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BEDA 2016

Pessoal

Diarinho da semana #1

BEDA passado algumas amigas adotaram esse estilo de post e eu, embora tenha ficado tentada a seguir o exemplo, me recusei porque ainda guardo essa necessidade de não seguir tendências que trouxe diretamente da minha adolescência de rebeldia sem causa.

Dessa vez, como a maioria delas não está participando da brincadeira e muito menos mantiveram a tendência nos últimos onze meses, resolvi reciclar a ideia simplesmente porque deu vontade. Vou tentar tirar algumas fotos para as próximas edições, mas dessa vez vai ser um texto bem pobrinho porque isso nem me passou pela cabeça (n00b).

Tudo bem se você não tiver o mínimo interesse no que eu fiz nos últimos dias — você tem outros seis posts sobre assuntos variados ainda fresquinhos para conferir. Se já tiver lido todos, também pode voltar amanhã que vai ter mais.

Domingo foi um dia comum, de almoço de família, com o bônus de ser churrasco de aniversário de um dos meus primos. Eu e meu yakisoba vegetariano comparecemos, mas ele voltou como veio porque atraí subliminarmente minha priminha pro lado vegetal da força e garanti a inclusão de legumes grelhados no cardápio. Ainda devorei a melhor parte do churrasco — a banana.

O começo da semana foi de correria, como sempre são as semanas em que faço ponte aérea. Segunda e terça coloquei em dia e adiantei tudo o que consegui.

Na noite de segunda ainda deu tempo de embarcar em uma date night das minas com as amigas. Assistimos A Era do Gelo no cinema, comemos, jogamos conversa fora — esse tipo de coisa que faz a vida valer a pena.

Terça à noite caí no sono enquanto tentava ficar em dia com Liberdade, Liberdade.

Quarta acordei às quatro da madruga para voar.

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Quarta e quinta-feiras estive em São Paulo, trabalhando. Claro que não sou de ferro e aproveitei para comer, apreciar o cenário e conhecer novos ares.

Por “novos ares” leia-se a USP, para onde menina Milena me guiou na noite de quarta-feira, onde pude acompanhar alguns minutos de uma aula de introdução à literatura russa que me deixou até com vontade de fazer faculdade de novo, e comi um salgado vegano (uma cantina que vende salgados veganos!).

No meio tempo, baixei e me viciei em Pokémon Go, obviamente. Esse jogo com certeza não é de deus. Eu literalmente tenho pensado em pokémon o dia inteiro e isso não é normal — talvez eu esteja precisando de ajuda profissional.

Outra coisa nada relevante que aconteceu na minha vida nesse tempo foi que eu comprei um caderno lindo (e bem inflacionado) para me incluir nessa nova moda de bullet journals. Eu sei que eu disse que sinto um prazer inconsciente em desafiar tendências, mas eu AMO organizar e essa era justamente uma das poucas tendências para a qual eu não me sinto capaz de virar as costas. E amo cadernos também.

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Não estou fazendo nada artístico, meu foco é realmente a organização — com pequenas concessões para algumas firulinhas. Ainda nem comecei mesmo, mas já estou me divertindo bastante. Tudo bem se vocês acharem que meu conceito de diversão é um pouco estranho.

Sexta foi feriado na Cidade Maravilhosa por motivo de olimpíadas. Aproveitei a oportunidade para empacotar minha gata e fazer um retiro bucólico na casa dos meus pais. A escassez de pokestops nas redondezas está me enlouquecendo — estou atualmente sem pokebolas e em abstinência.

Dediquei os últimos dois dias a maratonar as centenas de capítulos de Liberdade, Liberdade que deixei acumular. Algumas horas atrás assisti o último e agora estou oficialmente órfã.


Episódios de qualquer coisa assistidos:  17
Filmes vistos: 1
Feijoadas dos sonhos comidas: 0
Pokémons capturados: 115

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Gênero, violência e eufemismo
Feminismo

Gênero, violência e eufemismo

Desde a última vez que falei sobre feminismo aqui, tenho estudado bastante. O grupo de estudos dos sonhos que eu mencionei sem nenhuma pretensão acabou nascendo e me apresentando mulheres incríveis que eu nunca teria conhecido sem isso. Tenho frequentado também algumas rodas de discussão e conversado com amigas, e quanto mais eu estudo e penso, mais minha cabeça se abre para tudo o que eu não enxergava antes. Recomendo.

