Livros

Quase-metalinguagem

Pela terceira vez eu estou começando a ler O mundo de Sofia, mas dessa vez estou decidida a terminar. No meio de um capítulo foi que me veio a maior epifania da minha vida, e eu fechei o livro e corri para cá, antes que o pensamento fuja de mim.
A grande revelação que se apresentou, nua, na frente dos meus olhos foi – na verdade – a resposta para uma pergunta que eu não me lembro de ter feito nessa vida. Por que eu escrevo? Ou mais que isso: por que as pessoas escrevem? Por que tantas pessoas, dos mais diferentes tipos, têm blogs e dedicam horas preciosas de suas vidas a escrever coisas que podem ou não ter qualquer relevância para qualquer pessoa que esteja do outro lado?
Acho que finalmente descobri a resposta. No mínimo, uma resposta. E ela é tão óbvia que provavelmente todo o mundo já soubesse, menos eu.
Nós escrevemos porque queremos ser lidos. Não é uma questão de fama ou reconhecimento. Simplesmente queremos que alguém, em algum lugar do mundo, de alguma forma tome conhecimento de que nós existimos – aqui e agora – e que pensamos.
Escrevemos para veicular ideias que soariam ridículas se ditas em voz alta. Teorias solitárias e pensamentos loucos que poderiam morrer presos dentro da cabeça, mas que por um “acaso” do destino precisam ver a luz do dia.
Nós escrevemos na esperança de que alguém – cuja existência inteira poderia muito bem passar despercebida por nós – venha, leia e diga que você tem razão, que não é loucura, que entende. Escrevemos por uma necessidade louca de nos conectarmos com alguém, qualquer um, de encontrar quem esteja sentindo a mesma coisa que nós.
Escrevemos também porque temos ideias e pensamentos relevantes, pensamentos que talvez ninguém tenha tido antes. Porque queremos que o mundo saiba do nosso potencial.
Escrevemos porque dentro de cada vida e de cada pessoa, existem centenas de vidas e de pessoas cujas histórias merecem ser conhecidas, mesmo que se passem em mundos diferentes  desse em que nós vivemos.
Escrever não é uma arte solitária, muito pelo contrário. Escrever pressupõe dezenas, centenas, milhares de pessoas escrevendo e lendo e trocando ideias e experiências e teorias filosóficas. É uma arte que existe há tempos incontáveis e que continuará existindo enquanto existirem pessoas. É uma passagem para outros mundos que podem não ser reais, mas existem. É uma forma de se mostrar ao mundo tal como você quer ser visto.
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19 Comments

  • Reply Luana 9 de janeiro de 2013 at 16:18

    Oi Paloma!

    “Nós escrevemos porque queremos ser lidos. Não é uma questão de fama ou reconhecimento. Simplesmente queremos que alguém, em algum lugar do mundo, de alguma forma tome conhecimento de que nós existimos – aqui e agora – e que pensamos.”

    Definitivamente! Eu sempre digo que se quisesse segredo eu teria um diario de papel, guardado a 7 chaves em casa.
    Eu escrevo porque quero ser lida, porque espero que outras pessoas no mundo se identifiquem com as minhas reclamações, empolgações, piadas.

    Porque deve ter gente ai fora tao peculiar como as pessoas ao meu redor pensam q eu sou. Porque deve ter alguém que ache graça das minhas brincadeiras e odeie pimentão, como eu odeio… =)

    Eu cheguei aqui hoje, palmoma, e eu li varios posts seus…

    beijao

    • Reply Paloma 1 de fevereiro de 2013 at 22:31

      Fico muito feliz que tenha gostado (desse texto e que tenha lido outros também). É essa troca que é gostosa!

  • Reply Larie Ribeiro 9 de janeiro de 2013 at 21:41

    “Escrevemos para veicular ideias que soariam ridículas se ditas em voz alta. Teorias solitárias e pensamentos loucos…”
    Sabe aquela sensação de ter sido pega no flagra? Pois então. Eu mantenho meu blog justamente pelo justificativa desse fragmento aí. Nunca parei para discutir as coisas que falo no blog com meus amigos fora da tela. E, aliás, mantenho o blog devidamente escondido das pessoas que me cercam, salvo alguma de extrema confiança. Antigamente mantinha um blog aberto para meus conhecidos e, veja só, acabei sendo atacada por trolls que, obviamente, vinham do meu círculo social, pois foi só fechar o blog que tudo se acalmou. Não confio mais e não tenho paciência – nem fibra o suficiente – para lidar com esse povo. Enfim. Sua reflexão foi mesmo fiel aos objetivos de quem escreve. Vai ver “O mundo de Sofia” tenha te ajudado a chegar na conclusão. Ou não. Haha.

