Ficção

É real?

O calor era intenso, as férias ainda estava a um mês do fim e a menina estava derretida no sofá da sala, tentando ocupar a maior área possível para captar o vento do ventilador de teto. Já tinha lido e relido os livros da escola, os livros que tinha em casa e os livros da vizinha. Conseguiu fazer a mãe comprar mais uns dois ou três, mas começo de ano é época apertada e as moedas estavam contadas na casa. Reunindo todas as suas forças, foi até a cozinha, atrás de sua mãe.
− Já falei que não vou comprar mais nenhum livro pra você esse mês, Capitolina. − a mãe cortou antes mesmo que a menina pudesse abrir a boca. Pode parecer irônico para uma pessoa que batizou a própria filha em homenagem a Machado, mas tudo tem seus limites − Vai brincar lá fora.

Capitu se largou na cadeira perto da parede com estrondo e soltou um gemido de desgosto.

− Tá muito quente, mãe. E tá todo mundo viajando − respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo − É janeiro!

− Vai assistir televisão.

− Não tem nada bom passando.

− Vai ver porcaria na internet.

− Não tô a fim.

− Por que você não pode ser uma menina de treze anos normal? − a mãe suspirou, mas a menina conhecia o suficiente sobre perguntas retóricas para não responder − Vem que eu vou te ensinar a cozinhar, assim você faz alguma coisa útil e para de reclamar.

A menina só suspirou e se arrastou de volta para seu lugar no sofá, calculando a posição exata para se posicionar sob o ventilador. Deitou o mais esparramada que pôde e fechou os olhos. Não era fácil ser adolescente naquela casa, ninguém entendia aquela vontade irrefreável de reclamar de tudo nas horas de tédio.

Capitu ouviu distintamente três batidas na porta e levantou para atender, coisa que ela não faria normalmente. Do lado de fora, com o rosto levemente úmido de suor e um sorriso irresistível no rosto estava parado, nada mais, nada menos, que o garoto mais bonito da escola.

− Oi − ela falou, assim que recuperou a voz, tentando parecer calma.

− Oi − ele respondeu, e ela sentiu seu hálito com cheiro de menta − Estava aqui por perto e imaginei se de repente você não queria ir ao cinema comigo.

− C-c-cinema? Cinema, claro. Vou pegar a minha bolsa. − concordou, balançando freneticamente a cabeça.

Em uma fração de segundo estavam dentro da sala de exibição. O ar condicionado estava gelado e ele passou o braço em volta dela para esquentar. Eles conversavam animadamente e riam, até que ele se ajeitou na poltrona e virou o corpo na direção dela. Ele começou a se aproximar lentamente e os dois fecharam os olhos. Os lábios se tocaram.

Outra fração de segundo. Eles andavam de mãos dadas pelos corredores da escola. Todos os alunos abriam caminho para passarem. Todas as meninas a invejavam.

Fração de segundo. Eram adultos e ele estava ajoelhado em sua frente. Sim e então ele colocava um anel lindo em seu dedo. E eles se beijavam. Os sinos tocavam, e ela caminhava, vestida de branco, pelo longo corredor até onde ele estava, ao lado do padre. Todos a admiravam.

Capitu, vem almoçar! − a voz da mãe vinha da cozinha e a despertou de seus pensamentos − Parece até que ficou surda! Deve tá pensando na morte da bezerra.

A menina levantou lentamente e atravessou a sala arrastando os pés. De vez em quando a mãe conseguia ser realmente insuportável.

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11 Comments

  • Reply Bruna Baez 4 de fevereiro de 2012 at 23:07

    Que lindo. Adoro Capitu e o nome dela. Não que o colocaria na minha filha, mas né. Amo ler contos, teve uma época que escrevia muitos, até fanfics. Você me deu vontade de escrever, Pá!
    E sonhar acordado é tão bom. Fazia demais isso, me imaginando com meus amores platônicos, pensando como seria se tudo acontecesse. É delicioso ver uma vida acontecer da maneira que queremos, mesmo apenas em nossa mente. Beijos 🙂

  • Reply Ana Luísa 4 de fevereiro de 2012 at 23:41

    Pá, eu adorei! E assim como a Bru, também adorei o nome, hahaha. Ao contrário da Bru, quando minha professora deu uma aula sobre a história do livro, eu me apaixonei tanto, que saí dizendo que teria gêmeas e colocaria os nomes de Clara e Capitu. (Porque a Clara dificilmente muda, HAHAHA).
    Adorei o texto! Lindo e poético! Beijos!

  • Reply Gabriela, 5 de fevereiro de 2012 at 00:50

    Eu adorei esse conto! Quis conhecer mais a Capitu. Continua? 😀
    Beijos.

  • Reply Larissa 5 de fevereiro de 2012 at 02:17

    Nossa, que conto ótimo! Adorei os nomes 🙂

  • Reply Larissa L. 5 de fevereiro de 2012 at 11:44

    Ai Paloma, coitadinha da Capitolina sonhando acordada…!!
    Mas ah.. no fim a gente sempre sonha com algo que pode acontecer! E sonhar é uma delícia =)
    Adorei! Vc continua escrevendo muito bem =)
    Beijosss

  • Reply Kamilla Barcelos 5 de fevereiro de 2012 at 13:06

    Uma graça seu conto. Um amor só. Muito bem escrito, Paloma.

  • Reply Fran Carneiro 5 de fevereiro de 2012 at 14:22

    Que amor!

    E acho que me identifiquei com a parte de não ser uma garota normal de 13 anos. Aos 13 comecei ler Lispector então… rs.
    E sempre sonhei muito acordada, embora nunca com algum cara do colégio.
    Acho que todas somos um pouquinho como a sua Capitu.

  • Reply Flá Costa 6 de fevereiro de 2012 at 12:13

    Comadre, vou te dizer: eu adoraria ter coragem para botar Capitu como nome de filha! Acho lindo! Mas o namo nunca que vai querer… então a vontade é ter uma cachorra linda e por esse nome nela! rs..

    Beijos!

  • Reply Mayra 8 de fevereiro de 2012 at 01:18

    Dom Casmurro moderno com um plus de “Não é porque está acontecendo na sua mente que não é real”, frase do glamorouso Dumbledore!
    Amei o texto!
    Beijos!

  • Reply marcela 9 de fevereiro de 2012 at 10:14

    Porra colocar o nome de Capitolina numa filha é muito amor à literatura, apesar de que, sinceramente eu acho bonito e poético.Eu SEMPRE tenho sonhos assim, devaneios por assim dizer, e sempre tem alguém q me acorda. As vezes a realidade é bem chata viu? hauahuah
    Beijos!

  • Reply Vanessa 10 de fevereiro de 2012 at 17:19

    hahahah pobre Capitu, né? Que mãe chata! Acordando a menina da melhor distração das férias haha

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