Pessoal

Da experiência peculiar de ficar trancafiada

O título dessa postagem pode parecer poético, mas está sendo usado de forma muito literal, juro. Vocês não sabem, mas esse ano muitas coisas aleatórias aconteceram. Entre elas o fato de que eu tive câncer. Pois é. Podem tirar essa cara de wtf de seus rostinhos, porque já está tudo bem. Mas para chegar nesse tudo bem, coisas aconteceram. Primeiro, eu operei; legal, beleza. E aí depois eu tive que fazer algo que eu nunca tinha ouvido falar: a tal da iodoradioterapia.

Parece palavrão, mas é só um tratamento altamente bizarro que envolve beber iodo radioativo e ficar trancada em um quarto à prova de radiação por dois dias. No big deal, era o que eu pensava. Apenas mais uma experiência antropológica, e quem me conhece bem sabe bem que eu amo qualquer coisa que possa ser considerada uma experiência antropológica.

Na real, não me parecia nada muito radical. Eu não ligo de ficar sozinha, de verdade. E eu tinha internet, TV a cabo, celular, tablet, dois journals, um trilhão de livros. Moleza. Mas na prática o buraco é sempre mais embaixo, não é mesmo?

A coisa começa a ficar complicada quando eu olho em volta e me encontro sozinha, em um quarto estranho, sem janela. Vamos deixar algo bem claro: eu sou uma plantinha disfarçada de gente. Eu amo sol, preciso de sol, quero sol e tenho tendências claustrofóbicas. Sabem aquele método de tortura que envolve trancar alguém em um quarto sem janelas e largar a pessoa lá? Eu sucumbiria no primeiro dia, minha sanidade é frágil (se é que existe).

Não importa que eu tinha mil e uma formas de comunicação com o mundo exterior. Não importa que algumas amigas maravilhosas e minha família linda tenham invadido meu whatsapp para que eu não me sentisse sozinha, não importa que xs enfermeirxs (todxs muito bacanas) me interfonassem três vezes no dia para saber se eu precisava de algo e avisar que estavam colocando comida. Eu só queria abrir a porta e sair correndo por aí, foda-se.

Acho que se tivessem me tirado todos os meios de comunicação, mas me deixado em um lugar aberto, eu teria me sentido um milhão de vezes melhor. Ou não.

Foi absolutamente horrível ficar lá, sem saber o que acontecia do lado de fora, entrando aleatoriamente no meio das conversas dos amigos para perguntar se estava chovendo, porque eu ouvia um barulho do outro lado da parede que parecia muito chuva. Eu ouvia chuva, e uma amiga disse que não estava chovendo. Isso é motivo para pirar? Para mim, naquele momento, era.

Pensando um pouco mais a fundo, acho que o grande problema — além da ausência de janela, que é realmente um problema enorme para a minha pessoa — não foi o isolamento por si só. O que me enlouquece é estar presa, sem liberdade para levantar e sair se eu sentir vontade. Mesmo que eu não tenha essa vontade. Eu preciso da ilusão da liberdade, eu preciso saber que eu posso escolher o que fazer e onde estar.

Eu preciso pelo menos achar que estou livre.

No fim das contas eu (obviamente) sobrevivi, e a sensação de sair de lá (mesmo que eu ainda tenha tido que manter uma distância de dois metros de outros seres vivos e sobreviver sem abraços por uma semana) foi uma das melhores coisas da minha vida. Foi com certeza uma experiência antropológica bem peculiar.

Esse post é parte integrante do meu BEDA. Para saber mais sobre essa cilada leia esse post. Tem sugestão de tema ou pergunta para a minha pessoa? Deixe nos comentários ou entre em contato.

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7 Comments

  • Reply Ana Flávia 8 de agosto de 2015 at 12:45

    Gente, primeiro que fico muito feliz que tenha ficado tudo bem, mesmo! Muita saúde!

