Pessoal

Adeus, faculdade

Amanhã eu me formo. Oficialmente. Formatura mesmo, com grande baile, colação fictícia, máfia, já teve. Mas para todos os efeitos eu ainda sou universitária. Até amanhã.

No meio do ano, antes mesmo de eu começar o último semestre de mais essa fase da minha vida, enquanto enfrentava um voo de 10 horas de volta à realidade depois de quinze dias na cidade mais maravilhosa do mundo (junto com o Rio, como eu sempre acrescento), eu escrevi um texto. Não um texto qualquer, um texto de formatura. Um texto que provavelmente está guardado em algum lugar, esperando ser digitado e postado, mas que vai continuar onde está porque de certa forma texto tem prazo de validade e eu estou longe de ser a mesma pessoa que eu era seis meses atrás. Então a gente começa de novo.

Cinco anos atrás eu entrei na faculdade de direito. Cinco anos atrás, quando eu era pouco mais do que um baby de dezessete anos de idade, que nem beber legalmente podia ainda e mal tinha ouvido falar de tequila. Era eu, cheia de certezas absolutas, ideias alheias internalizadas, senso comum e plena consciência de que morreria de tédio pela meia década (talvez mais) seguinte, mas confiante de que sairia de lá nadando em dinheiro, ou perto disso. Basicamente, uma pessoa ingênua.

Nesses cinco anos uma coisa se provou realidade: na maior parte do tempo eu realmente morri de tédio. Mas no resto do tempo eu aprendi coisas (acadêmicas ou não) infinitamente interessantes e que me ajudaram a seguir, entre todos os caminhos potenciais que eu tinha em mim, o rumo que me trouxe até onde eu estou hoje.

Direito é curso de extremos. Nós cruzamos, sim, com muita gente “convencional” (espero que vocês apreciem meu esforço para não usar a palavra “coxinha” nesse texto quase-sério), que acha que a vida é preto no branco, que nasceu e provavelmente vai morrer em berço esplêndido, e faz questão de não enxergar o mundo como ele é. E pode ser que esses sejam a maioria.

Com muita facilidade, essa podia ter sido eu. Eu tenho todo o background, eu cumpro os requisitos. Mas eu prefiro acreditar que não fui. E por que não? Essa é a pergunta que eu me faço constantemente e não consigo responder, então eu apenas agradeço.

Agradeço porque no meio do caminho eu me deparei com gente, especialmente professores, que jogaram na minha cara conceitos e valores que eu não conhecia. Porque mesmo quando eu não compreendia as coisas na hora (algumas lições do meu primeiro período eu só vim compreender realmente – e concordar – no último), aquilo ficou em mim e se provou verdadeiro.

Olhando por essa perspectiva, os últimos cinco anos foram um aprendizado contínuo, que começou com uma base aparentemente esquecida e soterrada, que ressurgiu em mim agora para me transformar na melhor versão do que eu podia ser hoje (é o que eu espero).

Hoje, aos vinte e dois anos (sim, eu sei que ainda é pouco), eu começo a me ver como um ser humano formado (não só na faculdade, mas na vida), responsável pelas minhas próprias escolhas e perfeitamente capaz de andar com as minhas próprias pernas (mesmo que às vezes bata aquela preguiça).

Mas o principal que a eu de hoje sabe que a eu de dezessete anos não sabia (e aqui eu uso de licença poética para parafrasear a frase mais clichê de Sócrates), é que eu realmente não sei de nada, e que tudo aquilo que eu acho que eu sei pode mudar a qualquer minuto. E isso foram meus anos de faculdade (e, com pequeno destaque, o último ano de faculdade) que me ensinou.

Então hoje eu posso continuar dizendo que não gosto de Direito e que (no momento) realmente não é aquilo que eu quero fazer para o resto da vida, mas prometo que vocês nunca vão me ouvir dizer que esses cinco anos foram inúteis. Jamais. Só ainda não estou nadando em dinheiro.

Imagem de Bonnyb Bendix.

*Lembrei que queria postar sobre o assunto depois de ler esse post aqui da minha xará, que está no extremo oposto dessa saga. Créditos dados, aproveitem.

Previous Post Next Post

You Might Also Like

11 Comments

  • Reply Ana 28 de janeiro de 2015 at 09:52

    Guria, eu também faço Direito. Poderia me formar esse ano se não tivesse feito outro curso no começo, e tivesse feito todas as cadeiras como manda o currículo. Eu concordo que o curso é de extremos, e que tu encontra tudo o que é gente. Sem contar tudo o que é matéria, e olha que a quantidade de matéria que eu já fiz e detestei ou não me interessei foram várias. Não quero advogar, quero fazer algum concurso pr’alguma área que ainda não decidi. Mas no geral, eu gosto do curso. Dá pra ter noção de muita coisa fazendo, te abre um leque enorme de possibilidades. Acho que Constitucional é uma matéria tão importante que a gente deveria começar a aprender na escola.

