Pessoal

Coqueiro

Estava andando para o escritório um dia desses e senti um cheiro gostoso de cocada no ar. Volta e meia, andando no Centro da Cidade, cruzo com vendedores de rua oferecendo cocada. Nunca como, geralmente nem penso nisso, mas aquele cheiro de cocada quentinha que veio de lugar nenhum me chamou a atenção. 
Minha bisa morava, desde que minha mãe era criança, em uma casa de vila. Todos os domingos tínhamos (e ainda temos, agora sem ela) um almoço familiar de praxe na casa dela, e a sobremesa era sempre a mesma. 
Desde antes de eu nascer, um homem passava por ali todos os domingos vendendo cocada, cuscuz, quebra-queixo e várias outras coisas. Primeiro – como me contaram – ele passava com o tabuleiro na cabeça. Depois – e é disso que eu me lembro – ele passava de carro, com os tabuleiros no porta-malas, convocando todo mundo com uma buzina de bicicleta. 
Era só a buzina se fazer ouvir lá de longe e começava a correria para pegar o dinheiro. Então esperávamos na porta até que ele se aproximasse, parasse o carro e descesse para nos servir. E a mala do carro tinha exatamente o cheiro que eu senti na rua. 
O Coqueiro – era assim que a gente o chamava, até hoje não sei o nome dele – viu minha mãe grávida e me conheceu desde que coloquei os pezinhos nesse mundo. E depois de mim, viu chegarem também meu irmão e todos os primos. E viu todos nós crescermos. Até que ele ficou doente e morreu, alguns anos atrás. 
Uma moça que é filha dele continuou passando no mesmo carro, vendendo os mesmos doces, mas o sabor não era o mesmo e a graça também não. Quase ninguém mais comprava. Então ela foi passando cada vez menos, e nós vendemos a casa. E assim acaba a história do Coqueiro e da minha infância. E me deixa com uma vontade de comer cocada que eu não sentia há muitos anos. 
Eu nem lembrava mais do Coqueiro, e ele continuaria para sempre perdido no fundo da minha mente se não fosse o cheiro que eu senti na rua. Mas essas pessoas que desempenham papéis marcantes na sua vida ficam pra sempre, mesmo que elas não estejam mais. E com essa frase cafona eu me despeço. Ainda com vontade de cocada.
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4 Comments

  • Reply Ana Luísa 13 de maio de 2013 at 10:38

    Vou no blog da Couth, camarões. Chego aqui, Cocada. Qual é o complô de vocês pra me deixar absolutamente aguando? Só Jesus!
    A cocada da minha avó é a melhor do mundo e agora preciso de uma! HAHAHA
    Beijo!

  • Reply Larissa L. 13 de maio de 2013 at 12:05

    que linda essa história, Pá!
    qd criança a gnt smp tem essas pessoas marcantes mesmo… cheiros e sons relacionados!!
    =)

  • Reply Alessandra Rocha 13 de maio de 2013 at 21:43

    Acho incrível o poder que esses cheiros tem sobre a gente e a nossa memória. Esses dias também eu senti o cheiro que sentia na casa da minha avó materna antes de ela falecer e estava num lugar super nada a ver, isso deixa a gente um pouquinho nostálgica né?

    Eu nunca comi cocada porque não sou muito fã de coco, mas gostei muito da sua história Palo!

    beijos!

  • Reply Géssica (Kinha) 15 de maio de 2013 at 08:24

    Ei flooor..
    Que legal seu blog, adorei o texto.. parabeens!
    Vim conhecer seu cantinho e aproveito para convidá-la para visitar meu blog de casamento, já me casei mas ainda sou apaixonada pelo assunto! Além de casamento, falo sobre viagens, beleza e de tudo um pouco.. Espero que goste!
    Além disso estão rolando dois super sorteios de aniversário no blog, as casadas tambem podem participar!
    http://www.umalindapromessa.com/2013/04/sorteios-de-aniversario-pata-noivas-e.html

    Beijo
    😉

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