Pessoal

Millennial

Estou empacada mais uma vez e junto comigo, o blog. Eu entro aqui de quando em quando só pra ficar olhando para ele, acho a cara linda, as teias de aranha tristes, e então vou embora. Tive um post esse mês, um mísero post órfão em outubro, dois em setembro. Eu podia culpar o BEDA, eu podia culpar a vida, eu podia culpar as estrelas, eu podia culpar os hormônios (faço isso sempre, inclusive), mas a verdade única e exclusiva é que a culpa é toda minha.

É que eu estou naquele lugar de novo. (Não aquele lugar “feio” que vocês estão pensando, cresçam.) Aquele lugar em que as mudanças mais recentes já deixaram de ser novidade e absolutamente tudo parece só muito normal e muito chato. Ainda amo Edna, o apartamento, e tomar conta da minha vida, mas a empolgação passou. Parece que faço as mesmas coisas no trabalho todos os dias há três anos e meio e sinto meu cérebro literalmente encolher diariamente. Resolvi voltar a estudar (pra mil coisas diferentes), mas quem disser que isso é empolgante vai levar um murro — e ainda por cima é complicado encontrar a energia mental quando eu passei o dia lutando pra me convencer que meu cérebro não está com tamanho e aparência equivalentes a uma uva passa (que por sinal, eu odeio).

minhavida.jpg

minhavida.jpg

Eu preciso de novidades, preciso sentir que estou evoluindo na vida. Ou pelo menos que não estou parada no mesmo lugar. Então achei que era hora de tomar vergonha na cara e finalmente virar vegana. Foi ótimo, aliviou a consciência, me deu grupos divertidíssimos no facebook e uma pá de receitas para testar (para quem não sabe, adoro cozinhar). Mas não supriu meu vazio existencial de classe-média branca sofredora.

Eu queria, sei lá. Chutar o balde e largar tudo. Viajar o mundo de carona num navio cargueiro. Renunciar à sociedade de consumo e ir viver em uma comunidade autossustentável no interior do Mato Grosso. Vender arte na praia (depois de aprender a fazer arte). Fazer trabalho voluntário em lugares remotos do mundo. Trabalhar em uma ONG que defenda mulheres. Cruzar a América toda a pé. E depois escrever um livro imenso sobre tudo o que eu vi e vivi na vida. Porque meu maior pavor é morrer sem ter feito coisas suficientes para encher pelo menos quinhentas páginas que não façam as pessoas dormirem.

Eu vivo antecipadamente todo tipo de coisas incríveis na minha cabeça, me apaixono por pessoas que nem existem em carne e osso, ajo como alguém infinitamente melhor do que eu sou aqui e agora. Na vida real eu tenho um apartamento para limpar (em pleno 2015 era de se esperar que já existissem robôs para fazer isso pra mim), marmitas para preparar (quem mandou virar vígãn?), contas para pagar, milhares (literalmente) de páginas para estudar, e uma peixa para alimentar (e quem sabe em breve uma gata também). Tudo isso com breves intervalos para assistir Além do Tempo, Grey’s Anatomy e Mastercheff Jr.

Olho pro blog — vazio, abandonado e cheio de potencial desperdiçado — e vejo uma grande metáfora da minha vida.

Não bastasse tudo isso, eu ainda gasto tempo e energia preciosos me sentindo muito mal por reclamar da vidinha privilegiada (e realmente boa) que eu tenho. Que direito tenho eu?

Aqui deveria entrar alguma grande reflexão sobre as características da minha geração e como essa eterna insatisfação só pode fazer com que nós terminemos eternamente infelizes, ou quem sabe o oposto, que essa eterna insatisfação é o que faz com que a gente siga em frente fazendo todo tipo de coisa louca que às vezes dá certo no final. Mas me falta ânimo. Me falta estímulo e eu genuinamente não estou afim. Então vamos todos nos afogar na minha melancolia elitista e apreciar o fato de que pelo menos tem post novo no blog. A gente faz o que dá.

