Pessoal

Primeiramente, uma analogia pedante

Mas, antes disso, uma “confissão”: eu li quase todos os livros do Paulo Coelho. Pelo menos todos que foram lançados até os meus 13 anos. Comecei com Brida e Diário de um Mago, que morro de vontade de reler, mas ao mesmo tempo morro de medo te estragar a memória afetiva que tenho deles. Enfim. Vou chegar a algum lugar, juro.

O Diário de um Mago é basicamente o livro de memórias do autor durante a época em que ele percorreu o caminho de Santiago. Considerando que eu era criança quando li esse livro, minhas memórias dele são muito vagas, mas o que eu me lembro bem é que esse foi o pontapé inicial para eu querer fazer essa peregrinação ligeiramente insana e sem sentido — mas talvez a graça seja justamente que o sentido da peregrinação seja a peregrinação em si. Prossigamos.

Para quem não conhece, o caminho de Santiago é um caminho tradicional de peregrinação atravessado por milhares (milhões?) de pessoas todos os anos, por motivos religiosos ou não. O ponto que mais chamou minha atenção é que essa caminhada sempre me pareceu uma oportunidade inigualável de exercitar o autoconhecimento, e eu tenho essa fixação particular desde criancinha. (Talvez eu tenha sido uma criança um pouco peculiar, talvez não.) O caminho completo, pela rota francesa, tem em média 750km e leva em média um mês para ser percorrido.

Um dia (talvez mais breve do que vocês imaginam) eu vou fazer a caminhada. Mas até lá, existem outras formas de brincar de autoconhecimento. Uma delas, que eu venho usando há muitos anos e segue sendo uma das minhas grandes paixões na vida, é a escrita.

O ato de escrever pode parecer completamente desprovido de esforço físico, mas eu encaro como um exercício igual a qualquer outro. O segredo é encarar o cérebro como um músculo que também precisa ser exercitado. Desde que eu comecei a sonhar em escrever um livro — sabe-se lá quando foi isso — eu busco constantemente sugestões e dicas de quem está nessa trilha há mais tempo, e um dos ensinamentos que eu mais vi repetido é que escrever não é  sobre inspiração. É transpiração, é exercício. Quando eu internalizei essa lição, tudo começou a fluir imensamente mais fácil.

Nem sempre eu sei como começar, ou que caminho seguir. Mas começar é preciso, nem que seja com rabiscos sem nenhum sentido, só para tirar alguns parágrafos de abobrinha do sistema e então começar tudo de novo, com mais foco. Foi como chegamos aqui agora, mais uma vez no início dessa peregrinação metafórica de um mês popularmente conhecida como BEDA.

A experiência do ano passado foi muito boa, mas não foi tão intensa quanto eu gostaria, porque passei metade do mês dividida entre isso e uma viagem, e obviamente a viagem levou a melhor nessa competição. Ainda assim, cheguei ao final. Esse ano, eu já tinha descartado a ideia de participar de novo, mas não resisti a essa movimentação gostosa que eu vi rolando por aí.

Até hoje mais cedo, eu considerava a blogosfera morta e enterrada. Boa parte dos blogs que eu conheço e estava acostumada a acompanhar estão desatualizados há tanto tempo que eu já considero devidamente aposentados. Esse espacinho humilde onde agora nos encontramos podia muito bem ser incluído na lista. Mas esse fato não me desestimulou a encarar o desafio que agora começamos, porque o que importa não é o onde, e sim o quem.

Eu sou uma pessoa que escreve, eu amo escrever e poucas coisas na vida me fazem sentir tão bem e realizada. Eu poderia, como faço, escrever aqui, na newsletter, em um milhão de sites, em um caderno. A realização que qualquer texto escrito me traz é a mesma (desde que eu seja capaz de me orgulhar dele por pelo menos cinco minutos). O blog é só um meio. Se um dia eu deixar de aparecer aqui, tudo bem — desde que eu continue a escrever. A escrita está em mim, não em uma página da internet ou outra.

