Livros

Quando eu finalmente li Cidades de Papel e um pouco sobre a minha formação literária esquizofrênica

Preciso admitir que eu sou uma das vítimas da “síndrome do diferente”. Desde a adolescência (provavelmente quando eu percebi que jamais ia conseguir ser igual, mais ou menos o que a Anna Vitória descreveu aqui) eu resolvi que ser “diferente” era mais legal que ser igual a todo mundo e ponto.

Pensando bem, talvez até antes disso eu já mostrasse sinais dessa tendência. No final da infância, por exemplo, por falta de livros grandes infantis na minha estante, eu comecei a devorar livros espíritas de adulto. E depois vieram os livros incrivelmente velhos, cheios de pó e meio caindo aos pedaços que eu desencavei e “roubei” da casa da bisa (de Pollyanna e Manu, a menina que sabia ouvir até Paulo Coelho — tenho ligação emocional com Brida e Diário de um Mago até hoje, me julguem — e Lolita, risos). Digamos que a vida me fez hipster.

Claro que nem tudo foi bizarrice e no meio do caminho eu tive meus momentos de normalidade, tipo Harry Potter e O Pequeno Príncipe, mas em linhas gerais a minha formação literária não foi a mais ortodoxa. Li quase tudo de Machadinho aos 12 anos. E literalmente tudo (o que já tinha sido lançado naquela época) de Paulo Coelho aos 13.

Essa introdução toda foi para explicar como, mesmo que eu me esforce (?), minhas retrospectivas literárias sempre acabam sendo diferentes das listas das amiguinhas. E eu sempre estou, literalmente, anos atrás das tendências literárias.

Li a Culpa é das Estrelas só no ano passado, depois até da minha mãe e da minha prima adolescente que, até onde eu fui informada, não curte muito essa história de ler. Antes disso, da bibliografia do menino Verde eu só tinha lido Quem é você, Alasca. E depois disso, apesar de ter muito gostado desses dois livros, nada mais eu li.

E então estreou Paper Towns no cinema e por algum motivo eu resolvi ler o livro antes de assistir, mesmo que normalmente eu prefira fazer ao contrário. Incluí o bonito na minha meta da MLI e partiu, é nóis. Comecei a ler, meio sem saber o que esperar, considerando que ele estava lá embaixo no Ranking Green da maioria das minhas migolinas. Mas ficou no topo da minha.

Sim, esse livro pode ser considerado aqui e ali um grande amontoado de citações (ótimas, por sinal), mas eu aparentemente sou uma presa fácil e, ao contrário de me irritar, isso me fez gostar ainda mais do livro. Acontece que eu curto muito entrar em piras filosófico-metafísicas(?) e passar horas divagando sobre tudo, então o John e seus momentos poéticos são meio que meu paraíso literário.

Claro que o livro dele é bom em todos os aspectos tradicionais: bem escrito, personagens ridiculamente ótimos, trama bacanuda. Mas ele também tem um sei-lá-o-que a mais, que é a parte que realmente conquista meu coração. Talvez seja o fato de ele não escrever para adolescentes como se eles tivessem capacidade mental limitada, vai saber.

A trama de Paper Towns para mim tem muita coisa a ver com a história de Alasca (meu antigo favorito, que agora caiu para segundo lugar com honras). Na minha cabeça, é como se o John tivesse partido de uma ideia inicial e pensado em duas formas diferentes de desenvolver essa ideia (eterno dilema de todo escritor), e então tivesse resolvido escrever duas histórias ao invés de uma, e as duas acabaram sendo maravilhosas. Margo e Alasca são essencialmente duas versões da mesma personagem, assim como o Quentin e o Miles.

De qualquer forma, PT me ensinou muitas lições valiosas que eu quero anotar em todos os lugares e levar para sempre: (1) o que a gente é e a imagem que as outras pessoas têm da gente frequentemente são coisas bem diferentes, e (2) a forma como nós enxergamos as pessoas em volta diz muito mais sobre a gente do que sobre elas. Essas duas lições são muito libertadoras, e podem nos ajudar a sermos mais confortáveis com quem nós somos, já que a imagem que os outros vão ter está completamente fora das nossas mãos, e a ser mais tolerante com x outrx, já que essx outrx não tem culpa da imagem que a gente faz delx.

É exatamente por isso que eu não odiei a Margo como a maior parte do mundo odiou. Ela é egoísta, mentirosa e um pouco(?) insensível com os sentimentos alheios? Aparentemente, sim; mas isso é basicamente o estereótipo da adolescência (e, como disse Chimamanda, o problema dos estereótipos não é que eles sejam falsos, é que eles são incompletos). A questão é que a Margo nunca nos prometeu nada. Ela nem está presente na maior parte do livro. O problema é que a expectativa que eu e você criamos sobre ela — sem nem perceber — por meio dos olhos do Q faz com que a gente caia na armadilha que o John anunciadamente armou o tempo todo: a gente se decepciona quando ela acaba se mostrando apenas uma pessoa.