Previous Post Next Post

You Might Also Like

10 Comments

  • Reply Larie 19 de novembro de 2015 at 22:31

    Ai, Palô, me senti tão representada nesse texto. Ando meio blé com a vida também, mas não tenho como reclamar porque a vida é boa. Muita gente queria estar no meu lugar e eu aqui só me deixando afundar num poço sem fundo de melancolia. VAI ENTENDER A HUMANIDADE, né?

    Também quero fazer coisas e foi por isso que entrei no curso de alemão, mas tô apanhando feio HAHAHA. Inventei moda de que queria fazer ballet e começar a correr. Vai que esse desânimo é falta de esporte? A internet diz pra tentar por aí.

    Acho incrível que você e Giu se renderam ao veganismo. Deve ser bem complicadinho mesmo lidar com as marmitas, afinal, AINDA não é todo lugar que tem um restaurante voltado pra isso. Mas sinceramente acho que em uns três anos o comércio será tomado porque tenho a sensação de que várias pessoas tão aderindo ao movimento. Quem saiba eu consiga um dia também?

    <3 Torcerei pra esse marasmo passar logo e você vir aqui pra postar coisas empolgantes. Enquanto isso ~curta~a fase do jeito que dá!

    beijos, amiga <3

  • Reply Bolinho 20 de novembro de 2015 at 16:14

    Não vamos falar de quem arrumou emprego e comemorou tendo uma crise de ansiedade e tirando uns cochilos. Eu te amo, e li tudo, e também sou branca mimada, então me identifiquei. O bom de ser millenial é isso: estamos todos juntos nessa cilada da insatisfação.

    Te amo!

  • Reply patricia 20 de novembro de 2015 at 23:53

    O que dizer? Queria me identificar menos!! Se não tem uma novidade o tempo todo começa a crescer dentro de mim uma inquietação bizarra e já sei que é a insatisfação aparecendo de novo pra me deixar meio bolada e deprimida com a vida. Ai eu vou catar um outro idioma pra aprender, um esporte pra fazer, uma nova série pra acompanhar, qualquer coisa que me deixe quieta por mais um mês, até aquela sensação desagradável aparecer de novo. Mas no fim o que eu queria mesmo era olhar pra minha rotina de sempre e achar tudo maravilhoso sempre. Procure a cura e fique rica com ela por favor!!

  • Reply Chiquinha 21 de novembro de 2015 at 20:27

    Amiga! Esse post! Me senti plenamente representada por ele e quero te abraçar agora, como faz? Acho que nossa geração tem a cabeça meio zoada por conta do excesso de tecnologia, e aí nossa atenção fica tão fragmentada que isso se reflete na vida. E a gente cresceu ouvindo que pode ser e fazer tantas coisas que é TÃO DIFÍCIL sossegar a bunda num lugar só e aceitar que é isso mesmo que a vida oferece. Não sei se acho isso bom ou ruim, depende muito do dia. Nos últimos dias eu também só quero fugir, amiga. Vamos? Nenhuma perspectiva de futuro me parece melhor do que a ideia de ir pra bem longe, correndo atrás de pontos turísticos bizarros nos Estados Unidos, conversando com estranhos em bares por aí, ou então vendendo suco de melancia (?) em alguma praia da Bahia (porque me conhecendo bem sei que arte não vai rolar). Foge comigo, nem que seja dentro da nossa cabeça?
    te amo!