    Nossa, tudo que a gente quer é ter dois dias de bobeira na vida ne? Pra ficar só por conta dos livros, séries e talicoisa, mas ter tudo isso sem a sensacao de que a gente tá ali porque escolheu é outra história.
    Devem ter sido dois dias infinitos!

    De novo, que bom que tá tudo bem! Beijos. :*

  • Reply Nananis 8 de agosto de 2015 at 15:11

    Amiga, queria só dizer que teve uma vantagem de eu não ser uma das pessoas com proximidade geográfica de você nesses dias: eu não conseguiria te ver e não te abraçar (?). Essa palhaça de 2 metros ia ser uma grande piada, HAHAHA. Como não esmagar a passarinha estando na frente dela, gente?
    Que bom que tudo isso acabou sem maiores crises, eu tava louca pra passar logo e termos apenas exames passarinhescos positivos. Acho que eu tava com mais medo que você, bjo da amiga hipocondríaca.

    Te amo muito.

  • Reply Chiquinha 8 de agosto de 2015 at 17:04

    Só de pensar em você trancafiada, uma passarinha na gaiola, meu coração se aperta. Claro que foi pra um bem maior, e não pode existir um bem maior do que sua saúde, mas ainda assim. Sou muito claustrofóbica, fico aflita em aviões e nem sei o que eu faria no seu lugar. Mesmo.
    Você é muito forte, amiga. Me mata de orgulho.
    te amo <3

  • Reply Sharoneide 8 de agosto de 2015 at 18:52

    Só de imaginar você trancafiada, meu coração já se parte inteiro. Amiga, deve ser muito horrível. Também fico muito aflita quando não consigo ver o sol porque me perco muito fácil no tempo e isso me dá uma agonia imensa. Não chego a ficar aflita em aviões como Chica (amo aviões) e meu quarto não tem janelas (só uma porta de vidro, ou seja, dá pra ver a luz), mas me desesperaria muito não saber o que está acontecendo ou não do lado de fora. Você aguentou muito mais do que eu aguentaria, ainda que por um bem maior, e eu morro de orgulho de você.
    Te amo <3

  • Reply Alessandra Rocha 8 de agosto de 2015 at 19:06

    Caramba Palo! Que coisa!
    Fico feliz que esteja tudo bem, mas poxa, enviando um hiper abraço virtual para compensar esse tempo engaiolada! Deve ser horrível, ainda mais sem janela pra ver o céu e realmente não poder ter a autonomia de poder sair mesmo não querendo… Horrível!
    Mas graças a Deus agora tá tudo bem e caramba, não me assusta desse jeito!

    Beijo coisa linda!

  • Reply Plân 8 de agosto de 2015 at 19:27

    Tu já ta mais do que informada do quanto eu me orgulho de ti, minha pequena bird. Tu é uma mulher incrível, pq só uma pessoa incrível tiraria de tudo isso uma bela experiência antropológica, né?
    Que bom que isso já passou e que eu pude te dar muitos abraços virtuais naquele tempinho.
    Te amo vários infinitos <3

  • Reply Ana 9 de agosto de 2015 at 15:30

    Como assim, guria??????? Eu, é claro, não sabia disso, e nem tinha porque, então: ainda bem que tu estás bem, te desejo muita saúde. ♥

    Eu tô familiarizada com a ideia de iodoradioterapia porque a minha chefe passou por isso no final do ano passado; teve câncer na tireoide e precisou operar. Meus pais quando ficaram sabendo me mandaram correndo desesperados pra médica que descobriu o câncer dela porque eu trato da tireoide há anos e as pessoas ficam tensas quando veem alguém doente.

    De tudo isso, acho que sofreria muito de ficar em um lugar sozinha SEM JANELA. A Síndrome Seth Cohen bateria forte e eu não iria aguentar. Ou iria, porque você aguentou e tá aqui contando história.

    Beijos!

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