Pessoal

Já posso casar (meu cu)

bobfaxina

Lá em casa quem cuidava sozinha das ~tarefas domésticas~ desde que eu me entendo por gente era minha mãe. Mesmo quando ela deixou de ser profissão: dona de casa e começou a trabalhar na rua (em um banco, não com isso que vocês estão pensando). Como vocês podem ou não imaginar, isso foi muito traumatizante pra mim.

De pequenininha eu só lembro mesmo dela fazer tudo. Depois de mais velha, muito ocasionalmente eu dava uma ajuda, mas não sem engolir muita revolta pela injustiça de ter que fazer aquilo porque eu era menina enquanto meu pai, que sempre teve dois braços e duas pernas muito saudáveis, ficava com a bunda sentada no sofá aproveitando a posição de ser superior que a sociedade patriarcal lhe deu. Pior do que essa frustração, só mesmo quando eu fazia algo voluntariamente, gastando o bom humor que sempre foi meio escaço na minha pessoa, e era obrigada a ouvir o tão famigerado…………………………………….

JÁ PODE CASAR.

tnc

Nossa, meu sonho, muito obrigada pela sua permissão.

A vida seguiu, o mau humor e a frustração continuaram comigo, mas aos poucos fui adquirindo um tiquinho de bom senso. Esse bom senso me fez ver que, mesmo SENDO inegavelmente injusto que eu tivesse que ajudar POR SER MULHER enquanto os seres humanos com pintos podiam fazer o que bem quisessem, também não era muito justo o outro ser humano com vagina da casa fazer tudo sozinha enquanto esse ser humano aqui que também vivia e bagunçava o referido lar sentava a bunda no sofá como forma de protesto político (que prejudicava absolutamente ninguém além da outra que continuava fazendo tudo sozinha). A partir daí eu juro que me esforcei pra ser um pouco menos babaca, mesmo reservando uma cota de “vai você”/”manda seu filho” para os “vai ajudar sua mãe” nossos de cada dia (principalmente nos momentos de TPM). Sim, eu trabalho com desaforos.

Mas aí, né, eu me mudei. E além de ter prioridades pro meu dinheiro do que economizar as três horas ou menos por semana que eu gasto mantendo tudo mais ou menos limpo e organizado (trabalho que Letícia — miga, se tiver lendo isso, eu ainda te amo bjas — nem sempre facilita), coincidiu de eu ler e refletir sobre o quão escravocrata (e ridículo) é você contratar outra pessoa especialmente pra limpar a SUA sujeira. A solução que sobrou foi nada além do óbvio: limpar minha própria sujeira. Foi assim que eu descobri os milagres terapêuticos de uma boa faxina — e também que ser dona de casa não é ruim por si só.

(Só pro registro: permaneço abominando a frase JÁ PODE CASAR. Evitem pronunciá-la na minha presença. Grata.)

Não vou me dar uma glória que não possuo: não chego do trabalho depois de nove horas de cansaço mental cheia de energia e empolgação pra limpar nada. Dificilmente eu começo os trabalhos sendo a mais feliz das criaturas, a história costuma ser mais ou menos a mesma toda vez. No começo, havia sujeira. Mal acostumada pela mamãe, eu não SUPORTO (toda vez que eu uso Caps Lock podem me imaginar levantando a voz, sim) viver no meio da sujeira. Eu tento mentalizar, mas a sujeira não vai embora sozinha. Escolho uma música, cato a vassoura e lá vamos nós.

Assim que eu começo, uma mágica se opera. O suor começa a escorrer (Rio 40º, sabem como é), mas a visão da sujeita indo embora e a ansiedade pelo cheirinho de limpeza são hipnotizantes e quando eu me envolvo, eu não consigo parar e o tempo apenas voa. Não é divertido, mas é catártico. Então antes do que você espera tá tudo limpo e cheiroso e nenhuma definição é mais adequada ao sentimento que toma conta de mim nesses momentos do que: paz de espírito. Eu estou invariavelmente leve e feliz, com a autoestima elevada.

Juro que não é exagero. Eu faxino meu subconsciente enquanto eu faxino Edna, o apartamento. Quando eu termino, todas as ideias erradas, toda a bad, toda a TPM simplesmente se foram. O cheirinho de limpeza vem de dentro e de fora (mesmo porque o último ato da faxina é sempre me atirar debaixo do chuveiro gelado). Eu me jogo na minha cama (apesar de ela sempre ser arrumada no meio da ação), com o solzinho entrando pela janela (as melhores faxinas são feitas de manhã, anotem), sentindo o cheirinho do incenso (nenhuma faxina está completa sem um incenso), com uma nova trilha sonora (mais relaxante que a anterior). E por um curto período de tempo absolutamente nada está errado no mundo. É uma das melhores sensações que existem.

