Pessoal

Mike (2005 – 2011)

Mike, um Condor C30
Eu me lembro bem o dia que fui comprar o Mike. Ele foi meu presente de aniversário quando eu fiz 13 anos. Eu comecei a ter vontade de tocar com a Naty, minha amiga. Parecia tão legal que eu pedi um violão para a mamãe. E ela disse sim.
Foi assim o começo da vida do Mike. Era sábado e nós íamos ao centro da cidade atrás dele. Nessa época ele não tinha nome nem aparência, era só uma ideia. Acordamos, nos arrumamos. Lembro que o vovô estava aqui em casa. ele perguntou:
“Por que não um piano?”

“Porque ia ficar difícil de trazer no ônibus”, minha mãe respondeu por mim. Não tinha explicação. Eu pedi um violão, a gente ia comprar um.
Pegamos o ônibus e fomos parar no centro deserto do Rio de Janeiro em pleno sábado, com a difícil missão de achar um violão para canhotos (porque até nisso eu prefiro ser pouco convencional).
Quem já passou por essa experiência, sabe o quanto é inacreditavelmente e absurdamente difícil achar um desses, e como eles são sempre mais caros que os “normais”. E nisso nós rodamos e rodamos um milhão de lojas diferentes. Até que chegamos naquela. Aquela que tinha um clarinho, como eu queria, de uma marca boa para iniciantes (apesar de não ser aquela marca) e que estava dentro das possibilidades. Bem, ele não era de canhoto, mas era ELE. E o vendedor fez o favor de inverter para mim a posição das cordas.
Ele era perfeito e era meu. Feliz da vida eu e mamãe pegamos uma van e fomos para a casa da minha tia, onde a família estava esperando. Meus primos mais novos não eram nem nascidos ainda.
Com eles eu passei por um professor que eu não lembro nem mais o rosto, pela Naty – que me deu aula por um bom tempo a um preço bem módico – e pelo Hugo, que eu fiz até um drama quando foi embora. Ele foi pra mim um elo com pessoas importantes. Ele foi a razão de aulas semanais muito legais, apesar de eu nunca ter me dedicado como eu deveria. E, a despeito de eu e ele não termos passado tanto tempo juntos desde que o Hugo foi embora também, ele era muito importante para mim.
E era só isso. Uma ligação normal entra uma menina e um objeto inanimado, até sábado (ontem).
Fui arrumar meu quarto e, como Pedro, o namorado, só devia chegar lá para meio dia, resolvi pegar o Mike para me desculpar por ser tão relapsa e matar um pouco a saudade.
Logo que o tirei da capa não percebi qual era o problema dele, só vi que tinha algo errado, as cordas me diziam isso. Fui subindo meu olhar pelo braço, até que vi o que tinha acontecido. O desaparecimento súbito da última faxineira finalmente fez sentido. O Mike tinha sido decapitado. Literalmente. A única coisa que segurava a cabeça no braço eram as cordas, e era por isso que elas estavam estranhas.
Só lembro que eu gritei pela minha mãe. Ela achou que tinha um bicho. Imagino que tenha sido um grito meio desesperado. Depois deitei ele no chão do corredor e chorei, de verdade, soluçando igual a uma criancinha. Muito alto. Foi um bom tempo até eu conseguir passar dos soluços histéricos para um choro normal.
A mamãe queria me consolar. “Mamãe vai comprar outro”, ela ficava repetindo “um melhor, porque agora a mamãe tá ganhando mais”. Ela falava comigo como se eu tivesse exatamente a idade condizente com o meu comportamento naquela hora. Mas ela não entendeu que minha crise não era de materialismo. Outro – ótimo -, um melhor – maravilha. Mas esse não ia ser o Mike. O meu Mike. Ele era especial.
Passei o dia todo chorando como se alguém tivesse mesmo morrido. E até agora quando olho para “o corpo” estirado na sala me dá vontade de chorar. Nesse momento eu estou  de fato, chorando. Eles acham frescura. Mas ele era especial pra mim, tinha um significado que nenhum violão novo – nem mesmo um “melhor” – vai ter.
Esse é um tributo ao Mike. Para ele saber que mesmo que outros violões venham, eu nunca vou esquecer dele. Porque ele foi o primeiro, e nenhum outro vai estar comigo em tantos momentos bons.
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2 Comments

  • Reply Tary ♥ 24 de junho de 2011 at 10:06

    Poxa que triste! Eu não posso te julgar em nenhum momento porque vivo dando nomes e amando objetos inanimados também. E não sei o que faria se isso acontecesse a um deles. Te entendo muito, muito, você não faz ideia do quanto! E espero que você fique bem. Beijo :*

  • Reply Rúvila Magalhães 26 de junho de 2011 at 16:40

    Ah, Paloma, que coisa mais triste!
    Aconteceu a mesma coisa com meu violão mas eu não tive uma história deste jeito com ele, fiquei muito triste por você, sério!
    meus pêsames.

    beijos

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