Ficção

Toda boa história de amor é enrolada

Releitura do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, seguindo os passos das amigas Anna Chicória e Analu.

João era um cara normal. Tinha seus amigos, sentava no meio da sala, tirava notas medianas e vivia sua vida perfeitamente tranquila e linear. Não tinha inimigos e, mesmo que não fosse especialmente bonito, despertava a atenção de uma menina ou duas na escola em que cursava o terceiro ano do ensino médio.

Logo de cara, encantou-se por Teresa, que tinha um ar de mistério. Os dois nunca trocaram nenhuma palavra, e João se contentava em observar de longe enquanto a menina circulava pelas margens da rotina colegial, sempre alheia às confusões e sem se misturar às questões mundanas da vida social adolescente. Interagia com duas ou três pessoas, cuidadosamente selecionadas, sorria pouco, tinha sempre um Dostoiévski embaixo do braço e parecia estar apenas cumprindo a carga horária mínima exigida para ser aceita oficialmente na vida adulta.

O que ninguém sabia era que, por baixo da fachada despreocupada e superior, Teresa nutria uma paixão antiga por Raimundo, que nem os seus maiores esforços conseguiam abrandar. Os dois estudavam juntos desde a alfabetização, quando ele ainda não conhecia musculação e ela ainda não achava todos os colegas ridículos e a vida escolar como um todo muito idiota.

Durante uma festa na sétima série, chegou aos ouvidos de Teresa que Raimundo estava ensaiando uma aproximação. A menina correu para retocar a maquiagem, colocou uma bala na boca e se instalou no meio da pista, onde não poderia passar despercebida, mas toda a espera foi em vão. Quando o garoto finalmente estava indo em sua direção, seu celular tocou. Era o pai, dizendo que estava na porta para buscá-la, sem desculpas.

Ficou sabendo no dia seguinte que, no meio daquela mesma festa, Raimundo trocou amassos ousados com Maria na frente de todos, e os dois estavam juntos desde então. Comemoraram quatro anos de namoro no começo de agosto. Um casal lindo e popular, completamente inspirado em um filme qualquer de sessão da tarde. Era fato notório na escola que Raimundo era completamente apaixonado pela namorada, mas as más línguas sussurravam pelos cantos que Maria suspirava toda vez que Joaquim passava.

Joaquim era o melhor amigo de Raimundo desde sempre, mas os dois não tinham muito em comum. Joaquim até tentou acompanhar o amigo na academia, mas seus braços magros não pareciam dispostos a ganhar massa muscular, e o garoto gostava mesmo era de passar as tardes abraçado com seu violão, rabiscando letras e melodias que surgiam espontaneamente em sua cabeça.

Desde que as férias do meio do ano haviam acabado, todas as músicas que compunha tinham um tom romântico. Alguns atribuíram isso ao fato de que ele havia passado duas semanas na casa de praia de uma amiga de sua mãe, madrasta de Lili, aluna do segundo ano.

O quanto disso é verdade, não é possível dizer. A maioria dos meninos da escola duvidava que qualquer um fosse louco o bastante para aguentar a moça, que se orgulhava em dizer que ainda não havia encontrado nenhum ser do sexo masculino pelo qual ela pudesse considerar abrir mão de sua liberdade. Lili era solteira por princípio, fazia o que queria, não dava satisfações. As mais variadas histórias ao seu respeito circulavam no boca a boca por entre os colegas da escola, mas ninguém nunca soube dizer exatamente o que era verdade e o que era lenda.

João tinha se resolvido a abrir seu coração para Teresa no último dia de aula e contar para ela sobre os seus sentimentos, mas precisou faltar à aula para arrumar suas malas. Sua mãe estava despachando o filho para morar com o pai nos Estados Unidos e fazer faculdade por lá.

Teresa nunca soube que tinha sido alvo da paixão de alguém. Começou a cursar gastronomia, mas então resolveu que o mundo mortal como um todo era apenas a reprodução em larga escala da vida escolar e, portanto, muito idiota. Achou melhor entrar para o convento e não ter mais que lidar com nada disso. Coincidentemente, tudo isso aconteceu logo depois de correr entre os ex-alunos do Santa Luzia a notícia do noivado de Raimundo com Maria.

