmo para quem mora no térreo, telar é altamente recomendável. Gatinhos que saem na rua estão muito vulneráveis a infinitos perigos — dede doenças até serem atropelados. Melhor não.

  1. Enxoval, itens básicos

Gatos precisam de coisas, obviamente. Então é preciso investir tempo e dinheiro para montar o enxovalzinho do bichinho. Eu fiz uma lista bem básica, porque não adianta comprar o mundo logo de cara — gatos têm muita personalidade e é bom conhecer bem seu gatinho antes de gastar rios de dinheiro em coisas que eles não vão dar a mínima.

Segue uma pequena lista do que é realmente essencial:

  • Pote de comida – se você for alimentar por refeições, como eu faço, não precisa ser muito grande.
  • Pote de água – pode ser maior, porque gatos têm tendência a problemas renais e precisam de muita água.
  • Comida – não dê qualquer comida pro seu gatineo. Existem tipos de ração (normal, premium, super premium). Whiskas é altamente não recomendável, segundo me informaram dá muito problema renal. Premium tem a Goden, que é boa; comecei com essa. Super premium são as melhores (e, obviamente, as mais caras), elas são feitas com ingredientes melhores e ajudam a manter a saúde do bichinho — as super premium mais conhecidas são a Premier e a Royal Canin. Também é importante escolher a comida de acordo com a idade do gatinho. Gatos até um ano devem comer ração específica de filhotes.
  • Caixa de areia – existem também vários modelos, abertas e fechadas. O ideal é que as laterais sejam mais altas, para espalhar menos areia. Algumas têm também uma abinha para dentro para ajudar a manter a areia dentro da caixa (mas sempre vai escapar alguma areia).
  • Areia – nada é fácil, mais uma vez existem modelos. Dá para usar areia propriamente dita (mas areia específica para gatos, areia comum de construção pode transmitir vermes), que deve ser limpa pelo menos uma vez ao dia e completamente trocada semanalmente. A outra opção é a sílica, que deve ser limpa também pelo menos uma vez ao dia, mas pode ser trocada só uma vez por mês. Eu uso sílica.
  • Caixa de transporte – você vai precisar para levar seu bebê ao veterinário e para tomar vacinas.

Existem infinitas coisas que você pode comprar, mas essas são essencialmente as mais importantes. Mabel até hoje não tem cama — ela dorme comigo, normalmente, e eu tinha dois almofadões que deixei no chão do quarto e da sala para ela. No fim, eles vão deitar e dormir onde bem entenderem. Ela também tem um cobertorzinho que ganhou da minha mãe, ela arrasta ele por aí e é uma fofura.

Arranhador pode ser uma boa ideia para evitar que eles arranhem muito os móveis. Mabel tem um e até arranha ele, mas continua arranhando os móveis mesmo assim. O segredo é desapegar, ou investir um tempo considerável (que eu não tenho) educando seu novo gatinho.

Mabel também não ligou a mínima para os brinquedos que eu comprei, o mais indicado é improvisar. Ela adora bolinhas de papel, de saco plástico ou de meia, fitas, sacolas e caixas de papelão. Ou basicamente qualquer coisa que ela ache interessante e queira roubar — como os meus óculos ou meu celular. Então provavelmente não é necessário gastar muito dinheiro com isso.

20160716_100629

Cortador de unha específico também é uma ótima aquisição e não muito caro. Gato de unha cortada é uma coisa muito mais agradável de se ter em casa, porque algumas brincadeiras deles envolvem dar bote nas pernas de qualquer passante desavisado.

  1. Saúde

Uma das primeiras coisas a se fazer é levar seu gatinho no veterinário, para um checkup geral e vacinas, e também porque ele vai dar instruções mais específicas de como cuidar do bichinho, receitar antipulgas e vermífugo e o que mais ele achar que deve, e te dar a carteirinha de vacinação. Mabel ainda passou também um mês tomando vitamina diariamente, e eu tive que passar alguns remédios nas orelhinhas porque ela estava com sarna. Também é fundamental castrar seu gatinho assim que possível para evitar problemas de saúde futuros.

As vacinas podem dar reações adversas, não se desesperem. Mabel teve febre depois da primeira dose da quádrupla e eu fiquei arrasada. Mas passou.

Pouco tempo atrás ela também teve um comecinho de conjuntivite e eu corri de volta para a clínica. Depois de uma semana de colírio de doze em doze horas, ela ficou nova de novo.

