Pessoal

1923

Hoje é aniversário da minha bisavó. Poucos dos meus amigos ainda têm bisavós. Eu tenho, e a minha é totalmente inteira, e estava perfeitamente lúcida também até pouquinho tempo atrás. Não que ela agora esteja totalmente ruim da cabeça, é que de um tempo pra cá ele tem esquecido as coisas mais recentes, por causa disso ela repete as coisas várias vezes e isso é irritante. Eu acho que é maldade se irritar com ela, não é culpa dela, mas mesmo assim é inevitável.

Hoje ela fez oitenta e cinco anos. Olhando pra ela, mesmo quem mal viveu dezesseis, como eu, consegue achar que é pouco, olhando pra ela, oitenta e cinco anos não parecem pesar o que devem pesar, porque a gente só vai saber quando chegar lá. Olhando pra ela oitenta e cinco anos não são nada. Eu não dei muita importância ao aniversário dela hoje quando cheguei pro tradicional almoço de domingo na casa dela. Aniversário, grande coisa! Até que a minha tia resolveu emplicar com ela. "Oitenta e cinco, hein, vó". É, oitenta e cinco. "Pois é, nasci em 1923". Mil novecentos e vinte e três.

Foi a partir daí que eu parei pra pensar o que ela já viveu. Por mais ou menos quatro anos ela não viveu a primeira grande guerra. Ela já era moça durante a segunda. Eu fiz prova de história hoje, e metade da minha prova ela viveu. Estranho, né? Pois é, são oitenta e cinco anos. Oitenta e cinco anos não significam pra mim agora o que significava hoje quando eu acordei. Parece pouco tempo quando se olha pra minha avó, mas chega a assustar quando se põe em datas.

Minha avó é uma velhinha inteira e implicante, mas eu acho que ficaria satisfeita de chegar aos setenta do mesmo jeito que ela chegou ao oitenta. E apesar de tudo, eu gosto de olhar pra ela e ver. Olhando pra ela é como se eu tivesse olhando pra história viva. É triste ver ela esquecendo as coisas, deve ser agoniante, é triste quando eu paro pra pensar que depois que meu vô morreu ela passa os dias dela sozinha e agora talvez o que ela queira seja atenção. Ela se comporta como criança às vezes, implicando com a minha prima que tem oito anos, e quando ela mostra claramente a preferância dela por um dos meus primos. Mas quem sabe como é ter oitenta e cinco anos? Que pode julgar.

Mil novecentos e vinte três. Minha bisa. Viúva, dois filhos, cinco netos, seis bisnetos. Quanta coisa não acontece em oitenta e cinco anos?

Fiz prova hoje, mas isso é comentário pro post de amanhã. Até.

Texto originalmente postado no Uol blog.

Nota posterior: Minha bisa faleceu em 15 de novembro de 2009, com 96 anos. Fica aqui registrada a passagem dela por esse mundo.

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