Isso quer dizer que JÁ POSSO CASAR? Que vou ficar feliz e realizada mantenho a casa arrumada enquanto meu querido marido (nas fantasias machistas, obviamente que a outra parte é sempre um macho) senta a bunda no sofá com a serenidade de quem já nasceu com a vida ganha? RISOS. Só se vocês não me conhecessem, né, amadas. Fiquem bem tranquilas que, se um dia eu resolver dividir minha vida com alguém, ficarei bem feliz em dividir também com essa pessoa os efeitos terapêuticos da faxina. Como faço agora com Letícia. Não vou querer ser egoísta e ficar com a diversão toda pra mim.

Mas, olha, que é muito boa a sensação de casa limpa, a paz de espírito e, talvez principalmente, a sensação de autossuficiência que eu sinto depois de uma boa faxina, é sim. Recomendo.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

A paz de espírito de quem limpa a própria sujeira.

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9 Comments

  • Reply Natália Oliveira 3 de abril de 2016 at 19:45

    Uma vez meu avô disse que eu já podia casar. Eu respondi que estaria pronta quando ele fosse junto comigo pra lavar as cuecas do boy. Momentos…
    Eu também tenho uma relação libertadora com a faxina, mas a minha envolve muita procrastinação antes. Só começo a limpar quando a poeira começa a se tornar visível e quando não posso ligar o ventilador sem me perder numa nuvem de poeira gigante. Mas quando começo, não paro nunca. Esse fim de semana mesmo, resolvi que ia tirar a poeira da minha escrivaninha. Acabou que tirei tudo do lugar, reorganizei as gavetas, aproveitei pra limpar o guarda-roupa, tirar uns papeis antigos da faculdade e jogar fora uma quantidade gigantesca de lixo que eu estava guardando só Deus sabe porque.
    E agora que você falou, a bad ficou bem menor depois dessa faxina toda. O foco na faxina não deixa a gente pensar nos problemas.
    Bjs

  • Reply Plan 3 de abril de 2016 at 20:19

    Amiga, é muito bom fazer faxina mesmo. Aqui em casa, no entanto, a minha faxina se resume ao meu quarto e o banheiro, porque a casa é gigante e as tarefas são divididas. Mas sei que quando for morar sozinha (ou com flávio) essa vai ser uma das atividades mais terapêuticas ever. Com banho gelado no fim e incenso, claro.
    Lavar um monte de louça também ajuda. Muita gente deveria praticar, inclusive né não? Hahahaha
    Te amo! <3

  • Reply Banana 3 de abril de 2016 at 23:51

    Amiga, também me transtorna esse negócio de eu ter que fazer as coisas porque sou mulher. Imagina na minha família, com 1928391 tios, depois de um almoço de domingo ter que ouvir aquele famigerado: A LOUÇA VAI FICAR PARA AS SOBRINHAS, rsrsrs. Azar o deles que a vida me estragou e que ao invés de fazer isso eu saio batendo boca com todo mundo e falando que só encosto na pia se os SOBRINHOS QUERIDOS lavarem os próprios pratos também. Todo mundo me ama lá na casa da vovó, você não faz ideia 🙂
    Agora: só fiz uma faxina na minha vida não que eu confie muito nela, mas to aprendendo, né? Foi legal porque eu e o boy fizemos tudo juntos, e foi na casa dele, e eu fiz tudo isso após descobrir que SIM, sou mais parecida com a minha mãe do que imaginava e de fato não estava mais suportando viver no meio da sujeira. Fiquei muito feliz no início, muito cansada no meio, e totalmente realizada no final, de cabelo lavado, deitada na cama embaixo do ventilador, abraçadinha com o menino e sentindo no ar aquele maravilhoso cheiro do veja multiuso. O paraíso existe – e ele é uma casinha limpa <3.
    Te amo!

  • Reply Sharon 4 de abril de 2016 at 00:38

    Amiga, eu me sinto uma pessoa ridícula e completamente despreparada pois nunca fiz uma faxina de verdade. Até meu quarto, que é meu, só meu (dã), eu nunca limpei de verdade. Arrumo o armário de vez em quando, outro dia organizo os livros, no outro arrumo as gavetas e por aí vai. Mas limpar chão é um troço que só minha mãe faz, por exemplo (eu sei, sou ridícula, dsclp). No entanto, eu sempre escuto esse papo de “já pode casar” quando cozinho. Porque, modéstia à parte, eu cozinho até bem, e apesar de não entrar com muita frequência na cozinha, sempre que resolvo fazer alguma coisa pra família inteira, escuto pelo menos um “tá de parabéns, já pode casar”. Mas pera: eu posso casar por que eu sei cozinhar? Por que eu sei fazer uma faxina? Por que eu já sei passar roupa? Que estranho, achei que eu estaria pronta pra casar quando EU QUISESSE casar, SE eu quiser casar. As pessoas precisam evoluir (e eu pretendo aderir à faxina em algum momento).

