Na TV

Sobre Clarina, de uma fã

Não é segredo pra ninguém meu amor profundo pela única parte da novela das nove que não afundou imediatamente: Clara e Marina. Não preciso repetir que naquela primeira cena fatídica em que as duas se viram na exposição meu coração deu um nó cego que não quer soltar. Só que em algum ponto entre aquele momento longínquo e agora, a dor boa que eu sentia toda vez que elas apareciam virou uma dor ruim, por milhares de motivos diferentes.

Passei mais capítulos do que seria saudável para qualquer mente suspirando, grunhindo e chorando em cada cena, cada toque, cada olhar. Depois de um tempo, essa espera começou a me agoniar, porque era óbvio que a estória já devia ter avançado em alguma direção, mas nós continuávamos virtualmente estacionados no mesmo lugar de sempre. E então pareceu que a trama ia andar, passou o divórcio, só para me mostrar a definição mais verdadeira da palavra decepção.

Juro pela minha mãe que elas eram muito mais casal antes de assumirem o romance do que quando as coisas teoricamente começaram a acontecer. Me apontem algum outro casal, ficcional ou não, que mantenha uma margem mínima de um metro de distância em todos os momentos e se despeça com beijo na bochecha e eu prometo uma retratação formal. Todos os abraços românticos, as cenas maravilhosas, as declarações apaixonantes praticamente sumiram. As duas foram colocadas em banho maria e a única explicação racional que eu consegui foi: covardia.

Isso sem falar na polêmica do beijo. Primeiro Manoel Carlos diz que não sabe ainda se vai acontecer. Um pouco mais tarde, anunciam a tão esperada notícia que os tais beijos [dois, supostamente] foram autorizados pela globo e deveriam acontecer no último capítulo (que original!). Então, para surpresa geral da nação, vem finalmente o anúncio de que o beijo aconteceria dia 30 (ontem), a duas semanas do fim da novela. Aleluia! Quem se importa com a coincidência de a tão esperada e temida cena sair justamente no meio da copa, quando tudo e todos estão cem por cento concentrados no futebol?

A foto que acompanhava a notícia já me deixou com um pé atrás. Por algum motivo, a única parte delas que se tocava eram os lábios. Não sei no seu mundo, mas no meu, um clima de romance convincente (especialmente se duas pessoas já estão em um relacionamento) exige “um pouco” mais de proximidade física. Mas continuei animada. E durante a cena que antecedeu o grande acontecimento, meu coração quase saiu pela boca simplesmente porque sou uma boboca iludida que suspira com qualquer cena romântica. E então veio aquele beijo miado e tão rápido que eu perderia se tivesse parado para piscar, sem falar na postura claramente (sem trocadilhos) desconfortável da Giovana Antonelli; mas eu ainda estava feliz.

Só que toda felicidade e alienação tem limite, e me enfiar na cara dois beijos hétero estilo desentupidor de pia sucessivos de um mesmo homem com duas mulheres diferentes é um passo muito fora da linha. É uma afronta, um tiro na cara de todo mundo que esperou o beijo Clarina. Foi olhar na minha cara e dizer: “olha! não é legal que elas deram um selinho? agora dá uma olhada nesses beijos de língua cheios de saliva e engole o fato de que é algo que elas nunca vão poder ter, porque são gays.”

Sinceramente, eu devo ser muito iludida por ter pensado algum dia que o beijo de Félix e Niko (apesar de incrivelmente romântico e lindo) seria algum tipo de “turning point” na programação da Rede Globo de televisão. Por algum motivo eu realmente acreditei que, depois daquilo, a tolerância seria um pouco mais valorizada e casais homoafetivos gozariam de um pouco mais de igualdade nas telinhas. Mas o que eu vi foi exatamente o oposto, foi um tiro que saiu pela culatra.

Se o Félix era uma personagem gay, brilhante e divertido, e o romance para ele aconteceu de forma incidental e cresceu sem enrolação até aquele ápice fantástico; a proposta de “Em família” era completamente diferente. Nunca houve um personagem gay como foco. O objetivo declarado era muito mais ambicioso: um casal gay. Casal, expressão que implica amor, carinho (físico também), e B E I J O. Uma vez lançada a proposta, não dava pra voltar atrás. Desculpa minha mente deturpada, mas casal sem beijo não é casal.

