Filmes

Somos as netas das sobreviventes (ou precisamos falar sobre A Bruxa)

 

Após uma campanha intensa dos meus amigos, ontem eu interrompi meu regime militar de estudos pra ir ao cinema ver A Bruxa. Antes disso, é claro, fiz meu dever de casa e vasculhei a internet atrás de tudo o que eu pudesse encontrar sobre o filme. Em resumo: independente, premiado, produzido por um brasileiro, perfeccionista e muito assustador (segundo Stephen King). Um filme feito com amor que por acaso saiu do circuito alternativo e foi parar no cinemark. Fiquei muito animada e numa expectativa intensa.

Não vou fazer nenhum suspense, até porque quem me segue no twitter e/ou é minha miga já sabe muito bem a minha opinião, a saber: GENTE QUE FILME INCRÍVEL ASSISTAM.

Sendo sinceramente sincera, não me deu medo no sentido tradicional da palavra. Exceto em uma parte extremamente específica (possível spoiler: a morte do filho), que calha de ser a MELHOR CENA DO FILME. Nem o final me deixou apavorada, apesar de ter ficado um pouco mais tensa. Mas não deixa de ser um filme assustador de uma forma diferente. Antes da sessão, eu estava pronta pra esquecer toda a minha maturidade e dormir com a minha mãe se preciso fosse, mas não foi. O que não quer dizer que o filme seja fraco, é só um tipo diferente de medo.

Acontece que tudo ali é muito real — mas não muito real no contexto atual, muito real no contexto que se passa. É tudo muito cuidadoso; o cenário, o script, o figurino, a forma de falar (os atores tiveram aulas e praticaram inglês do século XVII), a fotografia, os efeitos, as atuações. AS ATUAÇÕES. Dá pra acreditar que de algum jeito foram até a Nova Inglaterra de 1630 e filmaram acontecimentos reais (os diálogos foram inclusive produzidos a partir de documentos reais). E ele te convence de tudo o que está ali, dentro do contexto dele. Gente, estamos em 1630, morando SOZINHOS na beira da floresta, excomungados da comunidade, e coisas estranhas e horríveis começam a acontecer. No meio disso tudo, temos uma filha adolescente. É claro que bruxas.

Não é um filme pra qualquer um. Mas é um filme grandioso, PERFEITO, e muito muito muito bom. Duas coisas que li por aí se provaram verdades supremas: (1) é um filme artístico de terror, e (2) é um drama familiar. Até chorei, juro. Se você gosta do estilo, ou se interessou pelo que eu acabei de dizer e tem a mente aberta: por favor, assista.

abruxa

Se você queria uma resenha do filme, pode parar por aqui. Se escolher ficar, senta que lá vem história, porque a partir de agora vamos falar sobre minha análise do filme a partir do feminismo. Quero debater e talvez eu me estenda bem.

Desde o começo, a culpa de todos os males do mundo é colocada em cima da Thomasin, a filha adolescente que está sempre no lugar errado na hora errada. Sua família está completamente isolada na beira de uma floresta, quatro cinco filhos — dois adolescentes. O menino, que está entrando na adolescência, começa a lidar com a própria sexualidade. A menina não tem esa chance porque ela é menina. Mas quem ele tem por perto? A irmã mais velha, só. Quem é que tem pacto com o demônio pra desvirtuar os homens? Ela, claro. Porque não é mais criança, o que significa que é… Um ser sexual. Como ousa?

Thomasin passa o filme todo sofrendo uma pressão absurda para ser perfeita. Thomasin lava a roupa do seu pai, Thomasin vigia os demônios as crianças. Thomasin vai cuidar dos bodes. E levando a culpa de tudo o que dá errado. Thomasin sumiu com o bebê, Thomasin levou o Caleb pra floresta, Thomasin sumiu com o cálice de prata, Thomasin não deu jantar pros bodes, Thomasin seduziu o irmão e o pai, Thomasin enfeitiçou os gêmeos, Thomasin é bruxa. Não existe NADA que Thomasin possa fazer porque, INDEPENDENTE DO QUE THOMASIN FAÇA, THOMASIN SEMPRE ESTARÁ NO ERRO. Porque Thomasin é mulher, e todo mundo passa o filme inteiro convencendo Thomasin de que ela é pecadora, é impura, vai pro inferno. E Thomasin tenta de verdade fazer as coisas direito, mas não dá, porque Thomasin é só um ser humano. Pior, Thomasin é só um ser humano adolescente. Sim, eu me apeguei à Thomasin. Somos todas Thomasin.