Com isso tudo só queria dizer que: gatos não são brinquedos, nem coisas, são seres vivos que têm (muita) personalidade, sentimentos, necessidades e ficam doentes como qualquer outro ser vivo. Isso quer dizer que é preciso ter muito comprometimento e responsabilidade, porque é um investimento emocional e financeiro bem razoável, e é muito feio se comprometer com um bichinho e voltar atrás depois.

Tudo isso foram coisas que nem me passavam pela cabeça quando resolvi que precisava ser adotada por um gato, mas que precisamos levar em consideração antes de tomar qualquer decisão. Mas mesmo com todos esses “detalhes”, eu não voltaria atrás na minha decisão mesmo que fosse possível. Esses quatro meses e meio de Mabel na minha vida foram maravilhosos, e já não consigo imaginar minha vida sem essa coisinha levada e adorável.

IMG-20160719-WA0024

(Perdão pela qualidade cagada das fotos, era o que tinha pra hoje.)

Lapa
Pessoal

Fazendo do bar um lar: uma declaração de amor à Lapa

Como cria da Zona Oeste, Lapa não foi um lugar do qual eu ouvi muito falar até entrar na faculdade. Sem meios de locomoção independentes, dependendo de um transporte púbico pavoroso e com 0 interesses em gastar uma fortuna em taxi, eu acabei me criando pela Barra da Tijuca mesmo.

Com 17 anos, comecei a estudar no Centro da Cidade, na faculdade de direito da UFRJ, e foi então que os primeiros rumores desse mundo novo chegaram aos meus ouvidos — mas não muito, porque durante a maior parte da faculdade eu fui uma pessoa calma e caseira, e minhas amigas também eram dessas.

O tempo passou, duas das minhas amigas se mudaram para uma quitinete nesse bairro mítico cercado de mistério (para mim) e aos poucos eu fui descobrindo o universo maravilhoso das festas alternativas da Lapa, dos bares da Lapa, da vida lapeana em geral. Mas a princípio não tanto assim porque ainda era muito longe de casa, uma fortuna de taxi de lonjura nos tempos pré-uber, e muita mão de obra para um ser do meu nível de preguiça.

Então, bem por acaso, no final da faculdade, eu acabei criando laços afetivos especiais com Letícia, atual roomie, uma das duas que moravam por lá, e resolvemos juntar nossas escovas de dente — mas não em um sentido romântico. Nos formamos, enfrentamos a saga de encontrar e alugar um lar, e assim nasceu Edna, o apartamento.

Para quem mora em Marte e não está familiarizado com esse bairro maravilhoso, a Lapa é o centro da vida boêmia do Rio de Janeiro. Existem bares e boates em outros lugares — principalmente na infame Barra da Tijuca e no turistódromo conhecido como Zona Sul –, mas a Lapa é a Lapa.

Muita gente acha a Lapa um lugar muito perigoso. Até eu me mudar, eu também achava; meus pais achavam mais ainda. Mas eu fui mesmo assim porque confiei em Letícia e a lista de prós e contras pareceu dar um saldo favorável. Meu conhecimento do local era quase nulo, mal sabia me localizar, mas eu tinha certeza que tudo ia dar certo. E deu.

Se antes eu achava a ideia da Lapa bem simpática, hoje eu sou apaixonada por aquele lugar. É um bairro que tem o clima intimista dos subúrbios, uma vibe incrível — levemente decadente de um jeito pitoresco, e muito amigável –, todo o tipo de vida noturna — e diurna também — que se pode desejar (em qualquer dia da semana, menos segunda), e ainda fica NO CENTRO. É um pulo de distância da Zona Sul, mas muito mais barato e com um clima bem diferente. É o melhor lugar do mundo.

Nesse ano e cinco meses que moro lá, eu desenvolvi uma conexão emocional com aquele lugar que eu nunca tive com nenhum outro lugar que eu morei (apesar de lembrar com carinho de todos). A Lapa é meu lar. E já apaguei completamente qualquer lembrança do pensamento “é perigoso” que algum dia possa ter ocupado a minha mente. Eu ando aquelas ruas como se fossem o quintal de casa, a hora que for, com ou sem álcool. Eu me sinto segura de verdade ali.

Não garanto que vou morar lá para sempre porque só a deusa sabe por que caminhos a vida vai me levar e eu ainda quero ver muita coisa nesse mundo, mas acho que essa sensação de lar sempre vai estar associada a esse pedacinho de mundo. É muito bacana essa sensação de pertencer.

beda-2016-100

Pessoal

Inferno astral e a arte de metapensar

Eu penso demais, desde que me entendo por gente. Normalmente não aquele tipo de overthinking que paralisa, é só uma incapacidade crônica de diminuir o fluxo de pensamentos e relaxar. Eu penso sobre tudo, sobre o que eu leio, sobre o que eu assisto, o que eu como, o que eu faço, sobre mim mesma e sobre meu lugar no mundo. É uma quantidade insana e nada saudável de pensamentos por minuto. E no inferno astral, eu penso mais ainda.

million-thoughts

Para quem não sabe (provavelmente 99,979% do mundo), meu inferno astral desse ano de 2016 aconteceu entre 7 de junho e 6 de julho. Durante esse breve-porém-interminável período, eu poderia ser escrito enciclopédias com tudo o que passou pela minha cabeça só na curta caminhada entre o trabalho e a minha casa.