Inclusive, atualizei o texto anterior.

No meio de todas essas revelações que eu tenho tido, tenho vontade de dividir muita coisa aqui, porque dividir informações é importante e porque (aprendi nesse meio tempo, vejam só) as “teorias” radicais são tão ancoradas na vivência e surgem tão organicamente em grupos de discussão que todas precisamos parar para registrar de tempos em tempos ou tudo acaba se perdendo.

Entre as muitas coisas sobre as quais estudei, refleti e ouvi discussões (não acho justo dizer que participei porque não aprendi ainda a me comunicar em grandes grupos) está a ideia de gênero. Não vou discutir o que é ser mulher, é sobre o próprio conceito de gênero que vamos falar — e a razão pela qual eu não gosto desse conceito. O que diabos é gênero?

O princípio básico é que gênero é construção social. Existe uma sociedade composta por indivíduos que são divididos em dois grupos que possuem características e comportamentos próprios e obrigatórios.

Existem milhares de forma de fazer com que os indivíduos se conformem às características e comportamentos atribuídos ao grupo em que foram compulsoriamente inseridos. As mais eficazes envolvem socialização — criação direta pela família, exemplo, mídia, pressão social. Para quem não se conforma, existem tipos variados de punição. Mas isso é assunto para outro momento.

O conceito de gênero é invenção muito recente. O termo começou a ser usado entre as décadas de 70 e 80 do século XX. Antes disso já existia feminismo e todo mundo se entendia perfeitamente bem usando a expressão “sexo”. Qual a necessidade de se falar em gênero, então?

É bem simples: criando a expressão gênero para identificar a construção social binária, se naturaliza o conceito de sexo. Sexo passaria a ser nada mais do que a divisão biológica da população entre indivíduos macho e fêmea. Só que não é bem assim — historicamente a divisão entre sexos só tem relevância porque é atribuído um valor a cada uma dessas classificações. O sexo não é neutro.

Outro efeito relevante é a expressão gênero é um eufemismo, e tira o foco das violências sofridas por mulheres. É só comparar as expressões “violência de gênero” e “violência contra a mulher”. Na primeira, qualquer um pode ser vítima, é uma coisa absolutamente abstrata e desconsidera completamente todas as centenas de tipos de violência que mulheres sofrem desde o nascimento por serem mulheres.

Nós permanecemos à margem, à sombra, durante todas as nossas vidas, sendo esmagadas, onde sempre estivemos. Nós precisamos nos colocar como o centro e lutar por nós mesmas. Nós já fomos passadas para trás muitas vezes antes.

A ideia de gênero não contempla mulheres. É só mais uma forma de nos deixar de lado, esvaziar nossa militância, desviar o foco. É dar um tapinha no nosso ombro, mandar colocar/não tirar o batom vermelho (e/ou qualquer outra coisa que envolva essa ideia erradíssima de “empoderamento” que não empodera ninguém), e vamos falar de outra coisa agora. E novamente nossa luta fica para trás.


Leituras recomendadas

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Pessoal

Felinismo – um guia para iniciante

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Eu não nasci uma cat person. Na verdade, eu não nasci nem uma animal person. Quando eu era pequena, tudo o que eu tinha era peixinhos, porque meus pais sempre foram completamente contrários à ideia de ter um bicho dentro de casa. Como criança que assistia filmes demais, eu queria porque queria um cachorrinho, mas como a resposta era sempre não, eu desenvolvi medo de cachorros (já superei essa questão). Mas gatos eu realmente não podia ligar menos.

Com uns dez ou onze anos, meus pais me deixaram ter um hamster. Stuart que depois de um tempo descobrimos que era fêmea. Thutty não durou muito, mas foi um chororô generalizado em casa quando a bichinha morreu — começando pela minha mãe. Em 31 de dezembro dos meus doze anos, chegou Polina, a calopsita — que segue viva e muito bem de saúde obrigada.

