Brooklyn, solidão e família
Filmes, Livros, Pessoal

Solitários S/A: a família que se encontra pelo caminho

 

Quando assisti Brooklyn pela primeira vez, o começo do filme estraçalhou meu coração; talvez porque eu tenha me visto na Eilis, ainda que em um futuro hipotético. A sensação de definitividade daquilo tudo: dar as costas a toda uma vida e partir sozinha para o próprio destino, em um lugar estranho onde não se conhece ninguém e sem previsão de voltar, me deu uma sensação de vazio e solidão tão grandes que eu não consigo traduzir bem em palavras. É algo que eu anseio e temo ao mesmo tempo.

Mesmo que eu não tenha passado por nada daquilo ainda, eu automaticamente me coloquei no lugar dela, e senti (talvez de forma mais aguda do que se fosse realmente eu ali) toda a estranheza daqueles jantares na pensão, a disciplina dissociada do ambiente familiar, os costumes estranhos, o novo emprego. Mesmo eu não sendo uma jovem irlandesa de uma cidade do interior antes dos tempos da comunicação fácil e irrestrita, eu senti saudades e chorei e quis voltar. E então a vida começou a acontecer.

Para Eilis, veio na forma de uma paixão, um casamento e a perspectiva de uma nova família nos moldes tradicionais. Para Angela Clark, personagem principal de I heart New York (livro que a mamãe comprou quando nós realmente estivemos em NY e quem acabou lendo fui eu), foram amigos.

A história da Angela é peculiar porque ela não planeja conscientemente emigrar. Um belo dia, em um casamento, ela descobre em primeira última mão a traição do noivo, pega um avião e vai parar… Também em Nova York. Também sozinha, também sem nada concreto e também construindo uma nova vida. E até o último segundo ela nem tem certeza se vai mesmo construir uma nova vida nesse novo lugar.

Mais uma história, ainda em Nova York, sem relação aparente. A Redoma de Vidro. Talvez esse seja mais difícil de associar, na prática, com as histórias anteriores, mas por algum motivo, a sensação que me passa é a mesma. Ainda que a Esther só esteja por lá de passagem e acabe voltando para a casa da mãe, a história de desconexão dela começa bem antes, quando ela entra na faculdade, e se estende mesmo com a volta para casa.

O essencial para a associação possivelmente aleatória que se formou entre as três histórias na minha cabeça é justamente o estranhamento de estar em um ambiente novo, diferente, segregado de tudo aquilo que conhecemos pelo conceito tradicional de família. É a sensação de alheamento que essas três personagens específicas, dentro todos os exemplos de personagens na mesma situação, me passam.

O ponto central entre essas três histórias, além da cidade que serve de plano de fundo (e, algumas vezes, de personagem), é justamente essa redoma de vidro em torno das personagens principais e que varia, entre elas, de um estágio normal da mudança de vida radical pela qual se está passando até um estado realmente patológico. Na maioria dos casos, essa redoma começa a desmoronar à medida que novas conexões são formadas com as pessoas em volta. Existe vida ali, existem seres humanos. E como eu me identifiquei com essa sensação, mesmo que eu não tenha deixado a minha própria cidade.

O momento de deixar o ninho é cheio de muitas emoções, boas e ruins — geralmente boas e ruins ao mesmo tempo. É assustador e solitário pensar em chegar em casa e não encontrar os rostos familiares que antes estavam ali. É assustador pensar em encontrar, nesse mesmo lugar, rostos diferentes, possivelmente menos amigáveis. É assustador pensar que os rostos que você foi ensinado a acreditar que sempre estarão lá para correr em seu auxílio em caso de colapso agora vão estar a duas horas de distância, ou três ou cinco ou doze. Ou do outro lado do oceano. É assustador pensar que mesmo que todas essas pessoas continuem existindo em algum lugar, você pode estar só.

A princípio parece mesmo que você está só. Então as pessoas começam a aparecer de todos os lados. E a sensação passa.

Passa porque estar sozinho não é o fim do mundo. E passa porque novas conexões começam a se formar, mais fortes justamente porque se está sozinho. Conexões com pessoas possivelmente tão merecedoras do título de família quanto a anterior. São novos amores, novos amigos, novos rostos que já não são mais tão desconhecidos. Novos abraços e novos gestos mostrando que incondicional é um conceito mais relativo do que se podia imaginar, e que essa história de que amor e dedicação têm alguma relação necessária com sangue e genética não faz sentido nenhum. No fim, quem vai estar ali para você é quem quer estar, e não quem tem alguma obrigação natural questionável de estar.

Não é um conceito fácil de formular, quando fomos ensinados desde sempre que as pessoas com quem podemos contar são a família e que a família é formada por laços de sangue. Chega a ser subversiva a ideia de que esse líquido vermelho que corre nas nossas veias sirva mesmo só para carregar oxigênio e exercer um punhado de funções biológicas, enquanto o essencial para a conexão entre os seres humanos é determinado por outros fatores. Pela química, pela energia, pela alma — cada um dá o nome que quer — que pode ou não vir no pacote. Mas uma vez que se pensa o suficiente sobre isso, o bastante para desconstruir a ideia de que amor e identificação são compulsórios, é algo libertador e reconfortante. Porque significa que, independente do que aconteça no caminho e da sua sorte ao nascer, o jogo nunca está perdido, e nós nunca estamos realmente sós.

Isso foi só uma das muitas coisas que a Eilis, a Angela e, sim, a Esther também, me re-lembraram, e uma das lições mais importantes que eu aprendi na vida: família não é um conceito fechado, é algo que a gente constrói à medida que a gente caminha. Deixando para trás esse determinismo genético, e incorporando novas pessoas que antes nos eram completamente estranhas.

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4 Comments

  • Reply Gabriela 15 de junho de 2016 at 17:48

    Talvez eu tenha choradinho um pouquinho porque talvez esse texto tenha me feito pensar em muita coisa? Talvez, quem sabe. E vou te dizer que comecei a ler Comer, rezar e amar (nunca vi o filme, aliás) e tenho pensado coisas tão iguais e tão intensas que às vezes dá até medo de mexer.

    Amando Vizinha da Capitu com esse post novo — de surpresa <3

  • Reply Thay 15 de junho de 2016 at 20:45

    Miga Palo, você é simplesmente maravilhosa com as palavras e a traçar sentimentos com elas. Quando assisti Brooklyn pela primeira vez fiquei com meu coração partido por toda a situação da Eilis. Estar em um país novo, rodeada de gente desconhecida deve ser muito assustador – e eu sou paranoica por conta própria, se estivesse na mesma situação que ela, SEN OR, não sei como lidaria. Mas o que você escreveu é tão bonito, e tão verdadeiro, que comecei a pensar que, mesmo que eu tenha ficado com minha família de sangue por toda a minha vida, fui adicionando ramos a ela com amizades maravilhosas que cruzaram meu caminho. A vida nos dá coisas incríveis, a gente só tem que se permitir (e não ficar com tanto medo, tipo eu). Beijo! <3

  • Reply Ramina Ferreira Xavier 16 de junho de 2016 at 15:31

    Esse texto me fez repensar minha saída de casa. É uma vontade que sempre tive, morar com uma amiga, ou sozinha, mas nos últimos meses tenho pensado pelos motivos errados. It’s a big question! Não sei mais, preciso pensar mais.

  • Reply Podin 27 de junho de 2016 at 13:54

    Miga <3

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