Pessoal

Inferno astral e a arte de metapensar

Eu penso demais, desde que me entendo por gente. Normalmente não aquele tipo de overthinking que paralisa, é só uma incapacidade crônica de diminuir o fluxo de pensamentos e relaxar. Eu penso sobre tudo, sobre o que eu leio, sobre o que eu assisto, o que eu como, o que eu faço, sobre mim mesma e sobre meu lugar no mundo. É uma quantidade insana e nada saudável de pensamentos por minuto. E no inferno astral, eu penso mais ainda.

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Para quem não sabe (provavelmente 99,979% do mundo), meu inferno astral desse ano de 2016 aconteceu entre 7 de junho e 6 de julho. Durante esse breve-porém-interminável período, eu poderia ser escrito enciclopédias com tudo o que passou pela minha cabeça só na curta caminhada entre o trabalho e a minha casa.

Eu considero pensar um exercício muito saudável, mas não é porque o “músculo” exercitado é o cérebro que não seja exaustivo. Pensar cansa muito, e é uma atividade sem fim, e às vezes isso é meio desesperador.

No mês que antecedeu a data em que eu completei minha vigésima-quarta volta em torno do sol, eu passei por fases suficientes para encher uma vida — começando em “a vida é tão bela, mesmo dentro da rotina” e terminando em “eu sou um peso morto, completamente inútil para o mundo”. Entre um extremo e outro, recaí diversas vezes na tarefa árdua de metapensar — apelido carinhoso que eu dei à arte de pensar sobre pensar — o que rendeu uma quantidade considerável de pensamentos filosóficos que, na época, eu considerei profundos e belos, mas que caíram no esquecimento em aproximadamente trinta segundos.

Foi no meio do caminho em um desses dias que eu percebi como é fútil esse ato de pensar. Comecei a questionar qual o objetivo de investir tanta energia nesse esforço mental quando todas as ideias começam a ser esquecidas no momento em que nascem. Uma ou outra acaba registrada, meio que por acaso, mas a esmagadora maioria vai embora sem deixar rastro — como acontece também com as pessoas.

Essa consciência súbita me deixou bem chateada. Eu sou prepotente o suficiente de acreditar que alguém em algum lugar pode ter interesse no que eu penso — ou não estaríamos aqui nesse momento. Mesmo que ninguém tenha e eu esteja falando com as paredes, de quando em quando eu gosto de investir algum tempinho em uma sessão saudável de autoadmiração, mas então eu me dei conta de que existe uma possibilidade real de que os meus melhores pensamentos e ideias se percam no espaço incorpóreo e eu acabe sem nem lembrar que eles existiram algum dia. Muito potencial desperdiçado.

Cheguei em casa verdadeiramente exasperada, arrasada e exausta (o drama é livre durante o inferno astral), me joguei na cama e mandei uma mensagem para uma amiga contando como eu estava sentindo que minha cabeça está eternamente vazando gasolina.

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Descontando todo o excesso de drama, esse pensamento ainda me assombra de tempos em tempos — o fantasma de todos os pensamentos que quase não chegaram a ser. Talvez por isso eu tenha começado a me esforçar para registrar tudo o que eu posso. E então chegamos a esse momento do tempo e espaço, com esse texto possivelmente sem sentido escrito na esperança de que mais alguém em algum lugar tenha uma pira parecida com a minha e queira compartilhar essa angústia.

Indivíduo em rosto, se você estiver aí, apareça. Vamos ser migas.

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5 Comments

  • Reply Bruna Morgan 2 de agosto de 2016 at 18:26

    Eu também fico assim no meu inferno astral (que está chegandooo), agosto pra mim é sempre bléh por causa disso, eu fico pra baixo, pensando em mil coisas ao mesmo tempo, é uma roda-gigante de emoções.
    Eu sofria antes de saber o que era inferno astral!
    Mas fica calma, esse período é temporário e vai passar.

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

  • Reply Mareska 3 de agosto de 2016 at 03:34

    Eu tenho essa coisa do pensar 24hrs por dia, mas no meu caso um pouco é porque a ansiedade não me deixa desligar e descansar. Eu fico eternamente com a cabeça ligada no 220 e sempre acabo ficando física e emocionalmente esgotada.

  • Reply Plan 4 de agosto de 2016 at 01:36

    Amiga, eu profundamente acredito que todos nossos pensamentos, dos menores aos maiores, são guardados na nossa mente, em algum lugarzinho e jamais são jogados fora. A gente vai acessar cada um deles em algum momento da vida. Por isso, acho que tu nao precisa te preocupar com o metapensar, é algo bom e natural e não é em vão, nada do que pensa é desperdiçado, trust me – eu nao tenho nenhum embasamento teórico pra isso, mas trust me.
    O que me aterroriza é deixar de viver e virar poeira na eternidade. Eu como um todo, sabe. Jesus, isso me apavora até o último fio de cabelo.
    Mas como dizia um professor meu: isso é papo pra muita cerveja.
    Te amo, amiga <3

  • Reply Gabriela 6 de agosto de 2016 at 20:46

    Descobri que aulas de yoga fazem isso comigo: eu começo a pensar, e então eu começo a pensar sobre estar pensando. Talvez eu devesse estar prestando atenção na minha respiração ou dando um foco ao meu pensamento, mas a maior parte do tempo eu estou pensando sobre pensar. Mas acho que é bom. Não sei, vou pensar (?).

  • Reply Nay 8 de agosto de 2016 at 09:59

    TAMOJUNTA. Passei por todas essas reflexões cheguei a conclusões parecidas, inclusive na pira de tentar anotar tudo que é ideia – surgiu o caderno de ideias que fica 24hs na bolsa – mas no fim tudo isso foi superado pela minha preguiça homérica de viver. O bullet journal foi abandonado. O caderno de ideias idem. E eu sigo perdendo 90% das ideias que eu tenho e continuo angustiada com isso. Me sinto num looping infinito.

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