A Po é infinitamente melhor que um peixe ou um hamster já que, para começo de conversa, ela tinha autorização para ficar solta passeando pela casa e tem uma personalidade amorosa porém muito voluntariosa (mimada) bem igual à minha. Como calopsitas sentem muita falta de companhia e podem entrar em depressão e morrer se ficarem muito sós, acabei deixando a bichinha com os meus pais quando me mudei, assim ela e papai aposentado poderiam fazer companhia um ao outro. Voltemos aos gatos.

Uma das minhas amigas de infância (ou pré-adolescência, sei lá) sempre teve gatos, mas era a única cat person que eu conhecia antes desse bum felino que vivemos atualmente. Somos bffs até hoje, mas eu nunca fui frequentadora assídua da casa dela e até hoje, tendo pego paixão por gatineos, eu tenho pavor de Noah, o gato dela.

E então, aproximadamente dez anos depois, eu arranjei outra amiga com gato. Lola é uma gata maravilhosa, fizemos amizade (pelo menos eu fiz e ela fingiu muito bem que fez também), e foi aí que eu encontrei meu amor por esse mundo felino — gatos não eram necessariamente maus ou antipáticos, eles são amor.

Isso faz para lá de dois anos, e desde então eu decidi que eu precisava muito de um gato e minha vida não seria completa sem isso. Só tinha um probleminha.

Eu ainda morava com os meus pais e eles não me deixaram.

Algum tempo depois, me mudei. Fui morar com Letícia, e ela também vetou.

Mas eu não desisti. Segui insistindo e ela viu que eu nunca ia superar essa ideia fixa. Um belo dia, estava eu andando com mamãe perto da casa dela e passamos por uma feira de adoção. Me apaixonei por um filhotinho. Mandei mensagem para Letícia e ela disse sim. Mas eu medrei e fui embora — e depois contei a frustração na newsletter.

A partir daí, eu não tinha mais desculpa para não ter um gato, então tive que admitir que eu seguia querendo muito, mas estava igualmente apavorada com a responsabilidade. Decidi deixar a ideia para lá.

Um belo dia, estava de boas zapeando pelo facebook, quando aparece o compartilhamento de uma amiga sobre uma gatinha branca de olhos azuis maravilhosa. Ela tinha crescido na rua, a guria que fez o anúncio tinha levado ela para ser castrada, mas se ela não arranjasse um lar ia voltar para a rua. Sofri com a ideia. Então, antes que eu percebesse, eu era a feliz tutora de uma filhote de gata branca gigantesca porém ridiculamente linda.

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Como estava recém-operada, combinamos que meu bebê só iria para a minha casa uma semana depois, quando tirasse os pontos. No meio tempo, eu precisava aprender tudo sobre gatos e providenciar o enxoval para a bichinha. Mas como eu tenho muita noção de prioridades, comecei escolhendo o nome.

Fiz uma reunião virtual com meu grupo felinístico e várias sugestões foram dadas. Por pouco ela não se chama Neide, porque eu sou creiça e chamar a gata de gataneide parecia ótimo. Mas antes de bater o martelo, resolvi fingir que sou uma pessoa séria e fui procurar pelo significado. Acabamos ficando com Mabel — amável, amorosa. Sim, igual ao biscoito.

Esse mesmo grupo me ajudou a definir tudo o que eu precisava comprar/providenciar para receber bem minha nova companheirinha de vida, e agora resolvi compartilhar meus poucos conhecimentos. Vamos à parte prática desse texto.

  1. Segurança primeiro: tela nas janelas

Eu moro no oitavo andar, e não seria a coisa mais legal do mundo se a gata resolvesse tentar voar. Gatos filhotes têm muita energia, e qualquer gato (ou pelo menos a esmagadora maioria) tem instinto de caça, o que significa que eles vão se jogar da janela atrás de qualquer coisa que se mova.

Mesmo para quem mora no térreo, telar é altamente recomendável. Gatinhos que saem na rua estão muito vulneráveis a infinitos perigos — dede doenças até serem atropelados. Melhor não.

  1. Enxoval, itens básicos

Gatos precisam de coisas, obviamente. Então é preciso investir tempo e dinheiro para montar o enxovalzinho do bichinho. Eu fiz uma lista bem básica, porque não adianta comprar o mundo logo de cara — gatos têm muita personalidade e é bom conhecer bem seu gatinho antes de gastar rios de dinheiro em coisas que eles não vão dar a mínima.