Eu considero pensar um exercício muito saudável, mas não é porque o “músculo” exercitado é o cérebro que não seja exaustivo. Pensar cansa muito, e é uma atividade sem fim, e às vezes isso é meio desesperador.

No mês que antecedeu a data em que eu completei minha vigésima-quarta volta em torno do sol, eu passei por fases suficientes para encher uma vida — começando em “a vida é tão bela, mesmo dentro da rotina” e terminando em “eu sou um peso morto, completamente inútil para o mundo”. Entre um extremo e outro, recaí diversas vezes na tarefa árdua de metapensar — apelido carinhoso que eu dei à arte de pensar sobre pensar — o que rendeu uma quantidade considerável de pensamentos filosóficos que, na época, eu considerei profundos e belos, mas que caíram no esquecimento em aproximadamente trinta segundos.

Foi no meio do caminho em um desses dias que eu percebi como é fútil esse ato de pensar. Comecei a questionar qual o objetivo de investir tanta energia nesse esforço mental quando todas as ideias começam a ser esquecidas no momento em que nascem. Uma ou outra acaba registrada, meio que por acaso, mas a esmagadora maioria vai embora sem deixar rastro — como acontece também com as pessoas.

Essa consciência súbita me deixou bem chateada. Eu sou prepotente o suficiente de acreditar que alguém em algum lugar pode ter interesse no que eu penso — ou não estaríamos aqui nesse momento. Mesmo que ninguém tenha e eu esteja falando com as paredes, de quando em quando eu gosto de investir algum tempinho em uma sessão saudável de autoadmiração, mas então eu me dei conta de que existe uma possibilidade real de que os meus melhores pensamentos e ideias se percam no espaço incorpóreo e eu acabe sem nem lembrar que eles existiram algum dia. Muito potencial desperdiçado.

Cheguei em casa verdadeiramente exasperada, arrasada e exausta (o drama é livre durante o inferno astral), me joguei na cama e mandei uma mensagem para uma amiga contando como eu estava sentindo que minha cabeça está eternamente vazando gasolina.

exhausted

Descontando todo o excesso de drama, esse pensamento ainda me assombra de tempos em tempos — o fantasma de todos os pensamentos que quase não chegaram a ser. Talvez por isso eu tenha começado a me esforçar para registrar tudo o que eu posso. E então chegamos a esse momento do tempo e espaço, com esse texto possivelmente sem sentido escrito na esperança de que mais alguém em algum lugar tenha uma pira parecida com a minha e queira compartilhar essa angústia.

Indivíduo em rosto, se você estiver aí, apareça. Vamos ser migas.

beda-2016-100

Pessoal

Primeiramente, uma analogia pedante

Mas, antes disso, uma “confissão”: eu li quase todos os livros do Paulo Coelho. Pelo menos todos que foram lançados até os meus 13 anos. Comecei com Brida e Diário de um Mago, que morro de vontade de reler, mas ao mesmo tempo morro de medo te estragar a memória afetiva que tenho deles. Enfim. Vou chegar a algum lugar, juro.

O Diário de um Mago é basicamente o livro de memórias do autor durante a época em que ele percorreu o caminho de Santiago. Considerando que eu era criança quando li esse livro, minhas memórias dele são muito vagas, mas o que eu me lembro bem é que esse foi o pontapé inicial para eu querer fazer essa peregrinação ligeiramente insana e sem sentido — mas talvez a graça seja justamente que o sentido da peregrinação seja a peregrinação em si. Prossigamos.

Para quem não conhece, o caminho de Santiago é um caminho tradicional de peregrinação atravessado por milhares (milhões?) de pessoas todos os anos, por motivos religiosos ou não. O ponto que mais chamou minha atenção é que essa caminhada sempre me pareceu uma oportunidade inigualável de exercitar o autoconhecimento, e eu tenho essa fixação particular desde criancinha. (Talvez eu tenha sido uma criança um pouco peculiar, talvez não.) O caminho completo, pela rota francesa, tem em média 750km e leva em média um mês para ser percorrido.

