Pessoal

Privilégio

Desde que eu comecei a aprender um pouco sobre feminismo, eu me deparei com o fato (que eu sempre soube, mas sobre o qual nunca tinha refletivo diretamente) de que eu também gozo de alguns vários privilégios nessa vida. Isso abriu um pouco mais meus olhos para as desigualdades do mundo, e me ajudou a encarar de outra forma as situações do dia-a-dia. Se meus privilégios ajudam a definir a minha existência, a consciência sobre eles também ajuda. Por isso eu achei tão interessante a experiência de estar presente para o despertar de outra pessoa, ontem.

O Eduardo tinha morrido, e eu tinha comentado sobre isso com a minha mãe por alto. Nada específico, já que nesse ponto o assassinato de um menino de 10 anos fala por si só, mas só sobre como a televisão quase não estava tocando no assunto. Porque ele era — vejam só — negro, pobre e “favelado”.

Mais tarde, eu e ela estávamos andando calmamente pela rua mais que tranquila onde eu moro (por enquanto), até o McDonald’s mais próximo (quantas coisas essa frase diz sobre a gente). De repente ela parou, pensou na vida, e constatou.

“Se você e seu irmão fossem negros, eu ia ficar nervosa toda vez que vocês saíssem de casa.”

Não que ela não fique atualmente. Nesse mundo, acho que qualquer mãe fica. Mas agora é que ela se deu conta de que um dos filhos dela está no topo da cadeia alimentar — homem cis, branco, heterossexual, classe média alta, universitário. A outra — no caso, eu — não está tão bem cotada na fila do pão, mas está bem próxima.

O que ela enxergou é que, se ela tem motivos para se preocupar, aquela mãe negra e pobre tem muito mais. Porque se os filhos da minha mãe são alvos da violência em geral, os filhos daquela outra mãe são alvo de uma violência sistematizada, direcionada e muito mais constante. E essa consciência é algo muito importante na medida em que, no mínimo, cria um pouco mais de empatia e respeito pela luta o outro.

Se nós, conversando calmamente pela rua na direção do nosso fast food, chegamos à conclusão de que temos medo da polícia, tanto quanto de quem está do outro lado, imagina como a gente ia se sentir se nós fossemos o verdadeiro alvo dessas pessoas.

Durante esse mês de abril, estarei eu participando do BEDA (blog every day in april), o que significa que todo dia tem post saindo do forno pra vocês. Me amem.

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5 Comments

  • Reply Xará 5 de abril de 2015 at 21:35

    O feminismo foi fundamental pra eu começar a refletir sobre meus privilégios. Porque até então eu sabia, é claro, que eles existiam, mas eu sempre procurava brechas pra me vitimizar de alguma forma. Ok, o câncer do vizinho não cura minha gripe, mas sei lá, às vezes eu preciso largar uma pouco de mão essa máxima e começar a viver porque ficar me lamentando o tempo todo, oh meu deus como eu sofro, não vai me levar em lugar nenhum.

    Essa história do Eduardo mexeu bastante comigo, mas acho que mexeu com as pessoas de uma forma geral. Se não fosse a internet eu provavelmente não ia saber muito sobre a morte do menino. O que sua mãe enxergou é fundamental pra que as pessoas comecem a ter um pouco mais de empatia pela causa do outro e plmdds, como isso faz falta. É uma pena que a maioria das pessoas vá levar muito tempo até enxergar seus próprios privilégios e se importar verdadeiramente com o que o outro está sofrendo. Quantas vidas ainda não serão perdidas nesse meio tempo? :/

  • Reply Analu 5 de abril de 2015 at 22:31

    Amiga, esses momentos onde a gente analisa a nossa própria vida e tenta desconstruir tudo são sempre tão importantes… Eu também, quando reclamo da minha vida num geral, fico pensando no tanto de privilegios que eu já tive. Só de ter nascido numa família que me esperou e que me ama já é uma benção e tanto. Ainda por cima, veja só, nasci saudável, com todos os membros no corpo, sou de classe média alta, cis, branca e hétero e posso tentar fazer uma ideia, mas nunca poderei afirmar na pele tudo o que todas as pessoas menos privilegiadas passam no dia a dia. Isso que você falou é MUITO forte, porque a gente realmente acaba com medo de quem deve ter MUITO mais medo da gente pra simplesmente… viver. 🙁
    Te amo!

  • Reply Carol 5 de abril de 2015 at 22:45

    Essa reflexão é constante em conversas que tenho com meu círculo de amigos. A palavra empatia se tornou muito frequente em meu vocabulário, não apenas em relação ao feminismo, mas ao tentar mostrar às pessoas ao meu redor o seu próprio privilégio. Porque a maioria das pessoas tem dificuldade em aceitar que é privilegiado, sempre tem um “ah, mas eu [insira qualquer caso de outrofobia invertida aqui]”. Em tempos assim, é muito bom encontrar textos como esse.

    Beijo!

  • Reply Alessandra Rocha 6 de abril de 2015 at 00:35

    É uma coisa triste né? A gente se dar conta desse abismo que existe entre nós e as pessoas que – não fossem esses detalhes ínfimos que acabam fazendo toda a diferença – são exatamente iguais a nós. Acho que todxs nós privilegiadxs poderíamos ter essa consciência… O pouco que eu vejo sobre o feminismo me abriu bastante os olhos também, quando eu era mais nova minha consciência dos meus privilégios me fazia pensar que eu era melhor do que os maloqueiros que estudavam na escola pública na rua atrás do meu condomínio… Hoje em dia eu sei que isso não passa de pura babaquice, ainda bem que a gente cresce né?

    Infelizmente meus pais, acho que mais a minha mãe, se deixou “encoxinhar” conforme o tempo. Acho que ela nem tomou conhecimento da morte do Eduardo e às vezes solta cada absurdo que meu Deus… É triste, mas é verdade. Acho que agora cabe a nossa geração tentar conscientizar os mais velhos e principalmente >se< conscientizar… pode ser uma utopia muito grande, mas quem sabe a gente muda – mesmo que um pouco – isso?

    Beijos gatona! <3

  • Reply Anna 6 de abril de 2015 at 01:24

    Palo, acho que uma das coisas mais importantes que o feminismo me trouxe foi essa descoberta dos privilégios. A gente precisa muito sair da bolha, né? Minha visão do mundo e dos outros mudou radicalmente depois disso, porque uma coisa é a gente ter uma noção de que o mundo é desigual, mas de um jeito abstrato e distante, e outra muito mais forte é você enxergar isso na prática – e pior, se ver parte dessa engrenagem. Eu tenho tanta vergonha de mim às vezes por causa disso, que olha. Sei que não é minha culpa individualmente, mas casos como esse do Eduardo me desgraçam a cabeça e me enchem de uma culpa irracional, porque sei provavelmente nem eu, nem as pessoas ao meu redor, nem meus filhos, vão ser obrigados a viver com esse medo, com essa sensação de vulnerabilidade, mas tem tanta gente lá fora perdendo o sono e a vida por causa desse abismo, que olha, não é fácil.

    Amando seu BEDA, demorei a aparecer mas li tudinho. Keep on rocking <3
    te amo!

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