Irmã Teresa, de dentro do claustro, nunca ouviu a notícia de que o carro do noivo foi atingido por um caminhão a caminho da Igreja, e o casamento nunca aconteceu. O corpo de Raimundo foi levado direto para o necrotério e vários quilos de comida fina foram consumidos pelas famílias dos garçons, que voltaram para casa mais cedo naquele dia.

Maria nunca achou ninguém que pudesse ocupar o lugar do falecido noivo na sua vida, ainda que nunca houvesse sentido por ele uma grande paixão. Achou melhor arrumar as malas e rodar pelo mundo. A última notícia que se teve dela foi um cartão postal do Nepal recebido pelos sobrinhos.

Joaquim montou uma banda e ficou famoso, mas todo mundo sabe como a vida de artista mexe com a cabeça das pessoas. A história mais aceita é que ele se envolveu com drogas depois que o melhor amigo morreu. Os colegas de banda juram que era depressão. Virou asfalto em plena hora do rush, no meio da avenida paulista.

Lili se formou em direito, fundou uma ONG de assistência a mulheres vítimas de violência doméstica. Em uma conferência internacional, conheceu um advogado espanhol especialista em direitos humanos, J. Pinto Fernandes. Os dois se casaram em três de novembro, em uma cerimônia simples na beira da praia, com a presença apenas da família e dos amigos mais próximos.

Esse post é parte integrante do meu BEDA. Para saber mais sobre essa cilada leia esse post. Tem sugestão de tema ou pergunta para a minha pessoa? Deixe nos comentários ou entre em contato.

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6 Comments

  • Reply Nananinha 12 de agosto de 2015 at 09:20

    Amiga, amei demais que você fez. Quando a Anna teve essa ideia eu achei genial e nunca mais esqueci. Fui correndo fazer a minha e sempre quis que mais gente adotasse, esse poema é muito sensacional e da margem pra muita criação, hahaha. Amei demais a sua *_*
    Te amo! <3

  • Reply Ana 12 de agosto de 2015 at 11:37

    Perdoa meu vacilo, mas eu nunca li o poema original. Eu sou meio sem cultura mesmo. Sou péssima pra ler clássicos, assistir clássicos, ouvir clássicos.
    De qualquer maneira, gostei do post.
    Me lembrou época da escola em que pra dar um selinho em alguém era toda uma ~farra~. Que todo mundo espichava o olho pra pessoa errada.
    Dá um pouco de saudade da inocência.
    Beijos!

  • Reply Rafaela 12 de agosto de 2015 at 14:15

    Amiga, que lindeza! Amei sua criatividade, me deu vontade de ler mais. Eu não vou participar dessa ideia de vocês, porque me sinto um pintinho recém saído do ovo perto d’ocês, mas amo muito poder ler quando vocês se aventuram como autoras de ficção assim <3

    Vocês são maravilhosas (sinto tanto orgulho quando leio essas coisas).

    Beijo! Te amo!

  • Reply Anna Luiza 12 de agosto de 2015 at 16:28

    Adorei essa sua releitura! Eu já li o texto original e acho ele encantador e sempre ficava imaginando como tudo teria acontecido. Ver o desenrolar da história do seu ponto de vista e adaptado para a atualidade foi muito legal. Lembra também Sonho de uma Noite de Verão de Shakeaspeare. Ótima criatividade.
    Beijos!

  • Reply Sharoneide 12 de agosto de 2015 at 20:35

    Amiga, apenas chateadíssima que não conseguimos bichar devidamente esse post. Queria tanto ter conseguido, porque achei a ideia apenas sensacional e juro que também tava curtindo a execução, mas né, acontecem coisas e vida que segue. Amei a sua versão da história. Por favor, vamos repetir com outra ideia qualquer hora dessas pra bichar direito.

    amo você <3

  • Reply Chiquinha 12 de agosto de 2015 at 23:17

    Amiga, que texto mais delicioso!
    O mais divertido em ler textos diferentes com as mesmas propostas é perceber que a gente consegue pensar sobre a mesma coisa dos jeitos mais distintos e ainda assim todas as opções são incríveis. Amei a ambientação contemporânea e o final da Lili. Me incomoda muito ela ser analisada como falsa e oportunista, lembro que quebrei o pau no ensino médio numa aula de literatura a respeito disso (mentira, só quebrei o pau na minha cabeça, mas fiquei MUITO indignada).
    Amei muito, fiquei com vontade de escrever a minha de novo (?)
    beijos
    te amo <3

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