Feminismo

Você é obrigada, sim

 (O título é uma resposta ao título do post da Anna Vitória, mas o post não contraria o dela não, viu?)

Vamos começar do básico: o que é gênero? O que é ser mulher? Quando se trata de feminismo, esse é sempre o nosso ponto de partida e a sua resposta a essa pergunta é o que vai determinar o que vem depois. Existe quem acredite que ser mulher é algo subjetivo, que existiria uma suposta essência feminina que determina quem é mulher e quem não é. Eu não acredito disso. Eu me alinho com a teoria radical*.

Qual é a consequência disso, então? O que eu entendo por ser mulher? Para mim, e para quem pensa como eu, gênero é imposição, é hierarquia. É exatamente aquela frase de Simone de Beauvoir que todo mundo conhece, caiu até no ENEM, mas nem todo mundo entende:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.

Simplificando o que o está escrito acima, ninguém nasce mulher porque gênero não é natural. Gênero não é biológico, gênero não é psicológico. Gênero é uma construção social. Ninguém nasce mulher, as pessoas simplesmente nascem – e aleatoriamente possuem características biológicas diferentes, que se apresentam externamente no pênis e na vagina. Ser fêmea ou macho é algo natural, acontece na espécie humana como em quase(?) todas as outras espécies na natureza. O ser mulher não é natural, é tudo o que acontece com a gente a partir do momento em que se constata que aquela criança que vai nascer (ou que já nasceu) tem vagina.

Ser mulher não é uma constatação, é uma imposição. A partir do momento e que você chega ao mundo e é lida como mulher por causa da sua vagina, a condição de mulher é imposta a você. Antes de você ter condições de saber qualquer coisa sobre você, o martelo do gênero vai descer na sua testa e te ditar o que você gosta, o que você não gosta, o que você pode fazer e o que não pode.

Gênero não é natural, é hierarquia. É a divisão do mundo entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”, no qual um desses grupos (a gente sabe bem qual) é considerado superior ao outro.

Se o que você gosta/pode ou deixa de gostar/poder é imposto a você de forma brutal antes mesmo que você desenvolva consciência do que você realmente gosta ou não, isso significa que todos os seus gostos e escolhas futuras vão ser de alguma forma determinados por fatores externos a você. O nome disso é socialização.

A socialização tem MILHARES de consequências práticas. Mas uma delas, que é o ponto central do que eu vim aqui dizer é: você pode até acreditar que é livre, mas você não é. Você pode achar que depilar a virilha, usar maquiagem e ter filhos são escolhas suas, mas na realidade não são. Tudo o que a gente faz nessa vida é fruto da socialização.

O que isso significa na prática? O que isso significa para o feminismo? Quer dizer então que o feminismo quer te impedir de usar batom? O feminismo está se igualando ao machismo tentando te dizer o que você pode ou não fazer? O feminismo está te oprimindo?

Não, meu bem, não tem nada disso.

Em primeiro lugar, o feminismo não oprime ninguém em relação a gênero. Mulheres não têm poder estrutural para oprimir em relação a gênero. Vamos repetir isso algumas vezes até a gente gravar. Na questão racial, uma mulher branca é opressora de uma pessoa (homem ou mulher) negra. No plano social, uma mulher classe média ou rica oprime uma pessoa (homem ou mulher) de classe mais baixa. Mas uma mulher, seja ela qual for, nunca vai oprimir um homem ou outra mulher em razão de gênero, enquanto vivermos em uma sociedade machista e patriarcal. A gente pode até pisar no seu calo, mas isso não significa oprimir. O feminismo não te mata, não te faz andar na rua com medo de apanhar (ou pior) de uma feminista, não diminui seu salário, não te impede de arrumar emprego.

Em segundo lugar, nenhuma feminista vai confiscar sua caixa de maquiagem. Ainda não vi nenhum piquete feminista na porta de um estúdio de depilação. Ninguém está te obrigando a deixar de se depilar (e você nunca vai deixar de conseguir um emprego ou ser olhada torto na rua porque raspa o sovaco). Mas estamos dizendo que a sua opção por se depilar nunca vai ser completamente livre? Estamos. Não, não estamos, eu estou. Mesmo que você já seja a rainha do feminismo, a fodona da desconstrução. Okay, você se depila porque odeia pelos; mas por que você odeia pelos (os seus, principalmente)? O ponto é justamente esse: saber que nenhuma de nós é (ou será) livre e seguir vivendo e lutando pra que um dia, quem sabe, nossas tataranetas ou as netas delas sejam.