Depois de tudo isso, a impressão que eu tenho é que o Manoel Carlos simplesmente desistiu, ficou com medo, colocou o rabinho entre as pernas e se escondeu na toca, se acovardou. E no fim das contas acabou foi fazendo um grande desserviço à toda a população brasileira. Ao invés de tratar a situação com um mínimo de naturalidade, pregar a tolerância, tudo o que ele fez foi marginalizar as duas; foi pintar a palavra gay na testa delas e deixar bem claro que elas nunca vão ter o mesmo status de um casal hétero, que elas vão ter que se contentar com um mísero selinho de cala-boca, que muito mais estigmatizou do que valorizou qualquer coisa. Foi muito mais do que uma cena de novela, foi uma declaração ideológica carregada de preconceito que deixou a mim (e a muita gente, creio) profundamente decepcionada.

Minha chateação é tanta que eu não sei nem como terminar esse texto. Com certeza deixei tanta coisa de fora, apesar de ter me estendido demais, que daria para construir um outro texto inteirinho. De qualquer forma, aí vai meu grito no vazio para que o mundo saiba que eu e várias outras pessoas por aí não estamos satisfeitas e não concordamos com nada disso. Considerem isso minha carta de repúdio à péssima forma como o assunto foi tratado pela Globo e pelo Manoel Carlos.

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9 Comments

  • Reply Ana Luísa 2 de julho de 2014 at 10:49

    Amiga, você sabe que eu nunca shippei Clarina e que só fiquei feliz com essa separação porque shippo Carônica, HAHAHA. Mesmo assim, concordo com TUDO o que você falou. Tem tempo que não vejo a novela (me libertei), mas pela foto que vi do beijo, foi realmente um ó. Quer fazer, faz direito. Mas Manoel Carlos já cagou tanto com essa novela que isso aí só seria amarelar MAIS UMA VEZ. Não me impressiona, infelizmente. Saudades de quando ele trocava bebês. Muitas saudades.
    Beijos! <3

  • Reply Mª Fernanda Probst 2 de julho de 2014 at 11:08

    Não tava sabendo do lance do beijo, não vi a novela. Mas achava bonito o pré-romance das duas, antes de serem casal. O gay nunca é abordado de forma coerente e real nas telinhas, tem sempre aquele lance de encenação, como se na vida-vida todos encenassem também.

    Conheço um casal de mulheres e elas não saem se pegando publicamente, mas tem um carinho notório no jeito que entrelaçam as mãos, no jeito que se olham e no jeito que uma abraça a outra, com o braço sobre os ombros. Vezenquando, publicamente, rola um beijinho tímido, no canto da boca.

    Acho legal isso, poético até. A sociedade ainda não está preparada para amassos calorosos em público (tanto homo como hétero), mas devia se acostumar com a ideia de que carinho homo é tão natural quanto hétero.

    Pena que a tevê nada ajuda com essa aceitação.

    Beijos

  • Reply Camyli Alessandra 2 de julho de 2014 at 14:48

    Na minha opinião o casal Clarina já começou mal, muito mal. A história foi empurrada… de uma forma um tanto grosseira o marido ali quase morrendo… e a outra já flertando com OUTRA ??? What? achei grosseiro… saudades do Felix e carneirinho viu? o Maneco quis imitar e cagou a novela…

  • Reply Gabriela Couth 2 de julho de 2014 at 15:47

    Eu nunca vi essa novela, apenas acompanhei de longe… E só vi vocês comentando dos erros. Mas sabe o que eu penso? Que não colocam Clarina para beijar, porque isso ia ser normal. É normal um casal dar beijos, não é? E se abraçar, e transar? Pois é, só que ser homosexual não é normal, é uma coisa atípica. E de tão atípica tem que ser no final da novela, que é pra ninguém se acostumar com um absurdo desses.

    Ah, que saudades de Londres, que os protagonistas são gays, e o apoio também tem casal gay, e não é pra vender a novela. É simplesmente tão normal que… Por que não?

    Adoro os seus gritos no escuro com voz de pássara!

  • Reply Giuliana Motyczka 2 de julho de 2014 at 19:40

    Deixa chegar sábado que eu vou te esmagar durante horas por esse post. Eu te entendo, amiga, e sei muito bem que você sabe disso, já que nós sofremos juntas desde o começo dessa novela errada. É como eu disse dia desses pra você: conduziram essa história tão mal em vários aspectos justamente pra tornar algo errado, anormal, digno de repúdio e tudo mais, e isso muito me entristece porque não é num mundo assim que quero viver pelos próximos anos, nem num mundo assim que quero criar meus filhos, se um dia vier a tê-los.

    É desconcertante e decepcionante saber que uma emissora tão conservadora e retrógrada molda a cabeça de grande parte da população, fico pra morrer pensando nas consequências de tudo isso. Sempre fiz ressalvas quanto às atitudes da Clara em diversas situações, mas esse não é o ponto. O ponto aqui é exatamente a tentativa de transformar algo natural em algo anormal (e até imoral, em certo ponto).