Um dia (talvez mais breve do que vocês imaginam) eu vou fazer a caminhada. Mas até lá, existem outras formas de brincar de autoconhecimento. Uma delas, que eu venho usando há muitos anos e segue sendo uma das minhas grandes paixões na vida, é a escrita.

O ato de escrever pode parecer completamente desprovido de esforço físico, mas eu encaro como um exercício igual a qualquer outro. O segredo é encarar o cérebro como um músculo que também precisa ser exercitado. Desde que eu comecei a sonhar em escrever um livro — sabe-se lá quando foi isso — eu busco constantemente sugestões e dicas de quem está nessa trilha há mais tempo, e um dos ensinamentos que eu mais vi repetido é que escrever não é  sobre inspiração. É transpiração, é exercício. Quando eu internalizei essa lição, tudo começou a fluir imensamente mais fácil.

Nem sempre eu sei como começar, ou que caminho seguir. Mas começar é preciso, nem que seja com rabiscos sem nenhum sentido, só para tirar alguns parágrafos de abobrinha do sistema e então começar tudo de novo, com mais foco. Foi como chegamos aqui agora, mais uma vez no início dessa peregrinação metafórica de um mês popularmente conhecida como BEDA.

A experiência do ano passado foi muito boa, mas não foi tão intensa quanto eu gostaria, porque passei metade do mês dividida entre isso e uma viagem, e obviamente a viagem levou a melhor nessa competição. Ainda assim, cheguei ao final. Esse ano, eu já tinha descartado a ideia de participar de novo, mas não resisti a essa movimentação gostosa que eu vi rolando por aí.

Até hoje mais cedo, eu considerava a blogosfera morta e enterrada. Boa parte dos blogs que eu conheço e estava acostumada a acompanhar estão desatualizados há tanto tempo que eu já considero devidamente aposentados. Esse espacinho humilde onde agora nos encontramos podia muito bem ser incluído na lista. Mas esse fato não me desestimulou a encarar o desafio que agora começamos, porque o que importa não é o onde, e sim o quem.

Eu sou uma pessoa que escreve, eu amo escrever e poucas coisas na vida me fazem sentir tão bem e realizada. Eu poderia, como faço, escrever aqui, na newsletter, em um milhão de sites, em um caderno. A realização que qualquer texto escrito me traz é a mesma (desde que eu seja capaz de me orgulhar dele por pelo menos cinco minutos). O blog é só um meio. Se um dia eu deixar de aparecer aqui, tudo bem — desde que eu continue a escrever. A escrita está em mim, não em uma página da internet ou outra.

Acho que o segredo de se viver leve é não se apegar a coisas. Eu não consigo evitar me apegar a pessoas, mas coisas são só coisas. Eu tenho compulsão em me livrar de coisas, fazer a limpa no armário, doar o que não tem mais uso pra mim, jogar fora o que não presta mais. A energia precisa circular, para que a vida siga em frente. E não é porque a coisa é virtual que não pesa. O que pesa é o apego. Então eu tento exercitar o desapego em todos os aspectos possíveis.

É por isso que hoje eu começo mais esse exercício, sem saber ainda se vou chegar ao final. Não pelo blog, mas por mim. O blog é um cantinho querido porque carrega um pedaço da minha história — mas o dia que ele se for, se foi. O futuro ao acaso pertence e tudo bem. Sigo escrevendo e percorrendo meu caminho independente de qualquer coisa. Não importa aonde eu chegue, o que importa é a caminhada e o que eu vou tirar disso tudo. E enquanto eu estiver escrevendo, está tudo bem.

beda-2016-100

 

Brooklyn, solidão e família
Filmes, Livros, Pessoal

Solitários S/A: a família que se encontra pelo caminho

 

Quando assisti Brooklyn pela primeira vez, o começo do filme estraçalhou meu coração; talvez porque eu tenha me visto na Eilis, ainda que em um futuro hipotético. A sensação de definitividade daquilo tudo: dar as costas a toda uma vida e partir sozinha para o próprio destino, em um lugar estranho onde não se conhece ninguém e sem previsão de voltar, me deu uma sensação de vazio e solidão tão grandes que eu não consigo traduzir bem em palavras. É algo que eu anseio e temo ao mesmo tempo.

Mesmo que eu não tenha passado por nada daquilo ainda, eu automaticamente me coloquei no lugar dela, e senti (talvez de forma mais aguda do que se fosse realmente eu ali) toda a estranheza daqueles jantares na pensão, a disciplina dissociada do ambiente familiar, os costumes estranhos, o novo emprego. Mesmo eu não sendo uma jovem irlandesa de uma cidade do interior antes dos tempos da comunicação fácil e irrestrita, eu senti saudades e chorei e quis voltar. E então a vida começou a acontecer.

