Livros

A irmã do Jamie mora em cima da lareira

Talvez vocês lembrem que eu falei outro dia como eu volta e meia eu tenho muita vontade de falar de um livro enquanto ainda estou lendo, e tento me segurar. Estou passando por isso enquanto digito, e dessa vez resolvi (seguindo as lições de Sharolinda, que prega essa filosofia sempre) que eu posso fazer o que eu quiser porque o blog é meu.

Seguindo uma tradição familiar de muitos anos, no começo do mês eu e mamãe fomos desbravar a bienal e cavucar bancas enlouquecedoras em busca dos próximos moradores de nossas estantes. Foi nessa que a mamãe achou Minha irmã mora numa prateleira por dez pilas e eu falei que ela tinha que levar.

Não sei por que meu sexto sentido apitou por esse livro, ele faz isso às vezes. Mas o título é maravilhoso e a capa é sutil e misteriosa e a contracapa não tem nenhuma sinopse. Juntando isso e o preço temos exatamente o tipo de livro que eu compro em bienais. De alguma forma, me lembrei vagamente de ter ouvido falar (o que tem grandes chances de nunca ter acontecido) e achei que era uma compra necessária.

Então saímos de lá, as duas carregadas de sacolas, e passamos uma hora (literalmente, juro) tentando sair do estacionamento. Meu irmão de choffeur. Para passar o tempo, ela pegou então esse livro para ler e eu li a primeira página por cima do ombro dela, e nós duas não conseguíamos parar de rir do absurdo do humor negro dessa autora que eu nem conhecia, mas já considero pacas.

Porque eu acho que vocês precisam de conhecimento direto para compreenderem o que eu estou falando, por favor leiam o comecinho do livro e sintam o que eu senti:

“Minha irmã Rose vive na prateleira em cima da lareira. Bem, parte dela. Três de seus dedos, o cotovelo direito e o joelho estão enterrados num cemitério em Londres. Mamãe e Papai tiveram uma baita discussão quando a polícia encontrou dez pedacinhos do corpo dela. Mamãe queria uma sepultura que ela pudesse visitar. Papai queria uma cremação e espalhar as cinzas no mar. Em todo caso, foi isso que a Jasmine me contou. Ela se lembra mais do que eu. Eu tinha apenas cinco anos quando isso aconteceu. Jasmine tinha dez. Ela era gêmea da Rose. Ainda é, de acordo com Mamãe e Papai. Eles vestiram Jas da mesma maneira por anos após o enterro — vestidos florido, cardigãs e aquelas sapatilhas com fivelas que Rose adorava. Acho que foi por isso que Mamãe fugiu com o homem do grupo de apoio setenta e um dias atrás. Quando Jas cortou o cabelo todo, pintou de rosa e botou piercing no nariz no seu aniversário de quinze anos, ela não se parecia mais com Rose, e meus pais não conseguiram lidar com isso.

Cada um dos dois ficou com cinco pedacinhos. Mamãe botou os dela num distinto caixão branco, debaixo de uma lápide branca que dizia Meu Anjo. Papai queimou uma clavícula, duas costelas, um pedaço de crânio e um dedinho do pé e colocou as cinzas em uma urna dourada. (…)”

Resumindo, o livro conta a história de uma família destruída por um atentado terrorista. O pai agora é um alcóolatra xenófobo e a mãe largou os três para viver com outro homem. Na maior parte do tempo, nenhum dos dois lembra que têm dois filhos vivos e quem cuida da casa, do pai e do irmão (que sofre bullying na escola) é Jas, que tem transtornos alimentares. E Rose mora em cima da prateleira.

E tudo isso é narrado pelo Jamie, que é a única pessoa da história toda com licença etária pra ser cruelmente sincera sem intenção de ser cruel.

A narrativa/estilo da escrita não é tradicional — é exatamente como se uma criança de dez anos estivesse sentada na sua frente contando a história toda. Ele te narra os fatos de uma forma inocente e a gente entende o que ele não tem capacidade de compreender. É um livro com cara despretensiosa, mas brilhantemente escrito para destruir corações.

Estou explodindo de curiosidade para saber quais bombas (badunts?) a autora ainda vai jogar na minha cabeça até o fim. E acho que todas as migas deviam considerar ler.

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5 Comments

  • Reply Sharoneide 24 de setembro de 2015 at 13:08

    Amo a senhorita seguindo essa filosofia, é muito libertador (?). Obviamente já estou interessada no livro. Eu, maria-vai-com-as-outras, que normalmente só lê as coisas por indicação ou porque fulano tá lendo, deve ser bom, nunca ia pensar em pegar um livro assim e comprar (talvez o preço me fizesse levar, afinal de contas, mas vamos desconsiderar essa parte), mas agora tô aqui, querendo muito, querendo demais. Diria que o trecho foi suficiente pra me convencer, mas você me ganhou mesmo foi quando disse que ele “É um livro com cara despretensiosa, mas brilhantemente escrito para destruir corações”. Definitivamente não resisto a um coração quebrado.

    te amo <3

  • Reply Leticia 24 de setembro de 2015 at 21:46

    Com um começo curioso desse até eu fiquei com vontade de ler. Tb sofro da síndrome de querer falar livros sem ter terminado de ler, às vezes escrevo os posts sobre os livros antes de terminar de ler e depois completo hahaha
    Livros sem sinopse e com títulos diferentes são muito legais! Eu sempre acabo comprando pra descobrir o que tem dentro.

  • Reply Mari Mari 27 de setembro de 2015 at 13:41

    Esse começo já falou por si só, honestamente.
    PQP.
    Confesso que quando li que tinha sido terrorismo, e não algum caso doido de desaparecimento, possivelmente um serial killer ou causas sobrenaturais, ou qualquer coisa muito louca que levasse o mistério – confesso que dei uma broxada. Terrorismo não é um tema que me atrai, mas isso não muda o fato de que esse início é extremamente bem escrito e fantástico e seu interesse está totalmente justificado.
    Problemas de família me atraem. Famílias destruídas, pais ausentes, filhos com transtornos alimentares ou sofrendo humilhações na escola, aí já começa a falar na minha língua de novo. Bem, vou anotar o nome do livro, pq se o terrorismo for só um pano de fundo, e não tive mt a ver com o desenrolar da narrativa, bem aí é uma ótima opção para a minha próxima leitura, então valeu msm. <3

  • Reply Analu 1 de outubro de 2015 at 20:01

    Amiga! Esse é um daqueles livros dos quais eu ouço falar, coloco no “vou ler” do skoob mas nunca corro atrás, sabe? Quando vi você lendo me reacendeu a curiosidade, ainda mais depois das tags que você me mostrou e desse post! Quero ler!
    Beijo beijo, te amo, e to morrendo de saudades <3

  • Reply Marcela 14 de outubro de 2015 at 01:00

    Parece o tipo de livro em que você chora de rir e se sente um ser humano péssimo por estar rindo. Eu quero.

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