Ficção

Era uma vez, muito tempo atrás

Uma família composta por um pai e uma mãe muito jovens e seu par de filhas gêmeas. Quando as meninas eram ainda muito pequenas, a mãe ficou muito doente. Nenhum médico podia diagnosticar o que ela tinha e ela passou meses seguidos na mesma condição, presa a uma cama. A história da morte da jovem mulher não ficou muito clara. Os mais céticos afirmam que foi uma decorrência natural da doença. Os mais crédulos por sua vez, contam uma história que envolvia um padre e gritos que podiam ser ouvidos no raio de alguns metros da casa onde moravam.
Não muito tempo depois, o pai se casou novamente. O novo casal teve um filho, e logo depois a esposa foi embora com o filho de um comerciante de uma cidade próxima, deixando o homem com mais um filho para criar sozinho. Eles viveram assim pelos anos seguintes, até que mais um infortúnio entrou na vida dos nossos personagens.
As meninas estavam à beira do décimo segundo aniversário e eram tão diferentes uma da outra quanto gêmeas poderiam – ou talvez, até deveriam – ser. Enquanto Sara era fã de livros e brincadeira calmas, de colher flores e contar histórias para o irmão; Cecília gostava de correr e explorar, decifrar mistérios e seguir por aí o padre da igrejinha da cidade. Mais de uma vez Cecília desejou ter nascido menino, para poder virar padre. Exorcismos, em especial, dominavam a sua imaginação fértil. Padre Joaquim, um senhor idoso, eventualmente se irritava com as perseguições e nunca tinha deixado a menina assistir a um dos muitos exorcismos que realizava em pessoas de todo o país que vinham procurá-lo com esse propósito, mas gostava dela e procurava aproveitar as oportunidades para tentar ensinar algumas lições que ela precisava muito aprender.
Como era possível prever, os ouvidos da menina eram tão surdos às lições quanto às proibições. Ela logo achou um esconderijo perfeito na pequena sala usada para os rituais de exorcismo e corria para lá sempre que o padre a dispensava para se preparar para um ritual. Ela assistiu várias sessões e conhecia o procedimento e as palavras, inclusive as expressões em latim, todas de cor. Já tinha avaliado todos os tipos de possessão e podia identificar uma pessoa “mal acompanhada”, como o padre costumava chamar, a distância.
Ela estava certa de que estava diante de um desses casos no minuto em que a irmã mostrou os primeiros sinais de doença, mas ficou em silêncio pois sabia que o assunto aborreceria o pai. Vários médicos de todos os cantos do país foram chamados, mas ninguém conseguia dizer o que a menina tinha. O pai estava desesperado em ver o caso da primeira esposa tão fielmente reproduzido na filha. Quando não havia mais a quem recorrer, Cecília finalmente tomou coragem de sugerir ao pai o que já vinha rondando seus pensamentos desde que aquela história toda começou.
Como ela previra, o pai a interrompeu e impediu que continuasse, recusou-se a chamar o padre para ver a filha e proibiu a menina que o fizesse. Nenhum padre pisaria naquela casa. Nenhuma discussão posterior sobre o assunto seria tolerada e se ela insistisse, seria severamente punida. Ela pôde perceber, mesmo do alto de sua teimosia, que era um não definitivo.
O caso de Sara, porém, fiava mais grave a cada dia. Ela tinha crises constantes, durante as quais se retorcia e gritava ofensas e outras coisas que nenhum deles entendia. Cecília parou de seguir o padre e procurou passar todo o tempo possível com a irmã, acompanhando o caso. O pai, procurava afastá-la dali, temendo que pegasse qualquer que fosse a doença da irmã, mas essa era uma proibição que ela se recursava a ouvir. O estado da irmã parecia pior a cada dia, e ela tinha certeza que precisava agir rápido, antes que o pior acontecesse.

Estória baseada em um sonho que eu tive uma noite dessas. Sem noção, eu sei, mas divertida de escrever. Tem continuação. Quem viver, verá.

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4 Comments

  • Reply Dayanne C. 27 de janeiro de 2012 at 22:30

    Uau! A estória é demais! Queremos continuação,rs. Espero que sonhe com o que houve depois disso tudo! O blog está lindo e eu já estou seguindo!
    Bjss

  • Reply Pedro De Souza Martins 27 de janeiro de 2012 at 22:45

    Falei que ia ficar bom!

  • Reply Larissa L. 28 de janeiro de 2012 at 12:24

    To curiosa pra ver o resto!!!
    Não gosto mt de estórias de espírito, diabo, essas coisas, mas essa ao ser escrita me atraiu!!
    Vc escreve mt bem, querida!
    Beijosssss

  • Reply Vanessa 28 de janeiro de 2012 at 15:41

    hahaha quero viver pra veeer! mas gente, o que você anda sonhando, hein? tenho medo!

    (histórias de exorcismo me assustam….se eu tiver pesadelos esta noite, boto na sua conta haha)

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