Para Eilis, veio na forma de uma paixão, um casamento e a perspectiva de uma nova família nos moldes tradicionais. Para Angela Clark, personagem principal de I heart New York (livro que a mamãe comprou quando nós realmente estivemos em NY e quem acabou lendo fui eu), foram amigos.

A história da Angela é peculiar porque ela não planeja conscientemente emigrar. Um belo dia, em um casamento, ela descobre em primeira última mão a traição do noivo, pega um avião e vai parar… Também em Nova York. Também sozinha, também sem nada concreto e também construindo uma nova vida. E até o último segundo ela nem tem certeza se vai mesmo construir uma nova vida nesse novo lugar.

Mais uma história, ainda em Nova York, sem relação aparente. A Redoma de Vidro. Talvez esse seja mais difícil de associar, na prática, com as histórias anteriores, mas por algum motivo, a sensação que me passa é a mesma. Ainda que a Esther só esteja por lá de passagem e acabe voltando para a casa da mãe, a história de desconexão dela começa bem antes, quando ela entra na faculdade, e se estende mesmo com a volta para casa.

O essencial para a associação possivelmente aleatória que se formou entre as três histórias na minha cabeça é justamente o estranhamento de estar em um ambiente novo, diferente, segregado de tudo aquilo que conhecemos pelo conceito tradicional de família. É a sensação de alheamento que essas três personagens específicas, dentro todos os exemplos de personagens na mesma situação, me passam.

O ponto central entre essas três histórias, além da cidade que serve de plano de fundo (e, algumas vezes, de personagem), é justamente essa redoma de vidro em torno das personagens principais e que varia, entre elas, de um estágio normal da mudança de vida radical pela qual se está passando até um estado realmente patológico. Na maioria dos casos, essa redoma começa a desmoronar à medida que novas conexões são formadas com as pessoas em volta. Existe vida ali, existem seres humanos. E como eu me identifiquei com essa sensação, mesmo que eu não tenha deixado a minha própria cidade.

O momento de deixar o ninho é cheio de muitas emoções, boas e ruins — geralmente boas e ruins ao mesmo tempo. É assustador e solitário pensar em chegar em casa e não encontrar os rostos familiares que antes estavam ali. É assustador pensar em encontrar, nesse mesmo lugar, rostos diferentes, possivelmente menos amigáveis. É assustador pensar que os rostos que você foi ensinado a acreditar que sempre estarão lá para correr em seu auxílio em caso de colapso agora vão estar a duas horas de distância, ou três ou cinco ou doze. Ou do outro lado do oceano. É assustador pensar que mesmo que todas essas pessoas continuem existindo em algum lugar, você pode estar só.

A princípio parece mesmo que você está só. Então as pessoas começam a aparecer de todos os lados. E a sensação passa.

Passa porque estar sozinho não é o fim do mundo. E passa porque novas conexões começam a se formar, mais fortes justamente porque se está sozinho. Conexões com pessoas possivelmente tão merecedoras do título de família quanto a anterior. São novos amores, novos amigos, novos rostos que já não são mais tão desconhecidos. Novos abraços e novos gestos mostrando que incondicional é um conceito mais relativo do que se podia imaginar, e que essa história de que amor e dedicação têm alguma relação necessária com sangue e genética não faz sentido nenhum. No fim, quem vai estar ali para você é quem quer estar, e não quem tem alguma obrigação natural questionável de estar.

Não é um conceito fácil de formular, quando fomos ensinados desde sempre que as pessoas com quem podemos contar são a família e que a família é formada por laços de sangue. Chega a ser subversiva a ideia de que esse líquido vermelho que corre nas nossas veias sirva mesmo só para carregar oxigênio e exercer um punhado de funções biológicas, enquanto o essencial para a conexão entre os seres humanos é determinado por outros fatores. Pela química, pela energia, pela alma — cada um dá o nome que quer — que pode ou não vir no pacote. Mas uma vez que se pensa o suficiente sobre isso, o bastante para desconstruir a ideia de que amor e identificação são compulsórios, é algo libertador e reconfortante. Porque significa que, independente do que aconteça no caminho e da sua sorte ao nascer, o jogo nunca está perdido, e nós nunca estamos realmente sós.

Isso foi só uma das muitas coisas que a Eilis, a Angela e, sim, a Esther também, me re-lembraram, e uma das lições mais importantes que eu aprendi na vida: família não é um conceito fechado, é algo que a gente constrói à medida que a gente caminha. Deixando para trás esse determinismo genético, e incorporando novas pessoas que antes nos eram completamente estranhas.