    Beijo 🙂

  • Reply Mari 10 de janeiro de 2013 at 00:00

    Nunca li esse livro, mas o que posso dizer sobre o seu post é que eu aposto muito que todos os leitores concordam e se identificaram hahahaha realmente eu também nunca tinha pensado nisso!! Ótima reflexão =)

  • Reply Tay 10 de janeiro de 2013 at 03:28

    “Escrever não é uma arte solitária, muito pelo contrário. Escrever pressupõe dezenas, centenas, milhares de pessoas escrevendo e lendo e trocando ideias e experiências e teorias filosóficas.”
    Que bela reflexão, Paloma! Escrevemos sim, para sermos lidos, pois se assim não o fosse fecharíamos o blog só para nós ou escreveríamos num caderninho.
    E eu sou apaixonada por O mundo de Sofia! Maravilhoso esse livro. E ainda vai te trazer muitas e muitas mais reflexões. Beijos!

  • Reply Marcela 10 de janeiro de 2013 at 04:55

    Escrever é uma das coisas mais lindas que existem. É notório qdo eu não escrevo muito eu começo a me sentir igual a um balde prestes a transbordar!! Felizes aqueles que vivem de algo tão prazeroso!
    Beijão, Pá!

  • Reply Srt . Vasconcelos 10 de janeiro de 2013 at 09:02

    é nas constatações obvias que estão as maiores descobertas da humanidade. É exatamente por isso que escrevo!

  • Reply Mayra 10 de janeiro de 2013 at 15:58

    Eu ADORO “O Mundo de Sofia”, mas não faço ideia se já cheguei a terminar de lê-lo, lembro de ter sido tão intenso e fabuloso pra mim que nem sei o final da história, mas acho que terminei de ler porque eu sei tudo sobre os sofistas até hoje! Quanto à sua reflexão sobre a escrita, eu concordo plenamente. Uma vez lembro de ter escrito “não escrevo para que os outros leiam, escrevo porque me faz bem” mas hoje eu sei que escrevo porque me faz bem, mas me faz bem porque os outros leem e alguém pode vir a entender minha sina de viver e minhas ideias completamente malucas. Acho que é esse o segredo e uma vez que percebemos o quão importante para nós é o interlocutor a escrita torna-se ainda mais emocionante. Bom ano escrito pra tu!

  • Reply Corvus Cryptoleucus 10 de janeiro de 2013 at 20:44

    Escrevemos pelo mesmo motivo que artistas fazem arte.
    Eu ainda estou pra ler esse livro, mas, como você, acabo sempre largando.

  • Reply Deby 11 de janeiro de 2013 at 15:49

    Adorei o post e concordo com tudo que você disse.. eu confesso que já pensei um pouco a razão de eu gostar tanto de manter um blog e não só eu, mas tantas outras pessoas e tinha chegado a conclusão de que escrever e ser lido, mais do que isso, ser compreendido, ter alguém que se identifique com você, é uma coisa inexplicável de tão bom que é!
    E O Mundo de Sofia, você largou tantas vezes porque é ruim, chato, monótono ou por falta de tempo mesmo?! fiquei curiosa, nunca li o livro mas tenho vontade..
    Beijo!

  • Reply Deyse Batista 11 de janeiro de 2013 at 19:24

    Paloma, você me deixou totalmente sem reação diante desse texto. Sabe quando você lê uma coisa e não consegue formular uma resposta a respeito, porque durante a leitura você só ficava balançando positivamente a cabeça e tal? Poisé, foi isso. Achei genial. Genial.
    Mas mesmo dando causa a esse texto, continuo odiando O mundo de Sofia.
    Beijo!

