Livros

É um pé depois do outro que se anda para frente

Eu não tenho um protocolo para escrever minhas “resenhas”. O livro é que me diz como é que esse troço vai funcionar. Não é incomum eu ter muita vontade de escrever sobre um livro enquanto ainda estou na metade, mas me segurar para terminar o livro primeiro, e depois perder a vontade completamente. Às vezes eu termino uma leitura tão cheia de ~feels que eu preciso escrever sobre imediatamente ou não consigo viver. Outras vezes são tantos sentimentos que eu preciso esperar a coisa assentar para conseguir pensar racionalmente. E outras vezes bate aquela preguiça braba e eu só vou enrolando e enrolando até achar que não vale a pena escrever porque já passou tempo demais e eu já esqueci tudo o que era relevante dizer.

Jellicoe Road foi um pouco de todas as categorias descritas acima.

Tudo começou quando eu e certos Pudinzes estávamos conversando sobre livros, e ela mencionou esse, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Fui procurar e achei a sinopse muito promissora e (como acontece 99% das vezes que alguém vem me falar de um livro) queria ler agora. Mas segurei minha periquita e não comprei. Ela também começou a ler e parou logo depois. Vida que segue.

Então um dia ela voltou a ler, e terminou, e veio me dizer que era ótimo-ai-meu-deus-você-precisa-ler. Mas eu não li. Aí ela mencionou o bendito livro no blog, e eu finalmente dei o braço a torcer. Comprei o tal livro para ler no avião.

Comecei achando tudo meio muito confuso. E era óbvio que era intencionalmente confuso. São duas histórias que se entrelaçam e intercalam; uma principal e uma secundária. Só que o livro abre com a secundária, que começa vinte e dois anos antes da principal e é contada da forma mais não-linear e esquizofrênica possível. Francamente, o livro tinha tudo pra ser um fracasso, foi uma jogada muito arriscada.

Vamos resumir: um livro com duas historias, que a princípio não parecem ter nenhuma relação — sendo que uma é relativamente linear e a outra não –, com personagens diferentes, e uma protagonista nada carismática. Entendem o que eu quero dizer?

Logo de cara eu vi que ia ter que colocar a cabecinha para funcionar, se eu quisesse chegar a algum lugar com aquilo. E tive certeza que eu ia demorar a terminar. Provavelmente só não desisti de cara porque tinha o selo Couth de garantia. Passei os 12 dias da viagem sem ler uma linha. Até que chegou o dia de encarar 16h de viagem para voltar para casa.

Ouçam o que eu estou dizendo: se vocês conseguirem superar todas essas questões aí de cima, a recompensa é gigantesca.

O livro se desenvolve em uma ascendente linear em todos os sentidos possíveis. Não é um livro ruim e mediano que de repente tem um momento de clareza e fica ótimo, compensando todo o esforço. É um livro confuso que vai evoluindo eternamente até explodir sua cabeça (bem antes até de chegar no final) e você perceber que ele é sensacional desde o começo. A história vai ficando mais e mais clara, a conexão emocional com a trama vai aumentando, as personagens vão evoluindo, e tudo vai ficando mais envolvente.

O livro tem mistério — que não aparece logo de cara, só quando a história começa a tomar forma mesmo — tem romance, tem “guerra”, tem questões adolescentes, tem (muito) drama e tem trama também. É um livro sobre crescimento e autodescoberta, acima de tudo, e eu discordo muito da classificação dele como Young Adult.

Aqui um parêntese apenas porque essa minha discordância não tem nada a ver com desdém por YAs. É um dos meus gêneros favoritos, na verdade. Mas eu não acho que todo livro com protagonistas e/ou personagens majoritariamente adolescentes/jovens tenha que ser classificado assim. E esse livro não me parece ter sido escrito especificamente para leitores jovens ou em formação (tanto que ele ganhou em 2008 o West Australia Young Readers Book Award na categoria Older Readers — “leitores mais velhos” –, o que faz zero sentido na minha cabeça).

