Pessoal

Depressão de ônibus

Sempre que eu levo mais de quinze minutos para pegar um ônibus eu começo a ficar genuinamente triste. Esse mal me aflige principalmente às segundas e sextas, quando eu tenho aula na faculdade no fim da tarde e preciso pegar um ônibus na Central do Brasil às 18:30 da noite. 
Se você não está familiarizado com o conceito, a Central do Brasil não é um lugar muito agradável para se estar em qualquer horário, principalmente à noite. 
Se não bastasse isso, quando você termina de atravessar o trecho da rua deserta e meio sinistra, você chega a um ponto de ônibus lotado onde todos os ônibus passam lotados. Quando passam. 
E é nesse cenário que vez ou outra eu tenho que esperar meia hora por um ônibus lotado (nunca é demais repetir – nem lembrar que eu tenho 1,52m de altura), no qual eu vou ter que atravessar metade da cidade em pé, com uma mochila cheia de chumbo atômico radioativo nas costas e uma dor irritante na lombar. 
Se você não me dá razão, pelo menos me faça o favor de não contestar meu direito de ficar deprimida nesses momentos. 
Não é justo que depois de um dia de trabalho e/ou estudo as pessoas tenham que passar por isso só para conseguir chegar em casa. E eu não estou falando só de mim. Dignidade não existe mais no minuto que você sobe aquelas escadas, e é dessa forma que – quando eu consigo dar sorte – acabo sentada na escadinha da porta de deficiente olhando com o olhar embaçado pelo vidrinho. 
Sim, eu sento no chão do ônibus. E sim, tenho perfeita consciência de que as pessoas pisam ali e imagino onde elas podem ter pisado e essa história toda. Sabe o que? Eu não ligo. Não sentaria ali se eu tivesse escolha, mas eu não tenho. Um meteoro precisa cair na terra para que um ônibus com acentos vagos passe e o histórico de hérnia de disco na minha família é claro demais para que eu brinque com a sorte. 
E se para você isso não é motivo para ficar deprimida, para mim é. E cada minuto que passa sem que eu pegue um ônibus significa a perspectiva de um ônibus mais cheio, e meus olhos já vão enchendo de lágrimas e eu sinto como se não houvesse mais esperança no mundo. E tudo o que eu quero é estar em casa. Acho que deve ter um dementador naquele ponto de ônibus. 
Aí eu salto do ônibus e caminho o trecho que separa o ponto da minha casa e o caminho todo eu digo para mim mesma como eu sou boba por ficar tão triste por algo tão idiota. E então na próxima segunda ou na próxima sexta tudo se repete. 
E quer saber? Não é algo tão idiota. Não existe nenhum respeito às pessoas ali, não existe dignidade. Nós trabalhamos o dia inteiro e não temos nem o direito de voltar para casa com um mínimo de conforto. E isso não está certo.
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4 Comments

  • Reply Tary ♥ 16 de maio de 2013 at 18:52

    Palominha, eu concordo plenamente com você. Também fico deprimida com ônibus lotado. Mas no meu caso isso acontece quando é meio-dia e o calor tá cozinhando todo mundo dentro dele. Meu último surto por causa disso foi quando peguei três ônibus igualmente lotados, em pé, suando e com enxaqueca. Isso é um absurdo e não, não está certo. Meu sonho era um transporte público decente, juro pra você.

    Beijos!

  • Reply Gabriela, 16 de maio de 2013 at 22:54

    Eu acho que tu tem todos os direitos do mundo de reclamar de ônibus lotado. É um inferno, é uma tristeza sem fim. Eu também fico deprimida quando estou esperando um ônibus que eu sei que vai chegar lotado, com pessoas mal educadas que vão passar de esfregando em ti sem tu poder fazer nada!! É por essa e por outras que eu quero muito tirar minha carteira de motorista. 🙁
    Beijo, Palo. <3

  • Reply Tay 18 de maio de 2013 at 14:41

    É verdade. Isso se repete em cada estado do nosso país, é um transporte público sem qualidade e dignidade. Não sei aí, mas aqui além disso tudo os motoristas são loucos (parecem até que dirigem bêbados) e só faltam voar com os ônibus, mesmo os sanfonados, enormes. Quem fica lá atrás que se ferra.
    Só queria te dizer “tenha calma”, mas eu sinto exatamente o mesmo que você, seria hipocrisia…o jeito é saber que isso um dia passa, e vai passar.
    Palominha, obrigada pelo elogio ao visual do blog, que bom que gostou! Beijo! 🙂

  • Reply Flá Costa*' 18 de maio de 2013 at 14:47

    putz e como eu concordo com você. lembro de quando eu trabalhava no centro de sampa e via o metrô lotado vindo, um, dois, três e eu não conseguindo entrar. que raiva. sempre me senti tão desrespeitada, como pessoa, cidadã, mulher, sei lá, a ser submetida a dividir espaços de mim que eu só divido com quem eu amo e olhe lá. sei lá.

    entendo você todinha.

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