Pessoal

Açúcar, tempero e tudo de maneiro

Não, não é aqui nem agora que eu vou falar de As Meninas Superpoderosas. Eu amo o desenho e vou falar sobre ele, mas deixo vocês no suspense sobre o resto das informações. Por ora, o que estou buscando mesmo são os ingredientes necessários para criar o blog perfeito manter um blog. Não precisa ser perfeito, não precisa ser muito interessante, não precisa ser um sucesso (quem define o que é sucesso?), só precisa estar vivo.

Eu não sei o que acontece, parece que em algum momento no tempo — muito tempo atrás — eu sabia blogar, e então eu desaprendi. Às vezes eu volto, ensaio, então caio em mim e entro em crise, esqueço tudo o que queria dizer e vou embora — para aí sentir saudade, refletir, fazer planos e voltar. É sempre assim. E antes de cada volta tem uma pesquisa de campo imensa pra tentar descobrir o que são blogs, onde habitam, de que se alimentam, o que as pessoas escrevem neles e qual o sentido da vida. É o marte em touro.

Racionalmente eu sei que o espaço é meu e eu posso escrever qualquer coisa, mas todo esse mundo de possibilidades me dá um branco imenso. Liberdade absoluta também é um pouco opressivo.

A verdade verdadeira é que, mais uma vez, eu compartimentei tudo. Coisas no estilo querido diário e anedotas diárias eu acabo contando na newsletter, boa parte das minhas reflexões sobre a cultura pop estão sendo canalizadas para uma fonte que será revelada muito em breve e, para completar, entrei agora como colaboradora lá na Alpaca Press. De repositório total dos meus pensamentos, esse espaço aqui virou o espaço de tudo aquilo que sobrou. E o que sobrou? O que sou eu se não o que eu ouço/vejo/leio e os acontecimentos simples do meu cotidiano? Fica a reflexão.

Também tenho um pouco de medo de virar uma pessoa chata. Mentira, eu já virei uma pessoa chata. Desde que eu conheci o feminismo eu sou cada vez mais chata e, por mais que às vezes eu me aborreça de ser sempre a estraga-prazeres do rolê, eu não consigo lamentar nada disso. Então meu medo real não é exatamente virar chata, e sim levar esse espaço tão bonitinho pelo ralo junto comigo. Porque se a gente tira o que vem de fora, sobra o que vem de dentro. E por dentro eu sou uma enciclopédia interminável de textões problematizantes e politizados. Quem realmente tem interesse nisso?

A verdade verdadeira é que esse espaço ficou largado de mão mesmo antes de eu começar a escrever pelos quatro cantos (quem dera, um dia eu chego lá — quem sabe) porque eu ando cheia de coisas pesadas que têm muito mais de político do que de pessoal. E não bastasse isso, eu ainda me sinto muito pouco qualificada pra falar de tudo e qualquer coisa. Como muito bem definiu minha amiga maravilhosa Milena, eu tenho graduação em insegurança, além de muita preguiça de estudar o tanto que eu acho necessário para falar sobre assuntos mais complexos (spoiler: muito). Vide que no meu único texto explicitamente sobre feminismo, uma amiga pediu que eu falasse mais sobre a vertente com a qual eu me alinhei e até hoje ainda não saiu nada (vai sair um dia, prometo).

Eu sou insegura. Talvez eu não tenha nascido insegura, mas a verdade é que eu cresci insegura, e é muito difícil se livrar disso depois de velha. Insegura nível não me inscrever para a seleção de colaboradoras da revista da minha amiga por medo de deixar ela sem graça de me recusar. Insegura em níveis que desafiam a lógica. E agora insegura nível deixar de escrever e assistir esse espaço definhar e morrer lentamente, mesmo com o coração partido e a mesma velha paixão por escrever ainda intacta em algum lugar aqui dentro.

Então é isso. O primeiro passo é admitir que você tem um problema, não é mesmo? Eu admiti. O próximo eu ainda não sei qual é, mas enquanto isso vou continuar tentando falar — sobre Mabel a gata, sobre heterossexualidade compulsória, sobre minhas aventuras culinárias veganas, sobre escrever. Afinal, é escrevendo que se aprende a escrever, né?

Pessoal

Já posso casar (meu cu)

bobfaxina

Lá em casa quem cuidava sozinha das ~tarefas domésticas~ desde que eu me entendo por gente era minha mãe. Mesmo quando ela deixou de ser profissão: dona de casa e começou a trabalhar na rua (em um banco, não com isso que vocês estão pensando). Como vocês podem ou não imaginar, isso foi muito traumatizante pra mim.