Segue uma pequena lista do que é realmente essencial:

  • Pote de comida – se você for alimentar por refeições, como eu faço, não precisa ser muito grande.
  • Pote de água – pode ser maior, porque gatos têm tendência a problemas renais e precisam de muita água.
  • Comida – não dê qualquer comida pro seu gatineo. Existem tipos de ração (normal, premium, super premium). Whiskas é altamente não recomendável, segundo me informaram dá muito problema renal. Premium tem a Goden, que é boa; comecei com essa. Super premium são as melhores (e, obviamente, as mais caras), elas são feitas com ingredientes melhores e ajudam a manter a saúde do bichinho — as super premium mais conhecidas são a Premier e a Royal Canin. Também é importante escolher a comida de acordo com a idade do gatinho. Gatos até um ano devem comer ração específica de filhotes.
  • Caixa de areia – existem também vários modelos, abertas e fechadas. O ideal é que as laterais sejam mais altas, para espalhar menos areia. Algumas têm também uma abinha para dentro para ajudar a manter a areia dentro da caixa (mas sempre vai escapar alguma areia).
  • Areia – nada é fácil, mais uma vez existem modelos. Dá para usar areia propriamente dita (mas areia específica para gatos, areia comum de construção pode transmitir vermes), que deve ser limpa pelo menos uma vez ao dia e completamente trocada semanalmente. A outra opção é a sílica, que deve ser limpa também pelo menos uma vez ao dia, mas pode ser trocada só uma vez por mês. Eu uso sílica.
  • Caixa de transporte – você vai precisar para levar seu bebê ao veterinário e para tomar vacinas.

Existem infinitas coisas que você pode comprar, mas essas são essencialmente as mais importantes. Mabel até hoje não tem cama — ela dorme comigo, normalmente, e eu tinha dois almofadões que deixei no chão do quarto e da sala para ela. No fim, eles vão deitar e dormir onde bem entenderem. Ela também tem um cobertorzinho que ganhou da minha mãe, ela arrasta ele por aí e é uma fofura.

Arranhador pode ser uma boa ideia para evitar que eles arranhem muito os móveis. Mabel tem um e até arranha ele, mas continua arranhando os móveis mesmo assim. O segredo é desapegar, ou investir um tempo considerável (que eu não tenho) educando seu novo gatinho.

Mabel também não ligou a mínima para os brinquedos que eu comprei, o mais indicado é improvisar. Ela adora bolinhas de papel, de saco plástico ou de meia, fitas, sacolas e caixas de papelão. Ou basicamente qualquer coisa que ela ache interessante e queira roubar — como os meus óculos ou meu celular. Então provavelmente não é necessário gastar muito dinheiro com isso.

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Cortador de unha específico também é uma ótima aquisição e não muito caro. Gato de unha cortada é uma coisa muito mais agradável de se ter em casa, porque algumas brincadeiras deles envolvem dar bote nas pernas de qualquer passante desavisado.

  1. Saúde

Uma das primeiras coisas a se fazer é levar seu gatinho no veterinário, para um checkup geral e vacinas, e também porque ele vai dar instruções mais específicas de como cuidar do bichinho, receitar antipulgas e vermífugo e o que mais ele achar que deve, e te dar a carteirinha de vacinação. Mabel ainda passou também um mês tomando vitamina diariamente, e eu tive que passar alguns remédios nas orelhinhas porque ela estava com sarna. Também é fundamental castrar seu gatinho assim que possível para evitar problemas de saúde futuros.

As vacinas podem dar reações adversas, não se desesperem. Mabel teve febre depois da primeira dose da quádrupla e eu fiquei arrasada. Mas passou.

Pouco tempo atrás ela também teve um comecinho de conjuntivite e eu corri de volta para a clínica. Depois de uma semana de colírio de doze em doze horas, ela ficou nova de novo.

Com isso tudo só queria dizer que: gatos não são brinquedos, nem coisas, são seres vivos que têm (muita) personalidade, sentimentos, necessidades e ficam doentes como qualquer outro ser vivo. Isso quer dizer que é preciso ter muito comprometimento e responsabilidade, porque é um investimento emocional e financeiro bem razoável, e é muito feio se comprometer com um bichinho e voltar atrás depois.

