Blogagem coletiva, Pessoal

Ensaio sobre a beleza

Vocês já viram esses “experimentos” loucos que fazem para desmentir pesquisas que dizem que tal padrão é socialmente considerado mais bonito que outro? Tipo aquele em que pegam rostos de famosas consideradas lindas e fazem com que ele fique perfeitamente simétrico, e o resultado é bizarro. Ou aquele outro em que misturaram as feições das 20 mulheres consideradas como as mais bonitas do mundo e saiu um troço muito estranho?

Pois é, tudo isso está aí para mostrar que, além de subjetiva, a beleza não é definível. Simplesmente não dá para dizer que tais características fazem uma pessoa bonita e tais fazem uma feia, porque na prática o que a gente vê é uma coisa completamente diferente. Se isso não é uma evidência fortíssima de que o conceito de beleza, na real, não existe – então não sei o que seria.

Ainda assim, em algum lugar no meio do caminho as pessoas resolveram que pra ser bonito precisa ser perfeito e vice versa. Jamais saberei dizer se foi isso que causou todo esse furor por photoshop, plástica e maquiagem ou se foi o contrário (o ovo ou a galinha?), mas o que importa é que – convenhamos – essa história toda já passou dos limites há muito tempo.

O que eu vou dizer agora vai causar algum escárnio, mas eu não ligo a mínima e vou dizer mesmo assim. Não é normal que meninas de 12 anos se encham de reboco pra ir à escola todos os dias. Não é normal que as pessoas se sintam na obrigação de se pintar mesmo que não estejam nem um pouco a fim. Não é normal achar que as mulheres têm obrigação de passar maquiagem todos os dias, e menos ainda pensar que alguém precisa disso pra ser bonito.

Vocês entenderam tudo errado, isso não é beleza. Beleza é algo que já nasce com as pessoas. Beleza é a forma que a pessoa se enxerga. E a cada dia que as pessoas passam acreditando que precisam de meios artificiais para serem bonitas, uma fada morre em algum lugar.

A vida atualmente já é estressante por si só. Tem o trânsito, o trabalho, a necessidade de se virar em mil para lidar com todos os papéis que assumimos (ou que os outros assumem) para nós. Aí por cima disso tudo, a gente assume a responsabilidade de parecer perfeito para o mundo. Porque antes parecer o que não é do que assumir as próprias imperfeições, né?

Não, claro que não. Mas esse é o pensamento reinante. E isso é perigoso a tal ponto que, ainda que conscientemente saibamos que ninguém é perfeito, a gente começa a acreditar que apenas nós temos defeitos.

Essa discrepância cada vez maior entre o que somos por dentro e o que queremos parecer para os outros está levando o mundo para o buraco. Esse é, sim, um dos grandes males da humanidade. É, sim, causa de muitos casos de baixa autoestima, depressão, anorexia, bulimia e tantas outras doenças. Como isso pode ser algo bom? Como pode ser normal?

É por esses motivos que eu considero o projeto #stopthebeautymadness tão importante, por isso que eu apoio fervorosamente e por isso que levo, e continuarei levando, para o lado pessoal cada atrocidade e babaquice que falam a respeito dele. Vocês podem achar que é brincadeira, que só estão fazendo graça. Na real, vocês estão apenas brincando com coisa muito séria.

Esse tema foi uma das pautas do mês de setembro do projeto Rotaroots.

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6 Comments

  • Reply Ana Luísa 4 de setembro de 2014 at 10:14

    Amiga, amei demais seu texto. Concordo muto que beleza é algo completamente indefinível. Quando eu era pequena (sempre tinha mania de filosofar demais sobre os assuntos) e ouvi falar pela primeira vez no concurso de Miss Brasil e Miss Universo, olhei as campeãs e fiquei pensando: “mas gente, sério isso? não acho nunca que essa é a mulher mais linda do Brasil/Mundo”. Sempre fui encucada em como poderia haver uma pessoa mais linda do mundo. E também absolutamente não acho normal uma criança de 12 anos se rebocar para ir para a escola. Tenho tanto grilo com essas coisas que minhas filhas, coitadas, vão viver numa bolha (rs) e conhecer maquiagem bem grandinhas já, HAHAHA. E::: “E a cada dia que as pessoas passam acreditando que precisam de meios artificiais para serem bonitas, uma fada morre em algum lugar.” MORRI, <3
    Te amo! Escreva mais, escreva sempre, vou te alfinetar e cobrar textos!
    Beijos

