Pessoal

Sobre não ter nada (a perder)

Eu acho que nunca fiz planos a longo prazo. Não me entendam errado, eu tenho sonhos, só os planos concretos que sempre me faltaram. Como assim? Eu sempre soube que eu quero gastar minha vida conhecendo o mundo, que eu quero ter filhos um dia, que eu quero ter um emprego bom, e ganhar bem, e não depender de ninguém. Beleza. Mas eu nunca parei pra pensar que eu queria fazer isso com tal idade ou aquilo daqui a tantos anos. Na minha cabeça, as coisas acontecem quando está na hora de elas acontecerem, eu acho.

Foi isso que me causou o choque quando eu vi amigas aniversariantes entrando em crise por fazer vinte e poucos, não porque fosse algo absurdo (gente, eu sou a rainha do reino das crises), mas porque eu nunca tinha olhado pra minha vida dessa forma. Quando eu era nova eu obviamente imaginava que os vintepoucos eram uma idade bem avançada da vida adulta e tudo mais, mas eu nunca pensei realmente no que eu achava que deveria ter atingido quando chegasse lá.

Isso obviamente não me livrou de crises (como aquela que eu mencionei aqui) sobre a vida como ela é e como “deveria ser”. Não ter planos a longo prazo (correção: agora eu tenho, mas enfim) não significa que eu não tenha idealizações de como eu gostaria que a vida fosse agora, ou daqui a cinco anos. O que isso significa? Que a minha crise recente (apesar de ter acontecido sem precisar da proximidade de nenhum aniversário) teve um teor muito parecido com o delas: que diabos de vida é essa e como eu cheguei aqui? E mais importante: como faz para trocar?

Não sendo ingrata, minha vida é e sempre foi muito boa. Eu só cheguei naquela fase (pós faculdade, com empreguinho de recém-formada, vida estável e sem dever nada a ninguém) em que eu tive finalmente tempo pra olhar em volta e pensar que caralhos eu estou fazendo da minha vida. Porque o que quer que eu esteja fazendo, não é o que eu queria estar fazendo.

Depois de muito chorar no banheiro (tenho que parar de falar isso antes que vocês tenham certeza que eu sou perturbada), olhar em volta e pensar obsessivamente no que eu quero da vida, eu tive uma revelação. É claro que eu não quero essa vida pra sempre, e graças a deus que não. Eu tenho vinte e dois anos, mal saí das fraldas. Eu tenho tudo e não tenho nada.

Gente, a coisa mais libertadora do mundo é não ter nada. Porque quando você não tem nada, você não tem nada a perder, mas tem todas as possibilidades do mundo na mão.

E foi aí que eu senti a beleza de tudo isso.

Eu. Não. Tenho. Nada.

Então eu posso ser o que eu quiser.

tenhonada

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7 Comments

  • Reply Lilica 21 de março de 2015 at 15:11

    Pois é Palominha….vou te dizer uma coisa: não adianta nadica fazer um monte de planos porque a vida, inevitavelmente, vai mudar todos eles a seu bel prazer. Portanto a decisão mais sábia é fazer o Zeca Pagodinho e “deixar a vida me levar, vida leva eu” porque isso evita maiores traumas. E tb porque se a gente planeja demais e as coisas não saem como planejamos (e digamos que isso ocorre em 90% dos casos) a gente sente frustração, que é uma sensação muito ruim. O importante é tocar o barco e esperar que as coisas aconteçam naturalmente, porém nunca deixando de correr atrás do que queremos, claro! 🙂
    Beijos

  • Reply Gab 21 de março de 2015 at 16:30

    Eta, Palo. Teu texto foi uma revelação pra mim. Tanto que eu li quando foi postado, mas só vim comentar agora. Fiquei pensando nisso, em todos os rumos e caminhos que a vida tem e também cheguei a conclusão de que não tenho nada e não tendo nada, posso ter tudo! É incrível, mas tão assustador ao mesmo tempo, né? Por quanto tempo teremos esse nada? Quando começaremos a ter o tudo? Ai… vou ali fazer uns testes no buzzfeed pra não pensar demais.
    Te amo, amiga! Obrigada por essa revelação <3