Tudo isso foram coisas que nem me passavam pela cabeça quando resolvi que precisava ser adotada por um gato, mas que precisamos levar em consideração antes de tomar qualquer decisão. Mas mesmo com todos esses “detalhes”, eu não voltaria atrás na minha decisão mesmo que fosse possível. Esses quatro meses e meio de Mabel na minha vida foram maravilhosos, e já não consigo imaginar minha vida sem essa coisinha levada e adorável.

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(Perdão pela qualidade cagada das fotos, era o que tinha pra hoje.)

Lapa
Pessoal

Fazendo do bar um lar: uma declaração de amor à Lapa

Como cria da Zona Oeste, Lapa não foi um lugar do qual eu ouvi muito falar até entrar na faculdade. Sem meios de locomoção independentes, dependendo de um transporte púbico pavoroso e com 0 interesses em gastar uma fortuna em taxi, eu acabei me criando pela Barra da Tijuca mesmo.

Com 17 anos, comecei a estudar no Centro da Cidade, na faculdade de direito da UFRJ, e foi então que os primeiros rumores desse mundo novo chegaram aos meus ouvidos — mas não muito, porque durante a maior parte da faculdade eu fui uma pessoa calma e caseira, e minhas amigas também eram dessas.

O tempo passou, duas das minhas amigas se mudaram para uma quitinete nesse bairro mítico cercado de mistério (para mim) e aos poucos eu fui descobrindo o universo maravilhoso das festas alternativas da Lapa, dos bares da Lapa, da vida lapeana em geral. Mas a princípio não tanto assim porque ainda era muito longe de casa, uma fortuna de taxi de lonjura nos tempos pré-uber, e muita mão de obra para um ser do meu nível de preguiça.

Então, bem por acaso, no final da faculdade, eu acabei criando laços afetivos especiais com Letícia, atual roomie, uma das duas que moravam por lá, e resolvemos juntar nossas escovas de dente — mas não em um sentido romântico. Nos formamos, enfrentamos a saga de encontrar e alugar um lar, e assim nasceu Edna, o apartamento.

Para quem mora em Marte e não está familiarizado com esse bairro maravilhoso, a Lapa é o centro da vida boêmia do Rio de Janeiro. Existem bares e boates em outros lugares — principalmente na infame Barra da Tijuca e no turistódromo conhecido como Zona Sul –, mas a Lapa é a Lapa.

Muita gente acha a Lapa um lugar muito perigoso. Até eu me mudar, eu também achava; meus pais achavam mais ainda. Mas eu fui mesmo assim porque confiei em Letícia e a lista de prós e contras pareceu dar um saldo favorável. Meu conhecimento do local era quase nulo, mal sabia me localizar, mas eu tinha certeza que tudo ia dar certo. E deu.

Se antes eu achava a ideia da Lapa bem simpática, hoje eu sou apaixonada por aquele lugar. É um bairro que tem o clima intimista dos subúrbios, uma vibe incrível — levemente decadente de um jeito pitoresco, e muito amigável –, todo o tipo de vida noturna — e diurna também — que se pode desejar (em qualquer dia da semana, menos segunda), e ainda fica NO CENTRO. É um pulo de distância da Zona Sul, mas muito mais barato e com um clima bem diferente. É o melhor lugar do mundo.

Nesse ano e cinco meses que moro lá, eu desenvolvi uma conexão emocional com aquele lugar que eu nunca tive com nenhum outro lugar que eu morei (apesar de lembrar com carinho de todos). A Lapa é meu lar. E já apaguei completamente qualquer lembrança do pensamento “é perigoso” que algum dia possa ter ocupado a minha mente. Eu ando aquelas ruas como se fossem o quintal de casa, a hora que for, com ou sem álcool. Eu me sinto segura de verdade ali.

Não garanto que vou morar lá para sempre porque só a deusa sabe por que caminhos a vida vai me levar e eu ainda quero ver muita coisa nesse mundo, mas acho que essa sensação de lar sempre vai estar associada a esse pedacinho de mundo. É muito bacana essa sensação de pertencer.

