Livros

Ode a Charlotte Lucas

A sexta vez que eu li meu livro favorito, coincidiu com a primeira vez que eu dei a um dos personagens a atenção que ele merece. Isso de certa forma me preocupou um pouco, porque não posso deixar de imaginar quantos personagens eu já não julguei errado em tantos livros que eu nunca vou reler, mas também trouxe a alegria inesperada da descoberta que sai de onde a gente menos espera.
Ainda assim, é triste me dar conta que em toda a minha vida literária – pelo menos desde a primeira vez que li Orgulho&Preconceito – eu nunca fui capaz de dar a Charlotte Lucas a atenção e o apreço que ela merecia. Acho que a gente aprende as coisas com a idade. Felizmente.
Sinceramente, até muito pouco tempo atrás, eu não tinha nem mesmo me dignado a prestar muita atenção a ela. Ela era a “doente” que por algum motivo inconcebível para mim resolveu casar com o mala do Mr. Collins. E ponto. Bem, em minha defesa: eu também costumava pensar na Lizzy como um modelo feminino, mas as coisas mudam.
Não sei que epifania de sensatez resolveu baixar sobre a minha cabeça e me fazer enxergar o quanto eu estava cega, mas eu fico feliz que tenha acontecido. De uma hora para outra, Eliza Bennet se mostrou como a teimosa, insensata e romântica que eu nunca tinha conseguido discernir. Enquanto isso, Charlotte surgiu em todo o seu esplendor como talvez a única personagem feminina realmente racional e realista do livro inteiro.
E, não, não estou só dizendo isso porque ela soube reconhecer que ia ficar para a titia e soube conquistar e agarrar a sua chance de mudar o fato. Mesmo que para isso ela tivesse que aturar um mosquito zumbindo no ouvido pelo resto da vida.
Digo isso porque mais de uma vez ela deixa isso bem claro. Ou não foi ela a primeira a prever, ainda bem no começo do livro, qual fim ia ter o romance da Jane se ela continuasse tão travada? Se você não leu o livro (shame on you!) ou não se lembra, eu respondo: foi ela, sim. E não foi ela que aconselhou a Elizabeth a tomar vergonha na cara e tratar Mr. Darcy com educação, quando a desmiolada estava cheia de indignação por “tudo o que ele tinha feito com o pobre Wickham”? Também foi. E não foi ela a primeira a notar os sentimentos dele em relação à amiga? Mais uma vez: sim. E eu podia seguir por linhas e linhas, mas acho que já consegui me fazer entender.
Charlotte é aquela que tudo vê e, mais importante, sobre tudo raciocina. Só ela é capaz de enxergar os indícios e pistas. E se ela escolheu se casar com Mr. Collins, tanto melhor. Afinal de contas, que outra opção ela tinha? Estamos falando de 1797, for God’s sake! Mulheres não trabalhavam. A opção seria se transformar em um fardo para os irmãos. E, não, não acho que ela tenha feito nada injusto com o marido, alguém que propõe casamento a duas mulheres em três dias não pode ser realmente levado a sério. E enfim, não podemos esquecer: amor/casamento naquela época têm tanta semelhança com os de hoje quanto refrigerante de uva e de laranja têm o mesmo gosto. Não tem, simplesmente. Os dois são refrigerante, mas as semelhanças param por aí.
Infelizmente, isso tudo ainda não foi capaz de fazer com que ela chegasse ao posto de “personagem favorito de O&P”, até segunda ordem esse posto pertence ao Mr. Darcy e um dia eu vou discorrer longamente sobre o grande – e talvez único – motivo para o fato. Ainda assim, acho que posso dizer que agora é dela o posto de “personagem feminina favorita de O&P, com honras”. Porque, minha cara Charlotte, todos os outros simplesmente não estão à sua altura.
E se, depois disso tudo, tudo o que você tem a dizer é que não achou Orgulho&Preconceito essa coca-cola toda, então só tenho a dizer a você que não tenho nada a dizer a você.
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6 Comments

  • Reply Ana Luísa 16 de agosto de 2012 at 02:58

    Amo esse livro, mas li uma vez! HAHAHA, só a declaração que li mais vezes, por causa da Clara.
    Mas eu amo a Elizabeth, tanto que é esse o nome da minha câmera.. hahaha! Beijos!

  • Reply Flá Costa * 16 de agosto de 2012 at 21:41

    Shame on me, li Orgulho e Preconceito uma vez na vida aos 15 anos, e como sempre, ler este clássico assim tão cedo, não me fez cair de amores. Sempre me cobrei por isso e como boa amante de literatura sei que está na hora de eu pegar para ler Austen. Seu post só me deu mais vontade de tomar vergonha na cara.

    beijoca

  • Reply Lys 20 de agosto de 2012 at 21:42

    Orgulho e Preconceito é um dos meus livros preferidos! E realmente, eu nunca tinha reparado tanto em Charlotte Lucas e quando finalmente me lembrava dela era justamente para crucificar a moça por ter se casado com aquele poço de chatice e falta de noção que era o Mr. Collins. Você me fez ver as coisas por outro ângulo e da próxima vez que ler O&P com certeza vou analisar melhor as atitudes dela.
    E nem me fale em Mr. Darcy <3

  • Reply Luly 22 de agosto de 2012 at 14:14

    Momento xhame on me total porque realmente não li. Mas amo Jane Austen, gostei do livro e tenho muita, muita vontade!!
    E com certeza depois de ter lido esse post vou dar atenção à Charlotte!!!!!!

  • Reply Nina 26 de agosto de 2012 at 19:01

    Charlotte foi sim uma personagem de suma importância nessa obra de Jane, concordo com você. No papel de conselheira e observadora, enxergamos nela o lado mais racional para Elizabeth, mesmo com a teimosia desta. E, notavelmente com a razão, teve a coragem de casar-se com Mr. Collins. Razão e condição, não opção. No meio em que ela se encontrava, dificilmente um Darcy estaria disposto a sua ausência de beleza e talvez até de prendas. Fez o que deveria ser feito.
    Abraços.

  • Reply A felicidade é um estado de espirito 23 de setembro de 2012 at 13:31

    Palominha…. li orgulho e preconceito e estou lendo pela segunda vez, mas realmente nunca tinha parado pra analisar os outros personagens por um prisma diferente gostei da sua visão minuciosa da personagem Charlote Luccas, mas os meus preferidos ainda continuam sendo a Lizz e o Senhor Bennet pela sua racionalidade e exatidão diante de sua esposa tão mala e de como ele a coloca no lugar quando vez que ela inventa uma sandice nova.

    bjs até a próxima…

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