  • Reply Luddie Miller 21 de março de 2015 at 20:47

    Me identifiquei totalmente com esse trecho: “Eu só cheguei naquela fase (pós faculdade, com empreguinho de recém-formada, vida estável e sem dever nada a ninguém) em que eu tive finalmente tempo pra olhar em volta e pensar que caralhos eu estou fazendo da minha vida. Porque o que quer que eu esteja fazendo, não é o que eu queria estar fazendo.”
    Essa é a crise que estou passando no momento. rs
    Entendi sua visão sobre o assunto, mas não consigo pensar assim pra minha vida, e essa mini-crise tem me chateado muito. Mas a gente vai seguindo, né. Melhor pensar que uma hora tudo se ajeita. E eu super desabafando nos seus comentários. hahahahah Desculpa!
    Aliás, você escreve muito bem, adorei o texto.
    beijooos

  • Reply Analu 22 de março de 2015 at 14:15

    Amiga, que texto ótimo. E essa filosofia não deixa de ser incrível, mas eu acho que não funciona pra mim, HAHAHA. E: VOCÊ TEM A GENTE. Eu também tenho A Gente. A Gente tem A Gente e se isso não é um grande presente da vida, então não sei de mais nada. <3333
    Te amo!

  • Reply Anna 22 de março de 2015 at 18:41

    Palo, que post bom <3
    eu também nunca tive uma coisa com prazos auto-impostos, mas definitivamente imaginava que a essa altura minha vida estaria um tanto quanto diferente. Nem tanto no sentido de uma direção completamente distinta, mas mais ~avançada~, digamos assim. Mas acho essa sua perspectiva muito verdadeira porque, de fato, não temos nada. E, de fato, podemos tudo. Mas é isso que me desespera??? Como free spirit que sou, dou graças aos céus por ser de uma geração mais livre que a dos meus pais e avós, que tinham opções muito mais limitadas e menos escolhas a fazer. No entanto, o excesso de liberdade me deixa um pouco sufocada. Não é estranho? Nunca fui muito boa em fazer escolhas, e A Escolha da Minha Vida me assusta pacas.
    Vou voltar pra esse post sempre que estiver me esquecendo a grande graça que é poder escolher. Muita gente ainda não pode, temos que comemorar.
    te amo <3

  • Reply Não precisa correr (“meu” Wallpaper) ◂ Vizinha da Capitu 24 de março de 2015 at 21:54

    […] Eu só tenho 22 anos, um diploma, um emprego que paga as contas e muita vida pela frente. Não tem problema se eu não puder fazer uma revolução agora. Eu posso ir me contentando com pequenas coisas, reformas e mudanças pessoais, enquanto eu me preparo (e me $preparo$) para o grande salto que eu vou dar em algum dia não muito distante. […]

  • Reply Ana 26 de março de 2015 at 15:38

    (acho que vou ficar sem foto, como coloca foto?!?!)

    E miga (vou te chamar de miga porque miga é uma palavra muito boa), eu tenho planos. Tenho um medo danado deles não darem certos, mas vou vivendo. Eu não tenho a data certa de quando eu quero que eles aconteçam, mas tenho uma ideia mais ou menos programada.

    Eu e tu ~tamo~ no mesmo barco (o do Direito), mas olha só você: formada. E eu aqui com mais dois anos pra pelear e não aguentando mais.

    Meus planos consistem em me formar, passar na OAB e passar num concurso. Só tenho ideia da época que vou me formar, agora o resto… Quero estabilidade pra bancar minhas viagens maravilhosas que eu obviamente vou fazer. Quero achar um mozão, talvez. Quero ter meu dinheiro e não depender de ninguém. Quero ser muito feliz. Quero muitas coisas. Mas pra várias delas não dependo só do esforço. Dependo que o mundo faça sua mágica e coloque elas na minha vida. Às vezes só o ~destino~ nos diz onde a gente vai chegar e o que vai encontrar pelo caminho. Então não dá pra ficar pirando em plano não. Tem que viver as coisas boas do meio tempo.

    E realmente: é muito libertador não ter nada. “When you’re so far below the floor, everything’s a ceiling”.

    Beijos!

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