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Pessoal

Inferno astral e a arte de metapensar

Eu penso demais, desde que me entendo por gente. Normalmente não aquele tipo de overthinking que paralisa, é só uma incapacidade crônica de diminuir o fluxo de pensamentos e relaxar. Eu penso sobre tudo, sobre o que eu leio, sobre o que eu assisto, o que eu como, o que eu faço, sobre mim mesma e sobre meu lugar no mundo. É uma quantidade insana e nada saudável de pensamentos por minuto. E no inferno astral, eu penso mais ainda.

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Para quem não sabe (provavelmente 99,979% do mundo), meu inferno astral desse ano de 2016 aconteceu entre 7 de junho e 6 de julho. Durante esse breve-porém-interminável período, eu poderia ser escrito enciclopédias com tudo o que passou pela minha cabeça só na curta caminhada entre o trabalho e a minha casa.

Eu considero pensar um exercício muito saudável, mas não é porque o “músculo” exercitado é o cérebro que não seja exaustivo. Pensar cansa muito, e é uma atividade sem fim, e às vezes isso é meio desesperador.

No mês que antecedeu a data em que eu completei minha vigésima-quarta volta em torno do sol, eu passei por fases suficientes para encher uma vida — começando em “a vida é tão bela, mesmo dentro da rotina” e terminando em “eu sou um peso morto, completamente inútil para o mundo”. Entre um extremo e outro, recaí diversas vezes na tarefa árdua de metapensar — apelido carinhoso que eu dei à arte de pensar sobre pensar — o que rendeu uma quantidade considerável de pensamentos filosóficos que, na época, eu considerei profundos e belos, mas que caíram no esquecimento em aproximadamente trinta segundos.

Foi no meio do caminho em um desses dias que eu percebi como é fútil esse ato de pensar. Comecei a questionar qual o objetivo de investir tanta energia nesse esforço mental quando todas as ideias começam a ser esquecidas no momento em que nascem. Uma ou outra acaba registrada, meio que por acaso, mas a esmagadora maioria vai embora sem deixar rastro — como acontece também com as pessoas.

Essa consciência súbita me deixou bem chateada. Eu sou prepotente o suficiente de acreditar que alguém em algum lugar pode ter interesse no que eu penso — ou não estaríamos aqui nesse momento. Mesmo que ninguém tenha e eu esteja falando com as paredes, de quando em quando eu gosto de investir algum tempinho em uma sessão saudável de autoadmiração, mas então eu me dei conta de que existe uma possibilidade real de que os meus melhores pensamentos e ideias se percam no espaço incorpóreo e eu acabe sem nem lembrar que eles existiram algum dia. Muito potencial desperdiçado.

Cheguei em casa verdadeiramente exasperada, arrasada e exausta (o drama é livre durante o inferno astral), me joguei na cama e mandei uma mensagem para uma amiga contando como eu estava sentindo que minha cabeça está eternamente vazando gasolina.

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Descontando todo o excesso de drama, esse pensamento ainda me assombra de tempos em tempos — o fantasma de todos os pensamentos que quase não chegaram a ser. Talvez por isso eu tenha começado a me esforçar para registrar tudo o que eu posso. E então chegamos a esse momento do tempo e espaço, com esse texto possivelmente sem sentido escrito na esperança de que mais alguém em algum lugar tenha uma pira parecida com a minha e queira compartilhar essa angústia.

Indivíduo em rosto, se você estiver aí, apareça. Vamos ser migas.

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Pessoal

Primeiramente, uma analogia pedante

Mas, antes disso, uma “confissão”: eu li quase todos os livros do Paulo Coelho. Pelo menos todos que foram lançados até os meus 13 anos. Comecei com Brida e Diário de um Mago, que morro de vontade de reler, mas ao mesmo tempo morro de medo te estragar a memória afetiva que tenho deles. Enfim. Vou chegar a algum lugar, juro.

O Diário de um Mago é basicamente o livro de memórias do autor durante a época em que ele percorreu o caminho de Santiago. Considerando que eu era criança quando li esse livro, minhas memórias dele são muito vagas, mas o que eu me lembro bem é que esse foi o pontapé inicial para eu querer fazer essa peregrinação ligeiramente insana e sem sentido — mas talvez a graça seja justamente que o sentido da peregrinação seja a peregrinação em si. Prossigamos.