    De qualquer forma, não vejo a hora de eu me formar, pra poder deixar a universidade que eu já não aguento mais pra trás, e pra poder me estabilizar na vida e tentar achar alguma coisa que eu AME pra cursar. Até agora, não faço nem ideia, então continuo fazendo só o que gosto.

    Parabéns. E bora pra frente. 🙂

  • Reply Lilica 28 de janeiro de 2015 at 09:52

    Olha Palo a época da faculdade é realmente mágica! A gente descobre coisas incríveis, conhece gente legal, aprende muito, cresce porque as responsabilidades aumentam (e as farras de barzinho também) e acho que é uma fase que deixa saudade.

    Mas é também um alívio quando acaba, porque é uma fase de muito estudo, de falta de tempo para muitas outras coisas que a gente queria fazer, é realmente um peso!

    Mas agora você é oficialmente formada! Ebaaa!
    Só fico um pouco triste de saber que, apesar de todos esses 5 anos, o Direito ainda não te conquistou por inteiro, e você diz que não quer fazer isso o resto da vida. Mas, como você é super jovem, pode fazer outra faculdade se quiser, e aprender algo novo que talvez te conquiste de vez, quem sabe?
    Mas por ora acho que você deve aproveitar essa fase sem estudo para se dar um momento de alívio!

    Um beijão

  • Reply Brendha Cardoso 28 de janeiro de 2015 at 09:56

    Antes de qualquer coisa, PARABÉNS pela formatura – a festa já foi, mas tecnicamente estou adiantada 1 dia, certo?

    De qualquer forma, deixo minhas “felicitações” ou o que quer que seja desejado numa data especial assim. Que essa nova fase seja repleta de energias boas (enviando virtualmente tudo de melhor que eu posso desejar), momentos maravilhosos e que os aprendizados dos anos de faculdade te ajudem a enfrentar essa vida de gente grande, que parece ser amplificada quando o termo “acadêmica” adquire o prefixo “ex”. (Isso fez sentido? hahahaha).

    Agora preciso dizer que tu me deixou numa situação embaraçosa, senhorita Paloma, porque tu não faz ideia de como é difícil comentar sobre um texto assim, que além de bem escrito (ao cubo), é tão carregado de sentimentos, aprendizados e tudo o mais. Parece que tudo de mais importante já foi dito e qualquer coisa que eu venha a acrescentar vai ficar sobrando. Mesmo assim eu não poderia deixar de falar uma coisinha ou outra.

    Eu estou indo pro meu 3º ano de faculdade e já sinto que aprendi tanta, mas tanta coisa, que a Brendha (também ingênua) de 17 anos ficaria boba. Academicamente falando e como pessoa. Fico tentando imaginar como vou estar daqui 3 anos, quando eu me formar, mas não consigo imaginar. Espero que eu consiga, na minha formatura, fazer um post assim como esse seu, que passa pra quem lê uma sensação gostosa de sentir contigo o que tu tá sentindo.

    Enfim, desculpa pelo comentário gigante. Eu me empolgo, hahaha.
    Reforço meus desejos: tudo de melhor pra tua vida. Que tu continue nos brindando (quem usa ~brindando??????~) com esses textos maravilhosos que inspiram demais.

    beijo!

  • Reply Anna Vitória 28 de janeiro de 2015 at 13:50

    Doutora Advoave, acredie se puder: se não me engano, a primeira vez que li algum texto seu na internet foi justamente falando sobre o começo da faculdade. Não lembro se foi logo quando você passou no vestibular ou um pouco depois, mas sei que olhei sua foto no perfil, esbanjando juventude passarística e pensei: gente, mas Direito é uma coisa tão séria pra uma menina tão nova!

    Enfim, apesar do seu curso não ter te despertado grandes paixões e ser sinônimo de tédio, fico feliz que você tenha atravessado tudo isso com uma sensação de dever que valeu a pena ser cumprido. Foi inevitável morrer de orgulho de ver você linda e beca e depois arrasando de azul, porque que coisa boa é ter amiga foda no que faz!
    Que venha um fase nova, mais conquistas e menos tédio. De todo jeito, parabéns! De novo!
    Te amo <3

  • Reply Carol Rodrigues 28 de janeiro de 2015 at 14:02

    Parabéns pela formatura! Estando também no extremo oposto da saga eu só posso pedir que quando termine a faculdade, eu possa ser também essa nova pessoa cheia de novas ideias, experiências e conceitos. Sempre foi algo que me disseram: tanto a escola quanto a universidade são mais do que lugares onde você aprende matérias e a ter uma profissão, são lugares que vão te preparar pra vida e proporcionar experiências inesquecíveis. Enfim, divaguei um pouco no comentários, mas meus desejos são de boa sorte e tudo de melhor pra sua vida de formanda!

    Beijos!

