Ficção

Tudo tem um começo

Papai e mamãe se conheceram muito novos, lá pelo meio da adolescência. Ficaram anos juntos até que, pouco antes de eu nascer, se separaram. Alguns anos mais tarde, quando eu finalmente atingi a idade para entender que nem todos os pais moram em casas separadas, eu fiz uma promessa a mim mesma de jamais cair nessa armadilha. Sem homens na minha vida.
Com o passar dos anos, essa resolução foi ficando cada vez mais e mais elaborada. A adolescência chegou, trazendo os hormônios e, com eles, a transformação dos integrantes do sexo oposto de pessoas como eu em objetos de desejo. Mas não tinha problema, eu podia me divertir, no strings attached. Casamento, nem em sonhos. E filhos, nem pensar.
É de se esperar que, nessa progressão, lá pelo começo da fase adulta eu já estivesse considerando juntar meu trapos com um portador do cromossomo Y. Mas, não, isso não aconteceu.
Me formei na faculdade de letras e me envolvi no “negócio da família”. Escrevi meu primeiro sucesso e me mudei para o meu próprio apartamento. Estava livre da minha mãe, longe da superproteção sufocante do meu pai e dona do meu nariz. E era assim que eu planejava permanecer.
Conhecer o João, como você pode ver, estava totalmente fora dos meus planos. Mas aconteceu. Ele cruzou  meu caminho em uma das minhas visitas decenais ao dentista. Obviamente, eu não estava lá por livre e espontânea vontade, já que dentistas são a coisa que eu mais odeio depois de orelhas cabeludas. Fui parar lá depois de quebrar um dente mastigando um lápis. Sim, eu sei o quão anti-higiênico isso é.
Enfim, depois de uma semana, a dor começou a ficar incômoda e resolvi procurar a casa de tortura mais próxima da minha casa, já que por princípio eu não visito o mesmo dentista mais de uma vez. E foi onde nos encontramos.
Ele passou a próxima hora com as mãos dentro da minha boca e o tempo todo o meu único pensamente era que logo tudo estaria acabado e eu nunca mais teria que encarar aquele ser de novo. Infelizmente, o tempo parecia passar muito lentamente, ou então ele estava demorando mais que o necessário. A segunda opção provou ser a mais acertada quando a recepcionista foi obrigada a bater na porta para avisar que o próximo paciente estava esperando.
Finalmente, tudo pareceu ter terminado e ele levantou o encosto da cadeira. Minha boca estava dormente e eu estava pronta para bater em disparada quando ele tirou as luvas e abaixou a máscara, revelando um sorriso lindo e extremamente branco.
— Prontinho, Manuella. Eu aproveitei para fazer uma limpeza por conta da casa. Seus dentes parecem ser muito bons, mas quanto tempo faz que você não vê um dentista?
Na hora eu soube que, se  “limpeza por conta da casa” foi a melhor cantada que ele pôde dar, esse cara só podia ser um diamante bruto, esperando para ser lapidado. Infelizmente, minha vontade de correr dali era maior do que qualquer coisa.
— Faz um tempinho. Não tenho tempo. — menti.
— Bem, tenho que atender meu próximo paciente. — ele desculpou-se, mas continuou antes que eu tivesse tempo de sair da sala — Mas se você tiver um tempo a gente pode tomar um café mais tarde.
Soltei um “arrãm” rápido, sem nem saber o que estava fazendo, e me fui antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Voltei para casa, feliz e sem dor, e já estava completamente absorta no trabalho havia algumas horas quando o telefone tocou. Um número que eu não reconheci piscou no visor.
Atendi um pouco distraída, e uma voz vagamente familiar me saudou do outro lado. Era ele, mas meu cérebro demorou um pouco a fazer a associação. Ele perguntou se eu realmente queria tomar um café com ele e se, nesse caso, eu estaria livre dali a duas horas. Não sei o que se passou em minha cabeça naquele momento, mas eu disse sim.
Aquele primeiro encontro correu muito melhor do que eu esperava. Conversamos sem parar e ele não parava de me presentear com aquele sorriso deslumbrante que eu tinha vislumbrado mais cedo. Apesar disso, não me deixei levar e fiz questão de contar sobre a aversão que eu sentia pela profissão dele. E ele riu.
Saímos mais uma vez. E outra. E algumas vezes mais. Até o dia em que eu acordei de manhã cedo e me peguei na minha cama, com ele ao meu lado. Isso foi logo antes de descobrir que, para o meu pavor, aos vinte e quatro anos de idade, eu finalmente tinha um namorado.

Mais um conto com os personagens Manuella e João, que já apareceram por aqui nesse texto. Se gostou, fique de olho, porque eles voltam!

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2 Comments

  • Reply A felicidade é um estado de espirito 7 de outubro de 2012 at 14:30

    Comecei lendo esse conto e imaginado que se tratava da Paloma Muniz..A dona do Eucentrismo, se esse conto é seu e se foi você quem o escreveu parabéns.. esta muito bom… bjimmm.

  • Reply marcela 7 de outubro de 2012 at 17:23

    Lendo teu texto descobri que a Manuella é tudo o que eu queria ser. Achei tão lindo, Paloma!! <3<3

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