Livros

Pelos olhos do oprimido (uma resenha nascida na madrugada)

O que falar de O Sol dos Moribundos? Você pode ter achado que eu ia usar um meme da internet aqui, mas essa é uma questão real na minha vida. Terminei esse livro anteontem à noite e senti que precisava escrever algo, para que o mundo visse e soubesse que ele existe. Só 51 pessoas além de mim marcaram que o leram no skoob, 5 estão lendo, 25 querem ler, 3 abandonaram. Podemos dizer que é um livro bem desaplaudido. Mas não deveria.

Esse foi mais uma daquelas aquisições aleatórias de bienal. Se você nunca foi em uma bienal, eu explico: existem os stands enormes das editoras, onde a maior parte dos livros é vendida pelo preço que você encontra em qualquer livraria (ou mais caros), e existem stands menores, cheios de mesas gigantescas com toneladas de livros (vulgo os stands que eu frequento). Nessas mesas, você encontra livro de todos os tipos, tamanhos, formas e a grande maioria é bem barata — é meu paraíso. Meu critério para escolher um livro nesses lugares é: nenhum. Se o título e/ou a capa me agrada, eu nem leio a sinopse. Foi assim que o sol dos moribundos veio parar na minha estante por uns dez reais, uns quatro anos atrás.

Provavelmente teria continuado na estante para sempre, se não fosse minha Jarra. No final de 2015, saiu o papelzinho com o nome dele, e lá fomos nós.

Comecei, intercalei com outros, demorei a terminar, mas terminei. E eu queria muito falar sobre ele, mas não sabia como. Até que ontem (hoje), meia noite e pouco, depois de ter falado com Letícia sobre ele, eu tive uma ligeira luz. E cá estamos.

O livro conta a história do Rico, um morador de rua de Paris. O melhor amigo dele (outro morador de rua) morre, Rico tem certeza que vai ter o mesmo destino e isso levanta nele todo o tipo de sentimentos e lembranças da sua vida. Então ele resolve se mudar para a Marselha, onde viveu uma de suas histórias de amor quando era mais novo, para morrer ao sol. Esse caminho é a parte um do livro. A parte dois é rico já em Marselha, onde ele conhece o narrador.

O narrador é, na verdade, uma das melhores partes do livro — se não a melhor; mas eu não vou falar sobre isso porque se o autor só quis revelar a identidade dele na segunda parte, não sou eu quem vai estragar a brincadeira.

O livro é muito bem escrito, as personagens são maravilhosas, mas também é um livro bem pesado. É um livro sobre moradores de rua, um livro sujo, sem esperança e cheio de coisas e pessoas que nós não queremos ver. É um livro com alguma misoginia, é verdade. Mas principalmente é um livro muito humano, e que mostra o lado do outro.

Duas vezes, durante o livro, Rico participa de pequenos assaltos. É bacana? Não. Ele ameaça pessoas e leva “o que é delas”. Mas mesmo enquanto faz isso, ele não parece um monstro. Ele só está sobrevivendo e às vezes a gente faz o que precisa fazer. E é por isso que eu achei o livro tão importante. Elo mostra que não existe só um lado certo e um errado. Existe um mundo muito complexo.

“Compreendi isso certa tarde, ao descobrir o último modelo Nike, na Go Sport. Só de me olhar me deu um aperto na barriga. Como quando se está com fome. Por que eu não posso comprar esse tênis? Por que os outros podem, e eu não? O que foi que eu fiz ao Profeta? Essas perguntas todas vêm à cabeça da gente. E uma resposta só: injustiça. Sabem como é, começa assim.” (pp. 221)

“– Bom, Rico, isso não é vida. Você sabe muito bem.
— E a vida é o que? Isso aí?
Rico apontou um sujeito embecado num terno, apressado, celular colado ao ouvido.
— Isso eu já vivi. Sei aonde leva. Exatamente ao ponto onde estou hoje. Portanto, não me enche, Jeannot.”
(pp. 222)

Não é exatamente o mesmo ponto, mas me lembrou o discurso da Chimamanda sobre o perigo da história única. Se vocês não assistiram ainda, acho que é um ótimo investimento para os próximos vinte minutos do seu tempo:

O final do livro é previsível, mas ninguém em momento nenhum prometeu surpresa. E ainda assim é muito emocionante. Quem sabe vocês poderiam considerar dar uma chancezinha para o pobre livro desaplaudido, e depois virem me contar o que acharam.

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8 Comments

  • Reply Plan 28 de janeiro de 2016 at 22:10

    Amiga, um livro desaplaudido é tudo que eu mais gosto na vida, porque geralmente é o livro que eu mais amo.
    Esse nome já captou minha atenção e a tua reflexão sobre ele foi tão interessante que eu já estou procurando nas internets da vida. <3
    Obrigada por me apresentar a coisas boas, amiga.
    E, claro, estou revendo o vídeo pois: ótimo.
    Te amo!