De pequenininha eu só lembro mesmo dela fazer tudo. Depois de mais velha, muito ocasionalmente eu dava uma ajuda, mas não sem engolir muita revolta pela injustiça de ter que fazer aquilo porque eu era menina enquanto meu pai, que sempre teve dois braços e duas pernas muito saudáveis, ficava com a bunda sentada no sofá aproveitando a posição de ser superior que a sociedade patriarcal lhe deu. Pior do que essa frustração, só mesmo quando eu fazia algo voluntariamente, gastando o bom humor que sempre foi meio escaço na minha pessoa, e era obrigada a ouvir o tão famigerado…………………………………….

JÁ PODE CASAR.

tnc

Nossa, meu sonho, muito obrigada pela sua permissão.

A vida seguiu, o mau humor e a frustração continuaram comigo, mas aos poucos fui adquirindo um tiquinho de bom senso. Esse bom senso me fez ver que, mesmo SENDO inegavelmente injusto que eu tivesse que ajudar POR SER MULHER enquanto os seres humanos com pintos podiam fazer o que bem quisessem, também não era muito justo o outro ser humano com vagina da casa fazer tudo sozinha enquanto esse ser humano aqui que também vivia e bagunçava o referido lar sentava a bunda no sofá como forma de protesto político (que prejudicava absolutamente ninguém além da outra que continuava fazendo tudo sozinha). A partir daí eu juro que me esforcei pra ser um pouco menos babaca, mesmo reservando uma cota de “vai você”/”manda seu filho” para os “vai ajudar sua mãe” nossos de cada dia (principalmente nos momentos de TPM). Sim, eu trabalho com desaforos.

Mas aí, né, eu me mudei. E além de ter prioridades pro meu dinheiro do que economizar as três horas ou menos por semana que eu gasto mantendo tudo mais ou menos limpo e organizado (trabalho que Letícia — miga, se tiver lendo isso, eu ainda te amo bjas — nem sempre facilita), coincidiu de eu ler e refletir sobre o quão escravocrata (e ridículo) é você contratar outra pessoa especialmente pra limpar a SUA sujeira. A solução que sobrou foi nada além do óbvio: limpar minha própria sujeira. Foi assim que eu descobri os milagres terapêuticos de uma boa faxina — e também que ser dona de casa não é ruim por si só.

(Só pro registro: permaneço abominando a frase JÁ PODE CASAR. Evitem pronunciá-la na minha presença. Grata.)

Não vou me dar uma glória que não possuo: não chego do trabalho depois de nove horas de cansaço mental cheia de energia e empolgação pra limpar nada. Dificilmente eu começo os trabalhos sendo a mais feliz das criaturas, a história costuma ser mais ou menos a mesma toda vez. No começo, havia sujeira. Mal acostumada pela mamãe, eu não SUPORTO (toda vez que eu uso Caps Lock podem me imaginar levantando a voz, sim) viver no meio da sujeira. Eu tento mentalizar, mas a sujeira não vai embora sozinha. Escolho uma música, cato a vassoura e lá vamos nós.

Assim que eu começo, uma mágica se opera. O suor começa a escorrer (Rio 40º, sabem como é), mas a visão da sujeita indo embora e a ansiedade pelo cheirinho de limpeza são hipnotizantes e quando eu me envolvo, eu não consigo parar e o tempo apenas voa. Não é divertido, mas é catártico. Então antes do que você espera tá tudo limpo e cheiroso e nenhuma definição é mais adequada ao sentimento que toma conta de mim nesses momentos do que: paz de espírito. Eu estou invariavelmente leve e feliz, com a autoestima elevada.

Juro que não é exagero. Eu faxino meu subconsciente enquanto eu faxino Edna, o apartamento. Quando eu termino, todas as ideias erradas, toda a bad, toda a TPM simplesmente se foram. O cheirinho de limpeza vem de dentro e de fora (mesmo porque o último ato da faxina é sempre me atirar debaixo do chuveiro gelado). Eu me jogo na minha cama (apesar de ela sempre ser arrumada no meio da ação), com o solzinho entrando pela janela (as melhores faxinas são feitas de manhã, anotem), sentindo o cheirinho do incenso (nenhuma faxina está completa sem um incenso), com uma nova trilha sonora (mais relaxante que a anterior). E por um curto período de tempo absolutamente nada está errado no mundo. É uma das melhores sensações que existem.

