Pessoal

Meu mar de tranquilidade

Aparentemente, meu objetivo na vida é confirmar todas as suspeitas do mundo de que eu sou louca e mandar todos correndo para as colinas. E esse blog com certeza é uma arma importantíssima nessa luta. Então, depois de já ter deixado bem claro aqui que (a) sou perfeccionista e (b) sou chata, agora vim dividir um problema que se aproxima ainda mais da insanidade: não sei diferenciar realidade e ficção.

Não é que eu não saiba distinguir o que acontece no mundo “real” e o que acontece no mundo “ficcional”. Um grande indício é que tudo por lá é mil vezes melhor que aqui, até as coisas ruins. Mas enquanto minha cabeça (por enquanto) faz muito bem essa distinção, meu emocional obviamente não faz.

Eu não sinto as coisas como se estivessem acontecendo com amigos meus. Eu sinto como se tudo tivesse acontecendo comigo. E como vocês com certeza ainda não conseguiram conceber a extensão concreta do que eu estou falando, vou dar o exemplo do livro que estou lendo agora.

The Sea of Tranquility (O Mar da Tranquilidade – lançado mês passado no Brasil pela Arqueiro), já ouviram falar?

Resumindo: é um livro sobre uma guria que passou por um acontecimento muito horroroso na vida dela e começou a considerar que a pessoa que ela era antes daquilo morreu. Desde então ela está claramente deprimida, evita a todo custo se relacionar com outras pessoas e — adivinhem — parou de falar (não sei se pode ser considerado spoiler porque só é revelado depois de algumas páginas do livro e me pegou de surpresa, então achei melhor deixar “invisível”, lê quem quer). Sim. Então, se vocês forem espertos, já devem ter começado a imaginar o que aconteceu comigo.

Para quem não acompanhou, o que aconteceu comigo foi: senti uma necessidade imensa de me comunicar com pessoas (e eu nunca senti isso na minha vida, seriously) e, ao mesmo tempo, toda vez que leio por muito tempo sinto uma angústia incrível se sou obrigada a falar. Falar, ponto. Pode ser um sim ou não em resposta a um “quer água?”. Parece que tem um pedaço de angústia sólida entalado na minha garganta.

É, louca nesse nível.

O pior de tudo é que esse tipo de internalização do sentimento alheio só aumenta o que quer que eu esteja sentindo no momento. Porque eu inevitavelmente só me apego a livros que reflitam de alguma forma meu estado de espírito no momento. E definitivamente deve ter havido momentos melhores na minha vida para ler esse livro (racionalmente falando).

Já correram? Se não, pode deixar que em breve eu arranjo mais algum podre meu para dividir. Vocês não podem me vencer nessa.

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3 Comments

  • Reply Anna Vitória 12 de outubro de 2014 at 20:18

    Palo, o que pra você é loucura, eu acho que é uma das melhores partes do nosso relacionamento com ficção. Acho que, por piores que sejam os efeitos colaterais, sentir sempre vai ser melhor que não sentir. Acho que é por isso que eu adoro tanto histórias de terror, porque elas te levam a ter reações físicas, sair da sua zona de conforto e se entregar de um jeito suficiente pra acreditar numa coisa que você tem certeza absoluta que não existe, sabe?

    Pode ser meio incômodo às vezes, e eu bem sei que tem horas que realmente bate essa vontade de ser “normal” e não se importar demais (tipo quando eu li Crime e Castigo e fiquei tão perturbada que nem conseguia dormir), mas prefiro ser uma pessoa que para de falar ou fala demais por causa de um livro do que aquela que reage com cinismo diante das histórias e solta um “ah, até parece que na vida real é assim”.
    beijos <3

  • Reply Ana Luísa 13 de outubro de 2014 at 09:18

    Passarinha mi amor, essa minha quedinha (melhor dizendo, todo um tombo) pela ficção arruinou minha vida real, porque ela nunca se equipara. Acho que desde que, aos 3 aninhos, viciei em Cinderela que eu fico sentada esperando uma chance de ir ao palácio e encontrar um grande amor. Calcule o tamanho deste erro.
    Acontece que, como disse a Anna, assumo a merda e não me livro dela porque absolutamente não sei – e não tenho vontade de – viver sem ficção. Seria uma pessoa completamente diferente, talvez até melhor, mas não largo esse meu lado. Eu gosto de sofrer. HAHAHA
    Te amo! <3

  • Reply Mayra 19 de dezembro de 2014 at 00:58

    Se isso é loucura, também tenho essa doença! E morro de angústia porque quando leio livros muito intensos, tendo a querer escrever de maneira semelhante às falas dos personagens. Eu sou hiper influenciável. Se o livro é grande e demoro muito pra ler, parece que aquele personagem vai entrando em mim e daqui a pouco eu tô conversando comigo mesma na rua imaginando o que o personagem x estaria fazendo naquela situação. Pior mesmo é quando leio livros tristes. Eu adoro eles, mas os odeio TANTO! A depressão pós livro triste só termina uns três ou quatro livros depois e basta eu lembrar do título do livro, pra toda a agonia voltar!! Não entendo como há pessoas que vivem sem literatura, é tão mais fácil encarar a realidade depois que você fica tão intensivamente enclausurada nesse mundo fictício que as vezes é simplesmente real demais!!!

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