Pessoal

O mundo gira, superem

Tá todo mundo falando do caso da Essena O’Neil e das várias questões filosóficas envolvidas no tema. Só isso já é suficiente para eu não ter nenhuma vontade de falar sobre nada, porque eu abraço minha personalidade do contra. Mas então Anna Chicória e Gabriela Pudim (sou amiga coruja e talifã sim) fizeram textos ótimos, e Chicó indicou links ótimos que resolvi ler, e alguns desses textos me inspiraram, e uma coisa levou à outra, e aqui estou eu. Mas ainda não quero falar sobre a Essena, então vamos falar sobre outra coisa? (Vocês já deviam estar acostumados com o fato de que minhas introduções normalmente têm apenas uma remota relação com o assunto do resto do texto. Resumindo, eu podia ter começado no próximo parágrafo, mas aí não seria eu. E também precisava indicar esses textos ótimos.)

Um fim de semana desses da vida eu fui almoçar em família na casa de uma das minhas tias-avós. Eu não sei por que motivos ainda faço isso, já que 95% eu acabo criando polêmica e fazendo discurso político/feminista/LGBT-friendly e sendo julgada, mas o relevante é que eu estava lá. O grupo super homogêneo era composto pela minha avó, duas irmãs delas, os filhos delas (da mesma geração dos meus pais), meus pais, uma prima da minha geração com o namorado, meu irmão com a minha cunhada, eu e os “babies” — minha priminha de 4 anos e meu priminho de 10 (11?).

Obviamente que o menino não tinha como ter nenhuma vontade de interagir com esse grupo amado porém completamente aleatório. Então, logicamente, ele passou o dia inteiro na santa paz de deus fazendo sabe-se lá o que no computador. Nada muito diferente do que eu fazia nessa idade.

Chegou a noite e a mãe dele resolveu que ele precisava comer alguma coisa e sair do computador. Na cozinha, duas idosas e mais a mãe dele. Obviamente não demorou muito a começar a velha história de sempre.

“Só vive no computador, não quer saber de mais nada,” DELE, Avó.

“Fica nesse desespero porque dia de semana tem horário para o computador, vou ter que colocar regra fim de semana também,” DELE, Mãe.

“As crianças hoje em dia só querem saber de internet, ninguém interage mais,” AVÓ, Minha.

Considerando que havia um total de zero crianças da idade dele e que o ele já está meio passado da idade de brincar de bonecos, eu me pergunto o que em sã consciência se espera que coitado passasse o dia inteiro fazendo.

Passemos desse ponto. Consideremos que ele estivesse jogando um jogo pela internet com pessoas em qualquer outro lugar do tempo-espaço (como eu acredito que estava porque sou fofoqueira e bisbilhotei): o que estava fazendo ele se não INTERAGIR? Essa é uma questão. A outra questão é qual a diferença real se ao invés de jogar no computador com pessoas distantes ele estivesse jogando um jogo de tabuleiro com amiguinhos na sala de casa.

A diferença é: nenhuma. Exceto que ele ouviria muito menos reclamação, com certeza. Porque a internet está aí e qualquer lugar é a sala de casa.

Com a internet, eu posso estar por dentro da vida das minhas amigas e debater tudo e qualquer coisa com todas ao mesmo tempo todos os dias, e não a cada lua cheia quando a gente se encontra (ou nunca, porque sem internet a gente não teria se conhecido). Porque claro que estar com elas ao vivo e abraçar e andar de mãos dadas é incrível e maravilhoso, mas ainda assim eu fico muito satisfeita com a possibilidade de mandar foto dos pães-sem-queijo que eu acabei de fazer e que estão lindos, só porque estou muito orgulhosa do resultado de mais uma das minhas aventuras na cozinha. A grande novidade é: uma coisa não exclui a outra.