Foi isso que eu vim dizer hoje. Mas só tinha mais uma coisa que eu queria falar antes de passar o bastão da palavra para vocês: feminismo não é o oposto de machismo. Machismo é um sistema que impõe a ideia de gênero (fixando: gênero = hierarquia) e oprime estruturalmente o grupo designado como mulher e todos aqueles que fogem aos papéis de gênero socialmente reconhecidos. Feminismo, do outro lado, é um movimento social que tem por objetivo construir uma sociedade equitativa a partir da desconstrução da ideia de gênero (última vez: gênero = hierarquia). Mas o fato de não serem opostos não significa que você pode escolher a opção C (nenhuma das alternativas anteriores).

A sociedade é machista, a socialização é machista, o inconsciente coletivo é machista. Logo, o neutro é machista, e machistas (ou reproduzindo machismo) permaneceremos enquanto não fizermos nada pra mudar esse estado das coisas. Sair do machismo existe uma postura ativa de desconstrução, e desconstruir questões de gênero é uma atividade essencialmente feminista. Ou seja, você realmente não é obrigada a se reconhecer feminista, abraçar o título, estudar o assunto. Mas isso não significa que na prática você não seja feminista.

Agora eu vou ali e beijos pra quem fica.


*Radical NÃO significa extremista, pelamor. Radical vem da palavra RAIZ (sabe uma árvore?), e o feminismo radical encara a questão de gênero a partir da origem (RAIZ) da opressão que sofremos.

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11 Comments

  • Reply Patthy 10 de março de 2016 at 17:13

    “Ou seja, você realmente não é obrigada a se reconhecer feminista, abraçar o título, estudar o assunto. Mas isso não significa que na prática você não seja feminista.” Foi mais ou menos assim que me descobri feminista: eu não me identificava com o ~feminismo extremista~ que eu via, porém já tinha identificado que as pessoas eram tratadas de maneira diferente de acordo com o gênero e tinha o desejo de mudar isso. Aí eu fui pensando melhor, lendo mais a respeito até que eu de repente me toquei “é, talvez eu seja feminista sim”.

  • Reply Banana 10 de março de 2016 at 21:30

    Amiga, cheguei. Seu texto ficou ótimo. Esse é o tipo de coisa que me dá um mindfuck gigante. Lembro do dia que a Tary descontruiu pra mim a questão do humor, sabe? Porque eu ficava sem entender direito qual era o limite do “politicamente correto” e porque uma PIADA sobre negros, por exemplo, não podia ser feita. E ela jogou uma frase que me deu o estalo e me fez entender tudo que foi mais ou menos “o problema não está no humor, o problema está em POR QUE isso é engraçado”. Eu nunca esqueci isso, e cabe justamente nessa discussão que você propôs aqui: socialização. Tudo vem da socialização. Eu fico pensando QUEM um dia foi lá e decidiu que era mulher que passava maquiagem e que rosa era cor de mulher e fico GENTE, HAHAHA. Porque construções sociais são uma coisa muito bizarra, que eu fico pensando e pensando e pensando até que desisto. E é uma parada muito difícil de quebrar porque, por exemplo, morro de preguiça dessa história de rosa pra menina e azul pra menino, mas ficaria chocada e achando esquisito sim um homem de batom e rímel, por exemplo. O dia que a Chloe postou foto dos trigêmeos com o Henry e o Rufus de vestido e faixinha na cabeça eu fiquei PRA QUE FAZER ISSO, e me incomodei muito que aquilo tinha me incomodado, porque eu gostaria de ser uma pessoa mais “livre”, mas eu não sou. Amo cada vez que percebo que consegui descontruir alguma coisa, sabe? Mas fico pensando no tanto que essas construções sociais que estão na nossa cabeça desde que nascemos engessam a gente. Não tenho a menor vontade de não me depilar, fico feliz da vida que eu não seja obrigada a não me depilar para ser feminista, mas entendo TOTALMENTE o seu ponto, de que por mais que a gente queira continuar se depilando, o fato é que isso VEIO SIM de uma construção social meio torta e que é melhor a gente pelo menos aceitar essa instigação porque assim dói menos, já que é verdade. Meu comentário tá maluco e tagarela e eu estou falando um monte de coisas que espero que estejam fazendo sentido pra você, é que tá saindo tudo da minha cabeça meio sem linha e sem nexo, HAHAH.
    Além de toda a discussão eu amei DEMAIS esse final porque convivo com várias mulheres que dizem ORGULHOSÍSSIMAS que não são feministas (e eu já fui uma dessas) e fico pensando exatamente isso que você disse: ok, você pode não se reconhecer, pode não abraçar o título, pode não correr atrás de informação mas isso não significa que você não seja, beijos de luz. HAHAHA
    Te amo! <3

  • Reply Monique Químbely 12 de março de 2016 at 17:12

    Li esse post ontem e já tinha achado maravilhoso, mas voltei aqui pra comentar porque lembrei de que eu não gosto de sair de short ou blusa regata sem ter me depilado. Não julgo quem o faço, até incentivo, mas enfim não gosto. Não porque detesto meus pelos (apesar de que nas axilas nesse calor me incomoda), é porque eu tenho vergonha de amostrá-los por aí .-. Cê tá bem certa mesmo, porque eu posso muito bem escolher não me depilar, ninguém vai pôr uma arma na minha cabeça e me obrigar o contrário, mas a sociedade é cheia de regras não ditas, ninguém as escreve num manual e ainda assim nós crescemos seguindo-as e tendo vergonha de ir contra elas.