Por isso tudo que o final do filme pra mim não foi assustador. Foi REDENTOR. Foi o final mais feliz que o filme poderia ter tido. Não vou dizer exatamente o que acontece, apesar de não ser muito surpreendente. Mas se você quiser parar por aqui, tudo bem e inclusive recomendo. Volta depois que vir o filme (você vai, né?). No final, eu senti uma alegria imensa, eu — já em completa simbiose com Thomasin — me senti finalmente livre. Eu queria chorar, bater palmas, gritar YOU GO GIRL. E eu sei que foi exatamente isso que ela sentiu também porque a expressão dela foi transparente (de novo AS ATUAÇÕES SOCORRO). Em 1630 Thomasin descobriu que existia mais na vida do que isso.

Hoje mais do que nunca eu estou me sentindo a neta das bruxas que eles não conseguiram queimar.

Os babacas no final que se acharam muito espertos fazendo piada de que “elas são feministas” não fazem ideia do QUANTO ESTAVAM CERTOS.

abruxa2

PELO AMOR DE DEUS ASSISTAM A BRUXA.

Previous Post Next Post

You Might Also Like

7 Comments

  • Reply Thay 5 de março de 2016 at 16:59

    Havia lido algumas resenhas sobre o filme mas até então nenhuma deles me despertou o interesse real pelo filme. Achei interessante e ok, mas como todo mundo só falava que era filme de terror acabei deixando de lado. Até agora. Seu texto foi muito além do que todo mundo falou e eu li mesmo correndo o risco de ter spoilers – e que dádiva foi ter feito isso! Já fiquei com outra visão do filme e realmente interessada em assistir! E é isso. Obrigada! <3

  • Reply Chiquinha 5 de março de 2016 at 18:39

    Amiga!!!!
    Fiquei MUITO ANIMADA com a sua empolgação!!!!!!!!!!! Eu nunca leio sobre os filmes antes de assisti-los, na maioria das vezes não sei nem a sinopse, então me interessei por The Witch porque ouvi falar que é bem assustador (e eu AMO filmes assustadores) e porque desde criança eu AMO histórias de bruxas. Sempre foi um misto de medo e encantamento, lembro que não tinha medo de fantasmas, monstros, lobisomens (?), sei lá. Eu me cagava de medo de bruxa, e mesmo assim via tudo relacionado a bruxas que aparecia na minha frente. Quando descobri o feminismo e li sobre o mito das bruxas, fiquei fascinada, peguei ainda mais carinho por elas. Depois desse seu post então tô quicando aqui na cadeira de vontade de ver. Decidi que mesmo se eu não arranjar companhia, vou ver sozinha (e se eu morrer de medo vou te ligar no meio da noite, viu?). Teje avisada. hehe

    te amo passarica <3

  • Reply Sharon 6 de março de 2016 at 00:19

    Amiga, socorro!!1!1!
    Eu odeio filme de terror, eu fico apavorada com filme de terror, eu realmente dispenso qualquer filme de terror, mas cada vez que te vejo falar sobre esse filme, me dá uma vontade muito sincera e desesperada de correr pro cinema (inclusive providenciando companhia neste momento hehe) (ONDE ESTÁ VOCÊ PRA IR COMIGO??//?/), nem que seja pra ficar com medo depois, chamando minha mãe no meio da noite porque não consigo dormir sozinha ou qualquer coisa assim (o que obviamente vai acontecer, é claro). O mais engraçado é que, por mais que eu não consiga assistir filmes de terror, a temática deles sempre me interessa um bocado (dsclp, sou doente), e bruxas têm me interessado especialmente de uns tempos pra cá, muito por causa do feminismo. Eu também quero ficar empolgada, eu também quero escrever textão, eu também quero me sentir uma neta das bruxas que eles não conseguiram queimar, e se pra isso eu tiver que passar umas noites acordada, que seja.