Acho que o segredo de se viver leve é não se apegar a coisas. Eu não consigo evitar me apegar a pessoas, mas coisas são só coisas. Eu tenho compulsão em me livrar de coisas, fazer a limpa no armário, doar o que não tem mais uso pra mim, jogar fora o que não presta mais. A energia precisa circular, para que a vida siga em frente. E não é porque a coisa é virtual que não pesa. O que pesa é o apego. Então eu tento exercitar o desapego em todos os aspectos possíveis.

É por isso que hoje eu começo mais esse exercício, sem saber ainda se vou chegar ao final. Não pelo blog, mas por mim. O blog é um cantinho querido porque carrega um pedaço da minha história — mas o dia que ele se for, se foi. O futuro ao acaso pertence e tudo bem. Sigo escrevendo e percorrendo meu caminho independente de qualquer coisa. Não importa aonde eu chegue, o que importa é a caminhada e o que eu vou tirar disso tudo. E enquanto eu estiver escrevendo, está tudo bem.

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4 Comments

  • Reply Mareska 2 de agosto de 2016 at 02:10

    Eu vou fazer o BEDA sem necessariamente postar todos os dias, mas pretendo acompanhar os posts. Ano passado eu tinha notado que a blogosfera andava meio desanimada e cheguei a largar o blog, mas resolvi começar do zero sem as obrigações que eu tinha imposto a mim mesma. Posto com menos frequência, mas ando bem mais feliz com o blog.

  • Reply Sharon 2 de agosto de 2016 at 15:33

    Tanta coisa que eu queria falar sobre esse texto, tantos feels no meu coraçãozinho, que eu não sei nem por onde começar. Amo que você tenha decidido participar, mesmo nos 45 do segundo tempo, mesmo já fazendo tanta coisa o tempo inteiro (amiga, cê é louca). Ajuda um bocado que você tenha aprendido já que escrever é um exercício, menos inspiração e mais transpiração – coisa que eu ainda preciso (urgentemente!) internalizar -, mas isso não quer dizer que a caminhada fique mais fácil, muito pelo contrário (inclusive, maravilhosa metáfora), e eu fico feliz que, dentre mortos e feridos, você tenha se mantido resistente. Eu tenho uma dificuldade absurda de admitir que a blogosfera está morta e enterrada, mesmo pra todos os blogs que já não veem uma atualização há séculos, e fico particularmente mexida quando eu me dou conta que, no fundo, muita gente não tá nesse barco há bastante tempo. Por mais que eu conheça pessoas que estão nesse barco, eu ainda me sinto um pouco sozinha porque minhas pessoas não estão – até que vem você e pula nele e eu me sinto um pouquinho menos sozinha. Não sei se a experiência vai ser tão legal quanto a do ano passado e talvez nossos blogs não sobrevivam muito mais tempo, mas a gente vai tentar e é isso que importa, não é? E, claro, não estamos sozinhas. Obrigada por entrar nessa cilada comigo – mais uma vez. Te amo <3

  • Reply Plan 4 de agosto de 2016 at 02:03

    Tu é minha inspiração na escrita, sabia?
    Escrever pra mim é uma das coisas mais gostosas da vida. Tem que ser leve e tem que me fazer bem sempre. Se não me faz mais bem, então não rola mais. Por isso que eu sou meio desapegada com essas coisas de pontuação, acentuação, etc – desde que me faça entendível, claro. Normas não me chamam atenção. Eu só quero digitar e botar pra fora o que ta me azucrinando na cabeça.
    O espaço onde a gente faz isso realmente é o de menos. Tenho que internalizar isso também, porque às vezes o apego é maior.
    De qualquer jeito vou amar te acompanhar no BEDA porque da aquela nostalgia gostosa e fala sério, teus textos são sempre ótimos.
    Bom mês, amiga! Te amo <3

  • Reply Gabriela 6 de agosto de 2016 at 20:50

    Céus, estou muito apegada a esse blog!

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