  • Reply Sharon 14 de março de 2016 at 21:15

    Com muito atraso, nenhuma vergonha na cara e uma vontade enorme de te abraçar: eu cheguei. Amiga, esse texto. MEU DEUS, ESSE TEXTO!!1!1! Eu já tinha lido antes, logo quando você publicou (pois lógico), mas não consegui mimar porque esse assunto às vezes (sempre) dá um nó na minha cabeça e eu, muitas vezes, me vejo sem saber muito o que opinar. Porque eu concordo com tudo, é claro, mas ao mesmo tempo ele me fez pensar tanto em TANTAS coisas. Mas TANTAS coisas, sabe? Coisas que eu vivi, principalmente, quando era criança, e muitas vezes tinha isso jogado na cara: não é coisa de menina, sai daí, isso não é pra você. E me assusta muito porque, olha só que coisa, eu já estou aqui, com praticamente 23 anos na cara, e lembro de tudo isso, e fui marcada por muito desses discursos, e muitas vezes fui desencorajada a fazer coisas porque, mais uma vez, eu era uma menina – assim como todas fomos, em maior ou menor intensidade ao longo da vida. E sei lá, uma criança, sabe? UMA CRIANÇA. Construções sociais são um troço complicado pra cacete, me desgraça demais a cabeça, mas tenho fé que nossas bisnetas (ou tataranetas) vão viver num mundo melhor. Eu posso estar sendo idiota, mas se a gente não acreditar no poder que a gente tem, na nossa própria luta, quem vai?

    TE AMO <3

  • Reply Deixa de Banca 15 de março de 2016 at 17:48

    Nossa, obrigada por esse texto maravilhoso. Não aguento mais ler gente falando que passar batom é feminismo porque a mulher é “livre pra fazer o que quiser”.

  • Reply Ana 16 de março de 2016 at 21:37

    Miga, sua MARAVILHOSA.
    O seu texto é um SIM, SIM, SIM, gritado a todos os pulmões.
    Eu não gosto de pelos, eu gosto de maquiagem, eu gosto de me ajeitar. Mas eu gosto disso POR QUÊ? Eu iria desgostar de pelos se eu fosse do outro gênero? Iria gostar de roupa justa se fosse o outro gênero? São questões.
    No mais, amei isso: “A sociedade é machista, a socialização é machista, o inconsciente coletivo é machista. Logo, o neutro é machista, e machistas (ou reproduzindo machismo) permaneceremos enquanto não fizermos nada pra mudar esse estado das coisas.” É o que eu penso, é o que me remete àquela frase que compartilhei no grupo aquele dia e agora compartilho o quote inteiro porque #pertinente: “We must take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented. Sometimes we must interfere. When human lives are endangered, when human dignity is in jeopardy, national borders and sensitivities become irrelevant. Wherever men and women are persecuted because of their race, religion, or political views, that place must – at that moment – become the center of the universe.” Queria tatuar na minha testa essa frase.

    BEIJO! <3

  • Reply Nay 17 de março de 2016 at 10:31

    SIM SIM SIMMMM!!! Apenas aplaudindo de pé esse texto porque pode figurar na cartilha de “O que é feminismo”. Já podemos começar a distribuir???

    PS: nunca tinha pensando em Radical pela etimologia da palavra e nooossaa, mind blowing!!

  • Reply Nana 20 de março de 2016 at 21:49

    Ótimo texto!!!
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

  • Reply Carolina 28 de março de 2016 at 19:53

    Mulher me dê um tapa na cara antes que eu mesma dê por só vir saber da existência desse post DEZOITO DIAS depois que você postou, por um acaso do destino enquanto olhava meu feedly.

    Não sei nem expressar o quanto eu fiquei feliz em ver você trazendo o feminismo radical à tona no seu blog, porque é uma coisa que eu vejo muito pouco fora da minha bolha do facebook e que eu mesma tenho muito receio de falar por aí, então obrigada, obrigada, obrigada mesmo <3
    Seu texto me deu vontade até de falar do assunto também, mas ficou tão bom, que acho mais fácil fazer um post escrito só GENTE LEIAM ESSE TROÇO AQUI PELAMOR DA DEUSA É TÃO IMPORTANTE!