    te amo <3

  • Reply Patthy 4 de abril de 2016 at 10:10

    Sempre senti essa revolta de ter que fazer as coisas simplesmente porque sou mulher. Minha mãe sempre falava para eu fazer serviços domésticos e, quando eu questionava porque eu tinha que fazer enquanto meu irmão nada, ela dizia que era porque eu sou mulher. Passei por essa fase também de ~protestar~ não movendo um dedo, até que me dei conta do mesmo que você: não era justo eu fazer as coisas porque eu sou mulher, mas era menos justo ainda deixar tudo nas costas unicamente da minha mãe. Hoje, ao menos tento cuidar das minhas próprias sujeiras/bagunças, assim não jogo a responsabilidade para ela nem escuto que tenho que ajudar a guardar o bando de coisa jogada pela casa porque tá cheio de coisa minha – porque não tá.

  • Reply Larissa 5 de abril de 2016 at 17:17

    Me identifiquei com a sua revolta. A maioria dos homens da minha família, com exceção do meu irmão, acham que a obrigação da casa é toda da mulher. Hoje eu vejo que não adianta muito lutar contra isso, porque a culpa de ainda existir homens que pensam assim é justamente pela maneira como a mãe criou – e, infelizmente, as mulheres mais velhas foram criadas na base do machismo. Meu irmão teve uma criação diferente, pois desde criança minha mãe dava algumas obrigações (como lavar banheiro, arrumar o quarto, limpar a cozinha), e hoje ele ajuda a esposa a cuidar da casa e do filho. Acho que essa mentalidade atrasada só vai mudar através de nós, que somos mulheres com outra cabeça, quando tivermos nossos filhos. Aí sim, vão existir homens mais solidários.

    P.S.: Eu tenho mania de limpeza, então, mesmo quando eu era casada, pegava a parte da faxina para mim. Era a única tarefa que eu fazia questão de ser só minha, as outras coisas chatas era na base da divisão.

  • Reply Alessandra 5 de abril de 2016 at 18:01

    Nossa miga, MORRO DE PREGUIÇA DE FAXINA, gsus! Pior coisa é lavar o banheiro, aspirar, tirar o pó, passar um paninho ainda vai porque é o mínimo necessário, mas AFFÊ.
    Acho essa frase bem escrotona hoje em dia, mas já falei várias vezes pras amigas e inclusive pra mim mesma… Mas faz um tempo uso pra alfinetar os homi tudo haha e depois de uma desilusão amorosa casar não tá nem perto do fim da lista! Mas entendo seu sentimento de leveza de espírito porque é o que eu sinto quando arrumo meu armário, no começo é um martírio, mas sempre termino tudo umas toneladas mais leve, ainda mais depois do banho gelado!

    beijo!

  • Reply Nana 6 de abril de 2016 at 17:53

    Ai, ai ai…sei bem como é isso. Eu sempre gostei de tudo arrumadinho e cheirosinho, mesmo solteira. Meio que me sentia na obrigação de ajudar em casa, já que mammy deixava comida pronta e roupa lavada todos os dias. Agora que tenho meu cafofo, estou tentando não virar a neurótica do paninho.

    Obs: Mudei o endereço do blog. Me segue lá!
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://nanaeosamigosvirtuais.blogspot.com.br/

  • Reply Carolina 7 de abril de 2016 at 20:38

    Fugindo um pouco do tema do post, mas nem tanto: eu gosto de me aventurar na cozinha de vez em quando (não quer dizer que eu seja boa nisso, mas enfim) e só a deusa sabe como é absolutamente frustrante, depois de duas horas com a barriga no fogão, cortando, mexendo e me fazendo em vinte pra fazer o que o tastemade faz parecer tão fácil, ter que ouvir o famigerado “já pode casar” COMO SE existisse algum macho nesse mundo que valesse os pedaços de dedo cortados nos meus pratos mais do que euzinha. Esse mundo é louco.

    E nossa, sim sim SIM, nada se compara aos prazeres de uma casa limpa e cheirosa. Meu problema é só arranjar forças pra levantar a bunda e pegar as vassouras, mas sofro desse mesmo mal de só conseguir parar depois que estiver tudo brilhando hahahah por sorte minha roommate e eu vivemos na mesma vibe de tolerância de bagunça. É aceitável e dá pra viver até certo ponto, depois disso, as duas desmontando sofá meia noite porque ninguém aguenta mais hahahah

    Beijo!

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