  • Reply Anna Vitória 11 de janeiro de 2013 at 21:42

    Paloma, me empresta essa coragem pra terminar de ler O Mundo de Sofia! Eu só peguei ele pra ler uma vez e eu era bem nova, então você imagina a bagunça que foi, né? Por isso, acho que tenho uma lembrança muito mais traumatizante do que o livro de fato é, até porque eu cresci e gosto bastante de filosofia.
    Depois dessa sua epifania, só consigo ficar com mais vontade de tirar isso da minha lista. Acho que você falou muito bem, principalmente sobre a parte de que muitas vezes, ideias malucas da nossa cabeça soam bem melhores quando postas no papel do que simplesmente ditas em voz alta. É um jeito ótimo de liberar quem somos sem chocar tanto assim.
    Beijos

  • Reply Kamilla Barcelos 11 de janeiro de 2013 at 23:41

    Concordo por cada palavra. Escrevemos porque queremos ser lidas, queremos que nos escutem. Adorei seu texto! Excelente.

  • Reply Thay 13 de janeiro de 2013 at 20:48

    Vamos abrir um clube daqueles que abandonaram O Mundo de Sofia, pq, sério, ó livrinho difícil! Não sei eu ainda era muito nova quanto tentei lê-lo, mas não consegui ir pra frente. Ainda tenho como meta de vida chegar ao fim dele, mas por enquanto deixei isso em segundo plano.

    Mas sobre sua epifania… bem, também costumo me perguntar o motivo de escrever. Sequer é minha profissão, mas é algo que me dá muito prazer. Gosto de ter essa liberdade de abrir o WordPress e escrever sobre aquilo que eu quiser, de ter pessoas comentando sobre meus pensamentos. De fazer amigos por causa disso. Acho um máximo ter isso tudo à minha disposição.

    É isso mesmo o que você tão bem escreveu, “É uma forma de se mostrar ao mundo tal como você quer ser visto.”

    =*

  • Reply Milena M. 16 de janeiro de 2013 at 23:51

    Você tem razão, não é loucura, eu entendo.
    É bem isso mesmo, Pá! A gente não tem consciência da necessidade que temos de escrever, não sabemos exatamente o que nos motiva. Mas é algo natural. Com ela vem a necessidade de que tenha alguém, uma pessoa que seja, do outro lado. É uma atividade solitária que sonha em deixar a solidão pra lá.
    Achei linda sua epifania! E força no Mundo de Sofia que vale a pena e as reflexões!
    Beijo! <3

  • Reply Tary ♥ 20 de janeiro de 2013 at 12:52

    Fiquei emocionada com esse texto, Paloma, de verdade! Porque pra mim escrever é tudo isso. E é algo tão íntimo e necessário pra mim. Que nem respirar, sabe? Por mais que eu tenha a consciência de que não escrevo bem, tenho a sensação de que se não o fizesse, desmoronaria facilmente.
    Obrigada por esse texto. Mesmo, mesmo, mesmo <3 Não vejo a hora de te abraçar!

    Beijos!

    P.S: Abandonei lindamente ‘O Mundo de Sofia’, hahaha! NÃO DEU. Mas pretendo voltar um dia, talvez.

  • Reply Mari Mari 22 de janeiro de 2013 at 12:01

    Queremos ser lidos, sim. Aliás, algum escritor famoso que eu esqueci o nome chegou a dizer “Não gosto de escrever. Eu gosto de ter escrito” – e cara, isso é foda, porque é EXATAMENTE isso. E eu ainda acho que tem um pouco de auto-consolo, mas tudo bem. rs

  • Reply Rafaela 24 de janeiro de 2013 at 17:59

    Que post mais lindo, Pa!

    “Nós escrevemos porque queremos ser lidos. Não é uma questão de fama ou reconhecimento. Simplesmente queremos que alguém, em algum lugar do mundo, de alguma forma tome conhecimento de que nós existimos – aqui e agora – e que pensamos.”

    Não tenho o que dizer após isso.
    Ah, por favor, tente terminar de ler o livro desta vez. Eu o amo bastante <3

    Beijos

  • Reply Nina 28 de janeiro de 2013 at 21:33

    Escrevemos porque essa é a forma que o ser humano encontrou para testemunhar o seu tempo e expressar seus sentimentos.
    E é uma atividade bela, que nos instiga e atinge os outros. A escrita é tão necessária quanto a leitura.
    Eu li O Mundo de Sofia em um dia e meio. Não sei como consegui, mas faz tempo já.
    Abraços.

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