O quão bizarro é que a gente tenha esperado o tempo todo que uma adolescente de 18 anos fosse qualquer coisa além de uma adolescente de 18 anos? E de quem é a culpa? Okay, em primeiro lugar é do John, que monta uma armadilha magistral; mas em última análise, a culpa é toda nossa.

Uau, como eu divaguei. Mas acho que todos nós podíamos pensar um pouquinho sobre isso.

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8 Comments

  • Reply Analu 23 de julho de 2015 at 10:58

    Amiga, acho muito engraçado como John Green consegue gerar divergências. Pra mim é claro como água que a obra prima da vida dele é TFIOS e que ele nunca vai conseguir repetir o feito. Pra mim, TFIOS está em 1°, 2°, 3° e 4° lugar, seguido só então de LFA, PT e láaa por último, Katherines que acho boring. Só que cada um que lê acha outra coisa completamente diferente e acho que essa é a magia da coisa, hahaa.
    Entendo seu ponto de vista, mas não concordo com sua análise porque eu não odiei a Margo porque esperava demais dela. Odiei porque achei insuportável mesmo. Hipócrita. Esse discurso de “blablabla o mundo é vazio as pessoas são vazias é tudo de papel vou fugir” me deixa transtornada. Filha, vai caçar uma pia de louça, sabe? Acho linda a trajetória do Q, de começar achando que ela é seu milagre e descobrir que não, que o milagre dele tava o tempo todo ao lado dele e definitivamente não era ela. E acho sensacional também esse plot que você também citou, que é de fazer as pessoas entenderem que ninguém pode ser responsável pelo que a gente pensa dos outros, e que é realmente traiçoeiro acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa. Tatuei essa quote na alma, aliás.
    Curiosamente, o filme me deixou mais registros e pensamentos que o livro! Achei bem bonito e sai com algumas lições me martelando, hahah.
    Te amo! <3

  • Reply Sharoneide 23 de julho de 2015 at 11:17

    Primeiro: Amo ter amigas com a “síndrome do diferente”, nunca achei que fosse ter tantas. Que maravilha a vida cruzando nossos caminhos.
    Segundo: Eu preciso TANTO desse livro. Não num nível tão desesperado assim, mas depois da fase “meu deus, que medo ler outra coisa do sr. verde, não posso odiar, etc” eu meio que sinto que perdi um tempo enorme e que preciso compensar lendo logo tudo que for possível. Mas ao mesmo tempo, sei lá, super acho que vou curtir? Todo dia alguém me diz que nossa, Margo é insuportável, mas ainda assim, lá no fundo, eu acho que vou curtir pacas. Ultimamente tenho preferido assistir o filme antes de ler o livro porque tem sido menos traumático (?) então é provável que eu vá ao cinema antes do meu librinho chegar, mas enfim, independente da ordem só sei que: QUERO. E PRECISO.

    Te amo <3

  • Reply Alessandra Rocha 23 de julho de 2015 at 21:36

    Palo do céu… que medo dessa sua formação literária hahahaha eu não digo que chego a ter a “síndrome do diferente”, não ligo de ler a mesma coisa que todo mundo desde que eu esteja na vibe sabe?
    Eu detestei Paper Towns – apesar das citações ótimas mesmo -, acho a Margo uma hipócrita porque ela quer instigar o Quentin a “enfrentar” as coisas quando ela mesma foge ao invés de ser diferente… E apesar de concordar com essa sua teoria da armadilha, acho ela insuportável desde o começo aokakoakoakoakoaokaoka, mas enfim… Lembro de ter detestado TFIOS também quando li – tão no meu bottom 2 haha – mas hoje em dia acho que me identificaria muito mais com o livro do que quando o li pela primeira vez, apesar de ainda achar Hazel Grace irreal e chata.

    Faz tempo que li Quem é você, Alasca? mas acho que vou reler só pra refletir melhor sobre essa sua teoria!

    Beijos e boas leituras! <3

  • Reply Anna 24 de julho de 2015 at 20:26

    Eu não achei minhas almas gêmeas em qualquer beco, sabe? Porque além de estar na fila das pessoas do contra que amam esse livro, que a maioria das pessoas ou odeia ou não se importa, eu também tive uma formação literária esquizofrênica, quase que exatamente igual a sua. Dos livros infanto-juvenis eu passei direto pros livros de adulto, tive minha fase Paulo Coelho (não li todos, mas ainda tenho carinho por Veronika Decide Morrer), minha fase Machadão, a fase Stephen King, e lia qualquer coisa que encontrasse na estante dos meus pais ou da minha avó. Tirando Harry Potter e O Diário da Princesa, só comecei a ler YAs quando já estava na faculdade (!).