Isso quer dizer que JÁ POSSO CASAR? Que vou ficar feliz e realizada mantenho a casa arrumada enquanto meu querido marido (nas fantasias machistas, obviamente que a outra parte é sempre um macho) senta a bunda no sofá com a serenidade de quem já nasceu com a vida ganha? RISOS. Só se vocês não me conhecessem, né, amadas. Fiquem bem tranquilas que, se um dia eu resolver dividir minha vida com alguém, ficarei bem feliz em dividir também com essa pessoa os efeitos terapêuticos da faxina. Como faço agora com Letícia. Não vou querer ser egoísta e ficar com a diversão toda pra mim.

Mas, olha, que é muito boa a sensação de casa limpa, a paz de espírito e, talvez principalmente, a sensação de autossuficiência que eu sinto depois de uma boa faxina, é sim. Recomendo.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

Pessoal

Mais um trem potencialmente bem errado

Não tem muito tempo que eu fui iniciada por amiga Anna Chicória no maravilhoso mundo das newsletters, esse universo paralelo onde você recebe coisas bacanas direto no aconchego do seu e-mail, compensando as toneladas de spams que são despejados lá todos os dias. Perdida que sou, comecei aos poucos, assinando uma aqui, outra acolá; lendo todas por questão de princípio. Quase um preparativo para o Ultimate Tutorial de Newsletter que ela tinha prometido.

O ano virou e ela anunciou no twitter que o mapa para esse mundo maravilhoso tinha sido liberado, e tinha uma surpresa. Conhecendo as amigas que tenho, eu não precisei nem abrir o link para saber qual era a surpresa, mas abri o link mesmo assim — correndo — porque eu estava muito ansiosa pelo post e para confirmar minhas expectativas.

Certíssima estava eu. Além de explicar de forma muito didática o que exatamente é esse troço de newsletter (conceito que ainda me deixava um tanto confusa), ela indicou várias newsletters (que assinei todas), e — por fim, mas não menos importante — anunciou o lançamento mais esperado do ano: No Recreio, a newsletter dela, novinha em folha.

E então chegamos aqui. Mentira, ainda não chegamos aqui, chegamos s apenas ao parêntese no qual eu tento explicar para vocês resumidamente todo o meu amor por e-mails.

E-mails são como cartas, mas sem o gasto de energia (e dinheiro) de endereçar um envelope, levantar da cadeira e ir até a agência de correios mais próxima. Eu uso e-mails como forma de abrir meu coração e despejar meus sentimentos mais profundos (sim) nos ombros de algum sofredor desavisado. Quer me ver feliz? Responde meu e-mail e/ou comece uma correspondência comigo. Te amarei para sempre, e muito rápido, por motivos de: vou dividir meus temores e desejos mais profundos com você. Sou esse tipo de pessoa formada à base de Jane Austen.

Dessa forma, quando li aquele conceito cuidadosamente detalhado do vocábulo (s.f.) newsletter, a única coisa que eu pensei foi: QUERO. Quero muito.

Mas logo depois pensei que preciso deixar de ser uma ridícula que tem vontade de fazer tudo o que as amigas fazem e chora por dentro por não ter descoberto algo antes para não ter que se sentir culpada de copiar as amiguinhas. Respira. Perdão pela falta de vírgulas. Então segurei minha periquita e fiquei quietinha na minha.

Quietinha na minha, vírgula, até Bananalu confessar seu desejo intenso de ser maria-vai-com-as-outras. Coloquei fogo na lenha: nossa, amiga, sim, vai! Seguindo com um: se você for, eu vou! E fechando em: E acho que devíamos ir todas! Tenho uma mente maquiavélica.

Mas, entretanto, porém, contudo, todavia etc. Deu certo. E todos esses milhões de parágrafos acima foram apenas para anunciar que: eu também tenho uma newletter. Risos. Então vocês, eventuais leitores fantasmas (tem alguém aí?) podem assinar aqui e começar a receber de graça — eu disse DE GRAÇA, não é ótimo? — correspondências dessa que vos fala.

Uma edição experimental foi ao ar no sábado, apenas porque eu realmente não sei segurar minha periquita. Quem recebeu, recebeu; quem não recebeu, não recebe mais (a não ser que vocês queiram muito, mas não foi essa coca-cola toda). Agora estou providenciando todas as frescuras sem as quais não sei viver, e a edição inaugurativa(?) oficial talvez vá ao ar essa semana, mas ainda não defini um dia.

Apesar disso, não precisam se preocupar; prometo não lotar a caixa de e-mails de vocês. Provavelmente vocês vão receber notícias a cada duas semanas (mas posso reduzir para uma, se eu não conseguir me segurar). A linha editorial, a gente descobre juntas.

Por último, mas não menos importante, vocês são mais que bem vindos para dar um reply rapidão e bater um papinho comigo. Seriously.

lor_dream