A internet e as redes sociais não nasceram para separar ninguém, muito pelo contrário — como o próprio nome já diz. Elas dão a oportunidade de participar de forma muito mais constante e completa na vida dos amiguinhos, e — em outra escala — até de desconhecidos também (e é nesse ponto que o meu texto e os das amiguinhas que eu indiquei lá em cima se complementam — porque parece que a gente vê tudo, quando só vemos uma parte selecionada e cuidadosamente editada desse tudo). Então quando meu priminho passa o dia inteiro no quarto enquanto o almoço de família rola no quintal, ele não está sendo antissocial e se isolando do mundo, ele só tem muito mais interesse em interagir com uma parte do mundo que provavelmente não inclui pessoas com meio século a mais de vida do que ele. É a vida, são os novos tempos. Superem. Aceitem.

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8 Comments

  • Reply Analu 6 de novembro de 2015 at 20:03

    Amiga, essas gerações dos nossos pais (e avós!) tem muito que aceitar logo pra doer menos essa questão do virtual, né? Como a Anna disse, é dar murro em ponta de faca INSISTIR que existe essa fronteira entre virtual/real, quando há muito sabemos que já está tudo muito bem misturado. Colocando uma boa dose de filtro (o famigerado senso crítico) no que a gente vê pela internet tudo dá certo. Inclusive a melhor amizade do mundo, hehe.

    Te amo!

  • Reply Plân 6 de novembro de 2015 at 22:28

    Meu amor, sabe que no meio do BEDA eu escrevi um post parafraseando tua avó e a outra avó e a mãe do menino, né? Sabe que o teu comentário naquele post, que foi basicamente falando sobre essa interação que ocorre sim, me fez pensar muito sobre isso? Sabe que não me arrependo de ter escrito isso, mas fico feliz de ter desconstruído essa ideia maluca.
    Há interação. Claro que há! Ela só mudou de roupa, de cara, de jeito, mas ta ali, quiçá mais ampla, mais abrangente.
    A internet trouxe minhas melhores amigas pra essa vida, como eu posso ser tão ingrata com ela, né?
    Concordo contigo agora. SUPEREM.
    Te amo!

  • Reply Chiquinha 7 de novembro de 2015 at 10:51

    Amiga, concordo COMPLETAMENTE com você. Óbvio.

    Esse é um dos pontos das discussões sobre internet que mais me incomodam, porque claro que eu fui uma dessas pessoas que cresceu sendo obrigada a sair do computador, e que toda vez que é flagrada com o celular na mão precisa ouvir que “ninguém conversa mais hoje em dia” e essas coisas. Acho que a interação virtual é real sim (como poderia não achar visto que A GENTE) e que é um tipo de sociabilidade diferente esse em que os ~jovens~ estão vivendo atualmente. Faz parte da vida deles, e essa dimensão de trocar curtidas, interagir via Snapchat, Facebook, Twitter e etc é uma dimensão tão válida quanto trocar bilhetinho na sala de aula.

    A gente se vê três ou quatro vezes por ano e graças a internet me sinto completamente parte da vida de vocês, adoro chegar no fim do dia e entrar no Snapchat e acompanhar o que vocês fizeram no dia, ver os bolos, os vestidos, os cabelos desarrumados pela manhã. Com meus amigos da escola é a mesma coisa, muitos mudaram de cidade, nossos horários são diferentes, e mesmo assim vemos Masterchef juntos toda semana pelo Whatsapp, eu conheci o namorado da minha amiga pelo Facetime, e acho que se não fosse a internet, não seríamos mais tão próximos depois do fim do ensino médio.

    Os adultos tem essa arrogância de achar que tudo na geração deles é melhor, mas é muito fácil falar isso quando muitos dos recursos que a gente tem hoje simplesmente não existiam na época deles. Claro que eles não entendem como é porque eles não conheceram isso, sabe? Enfim. Adultos. As pessoas. Elas precisam ficar de boa.

    Te amo <3
    beijos!

  • Reply Alessandra Rocha 7 de novembro de 2015 at 11:10

    SIM SIM SIM
    Eu era o seu primo nos almoços de família quando não existia smartphone/wifi, mal chegava na casa do tio e já pedia pra usar o computador (falando nisso, nossa que época né?) e olha que eu tinha primos mais ou menos da minha idade mas não tínhamos nada em comum, então eu gostava de ficar nos meus rpgs da vida, inclusive quando era mais nova minha mãe cansava de entrar no meu quarto e me ver chorando de dar risada na frente do PC e não entendia o que tinha de tão engraçado ali. Não era o que e sim quem!