    Mas então, Paper Towns. Eu AMEI esse livro. Até hoje tenho minhas dúvidas se ele está no meu primeiro lugar, ou o pódio fica com TFIOS mesmo. É que TFIOS bateu muito forte em mim por todo o contexto do livro, e o momento que eu li, e A Gente, enfim, mil influências. Mas Paper Towns me ganhou por ele mesmo, e porque eu acho a mensagem dele muito sensacional. “What a treacherous thing it is, to believe that a person is more than a person” é a grande frase do John Green pra mim. A Margo não me incomoda porque pra mim ela não é relevante na história, sabe? Não é um livro sobre a Margo. É essencialmente sobre o Quentin, no máximo sobre os amigos dele. Acho as ideias dela forçadas, os diálogos meio sem pé nem cabeça, mas fico pensando se não é proposital, sabe? Ela dizer essas coisas porque é uma caricatura – afinal o Quentin que narra a história, né? Então não me importa se a Margo é chata, hipócrita, egoísta… não é sobre ela.

    Ai, eu amo esse livro.
    E amo você, agora um tantão mais hehehe <3
    beijos

  • Reply Carol 25 de julho de 2015 at 21:02

    Paper Towns é, com certeza, meu xodóxinho do John Green. De todos os livros, é o cujo grupo de amigos eu teria mais vontade de fazer parte e a história, com a roadtrip e os “causos” hilários que vão acontecendo pelo caminho, me deixou com aquela sensação de “ah, como eu queria estar lá”, sabe? hahaha. Não odiei a Margot, ao contrário de 90% da galera que leu o livro. Ela pode ser tudo isso aí que é, mas meu santo bateu com o dela. Até viajo um pouco nessas coisas que ela viaja também (apesar de que nunca sairia sem rumo, lenço e documento pelo mundão sem avisar ninguém). Só acho que todo mundo da muita importância a personagem enquanto a história não é sobre ela (embora o John nos leve a acreditar que é, até os 45 do segundo tempo).

    Pra mim, o tchan do livro é, principalmente, a mensagem que ele passou, que não devemos esperar que uma pessoa seja mais que uma pessoa. Pra mim foi um tapa na cara e um abraço ao mesmo tempo e eu só queria dar um beijo na bochecha daquele fofucho do Jão Verde e agradece-lo por essas coisas maravilhosas que ele escreve.

    Beijo!

  • Reply Gab 28 de julho de 2015 at 20:17

    Mas eu jurava que já tinha te mimado?
    Amiga, os primeiros livros “grandes” que eu li na vida foram os espíritas. Realmente, não é a toa que somos amigas, né, pfvr. Devorei todos que tinha em casa e parti para literatura brasileira, antes até de Harry Potter!

    Sobre Joãozinho Verde…amiga, meu livro preferido dele ainda é Quem é você, Alasca, seguido de A Culpa é das Estrelas. Mas vou te dizer que A culpa é das estrelas só está em segundo lugar porque eu não achei quem substituísse. Eu não gostei de PT, mas só porque não gostei da Margo. E só não gostei da Margo porque eu me identifiquei terrivelmente com ela e isso me machucou. De primeira impressão eu achei ela uma menina mimada, hipócrita e chatíssima. Depois eu me dei conta que pensava como ela em muitas coisas e que se eu pudesse eu mesma viraria um mistério e faria as pessoas procurarem por mim, porque eu sou dessas e nossa, isso me deixou muito irritada. Doeu perceber que eu sou muito parecida com um personagem que eu detestei. Mas no fim, como tu disse, eu e ela somos só uma pessoa. Hahah que louco né? Ainda não vi o filme, mas quero muito. Certeza que vou me irritar mais um pouco, mas pode valer a pena.
    Te amo!

  • Reply Bia Aguiar 31 de julho de 2015 at 15:46

    Olha eu aqui! Ontem me faltou tempo, porém hoje estou aqui :))
    Que lindo o seu cantinho e que lindo você ser faminta por livros desde pequenina, eu amava ler os livros da escola e gosto de Paulo Coelho – também me julguem! Mas o meu preferido do Paulo é o “Veronika Decide Morrer”, um livro denso que me marcou muito. Os outros que você citou ao longo do post nunca li, acredita? Tenho deixado o tempo me consumir e lido menos, só tenho me animado um pouco com biografias. Mas quero retomar o hábito de ler antes de dormir, é tão gostoso!
    Adorei ler um pouquinho sobre você, te achei uma fofa!
    Um beijo minha amiga do Rotaroots!

    Bia.

  • Reply Pudim 1 de agosto de 2015 at 22:03

    Amiga, que resenha maravilhosa. Sei lá. Por isso que sou sua amiga. Por isso que quero que você leia The Magicians, porque preciso que você leia e me diga. E PLMDDS LEIA JELLICOE ROAD!

    Mas enfim: cometi esse erro de depositar toda a minha energia na Margo, e obviamente também me frustrei. Quero muito reler esse livro com esse outro olhar. E claro que ele também é meu favorito de Joãozinho <3

    Enfim, te amo, chego aqui no BEDA mimando primeiro post antigo, poderia ser mais eu?

    Beijo

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