Ficção

Enquanto isso, no espelho.

É duro ter que escolher a profissão tão jovem. Uma hora somos crianças, na próxima temos que ser responsáveis e conscientes o suficiente para tomar a decisão que pode ser a mais importante da sua vida. Sim, as pessoas podem mudar a profissão, mas é muito difícil arrumar a coragem quando já se está com os dois pés no caminho.
Quando a decisão foi tomada com base em influências externas, tanto pior. Genética não tem nada a ver com isso. Não importa que toda minha família tenha talento e paixão por escrever. Não importa que todos eles tenham escolhido a profissão e se saído bem nisso. Só que, infelizmente, importa, sim.
E agora, aqui estou eu, 27 anos, casada e escritora. Lutando dia após dia para viver essa vida que, se não é ruim, não é a que eu nasci para viver.
O modo como eu imagino meus dias não podia ser mais diferente. Na minha cabeça, um universo paralelo onde eu me refugio para fugir da vida real, eu sou uma advogada bem sucedida. Totalmente bem resolvida, independente, com um apartamento fabuloso só para mim e ninguém a quem eu deva explicações. Infelizmente não me sobra muito tempo para essas divagações, e eu tenho que me contentar em estudar direito de forma independente no meu tempo livre.
Acordo com o som áspero do despertador e noto que João, o marido, não está mais na cama. A metade da cama que ele deveria ocupar já está arrumada, um hábito estranho e meio comunista de divisão igualitária de tarefas que ele trouxe dos tempos de solteiro. O chuveiro denuncia sua localização e eu considero permanecer sob o cobertor, onde o mundo é quentinho e macio.
Essa ideia, porém, não dura muito. Levanto, arrumo a minha metade da cama e sigo para a cozinha. Coloco os ingredientes para o café na cafeteira nova, presente de natal da minha sogra, e arrumo as fatias de pão de forma amanteigadas na torradeira, enquanto ouço o chuveiro ser desligado.
As torradas são lançadas ao ar ao mesmo tempo em que eu sinto as mãos grandes se acomodarem na minha cintura e lábios macios tocarem a minha bochecha levemente.
– Bom dia. – ele sussurra.
– Bom dia. – respondo.
Tomamos café rapidamente, enquanto ele alterna a atenção entre o jornal e a advertência repetida pela milésima vez de que eu deveria adquirir o hábito de escovar os dentes antes do café. A explicação científica que se segue já foi repetida tantas vezes que criou um bloqueio no meu cérebro, e eu tenho absoluta certeza de que nunca escovarei os dentes antes do café. Por princípio.
Ele me dá um beijo rápido, desejando bom dia, e sai para trabalhar. João é dentista. Mais uma ironia: sempre odiei dentistas.
Lavo a pouca louça que usamos no café e então me dedico, com calma, ao meu ritual matinal. Coloco uma música, escovo os dentes e tomo meu banho. Depois, com as roupas mais velhas e confortáveis do meu armário, varro a casa de ponta a ponta e, finalmente, ligo meu computador e preparo um chocolate quente, enquanto a máquina se prepara para o trabalho do dia.
Sentamos, minha caneca fumegante e eu, em frente à tela luminosa e nos colocamos em ação. Escritores iniciantes tendem a colocar toda a responsabilidade na tal da “inspiração”, a qual eu tenho que reconhecer que até hoje não fui apresentada. Mas quem conviveu com essa atividade a vida toda e tira o sustento disso sabe bem que é tudo uma questão de foco e técnica. Duas coisas que se desenvolvem com o tempo.
Paro algumas horas mais tarde para almoçar uma omelete improvisada e me concedo um par de “horas de descanso” para me entreter com um pouco de direito constitucional.
Provavelmente meu gosto pelo estudo das leis intriga muita gente. Eu sempre tive admiração por essa área de conhecimento, para desgosto da minha família, mas foi só durante as pesquisas para um dos meus livros que eu descobri minha paixão. Nunca mais consegui parar.
Meu par de horas acaba se estendendo sem que eu perceba e eu sou trazida de volta ao mundo real pelo som da porta se fechando. Felizmente, João não se importa com esse meu pequeno hobby. Às vezes até se junta a mim. Ele tem algumas sacolas de supermercado nas mãos que provavelmente contêm os ingredientes do nosso jantar e sorri para mim de longe, me olhando daquele jeito que só ele me olhou em toda a minha vida.
Não, minha vida não é nem de longe tão ruim quanto poderia ser.
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12 Comments

  • Reply Rafaella Soares 2 de setembro de 2012 at 01:26

    Ai, eu achei fofinho, Pa. Contos não precisam de acontecimentos extraordinários para serem incríveis. As vezes, narrar a o dia a dia de outra pessoa é mais interessante 😉

    Beijos.

