Ficção

Era uma vez, muito tempo atrás – Parte II

Confira a parte I aqui.
Cecília queria procurar padre Joaquim para pedir, pelo menos, orientação para a tarefa arriscada que estava determinada a realizar, mas ela conhecia o padre o suficiente para saber que ele jamais aprovaria que ela realizasse um ritual daqueles. Ela sabia também que ele procuraria seu pai para tentar obter permissão para ir ele mesmo atender ao caso de Sara, e isso só causaria mais problemas para ambos.

Pegou a Bíblia que ficava em sua mesa de cabeceira, concentrando-se para lembrar-se dos procedimentos. Treinou tudo algumas vezes, pegou o crucifixo que costumava pertencer à mãe e marchou de volta para o quarto de hóspede que a irmã estava ocupando desde que o pai decidiu que seria um risco para Cecília ficar próxima demais da gêmea. Tirou os sapatos para tentar não fazer barulho, apesar de ter se certificado previamente que o pai não estava em casa, e trilhou metade do caminho com sucesso até ouvir seu nome chamado em uma voz infantil que vinha de algum ponto atrás de sua cabeça. Sentiu os cabelos da nuca arrepiarem e por um triz não saiu correndo.

Virou-se lentamente e deu de cara com o irmão, de pé no corredor.

− O que você tá fazendo? − o menino de oito anos perguntou, desconfiado.

− Vou ler um pouco pra Sara. − ela mentiu, torcendo para ele não reconhecer o volume que estava em suas mãos.

− Posso ir também? − ele pareceu animado.

− Não. − Cecília respondeu bruscamente − Você sabe que o papai não quer você no quarto dela, você pode ficar doente.

− Ele também não quer você lá. − retrucou.

− Mas eu falei que ia ler para ela, e ele deixou. − mentiu − Mais tarde leio alguma coisa pra você também, está bem?

Ele não pareceu convencido, mas não respondeu mais. A menina seguiu seu caminho e chegou ao quarto da irmã sem mais nenhuma interrupção. Trancou a porta com cuidado, verificou se as janelas estavam seguramente trancadas e fechou as cortinas, mergulhando o quarto na escuridão. Acendeu algumas velas, que inundaram o quarto em uma luz tênue. Sara olhava tudo da cama parecendo confusa e assustada, sua pele estava mais pálida que o normal e as olheiras sob os olhos eram profundas e negras. A pele delicada da menina também apresentavam diversas cicatrizes fruto de suas crises.

Cecília se aproximou lentamente e apertou as tiras de pano que amarravam as mãos e os pés da gêmea na cama, amarrando em seguida com algumas cordas que tinha trazido por cima dos retalhos. Passou a mão no rosto da irmã e beijou sua testa.

− Sara, eu vou te ajudar. Fica calma que eu sei o que estou fazendo. − a irmã a olhou em silêncio, e ela pôde ver algo diferente crescendo em seus olhos, se aproximando.

Levantou-se da beira da cama, abriu o livro na página certa, colocou o crucifixo no pescoço e se benzeu. Estava pronta. No mesmo segundo uma luz verde piscou nos olhos da menina amarrada e ela soube que tinha começado. Não tinha mais volta.

Com o mais completo domínio de si mesma, seguiu à risca o procedimento que já tinha assistido tantas vezes. A gêmea gritava e se contorcia loucamente, mas ela sabia que não podia parar. Continuou de forma incansável por aproximadamente duas horas, quando ouviu batidas na porta e a voz de seu pai atravessou a espessa camada de madeira maciça.

Ainda assim, ela continuou. Seria ainda pior se ela parasse agora. A voz furiosa do pai chegava a seus ouvidos como se estivessem vindo de uma longa distância. O ritual durou ainda quase duas horas, até que as velas se apagaram todas de uma vez e Sara parou bruscamente, jazendo estatelada e imóvel na cama. Já houvera outras pausas no curso do ritual, mas ela não tinha se deixado enganar, porém agora era diferente.  A nota de tensão no ar havia sumido, era como se o ar como um todo estivesse mais leve. Ela sabia que estava tudo acabado, ela tinha vencido.

Abriu as cortinas e as janelas, arejando o quarto e deixando a luz entrar. O homem ainda gritava do corredor, mas ela o ignorou e se dirigiu primeiro até a cama, receosa de como poderia encontrar a irmã. A aparência da menina, apesar da magreza e da palidez, estava consideravelmente melhor, e ela parecia estar em sono profundo. Avaliou sua respiração, que parecia normal e regular, ouviu os batimentos cardíacos, checou o pulso e as pupilas, apesar de não saber muito bem o que fazia. Tudo parecia bem.

Desamarrou as mãos e pernas amarradas, feridas pelas cordas, e limpou os machucados com um pano úmido, fazendo curativos. Secou a testa coberta de suor de Sara e trocou sua camisola ensopada. Arrumou-a sob as cobertas e finalmente foi até a porta.

Encontrou o pai sentado no chão, com a cabeça entre as mãos. Ele saltou imediatamente de pé e passou por ela como um jato, se aproximando da cama da doente. Certificou-se de que ela estava bem e mandou chamar um médico, antes de se virar novamente para Cecília.

− Você não sabe o que fez. − falou furioso, após arrastá-la do quarto para não acordar Sara. − Você podia ter matado ela.

− Você também. − ela retrucou − Se eu não fizesse nada, ela ia morrer de qualquer jeito!

A grande mão do homem desceu, acertando em cheio o rosto da menina, antes que ele pudesse perceber o que fazia. Saiu bruscamente do quarto, sem dizer mais nada. Uma hora depois, foi chamado por causa da chegada do médico, que examinou minuciosamente a paciente, ainda adormecida. O doutor anunciou que, além de uma leve anemia e um cansaço extremo, não havia nada de errado com ela. O pai não podia se conformar com isso, e o médico aconselhou-o a esperar alguns dias e avaliar ele mesmo o estado da filha.

Como previsto, assim que acordou, a menina começou a melhorar. O que espantou não só o pai, como todos os empregados que haviam acompanhado a doença.

Padre Joaquim, quando soube da história pela boca da própria Cecília, repreendeu-a severamente e, com o consentimento do pai das meninas, foi até a casa em que viviam para avaliar o estado de Sara. Constatou com o alívio que tudo estava bem, e o problema realmente tinha sido solucionado.

Cecília passou um mês de castigo por desobedecer no mínimo cinco ordens dadas pelo pai de uma só vez. Estava proibida, por esse tempo, de deixar o quarto, inclusive − e principalmente − para ir à Igreja. Ela achou melhor aceitar a punição, e assim o fez. Mas correu de volta para o encalço do padre no segundo em que estava livre. Tudo estava de volta ao normal, afinal de contas.

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