    Depois daquele selinho frio e de corpos afastados, fico me perguntando se aquilo que vi eram velhas amigas num cumprimento um pouco mais íntimo ou realmente um casal de mulheres que se ama como nos fazem crer que se amam. Ah, sem falar dos dois beijos desentupidor que nos enfiaram goela abaixo depois, de Cadu e suas admiradoras.

    Sinceramente? Fiquemos com a realidade da fanfic que tava muito melhor.

    Amo você <3

  • Reply Anna Vitória 3 de julho de 2014 at 15:06

    Palo, nunca torci pelo casal mais porque não suporto a Clara do que qualquer outra coisa, mas sempre torci pra que, se acontecesse, que fosse bem feito. Não vi o beijo em si, mas vi a foto que divulgaram antes e achei totalmente insosso, tanto que previ o desastre e nem fui ver o que tinha (ou não) rolado. É bem como a Couth falou, eles fazem questão de deixar tudo diferente, insípido e totalmente antinatural pra reforçar um discurso de que esses casais são igualmente antinaturais. Imagina só que doidera, colocar um casal gay se pegando loucamente na mesa da cozinha como acontece até em novela das sete?
    Ai, Pássara, esse nosso mundo tá bom de explodir e começar do zero, viu?
    Beijos <3 <3

  • Reply Brendha Cardoso 3 de julho de 2014 at 20:53

    Eu estava sem tempo pra qualquer coisa além da faculdade – oi final do semestre – mas me permiti ligar a tv dia desses. Coincidência ou não foi bem no dia do beijo. Eu estava alheia a tudo, estava de costas pra tv e de bobeira resolvi prestar atenção no que estava acontecendo. No exato momento em que Clarina “aconteceu” com seu beijo pra lá de [insira um adjetivo beeeem morno aqui, igual foi o beijo]. Eu poderia ter piscado e teria perdido o momento, como você disse. E depois as cenas com o Cadu. Esse avalanche de acontecimentos me fez desligar a tv e voltar minhas atenções pros estudos porque não, não dá, essa novela tá cagada demais e ISSO, gente, não pode ser verdade. Esperei tanto tempo pra ver um beijo das duas e quando acontece… É isso? Tipo, sério?

    Concordo com você quando diz que o pré-namoro delas foi bem mais bonitinho e consistente do que “isso” está sendo agora. Maneco realmente parece ter dada uma brecada nas suas intenções de fazer o casal ser simples e lindo – como tinha tudo pra ser – e agora parece que está fazendo questão de nos criar a sensação de antipatia.

    Vou nem comentar sobre as cenas ridículas do Cadu e suas duas mulheres. Sério. Achei ridículo e não encontro outra palavra pra descrever. E a Verônica usando a mesma frase que a Boca-Estranha? Sério? Que-que-foi-aquilo?????? Eu fiquei rindo sozinha, de deboche, e queria encontrar alguém com quem desabafar. Finalmente encontrei esse post e, sabe de uma coisa? Tô bem mais leve agora.

    Ainda decepcionada, mas leve.

    macabea-contemporanea.blogspot.com

  • Reply Kamilla Barcelos 4 de julho de 2014 at 10:58

    Eu me recuso a aceitar que essa novela é escrita pelo Manoel Carlos. Sério, não é ele. Novela muito ruim. Duvido muito que ele erraria a mão tão feio.
    Eu não gosto do casal Clara e Marina, em virtude de como tudo começou. Talvez por isso você goste. haha Mas para mim não fez todo o sentido.

  • Reply Ana Luiza 10 de julho de 2014 at 17:28

    Não morri de amores pelo casal, mas desde o início da novela que eu meio já esperava por um beijo. E depois do Félix e do Nico, confesso, me iludi um pouco achando que pronto, agora todo mundo ia admitir que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não tinha nada de anormal e que o beijo era uma simples consequência disso.
    Doce engano, doce engano.
    Não acompanhei “Em Família” tão de perto, porque além de não ter morrido de amores, estudo a noite, quando conseguia assistir alguma coisa era só o finalzinho e me faltava vontade de correr atrás. Mas sim, eu vi o beijo das duas (férias, amém) e na hora achei legal, mas não foi nem metade do que eu tava esperando.
    Continuo tendo esperanças de que um dia casais homossexuais vão ser tratados da mesma forma que os héteros, mas depois dessa, fiquei bem menos otimista em relação ao “quando”. Porque, sinceramente, não acredito que isso vá acontecer por tão cedo.

    E assim como a Kamilla, me recuso a aceitar que essa é uma novela do Maneco. Sério.

    beijos, beijos

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