No final, eu não conseguia parar de ler, e sofri muito por estar presa numa caixa de metal suspensa infinitos quilômetros acima do chão e não poder mandar uma mensagem para amiga Gabriela. Porque eu precisava gritar, berrar, discutir. Tortura real. (Inclusive, se você resolver ler e sentir essa mesma aflição profunda, pode vir falar comigo. Ofereço apoio moral gratuito para leitores angustiados.)

Jellicoe Road tem todo tipo de personagens. Desde uma protagonista nada carismática, mas que cresce nos nossos corações, até secundários adoráveis e divertidos, ou levemente detestáveis, passando por personagens tão confusos e misteriosos que dá vontade de sacudir a autora. Todos são complexos; não existe um vilão e um mocinho, existem pessoas. E eu acho isso lindo.

“I go down last, taking a closer look at Hannah’s unfinished house by the river. Except I realize that it’s almost finished. It’s only the stuff inside that needs to be done, and the idea of its near-completion frightens me beyond comprehension.”

(Tantas metáforas maravilhosas sobre virar adulto.)

Aqui estamos, mil parágrafos à frente do nosso ponto de partida, e eu só sinto que falhei miseravelmente em todos os meus esforços de fazer sentido. E, acima de tudo, falhei completamente no meu objetivo inicial que era apenas vir aqui e dizer para vocês o quando esse livro é incrível. Sério mesmo. Leiam.

(Infelizmente, Jellicoe Road nunca foi traduzido para o português.)

Esse post é parte integrante do meu BEDA. Para saber mais sobre essa cilada leia esse post. Tem sugestão de tema ou pergunta para a minha pessoa? Deixe nos comentários ou entre em contato.

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10 Comments

  • Reply Bolo de Cookie 26 de agosto de 2015 at 16:31

    Amei tanto o livro que me arrepiei lendo a resenha. Sim, é exatamente isso: uma enorme confusão jogada na sua cara, que você não entende nada, até que subitamente, você entende tudo, e não.consegue.lidar.com.isso! Ai, também amo que você lê e me explica tudo que eu não entendi. Somos uma dupla infalível, hahahahah.

    Te amo te amo te amo e amo que você amou esse livro. Eu entendi a resenha toda, porque li, vamos ver o que as outras pessoas acham né? Amo você fazendo resenhas, by the way, pode resenhar tudo a partir de hoje.

  • Reply Plân 26 de agosto de 2015 at 23:35

    Amiga, falhasse não. Eu fiquei completamente FISSURADA e quero esse livro JÁ. Tem tudo para eu amar, pois amo histórias esquizofrênicas e malucos e histórias simultâneas que se encontram e que depois fazem vc perder o ar. Ai, já quero.

    E amiga, essa agonia de terminar um livro em um avião e não poder fazer nada além de suspirar mil vezes e agarrar a poltrona É MUITO REAL. Passei isso com Mentirosos e queria GRITAR que MEU DEUS, TODOS NESSE AVIÃO, ATENÇÃO: LEIAM ESSE LIVRO!! E sair distribuindo ele para as pessoas, sabe? Surreal. Não quero mais passar por isso, porque quase morri, então agora tomo cuidado pra não pegar um livro que eu esteja quase terminando. Hahahaha

    TE AMO <3

  • Reply Ana 27 de agosto de 2015 at 10:51

    Depois de MLI2015 eu voltei pro meu estado normal de preguiçosa com leitura. No entanto, depois de ler essa resenha eu quero muito colocar minhas mãos nesse livro?!!????!!!!!!! Porque ele parece ser muito, muito, muito bom? Mas vou ter que esperar um tempinho porque, veja só, vou voltar pra pobreza e preciso economizar.

    Beijos!

