Gênero, violência e eufemismo
Feminismo

Gênero, violência e eufemismo

Desde a última vez que falei sobre feminismo aqui, tenho estudado bastante. O grupo de estudos dos sonhos que eu mencionei sem nenhuma pretensão acabou nascendo e me apresentando mulheres incríveis que eu nunca teria conhecido sem isso. Tenho frequentado também algumas rodas de discussão e conversado com amigas, e quanto mais eu estudo e penso, mais minha cabeça se abre para tudo o que eu não enxergava antes. Recomendo.

Inclusive, atualizei o texto anterior.

No meio de todas essas revelações que eu tenho tido, tenho vontade de dividir muita coisa aqui, porque dividir informações é importante e porque (aprendi nesse meio tempo, vejam só) as “teorias” radicais são tão ancoradas na vivência e surgem tão organicamente em grupos de discussão que todas precisamos parar para registrar de tempos em tempos ou tudo acaba se perdendo.

Entre as muitas coisas sobre as quais estudei, refleti e ouvi discussões (não acho justo dizer que participei porque não aprendi ainda a me comunicar em grandes grupos) está a ideia de gênero. Não vou discutir o que é ser mulher, é sobre o próprio conceito de gênero que vamos falar — e a razão pela qual eu não gosto desse conceito. O que diabos é gênero?

O princípio básico é que gênero é construção social. Existe uma sociedade composta por indivíduos que são divididos em dois grupos que possuem características e comportamentos próprios e obrigatórios.

Existem milhares de forma de fazer com que os indivíduos se conformem às características e comportamentos atribuídos ao grupo em que foram compulsoriamente inseridos. As mais eficazes envolvem socialização — criação direta pela família, exemplo, mídia, pressão social. Para quem não se conforma, existem tipos variados de punição. Mas isso é assunto para outro momento.

O conceito de gênero é invenção muito recente. O termo começou a ser usado entre as décadas de 70 e 80 do século XX. Antes disso já existia feminismo e todo mundo se entendia perfeitamente bem usando a expressão “sexo”. Qual a necessidade de se falar em gênero, então?

É bem simples: criando a expressão gênero para identificar a construção social binária, se naturaliza o conceito de sexo. Sexo passaria a ser nada mais do que a divisão biológica da população entre indivíduos macho e fêmea. Só que não é bem assim — historicamente a divisão entre sexos só tem relevância porque é atribuído um valor a cada uma dessas classificações. O sexo não é neutro.

Outro efeito relevante é a expressão gênero é um eufemismo, e tira o foco das violências sofridas por mulheres. É só comparar as expressões “violência de gênero” e “violência contra a mulher”. Na primeira, qualquer um pode ser vítima, é uma coisa absolutamente abstrata e desconsidera completamente todas as centenas de tipos de violência que mulheres sofrem desde o nascimento por serem mulheres.

Nós permanecemos à margem, à sombra, durante todas as nossas vidas, sendo esmagadas, onde sempre estivemos. Nós precisamos nos colocar como o centro e lutar por nós mesmas. Nós já fomos passadas para trás muitas vezes antes.

A ideia de gênero não contempla mulheres. É só mais uma forma de nos deixar de lado, esvaziar nossa militância, desviar o foco. É dar um tapinha no nosso ombro, mandar colocar/não tirar o batom vermelho (e/ou qualquer outra coisa que envolva essa ideia erradíssima de “empoderamento” que não empodera ninguém), e vamos falar de outra coisa agora. E novamente nossa luta fica para trás.


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1 Comment

  • Reply Gabriela 6 de agosto de 2016 at 22:58

    E desde que você escreveu sobre gênero aqui, eu também andei estudando bastante. (:

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