  • Reply Larissa L. 2 de setembro de 2012 at 18:00

    Paloma, adorei! Até a ironia da moça ser escritora e estudar por hobby direito!
    Esse negócio de escolher profissão tão cedo tb acho um crime, pois no final as pessoas acabam como nós: escolheram algo e estão um pouco (ou um tanto) infelizes no que fazem…! é difícil saber lidar com isso!
    mas adorei a nova perspectiva da personagem, embora me assuste um pouco ter que chegar aos 27 e estar na mesma =S
    Um beijo!

  • Reply Luísa Zanni 2 de setembro de 2012 at 21:47

    Que história bonita, moça! Por si só e pela forma como foi escrita. Acho que, vez ou outra, todo mundo tem esses abalos, digamos, sísmicos dentro da própria realidade. Sorte que a vida, cedo ou tarde, mostra pra gente que não dá ponto sem nó. E aí a realidade volta a ter aquele gosto de tudo está ou tudo vai ficar bem. Afinal, se a gente é escritor e se percebe insatisfeito com a profissão, sempre se tem uma horinha vaga por dia pra estudar direito. 😉 Beijos, boa semana.

  • Reply Anna Vitória 2 de setembro de 2012 at 23:49

    Gostei muito, Paloma. E achei tão divertido que ela estude Direito por hobby. Na maioria das histórias a pessoa sempre é frustrada numa profissão tradicional e escreve como válvula de escape. Gostei mesmo.
    Beijos!

  • Reply A felicidade é um estado de espirito 3 de setembro de 2012 at 11:56

    Olá Palominha, mudou o template que lindo que ficou… adorei o conto tava com saudade dos seus textos… tenha uma semana bem abençoada e cheia de boas surpresas.

  • Reply A felicidade é um estado de espirito 3 de setembro de 2012 at 11:59

    Palominha também estou lendo cinquenta tons de cinza…. e to adorando quando você terminar de ler escreve um post sobre a sua opinião sobre o livro.

  • Reply Flá Costa * 4 de setembro de 2012 at 19:59

    Paloma do céu, até tive que checar pra ver se tinha entrado no teu blog mesmo. Isso porque acreditei completamente no texto, achei mesmo que você tinha 27 anos e era casada e estava em dúvida com relação à profissão. Nem preciso dizer que o texto está show.

    Beijoca

  • Reply Gabriela, 5 de setembro de 2012 at 22:32

    Que delícia. Fiquei com vontade de saber o que eles iam comer para o jantar e como ia acabar o dia dela. hahahaha.
    Beijo. <3

  • Reply Evelyne Joyce 6 de setembro de 2012 at 14:06

    Duvido muito que eu consiga me manter numa mesma vida até a eternidade. Acho realmente que vou mudar de trabalho, e que nunca vou conseguir me casar, assim, “direitinho”. Porque ao contrário de sua personagem é natural pra mim chutar o balde e mudar quando estou infeliz com algo.
    Não sei se eu conseguiria viver a mesma vida dela, fazendo o que realmente gosta só as vezes não.
    Achei muito verdadeiro o texto. ;D

  • Reply Renata Bittes 6 de setembro de 2012 at 15:32

    Às vezes a gente fica divagando com uma vida tão sonhada que esquece do valor de tudo que a gente tem. Eu sonho em ser uma socialite podre de rica só pra viajar o mundo inteiro e gastar com tudo que quiser sem preocupar com o preço rs

  • Reply Nina 7 de setembro de 2012 at 18:39

    Havia um tempo no qual eu queria ter sido atriz, justamente para cair nesse clichê maravilhoso de você ser a pessoa que quiser a cada dia: um homem, uma mulher, um bicho, um professor, uma cozinheira, uma veterinária, uma analista de sistemas. Tudo, enfim.
    Não estou muito distante da tau personagem. Tenho 20 anos, é certo, mas já estou casada e, se não vivo exclusivamente da escrita que me distorce e orienta, ao menos vivo de literatura, o que já significa um bocado.
    Acho minha vida ótima também.
    Abraços.

  • Reply marcela 10 de setembro de 2012 at 04:37

    Se algum dia eu for me casar ( o que acho improvável) acho que queria ter uma vida dessas. Deve ser influência de Sex and the city e uma vida inteira vendo o lado glamouroso de ser uma escritora hauahauha acredito que o texto mostra que existem coisas que valem muito mais a pena nessa vida loca.
    Gostei muito, Pá!
    Beijos!

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