    Quando eu tava no terceiro ano eu fiz um “””””tcc”””””” sobre internet e na epígrafe coloquei uma frase que dizia mais ou menos isso: a internet não conecta computadores, conecta pessoas. E é lindo né?

    Vi o caso dessa mina aí por cima mas posso falar? Zzzzzzz é 2015, a gente já não devia ter essa noção de que redes sociais não retratam nossa vida 24/7 no HD não? haha

    beijo!

  • Reply Larie 7 de novembro de 2015 at 16:25

    Já pode agradecer pela internet existir? Porque sem ela eu não teria vocês que é uma das partes mais bonitas da minha vida <3 #apaixonada

    Minha mãe reclamava muito do tempo que eu passava na internet, mas depois que ela comprou o iphone dela e instalou o whatsapp e o facebook, CABOU-SE MÃE, sabe? Ela foi puxada por um vórtex. Eu entendo as pessoas reclamarem de amigos que ficam pegando o celular enquanto tá acompanhado de outra pessoa. É muito chato ficar conversando com alguém que fica com o olho grudado no celular. Minha mãe faz muito isso comigo e simplesmente desisto de conversar. Depois ela reclama que não dou atenção a ela. RISOS.

    Mas na questão do seu priminho? Ele tá certíssimo. E os pais tem que entender mesmo que a geração é outra e que a abordagem com as crianças está diferente. Não temos mais a liberdade de poder brincar na rua de boa com os vizinhos e as brincadeiras hoje mudaram. Estão muito mais interessantes, inclusive.

    Amei o texto, passarinha. <3
    ACEITEM, adultos!!

  • Reply A (NÃO) REALIDADE DA INTERNET | Starships & Queens 7 de novembro de 2015 at 18:08

    […] O mundo gira, superem, no Vizinha da Capitu; […]

  • Reply Sharon 9 de novembro de 2015 at 14:16

    Amiga, eu amei TANTO seu texto. Me senti muito representada porque eu fui total o tipo de criança/adolescente que ouvia esse tipo de coisa. Era um tal de noooossa, mas ela nunca vai sair desse negócio? nooossa, mas a gente nunca mais vai ouvir a voz dessa menina? noooossa, mas ela não para nem pra comer?? Como se já não tivesse ficado muito claro que eu sairia se tivesse algo melhor pra fazer, que eu até falaria alguma coisa se TIVESSE algo relevante pra dizer e, obviamente, comeria alguma coisa se sentisse fome. Eu até entendo o outro lado e entendo, principalmente, que eles nunca vão entender 100% essa dinâmica de que sim, não é porque acontece através de um computador ou smartphone que é menos real ou não é real at all. Mas ao mesmo tempo fico me questionando sobre esse apego, essa mania de achar que só é válido aquilo que eles viveram e que qualquer coisa diferente disso imediatamente ganha o rótulo de mal dos tempos.

    Eu sei que muita coisa ruim rola também, mas sempre vou preferir olhar pro lado bom, sabe? Olha só que incrível eu poder falar com minhas amigas rapidinho, saber o que tá acontecendo na vida delas mesmo longe; olha só que incrível eu poder escrever e (que louco) ter gente do outro lado lendo; olha só que incrível conhecer um bando de gente maravilhosa na internet que me faz entrar em aviões sem pensar duas vezes, risos. Jamais que vou achar isso ruim.

    TE AMO <3

  • Reply Nana 16 de novembro de 2015 at 17:04

    Acho que essa discussão sobre o mundo virtual só existe porque tudo ainda é muita novidade. Não gosto de pessoas que ficam postando fotos de cada posição do dia, da comida que comeu, do lugar que foi.. acho que a vida é muito mais legal offline mas acredito que a internet tem a sua importância na nossa rotina.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

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