  • Reply Naninha 27 de agosto de 2015 at 11:38

    Oi amada, demorei mas cheguei!
    Então, eu quero ler esse livro desde que comecei a ouvir falar dele, mas não sei por que, não tenho nenhuma vontade de lê-lo em inglês. Tem coisa que eu quero ler em inglês e tem coisa que não (ba dum ts) e to esperando ansiosamente ele sair em português. Já ouvi rumores!
    Adoro esse negócio de histórias que se entrelaçam mesmo que não pareçam ter nada a ver uma com a outra.

    Beijos! Te amo! <3

  • Reply Ana Flávia 27 de agosto de 2015 at 19:37

    Ai Paloma, que vontade de ler. Pena que sou burrinha em inglês (o que preciso corrigir urgentemente).
    Amo livros com drama, guerra, crescimento e com todo tipo de personagens. E de histórias que se cruzam, e de tempos diferentes. Acho que gosto de livros confusos? hiihihi
    Falhou não, fiquei com vontade de ler. Beijos

  • Reply Chiquinha 27 de agosto de 2015 at 23:32

    amigaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
    eu sou ridícula
    vem aqui bater na minha cara?
    porque desde a primeira vez que eu ouvi falar desse livro, acho que em 2013, eu fiquei com vontade de ler. aí um dia tava baratinho no Kindle e eu fui lá e COMPREI.
    pergunta se eu li, PERGUNTA
    eu sou ridícula.
    desculpa.
    eu juro que eu vou ler e comentar com você assim que terminar (e durante também)
    me ame
    te amo
    beijo
    hahahahahaha

  • Reply Sharoneide 30 de agosto de 2015 at 00:45

    Amiga, achei um absurdo que não tem um ou dois, mas QUATRO (!!!) posts que eu não te mimo. Claro, sou uma péssima amiga e também uma péssima mimadora. Mas por favor, me perdoe, não faço por mal, eu juro.

    Me identifiquei muito com essa falta de regra na hora de escrever uma resenha, principalmente quando cê diz que às vezes morre de vontade de fazer uma resenha ainda na metade do livro e quando termina pffff perdeu total o feeling. Isso acontece TANTO comigo. Por favor, me abraça.
    Quando li o nome do livro, imediatamente tive a impressão de que já tinha ouvido falar dele em algum lugar, então tudo fez sentido quando cê disse que leu sobre ele no blog de certos Bolos de Cookie, cof cof. Fiquei ainda com mais vontade de ler porque sempre confio muito no pitaco das minhas amigas (cês erraram com Mentirosos, mas continuar acreditando é mais legal, prefiro sempre) e quando você disse que “não existe um vilão e um mocinho, existem pessoas” eu quase caí de amor, mesmo sem ter lido, porque também acho isso lindo demais. Uma pena que não tenha em português porque acho que isso dificulta no mínimo uns 50% pra encontrar, então por favor, me diga que não serei obrigada a comprar um Kindle por isso.

    te amo <3

  • Reply RESUMINHO DA SEMANA #3: SOBRE CRISES, GORDICE E UMA GARGANTA INFLAMADA - Starships & Queens 30 de agosto de 2015 at 03:26

    […] Na quarta, a Palo falou sobre Jellicoe Road, um livro que já estava com bastante vontade de ler e só fiquei com […]

  • Reply A irmã do Jamie mora em cima da lareira ◂ Vizinha da Capitu 24 de setembro de 2015 at 11:29

    […] vocês lembrem que eu falei outro dia como eu volta e meia eu tenho muita vontade de falar de um livro enquanto ainda estou lendo, e […]

  • Reply Minha vergonhosa lista de leituras de 2015 ◂ Vizinha da Capitu 7 de janeiro de 2016 at 15:43

    […] 12h de deslocamento até Kansas, e meu companheiro de viagem foi Jellicoe Road. Acabou virando uma resenha bizarramente confusa por aqui. É um livro meio trágico, meio triste, meio melancólico, mas muito bom mesmo. De […]

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