    Enfim, beijo e passarei a ser mais atenta em relação as atualizações do seu blog hahaha

  • Reply Linkagem de Segunda #38 – Sem Formol Não Alisa 18 de abril de 2016 at 23:46

    […] Você é obrigada, sim, Paloma no Vizinha da Capitu […]

  • Reply Artigo: Feminismo = Liberdade – Dissabores 18 de fevereiro de 2017 at 22:42

    […] E a parte mais legal de tudo isso é, que não sei vocês, mas quando eu comecei a aprofundar mais na questão do feminismo – e na luta -, ampliei isso para uma liberdade para todos. Ele me ajudou a ver que todos são livres para serem e fazerem o que quiserem – desde que, óbvio, não afetem a vida de outra pessoa. Ele mostra como questões ensinadas e aprendidas desde criança sobre a vida “feminina” – entre aspas porque entra na questão de gênero – são impostas por uma sociedade que quer escolher como devemos ser, pensar e agir. Cria-se uma ideia de como devemos viver pelo simples fato de sermos mulher – coisa que, na maioria das vezes, não se aplica ao mesmo nível para os homens. Okay, ambos os gêneros lidam com problemas de roupa e brinquedos “de menino e de menina”? Sim. Porém, quase nunca vejo imposto aos homens o trabalho de uma vida – como é colocado para as mulheres a maternidade. As mulheres devem almejar serem mães, senão, nunca estarão completas, enquanto, o homem, é coagido a arrumar um emprego bom e que forneça uma boa renda. Se ele decide ser pai – é uma festa, pois, “que cara ótimo” -, se ela decide não ser mãe – “mas, poxa, é o maior amor da sua vida”. Isso também me ajudou a lidar com críticas negativas e desnecessárias, evitar fofocas e julgamentos. “Fulano está saindo todo final de semana”. E daí? O dinheiro é seu? As festas que ele vai são suas? Não. Pois, bem, então, fulano tem todo o direito de fazer isso. “Nossa, tal pessoa pintou o cabelo de azul”. Se você não gosta, problema seu. Tal pessoa gosta e se ela gostou da mudança, então, ela está radiante e totalmente bela. Podem parecer respostas grossas, mas são libertadoras. Ao mesmo tempo que você livra alguém de um julgamento desnecessário, você se livra de picuinhas e estresses sobre algo que não lhe diz respeito. Com o feminismo, eu percebi que eu comando minha vida. Claro que existem coisas que terei que fazer mesmo não gostando – para sobreviver, a maioria delas – mas, essa é a vida. Porém, no que diz respeito à minha vida, meu corpo e minhas escolhas, eu devo ser livre e escolher aquilo que eu quero. E, quase sempre, devo ser egoísta – mesmo odiando egoísmo, percebo que ele se faz necessário em momentos que algo que você esteja fazendo pelos outros, esteja lhe prejudicando, de qualquer maneira possível. Também aprendi aquela incrível frase clichê, porém, totalmente verdadeira, “eu não sou obrigada a nada (e os outros também não são)”. Isso me ajudou a ver que não é porquê alguém fez algo por mim, porque ela quis, que eu devo algo a ela. Se eu digo que devo algo, ok, então, devo. Mas, se a pessoa fez algo criando uma expectativa de que eu iria corresponder e fazer o mesmo ou alguma outra coisa, ela está errada. E também, ao mesmo tempo que não sou obrigada, a outra pessoa também não é. Não posso cobrar algo de alguém que não seja necessário. Não posso cobrar ações e respostas das quais eu criei totalmente expectativas na minha cabeça. Todos somos livres e devemos garantir a liberdade do outro, em total igualdade com a nossa. Claramente, existem temas mais complexos a se tratar além da liberdade alheia – vertentes, feminismo negro, feminicídio, machismo na sociedade em geral e em culturas, igualdade salarial, aborto e questão de gênero (assuntos que eu, realmente, acho que andam de mãos dadas em qualquer conversa) – porém, para o início de uma conversa apresentar como o feminismo liberta, ao invés de lhe aprisionar em uma bolha desconstruída, pareceu-me a primeira coisa a se fazer  e a introdução de possíveis assuntos futuros. Como sempre, trago dois links – de dois textos – sobre feminismo e liberdade, um que totalmente contradiz a frase “não sou obrigada a nada”, a qual utilizo de maneira equivocada no texto, mas que é maravilhoso de uma maneira incrível – e me ajudaram muito na época do documentário e artigo sobre feminismo. Você não é obrigada a nada – Anna Vitória Rocha Você é obrigada, sim – Paloma Engelke […]

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