  • Reply Sharon 22 de novembro de 2015 at 21:21

    “Porque meu maior pavor é morrer sem ter feito coisas suficientes para encher pelo menos quinhentas páginas que não façam as pessoas dormirem.” Amiga, pelo amor de deus, me abraça agora. Melancolia elitista talvez seja o sobrenome da nossa geração e, se assim não for, é pelo menos meu nome do meio. Não sei se é o excesso de expectativa, se são as inúmeras possibilidades, sei lá, não sei mesmo. Queria muito poder sair correndo às vezes, e me dá um desespero enorme quando me olho no espelho e percebo que minha vida não é exatamente como eu queria que fosse. Tudo bem não ter ela inteira no lugar, mas não é difícil me pegar pensando que não foi nisso que apostei as minhas fichas. Me sinto meio enganada, sabe assim? Queria que as coisas ficassem um pouquinho mais fáceis, que tudo bem a gente continuar limpando a casa, pagando contas e não fazendo nada quando não quisermos fazer nada, mas que a vida pelo menos rendesse mais capítulos interessantes do que aqueles que fazem qualquer um dormir.

    Sei lá, só queria poder fugir mesmo.

    te amo <3

  • Reply Analu 25 de novembro de 2015 at 13:27

    Amiga, só agora que vi esse texto, porque não basta virar uma péssima postadeira: eu acabo virando também uma péssima mimadeira. 🙁
    Se você tá sentindo sua vida vazia, imagina eu que tô sem trabalhar no momento e me sentindo inútil, além de tudo? Quando eu trabalhava eu me sentia uma fraude, agora me sinto inútil. Essa nossa geração gosta de problematizar demais a vida e aí a gente acaba aqui: olhando o vazio e nos sentindo ocupando espaço no mundo sem fazer nada interessante. Me abraça?
    Te amo.

  • Reply I’M NOT OKAY (I PROMISE) ◂ Starships & Queens 30 de novembro de 2015 at 20:15

    […] colocar numa balança, acho que é uma média até bem honesta. Esses dias a Palo escreveu sobre estar naquele lugar em que as mudanças mais recentes já deixaram de ser novidade e absolutamente …, sobre nossa eterna insatisfação com a vida, e como isso interfere na frequência com que a gente […]

  • Reply Carol 4 de dezembro de 2015 at 21:16

    “eu podia culpar as estrelas…” ba dum tss hahahah
    Olha, se eu contar quantas vezes já me senti como você. Tem horas que parece que a vida dá uma estagnada, né? A gente entra no piloto automático e só segue o fluxo. Às vezes a gente precisa é de adrenalina.
    Mas calma que tudo passa. Até a uva.

  • Reply Alessandra Rocha 16 de dezembro de 2015 at 07:07

    Quanto tempo não passo aqui!
    E você acabou de resumir minha vida no momento pássara, e olha que tô no trabalho “novo” há seis meses, mas já to no marasmo da mesmice ):
    Também queria largar tudo, não precisava nem ir viajar o mundo, só ir pra Europa tá bom… A vida aqui no Brasil tá muito complexa e eu sinto uma cobrança de “ser alguém” e de ter “sucesso” muito maior aqui do que eu sentia em Dublin e é meio claustrofóbico. Acho que a culpa é das redes sociais. Enfim, sei que a vida é boa, mas a grama do vizinho é sempre mais verde né?

    Saudade d’ocê <3

    beijo!

  • Reply Sandra Paula Tiemi de Souza Horie 26 de janeiro de 2016 at 13:28

    Conheci os blogs de vocês através do da Analu. Mas este seu post tem muito de mim. To com aquela sensação do “todo dia ela faz tudo sempre igual”. E ainda fico atravancando muito mais a minha vida em função de uma crise do pânico que às vezes está ruim, outras muito pior. Não faço nada que vá muito além da minha zona de conforto. Sofro pelo que farei e pelo que deixei de fazer. To igual a você “sofrendo pela classe média branca”. Também tenho um apartamento pra limpar – coisa que não faço, pago uma Sra. de 15 em 15 dias para fazer por mim uma vez que detesto fazer isso – e também não posso me queixar: morar em SP e ir andando para o trabalho é quase como acertar na loteria de prêmios menores – sendo bem honesta, atravesso a rua.
    Ao contrário de você, não gosto de cozinhar. E preciso, urgentemente, emagrecer. Virar vegana, talvez fosse uma tentativa.
    Obrigada por escrever, por postar. Muito obrigada.

  • Leave a Reply