    TE AMO <3

  • Reply Marcela 6 de março de 2016 at 16:07

    Eu AMEI a Bruxa. Virou um dos meus filmes de terror favoritos do coração. As atuações foram inacreditáveis de tão boas e eu quase levantei pra aplaudir o monólogo do Caleb (MELHOR CENA). Agora, eu confesso que não tive essa visão “política-social” que você teve do filme, não achei que tivesse necessidade de ele ser abordado como um ponto de vista feminista e, sobretudo, não achei que o final teve qualquer coisa de redenção, bem pelo contrário, hahaha. Mas, lógico, isso é só a minha opinião. Eu analisei tudo tanto pela ambientação da época, em que o fato de ela ser a filha mais velha é mais importante do que o fato de ela ser mulher, e ambos os fatos contribuem para que ela seja a responsável por cuidar da casa, quanto, PRINCIPALMENTE, pela questão do filme de terror. *spoiler alert!* Tudo caía sobre ela e tudo dava errado para ela porque ELA é “A Bruxa” que o filme retrata. Tudo foi acontecendo para que ela não tivesse outra opção além de vender a alma para o Diabo e se tornar uma (ou “a”) bruxa. Então pra mim realmente foi tudo artimanha do capeta, rs, que, como reza a lenda da época, recrutava mulheres jovens e bonitas. A culpa não caía nela ~só~ por ser mulher. A culpa caía nela porque o diabo estava mexendo os pauzinhos para que a decisão de ser uma bruxa fosse “dela” (quando, na verdade, era só tudo indo de acordo com o plano). A ambientação do filme é absolutamente impecável, tudo condiz com a época, e era uma época que, infelizmente, o feminismo não existia como ponto de vista consolidado, não como é hoje. Justamente por isso eu acredito que uma análise levando um ponto de vista contemporâneo não tem muito espaço dentro do filme, onde o que reina é apenas o ponto de vista da religião e do medo. Mas é lógico que toda obra será interpretada de diversas maneiras.

  • Reply Banana 7 de março de 2016 at 09:09

    Amiga, eu não vou assistir. Primeiro porque #eu, segundo porque #filmedeterror, mesmo que não seja TÃO de terror assim, provavelmente me faria ficar 1 mês tremendo embaixo da cama, então prefiro manter distância. MAS amei o seu texto, captei a essência do filme por meio dele e amei sua análise – inclusive nem preciso assistir para achar totalmente óbvio que ele deve ser analisado sob um prisma feminista, hahaha.
    Te amo!

  • Reply Monique Químbely 12 de março de 2016 at 00:35

    Vi no filmow antes da estreia e me interessei, mas daí veio gente dizer que não dava medo me desinteressei, mas aí leio esse post e FEMINISMO MININA FODA BRUXA AAAH VOU ASSISTIR. Obrigada, inclusive.

    Faz tempo que não passo por aqui, mas cheguei e amei os últimos posts ^^

    Abraço!

    semfloreio.blogspot.com

  • Reply Maria 13 de março de 2016 at 00:05

    Tô com muita vontade de ver esse filme e muita preguiça de ir ao cinema. Vida que segue.

    Eu sou Umbandista e na Umbanda existe uma classe de espíritos chamada Pombagira (com certeza você já ouviu falar), que no passado foram bruxas, prostitutas, essas coisas todas marginalizadas na sociedade. A verdade é que elas foram simplesmente mulheres independentes – e que tiveram vários homens, por isso a fama de prostituta, apesar de muitas nem terem se prostituído -, e já ouvi de uma Pombagira que a definição de bruxa, em si, é “mulher independente”, aquela que faz o que gosta, que não é submissa. Acho isso lindo. E o trabalho das Pombagiras é muito lindo também. Não, elas não fazem pactos pra você ficar famosa nem nada do tipo, isso é tudo fingimento das pessoas, dizendo que é Pombagira mas não é. O trabalho delas, de verdade, é lindo mesmo, porque elas atuam muito em ajudar as mulheres a serem melhores, a se amarem mais, a serem mais independentes, a serem bruxas.

    Beijinhos.

  • Leave a Reply