Para quem não conhece, o caminho de Santiago é um caminho tradicional de peregrinação atravessado por milhares (milhões?) de pessoas todos os anos, por motivos religiosos ou não. O ponto que mais chamou minha atenção é que essa caminhada sempre me pareceu uma oportunidade inigualável de exercitar o autoconhecimento, e eu tenho essa fixação particular desde criancinha. (Talvez eu tenha sido uma criança um pouco peculiar, talvez não.) O caminho completo, pela rota francesa, tem em média 750km e leva em média um mês para ser percorrido.

Um dia (talvez mais breve do que vocês imaginam) eu vou fazer a caminhada. Mas até lá, existem outras formas de brincar de autoconhecimento. Uma delas, que eu venho usando há muitos anos e segue sendo uma das minhas grandes paixões na vida, é a escrita.

O ato de escrever pode parecer completamente desprovido de esforço físico, mas eu encaro como um exercício igual a qualquer outro. O segredo é encarar o cérebro como um músculo que também precisa ser exercitado. Desde que eu comecei a sonhar em escrever um livro — sabe-se lá quando foi isso — eu busco constantemente sugestões e dicas de quem está nessa trilha há mais tempo, e um dos ensinamentos que eu mais vi repetido é que escrever não é  sobre inspiração. É transpiração, é exercício. Quando eu internalizei essa lição, tudo começou a fluir imensamente mais fácil.

Nem sempre eu sei como começar, ou que caminho seguir. Mas começar é preciso, nem que seja com rabiscos sem nenhum sentido, só para tirar alguns parágrafos de abobrinha do sistema e então começar tudo de novo, com mais foco. Foi como chegamos aqui agora, mais uma vez no início dessa peregrinação metafórica de um mês popularmente conhecida como BEDA.

A experiência do ano passado foi muito boa, mas não foi tão intensa quanto eu gostaria, porque passei metade do mês dividida entre isso e uma viagem, e obviamente a viagem levou a melhor nessa competição. Ainda assim, cheguei ao final. Esse ano, eu já tinha descartado a ideia de participar de novo, mas não resisti a essa movimentação gostosa que eu vi rolando por aí.

Até hoje mais cedo, eu considerava a blogosfera morta e enterrada. Boa parte dos blogs que eu conheço e estava acostumada a acompanhar estão desatualizados há tanto tempo que eu já considero devidamente aposentados. Esse espacinho humilde onde agora nos encontramos podia muito bem ser incluído na lista. Mas esse fato não me desestimulou a encarar o desafio que agora começamos, porque o que importa não é o onde, e sim o quem.

Eu sou uma pessoa que escreve, eu amo escrever e poucas coisas na vida me fazem sentir tão bem e realizada. Eu poderia, como faço, escrever aqui, na newsletter, em um milhão de sites, em um caderno. A realização que qualquer texto escrito me traz é a mesma (desde que eu seja capaz de me orgulhar dele por pelo menos cinco minutos). O blog é só um meio. Se um dia eu deixar de aparecer aqui, tudo bem — desde que eu continue a escrever. A escrita está em mim, não em uma página da internet ou outra.

Acho que o segredo de se viver leve é não se apegar a coisas. Eu não consigo evitar me apegar a pessoas, mas coisas são só coisas. Eu tenho compulsão em me livrar de coisas, fazer a limpa no armário, doar o que não tem mais uso pra mim, jogar fora o que não presta mais. A energia precisa circular, para que a vida siga em frente. E não é porque a coisa é virtual que não pesa. O que pesa é o apego. Então eu tento exercitar o desapego em todos os aspectos possíveis.

É por isso que hoje eu começo mais esse exercício, sem saber ainda se vou chegar ao final. Não pelo blog, mas por mim. O blog é um cantinho querido porque carrega um pedaço da minha história — mas o dia que ele se for, se foi. O futuro ao acaso pertence e tudo bem. Sigo escrevendo e percorrendo meu caminho independente de qualquer coisa. Não importa aonde eu chegue, o que importa é a caminhada e o que eu vou tirar disso tudo. E enquanto eu estiver escrevendo, está tudo bem.

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