Ficção

Maria

Maria nasceu roxa e imóvel, cordão umbilical enrolado no pescoço. A mãe estava inconsciente na cama e pai, ela nunca teve. Os médicos e enfermeiros se olharam, tensos. Ninguém se mexeu até que uma das enfermeiras pegou o bebê e o levou para a sala ao lado. Massageou seu peitinho com força e Maria soltou um grito. Todos correram para ver o milagre que tinha acontecido. A bebêzinha vivia. Maria queria viver.
A menina era tudo para a mãe, e a recíproca era verdadeira. Quando pequena, Maria passava o dia na casa da vizinha, enquanto a mãe trabalhava. Ocupava todo seu tempo inventando histórias para contar para a mãe, sentada em seu colo, quando ela chegasse em casa.
Maria nunca foi uma aluna brilhante, não passava do medíocre, mas se esforçava para orgulhar a mãe e nenhuma vez ficou de recuperação. Aos quinze anos começou a trabalhar, quando a mãe adoeceu. Maria lavava, passava, arrumava e cozinhava, além de estudar e trabalhar.
Com todas essas ocupações, Maria não tinha tempo para amigos. Amigos são luxo, não enchem barriga. Foi uma criança solitária, uma adolescente solitária e, após a morte da mãe, uma adulta completamente sozinha. Trabalhava como recepcionista em um laboratório médico.
Contava vinte e três anos quando conheceu Marcelo no trabalho. Ele tinha boa aparência, era gentil e ia ao laboratório todos os dias para vê-la. Um belo dia, Maria concordou em ir ao cinema com ele, e em seis meses estavam casados.
Não tinham completado ainda um mês de casados quando aconteceu pela primeira vez. Marcelo chegou em casa no meio da madrugada, completamente bêbado e desconjuntado. Mal ficava de pé.
− Olha o seu estado! − Maria reclamou, e foi a única coisa que fez antes do punho atingir seu estômago.
No dia seguinte, sóbrio e parecendo arrependido, Marcelo ajoelhou a seus pés e implorou perdão. Ele parecia sincero e apaixonado, quem não cairia? Maria perdoou e ele beijou-lhe as mãos parecendo aliviado. Infelizmente não demorou mais de uma semana até tudo começar de novo.
Dois meses após o casamento, Maria começou a notar mudanças em seu corpo. Eram os primeiros sinais de Francisco. O marido ficou radiante e tudo voltou a ser perfeito por um tempo. Infelizmente, a trégua acabou duas semanas após o menino vir ao mundo. E nunca mais voltou.
A criança cresceu assistindo às mais horríveis cenas. Estava sempre em um canto da sala, impotente e infeliz. Quanto completou dez anos, decidiu que precisava intervir. Quando viu mais uma tempestade se aproximar, colocou-se entre os pais e pediu a Marcelo que não fizesse mais aquilo.
Pela primeira vez Marcelo levantou a mão para o menino. Cego de raiva, desceu sobre ele toda a raiva que planejava despejar sobre a esposa. Maria gritava, chorava e tentava segurar o marido, em vão. A tempestade levou cerca de meia hora para passar, deixando como resultado o corpo pequeno e magro de Francisco inerte no chão.
Com a força de uma leoa ferida, Maria empurrou Marcelo que, surpreso, caiu sentado no chão. Pegou a primeira coisa que alcançou, uma vassoura, e desfechou o golpe com toda a sua força no meio da testa do marido. Imediatamente o sangue jorrou e o corpo pesado despencou no chão. A mulher pegou o filho inconsciente nos braços e correu pela rua gritando por socorro.
Por pouco não foi tarde demais para o pequeno Francisco. Ele passou quase um mês no hospital para se recuperar dos ferimentos e nem por um segundo Maria deixou o seu lado. Seu filho era sagrado; não importava o que acontecesse com ela, ninguém tocaria em um fio do cabelo dele novamente.
−  Vai ficar tudo bem, querido. Ele não vai voltar. − prometeu.
O corpo de Marcelo foi encontrado alguns dias depois, no mesmo lugar onde caíra. Maria ainda queria viver.
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7 Comments

  • Reply Larissa L. 22 de março de 2012 at 20:42

    Paloma, é uma pena que essa história seja uma realidade ainda existente no Brasil… Mas admiro a força e a coragem de Maria que, apesar de aguentar isso por 10 anos, conseguiu se desvencilhar e procurar a vida que lhe restava!
    Um beijo!

  • Reply Mayra 22 de março de 2012 at 21:49

    Meus pais se chamam “Francisco” e “Maria”, acredita? E essa história me lembrou muito o filme “Volver”, do Almodovar, com a Penelope Cruz, já viu? É bem legal e tem dessas também! Pai malvado que enche a filha, a mãe vira leoa e ele não resiste. Mas não sei se isso seria bem visto pela justiça brasileira não hein… Se bem que agora com a Lei da Maria da Penha, as mulheres teoricamente deveriam sofrer menos na mão desses bêbados imprestáveis… Enfim, parabéns por ter transformado o meme em uma história interessante, eu não consegui fazer isso hehehe
    Beijinhos!

  • Reply Ana Luísa 22 de março de 2012 at 22:08

    Caraca, Pa. Que relato.. E como disse a Lari, é realmente uma pena pensar que essa realidade existe e muito por aí.. Já leu “A cidade do sol”? O contexto é completamente diferente, mas é dolorido e fantástico..

  • Reply Tary ♥ 22 de março de 2012 at 23:54

    Que lindo, Paloma! Você escolheu um nome comum e construiu uma história extraordinária com ele. Amei a sua Maria, mãe, trabalhadora, forte, guerreira. Você realmente deu vida pra essa personagem!

    Beijão!

  • Reply Gabriela, 23 de março de 2012 at 02:46

    Uau, adorei. Que história a da Maria. To amando esse meme. 🙂

  • Reply Vanessa 23 de março de 2012 at 15:31

    Mas…mas….que triste. Mas é bem real. Dói saber que há tantas mulheres sofrendo, apanhando e ainda assim lutando pela vida.

  • Reply Bruna Baez 1 de abril de 2012 at 12:39

    Paloma, me arrepiei inteira e uma lágrima escorreu dos meu olhos. Que lindo e triste de verdade. Dói mais ainda de saber que existem essas Marias por aí. Você deu mesmo vida à sua personagem. Amei!

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