  • Reply Ana Luísa 28 de janeiro de 2015 at 15:46

    Passarinha do céu, cê me pegou muito desprevenida. Porque eu entrei aqui pra conferir se seu post (sobre Mentirosos) estava sendo devidamente mimado (sou dessas), e me deparo com um texto novo. Aí começo a ler e ele me arrepiou as estruturas que eu já nem costumo ter. Morri de orgulho de você e me identifiquei muito com sua constatação de que seria muito fácil pra você ser da turma dos ~coxinhas~ porque você cumpre todos os requisitos para isso. Bate aqui. Temos mesmo. Mas amo quando percebo que estou desvinculando um pouco disso para pensar com minha própria cabeça e ir além. Ainda tenho um tanto de coxinha dentro de mim (acho o equilíbrio, aliás, sempre importante) mas procuro sempre ir moldando a minha cabeça para ser uma pessoa pensamente e melhor para o mundo. Cês me amam mesmo assim? <3

    E::::::: “é que eu realmente não sei de nada, e que tudo aquilo que eu acho que eu sei pode mudar a qualquer minuto.” VOCÊ ME MATOU COM ESSA FRASE BJS.

    Te amo! Muito!

  • Reply Rafaela Venturim 28 de janeiro de 2015 at 19:43

    Amiga,

    QUE TEXTO ABENÇOADO! Poderia ter sido escrito por mim — e talvez seja, daqui a dois anos. A gente tem muito em comum, nos quesitos mencionados por você. Não, eu não amo o Direito, justamente porque não sou “convencional”, rs. Outro dia, o professor de Hermenêutica perguntou pra turma o que eles esperavam com o curso. Muitos responderam dinheiro e poder, prestígio. Eu me senti besta ao responder que espero mudar alguma coisa no mundo. Sou dessas, sim, que sonham alto. E talvez eu não precise me formar pra isso, tanta gente muda o mundo sem um diploma.

    Mas jamais passaria a faculdade, porque ela me mudou muito. Me moldou. Me transformou em muito do que eu sou hoje e espero ser mais pra frente. Ampliou minhas perspectivas e só eu sei o quanto isso doeu e ainda dói, vez ou outra. Sabe tapa de realidade? Tenho quase todo semestre, e acho que você também passou por isso.

    Enfim: “(…) Mas o principal que a eu de hoje sabe que a eu de dezessete anos não sabia (e aqui eu uso de licença poética para parafrasear a frase mais clichê de Sócrates), é que eu realmente não sei de nada, e que tudo aquilo que eu acho que eu sei pode mudar a qualquer minuto. E isso foram meus anos de faculdade (e, com pequeno destaque, o último ano de faculdade) que me ensinou.” <3

    Te amo! Parabéns! Brilhe ainda mais daqui em diante <3

  • Reply Ana C. 28 de janeiro de 2015 at 21:17

    Palo, parabéns!!! Eu provavelmente terminarei a faculdade no próximo semestre (e já estou com saudades, mesmo que não veja a hora de acabar) e quando paro pra realmente pensar na garota que entrou em 2009 e na garota que vai sair de lá agora em 2015 eu sinto um orgulho tão grande de mim! Da pessoa que eu me tornei, do quanto eu cresci e mudei meus conceitos. Eu tenho problemas de autoestima, mas se tem uma coisa que eu me orgulho é de ter passado pela faculdade e crescido como pessoa. Fico muito feliz que tenha acontecido o mesmo com você, Pássara! E eu espero que você encontre algo que te faça sorrir todos os dias, profissionalmente falando.
    Um abraço apertado de Pateta! <3

  • Reply paloma betini 28 de janeiro de 2015 at 22:04

    Primeiro, não posso deixar de comentar: você passou na universidade muito novinh, gente!! que isso hahha
    Amei o texto, sério! Mostrou toda a maturidade que você adquiriu ao longo desses 5 anos de muita ralação. Preciso nem dizer que fiquei muito honrada de ter despertado em você a vontade de escrever esse post maravilhoso!
    E olha, dou super apoio pra você tentar de novo, algo que goste realmente! Temos tão pouco tempo de vida, o mínimo que devemos fazer é sermos felizes nesse tempo que no é dado né?

    Bjs, e parabéns!

  • Reply Gab Irala 29 de janeiro de 2015 at 13:48

    Minha esposa maravilhosa. Não é incrível quando nos surpreendemos e crescemos ao longo dos anos? A faculdade, acredito, serve de intermediário para grandes mudanças de pensamentos, ideias e ideais. Nem sempre vamos seguir a risca o que nos foi ensinado, nem sempre vamos concordar com o que ouvimos e podemos nem seguir o caminho profissional do curso que escolhemos, mas alguma coisa ficou internalizada e isso já é grande.
    Te amo muito, passarinha. Quero fazer parte dessa nova etapa da tua vida <3

  • Reply As vantagens de ser formada em direito (para escritores) ◂ Vizinha da Capitu 6 de abril de 2015 at 16:44

    […] vida jogando o jogo do contente (sempre que humanamente possível) e, além de todo o resto que eu aprendi lá, a FND também merece estar nos agradecimentos do meu primeiro livro (que um dia sairá, espero […]

  • Leave a Reply