Pessoal

Teoria da evolução

ou A Sanguessuga

Eu sou uma pessoa absurdamente introvertida e envergonhada. Houve tempo em que eu tinha pavor de sair com qualquer pessoa em dupla, porque isso significava que entrar muda e sair calada não seria uma opção e socialização definitivamente não veio no meu starter pack. Em grupos que eu não conheço, principalmente em grupos grandes, eu normalmente falo muito pouco e tento fingir que sou invisível — mas juro que depois de algum tempo (dificilmente no primeiro encontro), eu melhoro. Eu já tive muitos momentos de nervosismo absoluto por ter que falar com pessoas por whatsapp no privado e em tempos passados receber uma mensagem por essa via era certeza de sofrimento intenso. A não ser que fosse da minha mãe.

Hoje em dia, eu melhorei. A questão dos grupos continua bem capenga, mas no individual eu não só aprendi a lidar como aprendi a gostar. Chocante. Eu gosto de ter longas conversas profundas, ou longas conversas absurdas sem nenhum sentido, ou falar bobagem, ou ficar em silêncio junto também. Tudo com pessoas de quem eu gosto, obviamente — quem quer passar tempo com gente que não gosta?

Não é um estado de intimidade no qual eu chego automaticamente. Primeiros encontros em geral, por exemplo, ainda me deixam muito tensa e eu sofro de verborragia nervosa com tendência ao oversharing. Se formos nos encontrar pela primeira vez algum dia (desculpa desde já), você provavelmente vai voltar para casa com muita informação sobre minha vida, minha melhor amiga, minha vida amorosa, meu almoço de ontem, minha gata, e trilhões de outras coisas para as quais você não liga a mínima. Se você não desistir de mim aí, eu posso garantir que (com a maioria das pessoas), melhora.

Passada essa fase desconfortável de quase todas as minhas relações, nós finalmente chegamos à parte que me interessa: aquela em que eu não estou nervosa demais e consigo de fato processar o assunto da conversa e as informações trocadas. Essa parte é maravilhosa.

Acontece, queridos, que depois de adulta e mesmo com os meus toques de ansiedade social, eu descobri que amo pessoas. Todas. Não necessariamente enquanto indivíduos, mas enquanto fenômenos. Tenho muita curiosidade antropológica dentro de mim e eu invisto uma boa parte do meu tempo e energias refletindo sobre a personalidade e características gerais de todo mundo que me cerca (e ouvindo conversa alheia no meio da rua). Eu seria muito feliz se possuísse o poder de ler mentes. Talvez seja minha alma de leitora e escritora falando.

Mas muito além de boas histórias e algumas lições sobre a psiquê humana, é pelo contato com outras pessoas que eu evoluo. Eu vivo um eterno paradoxo, dividida entre meu ego regado a sentimento de superioridade e a vontade de me cercar de pessoas que sejam melhores do que eu o máximo possível. Eu sou uma aproveitadora em pele de cordeiro, sanguessuga por natureza, meu desejo é obter das pessoas tudo o que elas podem me oferecer. É assim que eu cresço, incorporando o que eu aprendo com cada um sempre, porque ficar parado no mesmo lugar é um desperdício de vida sem tamanho.

Não é ser maria-vai-com-as-outras e seguir o fluxo. É raciocinar e me apropriar de ideias e convicções e valores diferentes quando eles me parecerem melhores do que os que eu tenho agora. Não existe vergonha em mudar de ideia, vergonha é ficar parado só para não ter que dar o braço a torcer. E olha que quem está falando aqui é a maior teimosa que você respeita, capaz de berrar com convicção que laranja é verde para não admitir ~derrota~. Mas a gente cresce, e é crescendo que a gente cresce mais — no maior esquema o de cima sobe e o de baixo desce.

A vida é longa demais para ter certezas absolutas. Se até a ciência evolui, quem sou eu para ficar parada. Claro que o próprio conceito de evolução é subjetivo, mas qualquer direção que se tome pode ser para frente, desde que não seja o mesmo lugar que se estava antes.

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1 Comment

  • Reply Anna Luiza 21 de janeiro de 2017 at 17:47

    Também sou assim. Levo um tempo pra me acostumar com as pessoas. Simplesmente não consigo ser como algumas amigas que facilmente fazem amizade com quem estiver por perto. Mas a gente vai crescendo aos poucos e vai também aprendendo a lidar melhor com isso. Adorei o final do texto <3

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