  • Reply Banana 28 de janeiro de 2016 at 23:15

    Amiga, quando você contou da história desse livro eu fiquei muito curiosa. Também adoro descobrir esses livros que ninguém conhece, geralmente através de você e da Tata.
    Pra variar amei sua reflexão sobre o assunto, mas isso eu já sabia que ia amar, né?
    Te amo muito! <3

  • Reply Tary 29 de janeiro de 2016 at 07:10

    Amiga, eu te confesso que parei (ou tenho parado) com o critério “nenhum” na hora de comprar livros, mas é tão bom quando a gente faz isso e acaba surpreendida, né? Parece mágica, como se o livro tivesse nos encontrado <3 Isso aconteceu comigo com A Vida em Tons de Cinza, que comprei somente por estar barato, morou anos na minha estante e se tornou um dos meus favoritos da vida quando finalmente dei a chance. Aliás, Paloma Maria, a senhora já leu? Botina na mão aqui.
    Sua resenha me lembrou de dois livros. Laura, também desaplaudidíssimo (eu que tive que colocar ele no Skoob, pra você ter uma ideia do nível de falta de prestígio), mas maravilhoso. Posso colocar a sinopse aqui? Vou colocar.
    "Laura, uma menina ainda, como tantas outras que caminham ao nosso lado pelas ruas. Pobre, faminta de alimento e de amor-carinho-compreensão. Busca seu lugar no mundo, mas a sociedade não permite, não a aceita. Pior: oprime-a. E ela sofre, um sofrimento de frustração e abandono que só encontra guarida no seu meio, nas suas raízes de gente simples que se irmana na dor: seu povo favelado."
    Não é interessante? E eu chorei tanto lendo esse livro, amiga. Como você disse, a gente vive nossas vidinhas sem nem parar pra pensar no que essas pessoas sofrem. E depois ainda tenho que ouvir gente falando de meritocracia e negando privilégios ¬¬
    O outro livro que lembrei foi Capitães da Areia, que também tem uma certa dose de misoginia, se você for analisar bem, mas não deixa de ser importantíssimo e triste que só.
    Se eu encontrar O Sol dos Moribundos nessas minhas andanças, pode deixar que vou dar uma chance, sim senhora.
    Amo você <3
    P.S: Sou completamente apaixonada por esse vídeo!

  • Reply Rafaela Venturim 29 de janeiro de 2016 at 08:35

    Caramba, amiga, que pesado! Fiquei super interessada em procurar o livro (será que tem em .mobi? #economias). Eu tento entender o tempo inteiro o que se passa na mente de alguém que comete delitos, então já coloquei o livro no meu Skoob, algum dia vai. Preciso ler Crime & Castigo antes — é na mesma vibe, né?

    Beijos!

  • Reply Sharon 29 de janeiro de 2016 at 16:08

    Miga Bird, amo que você realmente consegue ler as coisas que são sorteadas na sua jarra porque eu sinto que jamais conseguiria. Sou total o tipo de pessoa que precisa estar minimamente na vibe de um livro antes de começar, que precisa olhar pra capa (ou pro título, tanto faz) e pensar “agora é a hora”. Todas as vezes que resolvi quebrar as regras e ler um livro só porque sim, acabei super frustrada, então né.
    Nunca tinha ouvido falar em O Sol dos Moribundos, mas é um título que por si só já chama muito minha atenção e agora, lendo esse post, fico ainda com mais vontade. Acho, aliás, que essas histórias, por mais sofridas que sejam, engradecem muito a gente de alguma forma, é o tapa na cara que às vezes a gente precisa pra enxergar o outro lado e parar de achar que o mundo é todo preto e branco, que só existe uma única verdade quando na realidade existe muito mais aí no meio.

    TE AMO!

  • Reply Thay 30 de janeiro de 2016 at 18:24

    Taí um livro que nunca ouvi falar, mas já fiquei bem interessada. Pode ser uma história pesada e de embrulhar o estômago, mas às vezes a gente precisa mesmo sair do nosso mundo encantado e dar de cara com a realidade (mesmo que por meio de uma história fictícia). Por mais que a leitura seja difícil e exija muito de quem lê, penso que esse tipo de livro abre um pouco mais a nossa mente, principalmente na questão da empatia. A gente nunca sabe o martírio do outro e ver um pouco do outro lado sempre pode ser enriquecedor. Adorei tua resenha, e obrigada por compartilhar com o mundo esse livro! <3

  • Reply Maria 2 de fevereiro de 2016 at 20:16

    Adoro descobrir uns livros desconhecidos assim. Geralmente são os que mais me interessam, os que eu mais gosto de ler. Super sagas como Jogos Vorazes? Nah, eu gosto é de ser diferentona™.

    Adorei a proposta do livro e tô me coçando pra não sair procurando por ele porque tem mais uns milhares de livros que tenho que terminar de ler antes do final das férias, socorr.

    Beijinhos.

  • Reply Nay 18 de fevereiro de 2016 at 13:10

    NO começo do ano passado também fiz uma espécie de jarra co os livros que tinha pra ler. flopou em menos de um mês!!! Queria ter essa disciplina!!!

    Olha se me desculpa que tá meio esquisito tá comentando em tudo que é post mas é que são tão legais e eu só descobri agora!

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