  • Reply Thay 4 de setembro de 2014 at 20:12

    Achei super válida a campanha #stopthebeautymadness, e foi com um pesar no coração que vi gente deturbando o mote, tão legal, e cobrando prendas casos tais meninas não cumprissem o desafio ou julgando-as por posar sem maquiagem. Sem falar no monte de gente (meu FB é um exemplo ótimo disso) falando mal das meninas que postaram fotos de cara limpa, pisando um pouco mais na campanha que tinha tudo pra ser uma forma ótima de conscientizar o quanto essa ditadura da beleza mexe com a cabeça das pessoas. Enfim, seu texto foi um dos melhores que li, gostei muito. Quem dera todo mundo pudesse pensar um pouquinho mais assim. Beijo!

  • Reply Anna Vitória 5 de setembro de 2014 at 00:42

    Paloooo, amei demais o seu post! É totalmente isso que eu penso, sabe? A beleza é um troço abstrato, uma convenção social, e não é normal que algo tão subjetivo seja capaz de estragar a vida de tantas pessoas. A gente precisa mudar essa visão, descartar essas expectativas estúpidas que a sociedade nos coloca, e reaprender a ser feliz e se sentir linda da forma como somos, do jeito que achamos melhor <3
    beijocas

  • Reply Neli Carpinter 5 de setembro de 2014 at 21:26

    Olá!
    Também super aprovo o projeto #stopthebeautymadness. Fico perplexa de ver que tem mulheres que se maquiam toda só para ir na padaria.
    Bjus

  • Reply Isabella de Paiva 6 de setembro de 2014 at 00:10

    “Vocês entenderam tudo errado, isso não é beleza. Beleza é algo que já nasce com as pessoas. Beleza é a forma que a pessoa se enxerga. E a cada dia que as pessoas passam acreditando que precisam de meios artificiais para serem bonitas, uma fada morre em algum lugar.”

    Essa frase resume tudo, cara. Seu texto foi um dos meus favoritos desse tema do rotaroots, porque você soube definir o que eu sempre me perguntei exatamente o que era: beleza. E é exatamente isso, beleza é a forma que a pessoa se enxerga. Conheço amigas lindíssimas, com autoestima super baixa e isso repercute demais na beleza dela, afinal, vivo dizendo que não há maquiagem no mundo que ganhe de uma mulher segura e bem consigo mesma. E não tem como padronizar essa segurança. Eu já me senti mal inumeras vezes por não ser loira, por não ser branquinha ou ter olhos claros. Já parei na frente do espelho e olhei meu corpo e quis taaaaaaaaanto que eu fosse melhor nisso e naquilo. Mas, felizmente, a gente as vezes amadurece e percebe que não é assim e o fruto da minha frustração não vem ~de mim~, vem ~de fora~ . Enfim, desabafei demais aqui hiudsahiudhiusha
    Beijos.

  • Reply Fernanda Rodrigues 7 de setembro de 2014 at 00:40

    Oi!
    Vim do rotaroots e achei sensacional o seu post!
    Falei sobre isso no meu texto: as crianças estão começando com esta loucura cada dia mais cedo. Vejo isso com as minhas alunas. Isso não é normal (ou pelo menos, não deveria ser!).

    Não é normal ter que seguir um padrão para se sentir bem, não é normal usar isso como desculpa para ofender os outros.

    Espero realmente que a campanha atinja o objetivo e que as pessoas parem de transformar algo sério em brincadeira.

    Um beijo,

    Algumas Observações
    Teoria, Prática e Aprendizado
    Nosso Clube do Livro

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